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(pt) Spaine, Catalunya, EMBAT: Entrevista com OSL - Organização Socialista Libertária - do Brasil[Parte 1](ca, de, en, it, tr)[traduccion automatica]

Date Sat, 18 May 2024 08:56:41 +0300


O que se segue é a primeira parte de uma entrevista muito mais longa que conduzimos com a organização irmã brasileira OSL (Organização Socialista Libertária). Esta primeira parte centra-se em: A OSL e a sua concepção de anarquismo. ---- Qual é a origem do OSL? ---- Nossa organização, embora nova, é herdeira de uma experiência que remonta ao início do anarquismo específico no Brasil (menos que a década de 1990). Até o nome que escolhemos é uma referência à antiga OSL, que entre 1997 e 2000 foi a primeira tentativa de formação de uma organização anarquista específica de âmbito nacional. A antiga OSL tinha seus limites e, em última análise, não conseguia avançar. Ao final do processo, sua militância percebeu que, naquele momento, investir em uma organização nacional era "começar a construir a casa do telhado". Ele decidiu dar alguns passos para trás e reorientar o processo.

Por um lado, fortalecer o trabalho de base, a construção e a participação nos movimentos populares e nas lutas sociais - o que foi feito com a fundação de diferentes agrupamentos de resistência popular - de tendência (organizações intermediárias entre a organização política e os movimentos de massas), que teve como objetivo reunir setores libertários de trabalhadores e impactar esses movimentos e lutas. Por outro lado, retomar o debate a nível ideológico, anarquista, criando um caldo organizacional que possa apontar, a médio prazo, para esta organização anarquista nacional. Para isso foi criado em 2002 o Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), que buscava unir os anarquistas que concordavam em dois eixos prioritários: a necessidade de organização dos anarquistas e a necessidade de trabalho social (de base, de massa).

Esse processo permitiu o desenvolvimento do anarquismo específico no Brasil. Houve coletivos e organizações que permaneceram no processo, outros que surgiram e/ou que se agregaram; mas também houve aqueles que se desarticularam ou quebraram. Porém, de modo geral, principalmente a partir de 2008/9, a FAO se consolidou e conseguiu desenvolver-se significativamente, consolidando uma série de iniciativas organizacionais em diferentes estados do Brasil. Isso permitiu avanços consideráveis, que culminaram na fundação da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), em 2012.

A ideia de articular uma coordenação foi exatamente dar um passo organizacional e transformar o antigo fórum (espaço para troca de relatos, experiências, etc.) em algo com um pouco mais de organicidade e alinhamento. A coordenação era exatamente esse meio entre o fórum e a organização política. Participamos ativamente desse processo nos 10 anos que estivemos no CAB; com ela conseguimos avançar alguns alinhamentos iniciais em termos de teoria e prática.

A OSL nasceu em julho de 2023, a partir da fusão entre a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ, estado do Rio de Janeiro), o Coletivo Mineiro Popular Anarquista (COMPA, estado de Minas Gerais), a Rusga Libertaria (RL, estado do Mato Grosso), a Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL, estado de São Paulo), bem como diferentes indivíduos. A OSL contentou-se com um setor com cerca de metade da militância do CAB, que dele se dissociou por entender que a coordenação havia cumprido o seu papel e que era necessário dar um passo adiante.

"ESTAMOS CONTRIBUINDO PARA CONSTRUIR UMA ALTERNATIVA SOCIALISTA E LIBERTÁRIA PARA O BRASIL"

Mas por que é formada esta nova organização comunista libertária de um tipo específico?

Na nossa avaliação, o processo de crescimento que acabamos adotando no Brasil (baseado na constituição e articulação de "grupos orgânicos", como preconiza o processo de construção anarquista brasileira, desde a década de 1990), teve a virtude de avançar o anarquismo organizado geograficamente em diferentes regiões e agregando muitas pessoas, por outro lado acabou apresentando certos limites.

