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(sup) HAMBURGUERES versus VALOR (en)

From "antonio oliveira" <oliveira_azul@hotmail.com>
Date Sat, 29 May 2004 04:55:53 +0200 (CEST)


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A - I N F O S N E W S S E R V I C E
http://www.ainfos.ca/
http://ainfos.ca/index24.html
________________________________________________

Esta é uma tradução portuguesa dum texto (já publicado no a-infos em
inglês) HAMBURGUERES versus VALOR que consiste numa descrição da luta
de classes travadas diáriamente num restaurante, mostrando a dinâmica
comunista que lhes subjaz. Note-se que o autor ( e o tradutor) usam a
palavra comunismo num sentido diferente daquele utilizado pelos
leninistas depois de confiscado e adulterado (ver nota 2 ). Partilhamos
da ideia que a revolução é a abolição imediata do Estado e da
Mercadoria, a comunização imediata da sociedade, e que a dinâmica que
leva aí é a luta contra a exploração por parte dos que lhe estão
sujeitos, o proletariado autónomo em relação às organizações
vanguardistas, políticas ou sindicais, e contra elas. É nesse sentido
que pertencemos ao campo anarquista.
A sigla com que nos identificamos no fim do artigo,é o nome da página web
e da organização informal de quem a mantém, onde publicamos textos e
traduções libertários.

saúde e anarquia!

eis o texto:

HAMBURGUERES versus VALOR

Escrito por Marcel, membro do grupo comunista Kämpa Tillsammans! [1]



Este texto tem dois objectivos. O primeiro é tentar despertar o interesse
para a luta de classes que se trava diariamente em todos os locais de
trabalho. Tentarei mostrar que algo tão banal e pouco fascinante como
trabalhar num restaurante- ou melhor, as pequenas e secretas lutas contra
o trabalho assalariado que ali se travam- é parte integrante do
movimento comunista [2]. O outro objectivo é mostrar que noções teóricas
como capital, comunismo, valor de uso e valor de troca não são algo
meramente abstracto e académico mas sim algo concreto que influencia a
nossa vida e que é influenciado por nós.



FAZER HAMBURGUERES

O meu último trabalho foi numa hamburgueria privada. Embora o restaurante
não pertencesse a nenhuma multinacional como o McDonald’s ou o Burger
King era bastante grande e estava aberto todos os dias da semana- só
fechava entre as sete e as dez da manhã. A maior parte das pessoas que
lá trabalhavam eram adolescentes ou tinham- como eu- vinte e tal anos, e
eram sobretudo raparigas. A maioria tinha outros empregos ou ainda
andava a estudar enquanto trabalhava no restaurante. Os empregados
estavam sempre a entrar e a sair. Não estavam satisfeitos com as
condições de trabalho ou achavam que os salários eram demasiado baixos.
A maior parte do pessoal trabalhava ilegalmente e tinham de trabalhar
mais de um ano para poderem assinar um contrato normal e para receberem
também um salário normal. Antes disso todos eram aprendizes com salários
muito mais baixos. E ser um aprendiz significava também poder ser
despedido sempre que bem apetecesse ao patrão. A maior parte das pessoas
que ali trabalhavam não aguentavam no restaurante mais do que alguns
meses. Estávamos sempre todos à procura de outros trabalhos ou de outras
maneiras de ganhar dinheiro.



Muita gente achava que, para os empregados, as condições eram melhores
ali do que por exemplo no Macdonald’s. E pensavam assim porque o
restaurante não pertencia a nenhuma grande empresa mas a uma única
pessoa e também porque corriam boatos de que o dono dava dinheiro a
equipas de futebol e a associações de caridade. Mas nós, os que lá
trabalhávamos, sabíamos que isto não era verdade. Algumas pessoas de
esquerda chegaram a ter o atrevimento de me dizer que era bom eu
trabalhar no restaurante por este não ser nenhuma empresa multinacional
e também por causa dos boatos sobre a filantropia do proprietário. Não
percebiam que o conflito entre proletariado e capital tem lugar em todos
os locais de trabalho, tanto num restaurante como numa fábrica, nas
pequenas e nas grandes empresas, privadas ou do estado. Enquanto houver
trabalho assalariado haverá sempre capital e enquanto houver capital
haverá sempre resistência a este. Esta resistência, a luta de classes,
não é visível apenas em formas dramáticas de resistência como greves,
ocupações e motins, mas também nas pequenas tentativas de fugir ao
trabalho e nas lutas secretas contra o valor como os roubos, a sabotagem
e a greve de zelo (forma de luta na qual os trabalhadores seguem todas
as regras e não fazem nenhum trabalho extra, resultando em trabalho
lento com pouca produtividade). Esta pequena e secreta resistência ao
trabalho assalariado tem sido representada como a imagem de térmitas que
lentamente corroem os alicerces sobre os quais assenta o capitalismo
[3]. Na Kämpa Tillsammans! chamamos a estas lutas “resistência sem
rosto” pois uma das suas
características é não terem rosto e serem invisíveis, o que muitas vezes
as torna também invisíveis para alguns dos que se dizem revolucionários.



