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(pt) Anarquismo em ação na África do Sul

From a-infos-pt@ainfos.ca
Date Tue, 30 Nov 2004 21:55:43 +0100 (CET)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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A ANA sempre se preocupou em divulgar outras realidades anarquistas, e
aproveitando que em breve o anarquista sul-africano, Jonathan Black,
ativista de grande valor, e secretário regional da Federação
Anarco-Comunista Zabalaza (ZACF), estará de visita pelo Brasil, fomos
conversar com ele sobre o atual panorama libertário na África do Sul, que
incrível que pareça, ainda mantém presos lutadores anti-apartheid.

Agência de Notícias Anarquistas > Como está o movimento anarquista na
África do Sul?
Jonathan Black < Na África do Sul o movimento anarquista é pequeno, e foi
em princípios da década de 90 que começou a entrar em movimento. Ainda
está dando seus primeiros passos, embora desde há 5 anos, aproximadamente,
as idéias anarquistas têm maior difusão dentro dos movimentos sociais
populares. Também há organizações de jovens dominadas pelo marxismo em
Swaziland, cujos membros começaram a se interessar pelo anarquismo.

ANA > Quais as atividades do seu grupo?

Jonathan < Na África do Sul o corpo do anarquismo organizado é a Federeção
Anarco-Comunista de Zabalaza (ZACF). Este ano celebrou seu primeiro
congresso oficial. Entre as atividades da ZACF - formada pelo Grupo Negro
de Ação, o Coletivo de Mídia Bikisha, Livros Zabalaza, Cruz Negra
Anarquista e o já morto Grupo de Ação Zabalaza - se incluem propaganda,
educação e difusão em forma escrita, editorial, distribuição de literatura
anarquista, realização de fóruns de educação política, participação nos
movimentos sociais, na organização da comunidade e nas prisões.

ANA > E as principais lutas?

Jonathan < Atualmente, entre nossas lutas principais estão incluídos:
tentativa de organizar aos trabalhadores desmoralizados e desiludidos que
foram demitidos da universidade WITS, participação nos movimentos sociais
populares pelas lutas contra a privatização da água e da eletricidade,
contra os despejos e organização dos prisioneiros.

ANA > Há muitas publicações e edições de livros por aí?

Jonathan < A ZACF produz "Zabalaza", jornal do anarquismo revolucionário
sul-africano, e também, embora esporadicamente: "Alerta Negro”, jornal da
Cruz Negra Anarquista – Rede Anti-Repressão. Também escrevemos e
produzimos diversos folhetos anarquistas e críticas importantes sobre a
luta de classes e a história sul-africana como "Lutas de classes na África
do Sul: desde o apartheid ao neo-liberalismo", reeditamos muitos textos
anarquistas clássicos e contemporâneos, teóricos e práticos. Recentemente
"Livros Zabalaza" publicou uma edição do livro “Anarquismo Africano”, de
Sam Mbah e I. E. Igariwey, anarquistas nigerianos da Liga Consciência
("Awareness League"), e também “Hungria 1956”, de Andy Anderson.

ANA > Há locais anarquistas?

Jonathan < Há um pequeno local anarquista na cidade de Motsoaledi no
Soweto. Tem uma pequena sala de estudo, biblioteca de livros anarquistas e
educativos, vídeos de educação política e de entretenimento para os
membros da comunidade. Assim mesmo os ativistas têm uma horta e já começou
a funcionar uma escola durante o dia para crianças pequenas. Há outros
centros não especificamente anarquistas, mas com material anarquista e
estão influenciados por nossas idéias. Uma das prioridades da ZACF para um
futuro próximo é abrir um centro de informações e de venda onde se possa
realizar a distribuição de materiais, realizar oficinas etc.

ANA > Tem tradição o anarquismo na África do Sul?

Jonathan < No começo do século XX havia uma tradição anarquista
relativamente importante no Partido Comunista Anti-Parlamentário da África
do Sul (não confundir com o reformista Partido Comunista da África do Sul,
da Internacional Comunista), o Clube Socialista, a Liga Socialista
Internacional, a Liga de Trabalhadores da Indústria da África, os
Trabalhadores Industriais do Mundo da seção África, e a Liga Socialista
Industrial, todos foram fundados na África do Sul entre 1900 e 1920. O
mesmo como a Liga Revolucionária em Moçambique e os sindicatos
anarco-sindicalistas aderidos à Confederação Geral do Trabalho em
Portugal, que dominava a cena trabalhadora na década de 1920.
Lamentavelmente essas tradições foram perdidas pelas duas guerras mundiais
e o regime nacionalista, e não reaparece senão quando começou a declinar o
regime do apartheid e com a derrogação da "Lei de Supressão do Comunismo".