Este crescimento, ocorrido no contexto da FAO e da CAB, ocorreu de forma um tanto desordenada, e permitiu o agrupamento de grupos e organizações que, além da concordância com princípios anarquistas e específicos, apresentavam muitas divergências. Acabou por estimular uma certa autonomia local/regional dos órgãos do Estado, tornando cada vez mais difícil alinhar e homogeneizar posições teóricas e estratégicas, e avançar para estruturas e linhas unitárias. É claro que a situação teve uma certa influência neste processo, bem como o desenvolvimento desigual que ocorreu nas diferentes regiões. No entanto, na nossa avaliação, este não foi o cerne da questão.

No contexto das discussões para a construção da nossa organização nacional (que sempre foi objetivo da FAO e da CAB) e dos conflitos internos que ocorreram em torno delas, aos poucos ficou claro para nós, especialmente a partir de 2019, que havia uma cenário complicado na nossa coordenação. Por um lado, concepções muito diferentes de linha política (anarquismo, especifismo, teoria) e de linha estratégico-tática (programa, prática política). Por outro lado, todo um setor com pouco interesse/intenção de avançar na homogeneização e unificação, essencial para a formação de uma organização política. Além disso, mesmo nos setores que defenderam este avanço, houve muitas vezes posições muito heterogéneas.

Ficou claro para nós que os caminhos que tínhamos eram os seguintes. 1.) Manter o CAB no estágio em que se encontrava, sem avançar para uma organização nacional; solução que, após 10 anos de CAB, não nos parecia adequada. 2.) Insistir nesse processo de homogeneização e unificação, tornando a disputa interna no CAB; o que, na nossa leitura, aumentaria muito o nível de conflitos, que já era elevado, e certamente não atrairia determinados setores. 3.) Propor o encerramento do CAB e colocar nossa proposta organizacional; assim, a militância e os órgãos estatais que concordassem poderiam se juntar a nós, e aqueles que não concordassem ficariam livres para construir outros projetos.

Escolhemos este último caminho porque não achamos certo permanecer neste estado organizacional e nem investir numa disputa interna que, na nossa avaliação, levaria alguns anos para ser resolvida, nos traria de volta para dentro e intensificaria muito o conflito interno. nível de conflito (que haveria desgastes, cisões, expulsões, etc.). Tudo isso, em nossa opinião, seria muito ruim para a nossa militância e para o nosso trabalho social (sindical, comunitário, agrário etc.) Também contribuiu para esta opção o fato de o nosso CAB regional (Sudeste - Centro-Oeste) ter sido, a partir de 2021 , funcionando como uma organização. Eram unificadores de processos, instâncias, linhas, etc. E vimos, na prática, como isso não só avançou o processo, mas facilitou o dia a dia organizacional. Ou seja, não só foi possível, mas também vantajoso e desejável investir a organização nesta etapa de coordenação.

Com a discordância da maioria dos órgãos estaduais do CAB em seguir o caminho por nós proposto, decidimos romper em 2022. Saímos da FARJ, COMPA, RL, OASL e, tentando manter uma relação pública de respeito com o CAB , iniciamos a construção da nova organização, que foi articulada em diferentes sessões do nosso primeiro congresso (CONOSL). Em termos muito gerais, além de fundarmos a OSL, alinhamos nossa organização, nossas linhas e proporcionamos condições para a nacionalização (presença em todas as regiões do Brasil).

Os nossos centros e regiões têm funcionado numa estrutura nacional única, com a mesma organicidade e avançada para uma unidade ideológica, teórica, estratégica e táctica. Partimos de referências clássicas do anarquismo que estão na base do dualismo organizacional (do qual o especifismo e o plataformismo são expressões históricas) e procuramos aprofundar e atualizar as nossas concepções. Começamos a desenvolver de forma mais significativa as análises estruturais e conjunturais, nosso programa máximo e mínimo, além de outros elementos. Já iniciamos a nossa expansão para o Nordeste e para o Sul do país.