O COMUNISMO COMO MOVIMENTO

O trabalho assalariado é sempre exploração. Claro que as condições de
trabalho num restaurante sueco são muito melhores do que, por exemplo, as
condições de trabalho de uma criança numa fábrica de sapatos da China. O
problema é que só temos um mundo, onde as condições de trabalho e a
exploração dos trabalhadores na Suécia e na China estão intimamente
relacionadas. Se queremos seriamente mudar o mundo temos de atacar as
bases sobre as quais se apoia o capital, nomeadamente o trabalho
assalariado.



O problema central do capital é pôr as pessoas a trabalhar de forma a
estas poderem criar valor. Sob o capital, o trabalho enquanto actividade
humana e os meios de produção são separados dos seres humanos pela
apropriação privada e somos, assim, forçados a vender a nossa força de
trabalho para sobrevivermos. A nossa actividade humana é roubada pela
economia que a separa de nós. Isto faz-nos esquecer que somos de facto
nós, através das nossas relações sociais uns com os outros e das nossas
acções, que criamos o mundo. O capital é um monstro criado pelo homem,
não é nenhum fantasma misterioso que flutua sobre as nossas cabeças para
além do nosso alcance. A crença generalizada de que as pessoas não podem
mudar o mundo e nem sequer a sua vida quotidiana advém desta separação.
O sentimento de inércia e de falta de sentido também se pode atribuir ao
facto da nossa actividade estar separada de nós e de estar virada contra
nós como uma força estranha. Como disse alguém, a noção de Marx de que a
humanidade toma consciência de si própria através desta actividade
tornou-se tão estranha que pertence a outro mundo.



Esse mundo- o comunismo- mostra-se nas lutas e nas actividades que
combatem o capital nos locais de trabalho, nas escolas, nas ruas e nos
lares não como uma sociedade, claro, mas como uma tendência- como um
movimento. Se o comunismo é um movimento que se revela mesmo à frente
dos nossos olhos então temos que o procurar.



Se somos tão cegos que não percebemos a importância da luta diária de
classes, por mais fraca e isolada que esta seja, então nunca poderemos
dar-nos conta de que a dinâmica por detrás destas permanentes lutas e
actividades é nada mais nada menos do que o próprio comunismo. Esta
resistência diária é até, nos piores casos, desprezada como algo que não
é mesmo nada interessante. Para aqueles que defendem esta perspectiva
apenas contam as lutas heróicas e pomposas, como as grandes greves ou as
ocupações dos locais de trabalho. Ou não se interessam pela sua
importância para os trabalhadores ou não percebem estas resistências.
Não percebem que a “resistência sem rosto” é feita dia após dia contra o
capital e contra o trabalho assalariado e que por vezes pode até ser
mais eficaz do que essas “guerras abertas” e que é, também, o primeiro
passo importante na direcção de uma maior e mais vasta comunidade de
resistência ao capital. Que o comunismo esconda a sua face atrás destas
lutas é algo em que nunca acreditariam- nem mesmo nos seus sonhos mais
loucos. Para eles o comunismo é um sistema económico que se constrói,
não é um movimento que nasce do ventre da velha sociedade, nem uma
actividade que fundamentalmente altera a relação das pessoas com o
mundo, com as outras pessoas, com a própria vida.



