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(pt) Sicilia Libertaria: A casa como ideologia, resenha do livro "Viver Cansado" (ca, de, en, it, tr)[traduccion automatica]

Date Mon, 13 Mar 2023 07:58:50 +0200


Há livros que não são perfeitos mas são necessários, talvez não estejam muito bem escritos mas vale a pena ler o conteúdo, livros que misturam o pessoal e o coletivo com muita facilidade mas que se revelam preciosos. É o caso de "Abitare cansado", escrito pela infatigável Sarah Gainsforth, pesquisadora independente e jornalista freelancer que em poucos anos se deu a conhecer por seus escritos sobre a mudança de cidades. ---- Depois de ter acompanhado exaustivamente o fenómeno Airbnb e a turistificação dos centros históricos, no livro "Abitare cansado", recentemente editado pela Effequ, o autor coloca o acento no fenómeno da casa, uma das mais típicas obsessões italianas. As barricadas erguidas pela política italiana, horrorizada com a diretiva europeia sobre eficiência energética, são disso prova: a disposição, ainda em discussão, prevê que até 1 de janeiro de 2030 todos os imóveis residenciais terão de atingir pelo menos a classe energética E. Isto significa, na prática, que quase todas as casas terão de enfrentar grandes obras como a instalação de um revestimento térmico, a substituição das luminárias, a instalação de painéis solares e a introdução de bombas de calor.
No entanto, o que apavora a direita no governo, como sublinhou em questão parlamentar do deputado da Liga Norte, Stefano Candiani, é "a perda de valor dos imóveis" para quem não vai ou não vai conseguir se adaptar. Eles não dão a mínima para quem deve arcar com esses custos ou se são despesas necessárias (são, as casas italianas estão em péssimas condições). A ideia de que a casa é um forte a ser defendido, um refúgio individual ou pelo menos familiar onde ninguém pode dizer o que fazer e o que não fazer, a ideia de que tudo é válido dentro dela porque você o possui é, ao fundo, uma das teses em torno das quais se construiu a sociedade nos últimos anos, uma das arquitraves do individualismo neoliberal. Assim, como aponta Gainsforth no texto, "a Itália está em declínio demográfico e há sete milhões de casas vazias em seu território". Se com a Covid tivéssemos descoberto que as casas podem ser prisões, "algo teria de mudar" volta a dizer o autor. Isso não aconteceu porque desde a Segunda Guerra Mundial "a Itália se tornou um país de proprietários"; basta pensar que até 80% das famílias possuem casa própria enquanto os pobres permanecem em casas alugadas, que devem recorrer às únicas casas que restam, as alugadas, sem qualquer margem de negociação sobre as condições, ou contar com a guetização de as raras casas de conselho remanescentes, onde faltam serviços.
A habitação tornou-se uma ideologia conservadora que moldou o senso comum, anestesiando qualquer possível conflito sobre as políticas habitacionais. Eu pessoalmente percebi isso durante as férias de Natal. Para almoçar eu e meu companheiro recebemos um casal de amigos que decidiu comprar uma casa em Milão. Ambos trabalham na área editorial, pelo que não podem ser definidos como ricos, e de facto conseguiram adquirir um apartamento de 60 metros quadrados e dois assoalhadas pelo exorbitante custo de 300 mil euros, com uma hipoteca de vinte anos. "Louco" pensei, enquanto meu companheiro tentava adoçar a pílula, pronunciando a frase "o ruim é alugar". Palavras que deveriam ser reconfortantes, provavelmente, mas com um subtexto óbvio. Foi então que intervi, argumentando que "das revoluções que se deviam fazer em Milão, não creio que a prioridade seja a adição de outros proprietários que arrendassem o apartamento de duas assoalhadas por 1500 euros por mês para pelo menos pelo menos ser capaz de pagar a hipoteca". Quando posteriormente dei de presente o livro de Gainsforth ao casal de amigos, o título do volume provocou um significativo sorriso amargo em ambos.
Entre os grandes méritos do texto está a vontade de reconstituir o percurso histórico que conduziu à situação atual, ou seja, o predomínio da casa como rendimento. Intenção louvável, só que na primeira metade do livro a autora decide fazê-lo partindo das origens de sua família - um pai americano e uma mãe irlandesa - o que invalida um pouco o resto da obra, que se torna muito mais interessante quando o o foco passa a ser a Itália. Até porque em muitos capítulos algumas passagens significativas são contadas de forma um tanto apressada, e outras dão a sensação de ser um bignamino de um ou dois volumes no máximo. Por outro lado, a segunda parte do volume é bem mais efetiva, em que a demonização da habitação popular e a popularização contemporânea da propriedade privada, a morte do planejamento urbano e a transformação dos Planos Gerais Reguladores de instrumento de equidade social a uma afirmação dos interesses do mais forte.
Nesta última frente Gainsforth tem intuições notáveis mas esquece-se de sublinhar que cada vez mais muitas lutas ambientais se concentram contra o estrago dos novos PGRs que continuam a invocar toneladas de cimento com um duplo propósito: a criação de moradias independentes (porque o americano sonho, feito de presumível independência e relva bem cuidada, no fundo continua a ser o sonho de qualquer burguês) e a adesão total à turistização das aldeias, vista como a única solução para repor o oxigénio nos territórios em dificuldade. Por fim, sobre os conceitos de decoro, redesenvolvimento e regeneração, Gainsforth faz a análise mais completa: a esse respeito, é emblemática a história da Retake, a mais conhecida das associações italianas que, usando o conceito de compartilhar o bem comum de forma inadequada, limpa muros e lugares fazendo, como bem observa o autor, "o que o serviço público de saúde deveria fazer". A mensagem central em que se baseiam as atividades de associações como a Retake é "você trataria sua casa assim, jogaria o lixo ou um cigarro no chão?", numa equação entre casa e cidade que torna a propriedade privada e espaço público coincidem. Onde até o conflito deve ser limpo porque suja a imagem.

A.T..

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