ANA > Quem foi o “grande” anarquista de seu país?

Jonathan < Entre os anarquistas notáveis na África do Sul podem ser
citados Thomas “TW” Thibedi, Bernard Sigamoney, Henry Kraai e Talbot
Willians, que fundaram Trabalhadores Industriais da África, sindicatos e
associações na África do Sul entre 1917 e 1919.

ANA > Destacaria algum projeto anarquista na África do Sul?

Jonathan < Neste momento há um projeto que me apaixona. Gostaria de pôr
mais força. Trata-se da campanha de apoio aos prisioneiros anti-apartheid,
ex-combatentes e prisioneiros políticos que ainda se encontram mofando nas
prisões estatais em toda África do Sul. A campanha é para chamar a atenção
sobre estes prisioneiros com a esperança de que se pode gerar apoio
popular, essas pessoas poderão obter a anistia. Alguns destes prisioneiros
estão muito interessados no anarquismo e confiamos que com eles, ademais
da organização dentro das prisões que agora desenvolvem, podemos chegar as
suas famílias, que são quem tem a experiência da repressão de Estado, e
chegar também a suas comunidades.

ANA > O anarquismo no seu país é basicamente formado por negros?

Jonathan < Embora a maioria do proletariado sul-africano seja negra, isto
se deve em grande parte pela história racial na África do Sul, pela falta
de informação da maioria das classes não privilegiadas e, especialmente,
dos "não brancos" durante o apartheid, a maioria dos que tinham
consciência de ser anarquistas eram brancos. Salvo escassas exceções, só a
partir da Cúpula Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento
(in)$ustentável celebrado em Johannesburg em 2002, foi possível entrar em
contato com as idéias anarquistas. Isto, em grande parte, foi o resultado
do trabalho de propaganda executado dentro dos movimentos sociais. Assim
mesmo, recentemente, alguns prisioneiros políticos negros começaram a ser
interessar pelo anarquismo, ou se identificam a si mesmos como
anarquistas.

ANA > Qual o principal problema do anarquismo na África do Sul hoje?

Jonathan < O problema principal do movimento anarquista sul-africano, isso
talvez seja evidente pelo que expressei anteriormente, é que não existe um
movimento nem uma tradição anarquista ou libertária na África do Sul,
apesar do contato com os movimentos sociais populares e com os ativistas
de base da comunidade. Os movimentos com base popular está dominado pelos
socialistas reformistas e autoritários. Nossa principal dificuldade é
mostrar uma alternativa prática ao socialismo autoritário e à política
parlamentar, resulta muito difícil porque somos muito poucos e nossas
influências é muito limitada; e em grande parte se deve à falta de fundos.

ANA > E quais as perspectivas de futuro?

Jonathan < O governo da ANC está realizando uma boa tarefa, já que está
decepcionando o povo sobre a função da política na melhora das condições
sociais das pessoas, e com a liderança dominante dos trotskistas no Fórum
Anti-Privatização - formado pela classe trabalhadora como movimento
popular – que quer ser registrado como o "Partido Popular dos
Trabalhadores”, “Mass Workers Party” na corrida eleitoral (a idéia
suscitou um forte debate, aparentemente entre dois campos opostos em
formação, dentro dos movimentos sociais, um anarquista e autônomo, o
outro, autoritário e hierárquico). Será uma boa oportunidade para os
anarquistas tentarem reunir a todos os ativistas que são opostos à
participação na política parlamentar como uma frente popular das classes
oprimidas, ademais da ação direta, igualdade etc. Assim mesmo, penso que o
mais importante para o futuro é abrir um local sócio-cultural anarquista
num lugar de fácil acesso para a classe trabalhadora, já que me parece que
essa é a única forma em que podemos fazer chegar materiais a mais pessoas.