TENTATIVAS DE FUGA AO TRABALHO



Como disse antes, os empregados estavam sempre a entrar e a sair do
restaurante. A maior parte deles apenas lá trabalhava durante alguns
meses e depois desistia. Muitas vezes arranjavam outro emprego ou
simplesmente fartavam-se de ali trabalhar. Quando eu trabalhei no
restaurante apenas o patrão, o filho dele e os amigos do filho ali
estavam há mais de dois anos. A oposição entre os “novos” (a maior parte
das pessoas que ali trabalhavam) e os poucos que lá estavam há muito
tempo tornou-se óbvia desde o primeiro dia de trabalho. Isto era muito
claramente visível pois era o filho do patrão e os amigos dele que
faziam os horários de trabalho e que, por isso, ficavam sempre com os
melhores turnos. Nós- os que tínhamos começado há pouco tempo- mas
também alguns empregados que já lá trabalhavam há alguns meses ou há até
um ano ficávamos com os turnos maus, principalmente com as noites, e em
particular com as noites de Sexta e de Sábado. Eles também iam contar ao
patrão tudo o que nós fazíamos e dizíamos por isso cedo começaram a ser
vistos como os espiões do patrão. Também nos diziam quais as regras do
restaurante- por exemplo, que não era permitido conversarmos acerca dos
salários nem compará-los uns com os outros. Claro que isto significava
que a primeira pergunta que fazíamos a alguém novo quando o/a
conhecíamos era quanto ganhava.



Os “novos” (a maior parte dos que ali trabalhavam e que ali estavam há
menos de um ano) não se identificavam com o trabalho nem com o local de
trabalho. Estávamos ali porque precisávamos de dinheiro e falávamos
abertamente acerca disto. Os novos eram também muito abertos uns com os
outros acerca do facto de todos, nas variadas formas pessoais, tentarmos
fugir ao trabalho.



Eu e dois colegas criámos algo que pode ser comparado a um grupo de
afinidade. Não era algo que tivéssemos planeado, embora tivéssemos
conversado como é óbvio acerca de não gostarmos do trabalho, de acharmos
os salários muito baixos etc. Mas nunca tínhamos falado sobre a criação
de actividades contra o trabalho- isto aconteceu da forma mais
espontânea possível. A primeira coisa que fizemos juntos foi picarmos o
ponto um em vez do outro. Não me lembro de quem fez isto pela primeira
vez, mas esta pequena tentativa de fuga ao trabalho foi algo que
continuámos e que passámos a planear em conjunto. Isto significava que
dois de nós podíamos chegar muito tarde ao trabalho e ser pagos pelo
tempo que não tínhamos lá estado. Também funcionou muito bem para a
pessoa que trabalhava sozinha porque no início dos turnos de trabalho
muitas vezes não havia nada para fazer. Tínhamos de ter muito cuidado
para não sermos apanhados pelo patrão nem pelos seus pequenos “espiões”.
Depois disto começámos a tirar dinheiro da caixa registadora para
podermos jogar “pinball” ou ouvir música da “jukebox”, ou às vezes para
levarmos o dinheiro para casa. Uma das regras do patrão era, claro, que
não podíamos ouvir música nem jogar “pinball” no trabalho (mesmo que
pagássemos com dinheiro nosso) mas claro que não lhe obedecíamos. Se não
tirássemos demasiado dinheiro da caixa o patrão não reparava em nada
porque dava uma pequena margem para permitir que as pessoas registassem
o preço errado. Outra forma de arranjarmos dinheiro era registar o preço
errado nas caixas para que o patrão nem sequer notasse que o dinheiro
tinha
desaparecido. Quando jogávamos “pinball” ou quando éramos simplesmente
preguiçosos não podíamos descurar demasiado os clientes, pois muitos
deles eram amigos do patrão.



Os principiantes trabalhavam com outros dois colegas no turno da noite,
mas quando o patrão achava que já tínhamos aprendido o mais importante
passávamos a trabalhar apenas com mais uma pessoa, o que significava que
tínhamos muito mais trabalho. Para resistirmos a isto fazíamos muitos
pequenos “erros” para que o patrão achasse que ainda não estávamos
preparados para trabalhar em pares. Claro que era muito importante que
não cometêssemos erros demasiado grandes- nesse caso perderíamos o
emprego. Tínhamos de ter cuidado. Esta tentativa de fuga ao trabalho foi
criada por um erro. Um dia ao fim da tarde tínhamos muito que fazer e
por isso não conseguimos ter pronto tudo o que devíamos ter antes de
começar o turno da noite. Tivemos de trabalhar cerca de quinze ou vinte
minutos extra e de lavar os últimos pratos, encher os recipientes da
comida, etc. O patrão trabalhava em todos os turnos da noite por isso
fazíamos estes erros com muita frequência, o que significava que
trabalhávamos talvez uns quinze ou vinte minutos extra mas que ainda
podíamos ser três a fazer o turno da noite, o que tornava o dia de
trabalho mais fácil e mais divertido.