Estamos muito encorajados com este novo momento organizacional e com os avanços que, apesar de modestos, nos parecem muito consistentes, ainda mais se considerarmos que a OSL já existe há um ano. Também estamos muito motivados por outros aspectos importantes, como o clima interno ideal e o crescimento do nosso trabalho social, dos quais falaremos mais tarde. Sem dúvida, temos certeza de que estamos contribuindo para a construção de uma alternativa socialista e libertária para o Brasil.

Para os desinformados, o que é especifismo para vocês outros?

O especificismo é uma expressão histórica do dualismo organizacional anarquista. Acreditamos que desde o seu surgimento no final da década de 1860, o anarquismo desenvolveu esta forma organizacional, o dualismo organizacional. Foi exatamente o que defendeu Mikhaïl Bakunin e quem fundou a Aliança, a primeira organização anarquista da história. Ao longo dos anos, militantes e organizações anarquistas defenderam esta forma organizacional, baseada na necessidade de organização concomitante dos anarquistas em dois níveis: um político-ideológico, anarquista, e outro social, popular, de massa.

Na sua versão homogénea e programática de organização anarquista específica, esta tradição foi defendida por alguns clássicos. Teve origem na Aliança (ou aliança), e teve mais duas expressões históricas relevantes. Uma delas, inspirada na "Plataforma Organizadora da União Geral dos Anarquistas", escrita pelo grupo Dielo Truda, que passou a ser chamada de "platformismo", cujo impacto se fez sentir entre as décadas de 1920 e 1950, principalmente na Bulgária, França e Itália, e que, entre as décadas de 1980 e 1990, se espalhou por países como a África do Sul e a Irlanda. Outra dessas expressões, na qual a Federação Anarquista Uruguaia (FAU) desempenhou um papel de liderança, foi chamada de "especificismo", cujo impacto foi sentido não apenas no Uruguai nas décadas de 1960 e 1970, mas em outros países sul-americanos, como o Brasil, Chile e Argentina, especialmente a partir da década de 1990.

O termo "especificismo" e suas variações foram historicamente utilizados no Uruguai e em outros países para se referir aos anarquistas que defendiam a necessidade de uma organização anarquista específica. O que a FAU fez foi dar um significado mais preciso a este termo, com base nas suas concepções práticas e teóricas. A FAU chegou a esta concepção a partir de referências como Bakunin, Errico Malatesta, sindicalistas revolucionários e anarquistas expropriadores, juntamente com uma reflexão sobre o imperialismo na América Latina estimulada, entre outros, por Abraham Guillén.

A OSL reivindica esse dualismo organizacional homogêneo e programático, de organizações que possuem unidade de posições teóricas, ideológicas, estratégicas e táticas. As principais referências são o especificismo e o plataformismo, que entendemos como legítimos herdeiros do aliançalismo. Também temos referência no sindicalismo revolucionário, em termos de estratégia de massas, porque identificamos semelhanças entre ele e a nossa proposta de organização das classes oprimidas e de construção de um projeto libertário de poder popular. Assim, diferimos das posições anarquistas anarco-sindicalistas antiorganizacionais (que geralmente fundem organização anarquista e organização de massa) e das formas mais heterogêneas de organização anarquista específica, como o sintetismo (que se caracteriza pela pluralidade de posições políticas e programáticas). ).

Podemos explicar um pouco melhor essas posições. Defendemos uma concepção de anarquismo de massas, tendo como estratégia o sindicalismo revolucionário, que se baseia na construção e fortalecimento de movimentos populares a partir de uma linha de ação clara. Mas ao mesmo tempo defendemos a necessidade de uma organização especificamente anarquista, que se baseie na construção de uma estratégia e de um programa unitário de intervenção na realidade. Para nós, é somente através de uma organização que os anarquistas podem aumentar o seu poder de intervenção na realidade e fortalecer-se nas disputas com outras correntes políticas e ideológicas. Este é o dualismo organizacional que orienta a nossa organização, que está muito longe das concepções libertárias individualistas, primitivistas, insurrecionistas ou pós-anarquistas.