ANA > Fale um pouco do anarquismo no resto do continente africano. Ele se
faz presente em que países?
Jonathan < Na Nigéria existiu há alguns anos, uns cinco anos (quase uma
década talvez), a Liga de Consciência de anarco-sindicalista, que creio
chegou a ter quase 1000 membros, embora me pareça que não existe mais. No
ano 2000 ou 2002 tinham instalado um rádio, mas não estou seguro que siga
funcionando. A Liga de Consciência (“Awareness League”) aderiu a
internacional anarquista, a IWA-AIT no Congresso de Madrid em dezembro de
1996.No Quênia existe uma Convergência Anti-Capitalista do Quênia, que até
aonde sei responde ao modelo da Convergência Anti-Capitalista de
Washington DC, e foi iniciado pelos anarco-comunistas libertários,
marxista e outros socialistas com a intenção de "chegar ao público em
geral idéias, propaganda e ações revolucionárias”.Acredito que a seção francesa da IWA, a CNT-AIT, mantém certo contato com
os anarco-sindicalistas na Argélia. Aparentemente também há um grupo
anarquista ativo nos sindicatos em Marrocos. A revista anarco-sindicalista
australiana “Organise” informou que no Congresso XXI da IWA, realizado em
dezembro de 2000, sobre uma incipiente organização no Zaire/República
Democrática do Congo. Também foi informado que havia alguns, possivelmente
muito poucos, anarquistas ativos na Uganda, Serra Leoa e Egito.Além disso, temos contato com revolucionários de influência marxista e
outro do Congresso de jovens de Swaziland (SWAYOCO) e o Sindicato de
estudantes de Swaziland, que demonstraram grande interesse no anarquismo
como forma de luta contra o regime monárquico de Tinkundla. Confiamos em
estreitar laços com eles.

ANA > Vocês se sentem isolados em relação ao anarquismo do resto do mundo?

Jonathan < Em geral, a comunidade anarquista internacional nos tem apoiado
muito e mantemos contato regular com numerosos anarquistas e organizações
de diferentes países como Suécia, Estados Unidos, Iraque, Grã-Bretanha,
Suíça etc. que tenham visitado a África do Sul. A ZACF também é membro da
rede anarquista Solidariedade Internacional Libertária (ILS), onde a nossa
Secretária Internacional mantém contato regular com outros grupos da ILS;
freqüentemente, também, para reeditar materiais dos "Livros Zabalaza".Pessoalmente, me sinto mais isolado com respeito ao movimento anarquista
do resto do continente africano e do hemisfério Sul, em geral, onde a
comunicação resulta ser mais difícil que com o Norte.

ANA > Qual sua expectativa de visitar o Brasil? Conhece alguma coisa do
anarquismo por este lado?
Jonathan < Uma das minhas expectativas é começar a estreitar laços de
comunicação entre os movimentos anarquistas do Sul, formando redes dos
movimentos anarquistas nos diferentes lugares que visite no Brasil e
África do Sul, e ojalá com outros anarquistas africanos.Acredito que as condições sociais no Brasil são semelhantes aos dos
movimentos sociais sul-africanos. Quero ver de que maneira os anarquistas
brasileiros participam dos movimentos sociais populares, e como se
organizam ao redor de temas como os direitos à moradia e à educação, e
então aplicar algo do que tenha aprendido nas lutas na África do Sul.
Também gostaria de fazer conhecer as condições em que se encontra a África
do Sul depois de 10 anos de “liberdade” e “democracia” (que aumentou a
desigualdade, o neoliberalismo etc.) e tentar gerar solidariedade para
nossa campanha pelos prisioneiros anti-apartheid.

ANA > Obrigado pela entrevista, deixa alguma mensagem...

Jonathan < Obrigado por dar me a oportunidade de falar um pouco sobre o
pequeno, mas crescente movimento anarquista sul-africano. Espero conhecer
e fazer amigos entre os companheiros anarquistas brasileiros. Força! Com
vocês na luta, sempre!

Jonathan Black: blackalternative@africamail.com
Federação Anarco-Comunista Zabalaza: www.zabalaza.net
Convergência Anti-Capitalista do Quênia: www.geocities.com/anticapkenya/main
Anarquismo na Uganda: www.geocities.com/ugandanarchism//index.html
Dica de leitura: “África rebelde: comunalismo y anarquismo en Nigeria”,
Sam Mbah e I. E. Igariwey, Barcelona (Espanha), Alikornio, 2000
(Disidencias, 3), 182 págs.
(http://personal3.iddeo.es/arridi/presentacion.htm)Quem quiser cópia em CD-R do “Tools For Troublemakers” #2, com literatura,
pôsteres, panfletos, desenhos e jornais em PDF produzidos pela “Livros
Anarquistas Zabalaza”, basta enviar um e-mail para: a_n_a@riseup.net

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