Todas estas pequenas tentativas de fazer com que o dia de trabalho se
tornasse mais divertido e menos alienante eram algo que tentávamos
espalhar e fazer circular por outros colegas de trabalho com quem
habitualmente não trabalhávamos. Não o fazíamos a conversar abertamente
sobre como fugir ao trabalho, mas tentávamos fazer com que as
actividades falassem por elas próprias e depois disso podíamos ser mais
abertos sobre estas. Claro que muita gente já fazia isto. Partilhávamos
gorjetas e todos tinham a sua maneira própria de fazer com que o dia de
trabalho fosse menos aborrecido e mais divertido. Eu, por exemplo,
partilhava as experiências do nosso pequeno “grupo de afinidade” sobre
como atrasar o dia de trabalho com as outras pessoas com quem
trabalhava, de forma a que o patrão pensasse que tinha de haver três
pessoas nos turnos. A maior parte de nós pensava que era melhor acabar
um pouco mais tarde do que ter de trabalhar mais árduamente durante todo
o dia. Uma das grandes fraquezas (para além de serem todas muito
defensivas) das nossas tentativas de fuga ao trabalho era que nem sequer
tentámos envolver mais pessoas, especialmente aqueles que já ali
trabalhavam há mais tempo do que nós. Admitimos simplesmente que eram
todos leais ao patrão e ao local de trabalho.



COMUNICAÇÃO, COMUNIDADE E JOGO



Falarmos uns com os outros, a comunicação, era obviamente uma forma
importante de nos divertirmos mais no local de trabalho. Para mim
tornou-se mais importante quando os outros dois rapazes do meu “grupo de
afinidade” deixaram de trabalhar no restaurante. A minha situação de
trabalho alterou-se drasticamente porque eu não sabia em quem confiar
nem com quem contar. Claro que, como expliquei, a maior parte das
pessoas faziam coisas parecidas ao que eu fazia com os meus amigos mas
havia algumas que iam contar ao patrão e ao filho dele o que se fazia
contra o restaurante. Uma das melhores maneiras de descobrir se podia
confiar ou não em alguém era, claro, conversar acerca daquilo que não
podíamos falar. Como por exemplo comparar os salários ou perguntar a
alguém se trabalhava “ilegalmente” (sem pagar impostos) e se trabalhava
que percentagem do dia é que era ilegal. Quando alguém falava acerca
disto mostrava sempre de que “lado” estava. Quem não falasse no assunto
não era de confiança. Se a pessoa respondesse à pergunta podíamos
continuar para o passo seguinte. Por exemplo, eu atrevi-me a roubar
dinheiro da caixa- uma coisa que antes tinha feito quase só no meu
“grupo de afinidade”, com muito mais pessoas. Fazer estas pequenas coisas
ilegais e secretas criou um sentido de comunidade e solidariedade entre
nós e uma forma de resistência que estreitou este sentimento de
comunidade e que nos uniu foi a questão de saber quem organizava o
trabalho e de como este deveria ser organizado. O patrão geralmente
vinha aos turnos e dizia-nos como devíamos trabalhar. Ele queria dividir
o trabalho para uma pessoa ficar na cozinha, outra lavar os pratos e
ainda outra fazer os hamburguers. Isto significava que estávamos todos
isolados uns dos outros e que fazíamos coisas sozinhos. Felizmente quase
ninguém obedecia a estas regras- mal o patrão se ia embora organizávamos
as tarefas em conjunto e ajudávamo-nos uns aos outros. Isto pode não
parecer importante, ou pode ser visto como uma semente de uma futura
auto-gestão do capital. Mas não era este o caso pois criou-se uma
comunidade importante entre nós e o dia de trabalho tornou-se mais fácil
e divertido. Era uma forma de resistência ao aborrecimento e à alienação
e uma forma de se trabalhar menos. Era um meio, não um fim. Se
tivéssemos arranjado um emprego melhor ou conseguíssemos dinheiro de
outra forma, ou ainda se pudéssemos fazer parte de um movimento mais
geral e mais aberto que procurasse abolir o capital, então penso que
teríamos deixado o restaurante, não teríamos tentado organizar nós
próprios o trabalho.