Concebemos a organização anarquista como um partido baseado em alguns princípios organizacionais: autogestão e federalismo; unidade teórica e ideológica; a unidade estratégica e tática; responsabilidade coletiva e disciplina. Claro que este é um partido que, justamente por ser anarquista, não disputa o poder do Estado nem tem traços autoritários.

Para nós, o papel da organização anarquista específica é: 1.) Articular a militância anarquista, evitando a dispersão de forças, pois sozinhos não somos capazes de disputar contra outras correntes e organizações e nem influenciar movimentos populares com princípios libertários. 2.) Promover constantemente a luta de classes e uma perspectiva revolucionária, pois acreditamos que os sindicatos e os movimentos sociais não caminham espontaneamente nesta direção. A organização anarquista é necessária para fortalecer e radicalizar estas lutas, bem como para defender e propagar o nosso programa entre as classes oprimidas. 3.) Acumular experiências das classes oprimidas, pois observamos que em diversas ocasiões há perdas das forças acumuladas em movimentos e lutas, especialmente em períodos de vazante; e a organização anarquista pode garantir que esta acumulação seja preservada e superada no futuro. 4.) Construir um projeto de autogestão do poder popular, de baixo para cima e da periferia para o centro, unificando os diferentes setores (movimentos, lutas, etc.) das classes oprimidas, baseado em uma estrutura e uma abordagem libertária e relação complementar com os movimentos e as massas. 5.) Produzir teoria, para que possamos interpretar adequadamente o nosso passado e o nosso presente e produzir um programa capaz de fazer avançar o nosso projecto político. Para isso, avançamos no desenvolvimento de um método de análise que chamamos de materialismo ou realismo libertário, bem como em uma teoria social libertária própria. Algumas destas noções encontram-se num documento da nossa organização intitulado "No s sos Principio ose Estratégia Geral".

O que diferencia este especifismo/plataformismo de outros ramos do socialismo?

O nosso socialismo é libertário e, portanto, difere das correntes autoritárias, que procuram conquistar o Estado (através de eleições, reformas ou revolução) e que acabam por dar continuidade à dominação das classes oprimidas (seguindo a burocracia, as alianças estratégicas com a burguesia etc.). O nosso socialismo é revolucionário e, portanto, difere das correntes reformistas, que consideram as reformas do capitalismo-estatismo como um fim em si mesmo ou que acreditam que é possível alcançar o socialismo através de um conjunto cumulativo de reformas restritas.

O nosso socialismo é também profundamente classista e internacionalista. Difere, portanto, das concepções que afirmam que não é mais possível falar em classes sociais ou manter uma perspectiva baseada na luta de classes; também difere daquelas posições que afirmam que a classe é "apenas mais uma opressão" ou que a tratam apenas em termos de identidade de classe. Para nós, a relação entre classes é estrutural e, ao abordarmos nacionalidade, gênero, sexualidade, raça, etnia, etc., sempre o fazemos nesta perspectiva classista. O nosso socialismo também difere das diversas formas de nacionalismo: étnico-racial, religioso, territorial, anticolonial/imperialista, etc.

Como dissemos, defendemos o anarquismo de massas e, portanto, apoiamos a necessidade de organização (em oposição aos anti-organizacionistas), a necessidade de lutar por reformas que apontem para um projecto revolucionário (em oposição àqueles que se opõem às lutas pelas reformas ), e a necessidade de formas avançadas de luta que estejam ligadas às lutas de massas (em oposição àquelas que consideram os actos de violência como ferramentas para mobilizar as massas).

No debate organizacional anarquista, somos dualistas organizacionais, e por isso diferimos daqueles que se organizam apenas a nível de massa, daqueles que procuram circunscrever os movimentos populares ao anarquismo, ou daqueles que acreditam que um colectivo ou organização anarquista é suficiente. Apoiamos o modelo homogêneo e programático de organização anarquista específica, baseado na unidade, que historicamente se expressou no especificismo e no plataformismo, diferenciando-nos do modelo heterogêneo de síntese. Ao defendermos que a organização anarquista é autogestionária/federalista e que deve ter uma relação complementar e não hierárquica com os movimentos populares, diferimos dos partidos leninistas.

Em termos teóricos, o nosso materialismo/realismo libertário difere das abordagens marxista, neopositivista ou pós-moderna/pós-estruturalista. Abaixo fazemos alguns contrapontos, mas recomendamos novamente aos interessados a leitura do documento "Nossos Princípios e Estratégia Geral". Podemos dizer que temos tentado evitar a tentação contemporânea de combater o marxismo com o pós-modernismo e vice-versa, traço que, infelizmente, identificamos em quase toda a esquerda. Estamos construindo uma teoria social libertária a partir de autores clássicos e contemporâneos do anarquismo, evitando cair nesta armadilha.

Por um lado, pensamos que é essencial superar os limites e resolver as contradições do marxismo. Por outro lado, também consideramos importante evitar os enormes problemas e equívocos do pós-modernismo, que avançou globalmente com a adoção do liberalismo progressista por uma parte considerável da esquerda. Queremos afirmar a importância de uma ciência e razão críticas, bem como de uma conciliação, em bases de classe, da discussão sobre nacionalidade, género/sexualidade e raça/etnia. Em breve queremos publicar material que, além de explicar com mais profundidade nossas posições teóricas, também explique suas diferenças com o marxismo e o pós-modernismo.

Além do anarquismo, que outras experiências históricas de luta dos povos do Brasil e da América Latina inspiraram a OSL?

Em primeiro lugar, não devemos esquecer que somos uma organização internacionalista. Na medida em que o capitalismo-estatismo é um sistema internacional e global, a nossa proposta também deve acompanhar esta perspectiva. É por isso que o anarquismo organizado, específico e plataformista, tem um projeto internacional e global, e tem referências teóricas e práticas que são também internacionais e globais.

Mas, dito isso, queremos dizer que o fato de nossa organização estar localizada na América Latina em geral, e no Brasil em particular, significa que, sem dúvida, estamos permanentemente inspirados pelas mobilizações e resistências em nossa região. Temos uma grande tradição de movimentos e lutas que envolveram trabalhadores, escravizados, agricultores, indígenas, quilombolas, mulheres e outros sujeitos. É uma experiência ampla das classes oprimidas, que partiu da colonização e se estende até a atualidade. A seguir, citaremos alguns desses movimentos e lutas que nos inspiram no dia a dia.

No Brasil, existiram diversas organizações e confederações indígenas, que lutaram contra o Império Português, como a Confederação dos Tamoios (1557-1567), quando os Tupinambás organizaram um processo insurrecional contra a ocupação portuguesa na região costeira entre Bertioga e Cabo Frio. Podemos citar também o Quilombo dos Palmares (1597-1695), território autônomo que continha mais de 20 mil habitantes entre africanos libertos, indígenas e aliados brancos, no território que hoje é o estado de Alagoas. Durou quase cem anos e libertou outros povos escravizados e dominados; lutou contra os grandes Impérios da época (Portugal e Espanha) e inspirou outros processos de resistência à escravatura e à colonização.

Em geral, as revoltas indígenas em toda a América Latina também devem ser lembradas. Não se resumiam a um desejo de independência nacional e estatista, mas aspiravam à auto-organização de vários povos. Exemplos foram a resistência de Túpac Amaru no século XVI, e de seu descendente, Túpac Amaru II, no século XVII. Ao lado da tradição da Revolução Haitiana (1791), diversas lutas indígenas, camponesas e abolicionistas contra a escravidão ainda se agitavam no Brasil. Um deles foi Canudos (1896-1897), outro território auto-organizado do Brasil, que lutava contra a fome e as péssimas condições de vida, no sertão baiano. Foi liderada por António Conselheiro e, apesar das contradições, nomeadamente do carácter messiânico do seu líder e do discurso religioso, organizou um território comunal com mais de 25 mil pessoas, representando uma ameaça à ordem do Império e à futura república.