Todos os que ali trabalhavam tinham diversas formas pessoais de criar um
dia de trabalho mais aliciante e divertido e de tentar criar uma espécie
de comunidade. Muitas vezes faziam-se coisas que não pareciam ter nenhum
objectivo nem nenhum significado além de serem divertidas. Mas muitas
vezes estas coisas eram um ataque indirecto ao local de trabalho. As
pessoas tentavam brincar e servir-se dos produtos no local de trabalho
para proveito próprio, em vez de os venderem. Por exemplo, alguns miúdos
novos costumavam divertir-se a mergulharem no óleo a comida que não era
para ser frita assim porque achavam que era divertido brincarem com a
comida. Uma rapariga costumava brincar com a comida e fazer uma série de
números de circo bastante impressionantes com ela.



Outra fazia experiências com os molhos e punha uma série de especiarias
dentro deles, muitas vezes tantas que tinham de ser deitados fora (quando
o patrão descobriu isso ficou mesmo furioso). Todos tentavam usar os
produtos à sua maneira. Em vez de os vendermos, usávamo-los e
divertíamo-nos com eles de várias maneiras próprias, estranhas e por
vezes infantis. Esta era uma pequena tentativa de conseguirmos controlar
a actividade que nos tinha sido roubada e de animar os dias de trabalho-
actos contra a alienação e o aborrecimento no trabalho.



A LUTA CONTRA O VALOR



Na sociedade capitalista um hamburguer é como todos as outras
mercadorias, não é valioso porque pode ser usado mas sim porque pode ser
vendido. Um hamburguer não tem valor porque se pode comer mas porque
pode ser vendido a alguém que tenha fome. No sistema capitalista as
coisas não têm apenas um valor de uso (como o de um hamburguer que pode
ser comido) mas também têm um valor de troca (o hamburguer, como todas
as outros mercadorias, pode ser vendido). Isto não é algo “natural”,
como o capitalismo nos quer fazer acreditar e, de facto, há um grande
conflito na sociedade entre estas duas condições.



O comunismo é uma actividade que, entre outras coisas, tenta suprimir o
valor de troca. Significa a criação de uma comunidade humana onde as
actividades humanas, entre outras coisas, verão as coisas como valores de
uso e não como valores de troca como acontece no capitalismo. Isto pode
ser visto claramente na luta de classes.

A luta de classes é dirigida contra a mercadoria e contra o valor de
troca. No restaurante isto tornava-se claro quando nós tentávamos usar
as coisas que ali encontrávamos directamente, sem mediação, para as
nossas
necessidades, por mais estranhas que estas necessidades pudessem parecer.
Por exemplo, os miúdos que gostavam de mergulhar a comida em óleo a
ferver até a estragarem ou a rapariga que fazia malabarismo com os
alimentos. Mas talvez as alturas mais visíveis em que tentámos usar as
coisas como valores de uso e não como valores de troca tenham sido
quando roubámos a comida ou outras coisas do local de trabalho. Isto era
muito arriscado porque o patrão tinha um controle muito apertado sobre
as mercearias e sabia que comida as pessoas compravam por dia, mas os
roubos tinham lugar de tempos a tempos. A sabotagem no restaurante era
também dirigida contra a transformação capitalista das coisas em
mercadorias e em valores de troca. Uma vez destruímos muita comida
(mercadorias, valores de troca e naquele caso também valores de uso
porque o patrão tinha sido muito irritante para nós. Eu e outro rapaz
estávamos muito zangados não só com o patrão mas com aquela situação
toda porque detestávamos o sítio, por isso fomos ao frigorífico, tirámos
de lá um monte de caixas e destruímo-las. Isto pode ser visto como um
acto bastante irracional e insignificante mas para nós, na altura, soube
muito bem e foi um grande alívio. Depois de termos feito isso pusemos as
caixas que tínhamos destruído outra vez no frigorífico e pusemos outras
caixas e mais coisas em cima delas, para que demorasse algumas semanas
até que o patrão ou outros descobrissem, e nessa altura ninguém
conseguiria saber quem tinha feito aquilo. A sabotagem e a destruição de
mercadorias eram menos comuns do que outras coisas- por exemplo, do que
os roubos. Mas de cada vez que aconteciam nós reparávamos que o patrão
ficava muito intimidado e se comportava de forma mais “correcta” para
connosco depois de alguém ter destruído algo. Outra coisa que acontecia
e que era dirigida contra o valor era registarmos o preço errado na
caixa registadora. Não o fazíamos para chatear o patrão mas sim porque
pensávamos que era demasiado caro comer ali e porque essa era outra
forma de criar uma pequena comunidade entre nós. Não uma comunidade de
trabalhadores mas sim de proletários que estão fartos de serem
proletários, uma comunidade (por mais pequena e isolada que fosse) de
actividades dirigidas contra o trabalho e o valor, contra as próprias
condições que tornam os seres humanos proletários.



A luta contra o valor pode ser vista em todas as partes da sociedade, dos
roubos no trabalho e do saque de lojas até às ocupações de lojas e
locais de trabalho. O comunismo é uma actividade que aspira a ser tão
poderosa que destrói o valor através da apropriação, pela humanidade, do
seu trabalho e dos meios de produção dos quais está separada.



O PATRÃO



Embora a maior parte de nós, que trabalhávamos no restaurante, não
gostássemos do patrão nem da sua maneira de nos fazer trabalhar mais, não
podíamos deixar de sentir alguma pena e simpatia por ele. Trabalhava
todas as noites da semana, e apenas tirava férias uma vez por ano
durante uma semana ou duas. Todos nós trabalhávamos às vezes com ele e
ele costumava andar sempre pelo restaurante por isso, quer quiséssemos
quer não, todos tínhamos uma ligação pessoal com ele. Para alguns-
poucos- isto gerou o sentimento de que deviam ajudá-lo e passaram a
identificar-se com o local de trabalho. Sentiam que o restaurante era
deles tanto como do dono. O restaurante não andava muito bem
financeiramente e era, de facto, o dono o que trabalhava mais de nós
todos. Muitas vezes nos perguntávamos porque trabalhava ele tantas vezes
e tão duramente. Não precisava de trabalhar todas as noites para
sobreviver. Chegámos a desejar que ele passasse mais tempo com a família
de quem falava a noite inteira. Ao princípio eu só via estas coisas como
uma espécie de “moralidade escrava” burguesa e encarava-as como um
obstáculo- que, num certo sentido, eram. Todos nós estávamos ligados a
ele emocionalmente. No entanto, passado um tempo eu percebi que isto
apenas afectava marginalmente as nossas actividades contra o trabalho
assalariado. Éramos guiados pelos nossos próprios interesses e
necessidades, o que não significava que não tivéssemos pena do nosso
patrão e lhe desejássemos outra vida. A nossa repulsa e a nossa
resistência eram dirigidas contra o local de trabalho em si, e não
contra o patrão. A essência do conflito era sobre o facto de termos de
lá estar para recebermos dinheiro. Queríamos fazer outras coisas, estar
com aqueles de quem gostávamos, brincar na praia ou fazer mais coisas
importantes. Não queríamos trocar o nosso tempo e a nossa vida por
dinheiro. Não queríamos trabalho assalariado. Claro que o patrão não era
popular, mas o conflito nunca era uma questão de “nós” contra “ele”- era
antes uma questão de “nós” contra a relação que nos mantinha
prisioneiros no restaurante. Claro que algumas actividades eram
direccionadas directamente a ele, mas eram muito poucas. A maioria de
nós pensava que seria uma consequência triste o patrão ter de sofrer por
causa das nossas actividades que eram contra as relações sociais que nos
mantinham ali presos. Não havia vencedores no restaurante- nem o patrão
nem os trabalhadores. [4]



UMA ESPÉCIE DE PEQUENO CAPITAL

O restaurante podia ser visto como um pequeno capital. No capitalismo o
conflito é sobre coisas muito mais essenciais do que a diferença entre
quem possui os meios de produção e quem os não possui, ou do que entre
ricos e pobres. Claro que há conflitos reais e diferenças entre quem
possui bens e quem não os possui e entre ricos e pobres. E quando o
proletariado trava a sua luta contra o capital, tanto escondida como
aberta, terá necessariamente de entrar em confronto com os funcionários
do capital. Mas não são os capitalistas que controlam o capital, é o
capital que controla os capitalistas. Não são apenas os proletários que
são intercambiáveis (substituíveis)- os funcionários do capital também o
são. No capitalismo os seres humanos não valem nada enquanto humanos. A
única coisa importante para o capital é o papel que eles desempenham na
sociedade, um papel que pode ser usurpado por outra pessoa se não for
devidamente cumprido. A luta de classes não é um projecto à Robin dos
Bosques e o proletariado não são apenas os pobres. Dizer que o conflito
é entre os ricos e os pobres esconde a verdadeira contradição- entre o
comunismo e o capital. E também dá às pessoas uma falsa solução acerca
de como o capitalismo pode ser destruído: nomeadamente, diz que apenas
temos de acabar com os ricos. Esta é uma formulação que vira a realidade
de pernas para o ar; não são os ricos que criam o capitalismo. É o
capitalismo que cria a riqueza e, consequentemente, também a pobreza.
Ficaremos livres desta diferença se nos virmos livres do capitalismo.