As lutas abolicionistas contra a escravidão negra, que culminaram com a abolição em 1889, e certos episódios de confronto mais radicalizado, como a Revolução Mexicana (1910-1913), foram e continuam a ser importantes para os anarquistas brasileiros. ter papel de destaque dos anarquistas, na luta pela independência de Cuba e na luta contra a ocupação da Espanha no Marrocos.

Outra fonte fundamental de inspiração foi a experiência do sindicalismo revolucionário e do anarcossindicalismo na América Latina, realizada no início do século XX. Os anarquistas foram fundamentais na construção dessas formas de sindicalismo em países como Brasil, Argentina, Uruguai, propondo-se a organizar os trabalhadores na base e incentivando sua ação direta para conquistas imediatas contra o capital e o Estado e, ao mesmo tempo, , construir um caminho para a transformação revolucionária destas sociedades. Dentro desse movimento, as mulheres tiveram papel de destaque em diferentes localidades. Tanto nas articulações e enfrentamentos de classes quanto nas lutas que envolveram a questão feminina, e que foram responsáveis por promover, na sociedade e no próprio movimento, a necessidade da emancipação da mulher.

No Brasil, esse sindicalismo revolucionário impulsionou três importantes ciclos grevistas: 1906-1907, 1913-1914, 1917-1920. A Grande Assembleia dos Representantes da União Soviética (1917), a greve geral de Curitiba (1917), a greve dos trabalhadores da Companhia Cantarera e da Viació Fluminense (1918), a Insurreição Anarquista do Rio de Janeiro (1918), a mobilização do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil (UOCC) e a conquista das oito grandes mobilizações no Rio de Janeiro

Essas mobilizações reuniram milhares de trabalhadores e conquistaram os primeiros direitos trabalhistas no Brasil. Neste período foram tomadas diversas barragens portuárias e fabris, através de processos insurrecionais. A primeira organização sindical de cunho nacional foi a Confederação Operária Brasileira (1906), influenciada por organizações anarquistas e feministas, como a Aliança Anarquista (1916), o Partido Comunista Anarquista do Brasil (1919) e a Liga Comunista Feminista ( 1920). .

Mais recentemente, podem ser mencionadas outras experiências latino-americanas. Da luta contra a ditadura militar em diferentes países latino-americanos, especialmente no Uruguai com a FAU - que liderou um processo radicalizado de luta, por meio de um braço armado (Organización Popular Revolucionaria 33 Orientals, OPR-33) e um braço do massas (Tendència Combativa / Convención Nacional de Trabajadores, CNT), profundamente influentes - a numerosas mobilizações de agricultores, trabalhadores rurais e urbanos. Das revoltas do povo Mapuche aos Zapatistas de Chiapas, no México.

Nos anos 1990-2000, os anarquistas no Brasil falaram de um processo de "radicalização democrática" e de uma "luta popular prolongada". Como você avalia esse conceito hoje?

São conceitos que foram muito relevantes nesse período que você cita e que foram incorporados à nossa proposta teórica.

Quando falamos de "radicalização democrática", isto resume, por outras palavras, a nossa concepção de socialização generalizada, a nossa própria concepção de socialismo. Esta concepção difere da noção de que socialismo significa apenas a socialização da propriedade privada dos meios de produção. Sem falar que, ao longo do século XX, um enorme setor de socialistas "transformou" eticamente a socialização em nacionalização (que são noções completamente diferentes), o facto é que esta radicalização democrática significa, na nossa atualidade, uma socialização que envolve os campos económico, político e moral-intelectual (cultural). A radicalização da democracia significa implementar a autogestão em termos económicos (fim da propriedade privada e estabelecimento da propriedade colectiva), políticos (fim do Estado e da tomada de decisões políticas estabelecidas por organizações populares e de base) e culturais (fim do monopólio de a produção e difusão de conhecimento e informação e sua consequente socialização).

Quando falamos em "luta popular prolongada", isto nos lembra algo relevante: o fato de que uma transformação social revolucionária como esta que temos diante de nós não é um projeto de curto ou médio prazo. Acreditamos que não existem atalhos para isso. Vimos como as revoluções do século XX tentaram abreviar este processo e pouco mais fizeram do que substituir o domínio burguês pelo domínio burocrático, dando continuidade à sociedade de classes, à dominação, à exploração, etc. promover é algo que deve ser construído diariamente, passo a passo, e é fundamental ter uma paciência revolucionária para isso. Em geral, usamos uma metáfora quando falamos sobre esse tema: estamos correndo uma maratona e não é bom querer correr na frente e desistir depois de pouco tempo; devemos ser capazes de resistir ao longo do tempo e garantir, no final, a vitória das classes oprimidas.

Hoje, embora se fale muito sobre colonialismo e imperialismo, não se fala tanto sobre Libertação Nacional. Considerando que o anarquismo específico dos anos 60-70 falava em revolução social e nacional ao mesmo tempo, hoje, como avalia esta questão?

Este é um tópico interessante. Quando estudamos o anarquismo e saímos do eixo do Atlântico Norte (Europa Ocidental e EUA), no qual os historiadores do anarquismo se concentraram quase exclusivamente, encontramos uma longa tradição de lutas anticoloniais, antiimperialistas e de libertação nacional. A questão nacional sempre foi cara aos anarquistas dos países periféricos, que na maioria dos casos a trataram de forma consistente. Defendiam linhas teóricas e práticas libertárias, revolucionárias, classistas e internacionalistas.

Este tem sido o caso em vários contextos. Por exemplo, na Ucrânia revolucionária (1918-1921), quando os makhnovistas tiveram de enfrentar o imperialismo austro-alemão; na Manchúria/Coréia revolucionária (1929-1932), quando os anarquistas foram forçados a lutar contra o imperialismo japonês; no Uruguai da ditadura militar pré-1973, quando a FAU teve que enfrentar o imperialismo norte-americano.

Hoje temos um panorama interessante. Parte do anarquismo (e a própria esquerda) do eixo do Atlântico Norte continua a minimizar a questão nacional e, especialmente no caso dos anarquistas, a confundir as lutas de libertação nacional com o nacionalismo. Por outro lado, uma influência crescente (curiosamente, muitas vezes devido à influência dos Estados Unidos e da Europa Ocidental) de perspectivas decoloniais, pós-coloniais e outras perspectivas teóricas que, se por um lado fazem críticas correctas ao eurocentrismo, por outro, , muitas vezes caem no pós-modernismo, nos nacionalismos e acabam por ter uma influência limitada na prática.

Para nós, tudo isto fica claro quando analisamos o genocídio que o Estado de Israel está actualmente a levar a cabo contra a população palestina. O sionismo que subsidia o governo israelita é uma doutrina colonialista e racista, e assistimos em tempo real a um massacre sem precedentes, que deve ser denunciado e combatido com toda a força necessária. É claro que isto não é uma crítica ao povo judeu, nem uma forma de antissemitismo, uma vez que, entre os judeus, existiram e existem outras doutrinas contrárias ao sionismo, e muitas delas são contra o atual genocídio. O curioso é que muitos destes adotam posições decoloniais, pós-coloniais, etc. permanecem calados em relação ao que está a acontecer na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.

Devemos retomar esta tradição anarquista anticolonial e antiimperialista em todo o mundo. Isto será importante no combate não só ao sionismo israelita, mas também ao imperialismo americano. Entre outras coisas, isto também fará com que os anarquistas melhorem as suas análises e posições sobre a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Por exemplo, tem sido comum na esquerda global (e mesmo em sectores do anarquismo) assumir as posições do imperialismo norte-americano na região e defender intensamente a Ucrânia; e também apoiar acriticamente os interesses imperialistas da Rússia na região, pois isso seria uma forma de minar o imperialismo dos EUA.

Em última análise, é necessário retomar a tradição anarquista anticolonial, antiimperialista e de libertação nacional, tornando possível compreender a realidade e adoptar formas de intervenção política baseadas em orçamentos libertários, revolucionários, classistas e internacionalistas.

https://embat.info/entrevista-osl-part1/
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