Se não são os ricos que controlam tudo então quem é? É a “lei do valor”
que governa o capitalismo e que força tanto os ricos como os pobres a
caçarem mais e mais dinheiro. Esta “lei” não pode ser domada- todas as
tentativas para o fazer ou falharam ou foram esmagadas. O valor tem que
ser destruído ou então vai subjugar-nos a todos. Isto era algo que se
podia ver abertamente no restaurante. Claro que o nosso patrão ganhava
muito mais do que nós (e nós queríamos mais dinheiro) mas tal como nós-
os seus empregados- tínhamos de trabalhar para sobreviver, ele era
forçado a acumular valor ou ir à falência. Nas pequenas empresas o
patrão tem muitas vezes de trabalhar ao lado dos empregados, muitas
vezes até mais, e mais arduamente do que os seus empregados. O facto de
ele ser o dono do restaurante e de ganhar muito com o nosso trabalho
criou um verdadeiro conflito entre nós e ele, mas estaríamos enganados
se pensássemos que todos os problemas que encontrávamos ficariam
resolvidos se simplesmente nos livrássemos do dono. Mesmo que o
restaurante pertencesse ao estado ou se nós, os que lá trabalhávamos, o
geríssemos, ainda teríamos de obedecer à tirania do valor e de seguir as
leis do mercado e da economia. Isto significa, também, que a maior parte
dos problemas que existiam quando o restaurante pertencia a um
particular continuariam a existir se este mudasse de donos. Como eu
disse antes, o capital governa os governantes e tenta reduzir todos-
tanto ricos como pobres- a algo útil para o capital. Apenas tolera
aqueles que obedecem ao capital e que são seguidores passivos da
economia.



As condições do capital são simplesmente o facto da actividade humana ter
sido separada do homem e de sermos nós que alimentamos esta separação
através das nossas próprias relações sociais. De facto, se somos nós que
criamos o capital também o podemos destruir. O capital sobrevive
principalmente devido à nossa passividade (claro que não podemos mudar
esta passividade desejando-a ou concordando com ela) mas também tem
instituições como a polícia, o exército, a moralidade, e a hierarquia a
protegê-lo. Até a esquerda e o movimento dos trabalhadores o apoiam
directa ou indirectamente. O programa de esquerda trata fundamentalmente
da forma como as pessoas devem gerir a produção. Os sociais democratas e
os leninistas querem uma produção controlada pelo estado, os libertários
e os conselhistas querem que esta seja possuída pelos trabalhadores e
ambos querem distribuir os lucros justa e equitativamente. Claro que o
comunismo trata do auto-governo mas é principalmente dirigido ÁQUILO que
as pessoas conseguem e têm que gerir.



Se o capital significa passividade na medida em que as nossas actividades
não nos pertencem e na medida em que as pessoas não acreditam que podem
mudar a sua própria situação, então o comunismo significa actividade e
movimento. Um movimento e uma tendência que estão presentes na luta de
classes, na velha sociedade que tenta aboli-las e uma actividade que
significará o fim das separações e das mediações e, por isso, a
destruição do valor, da economia e do trabalho. O comunismo é um mundo
sem dinheiro e sem lucro (o que não significa nenhum paraíso na terra
nem que as pessoas se tenham transformado em anjos). Significa só um
mundo onde a actividade da humanidade pertence à própria humanidade,
algo que de certeza irá criar novos e imprevisíveis problemas, conflitos
e contradições.



NÓS SOMOS A CONTRADIÇÃO



O trabalho é a nossa actividade separada de nós, transformada em algo que
estimula a economia e que nos domina. E este processo pode ser alterado
porque somos nós quem o alimentamos. Nós somos a contradição. Nenhum
trabalho é apenas imposto do exterior. Supõe alguma cooperação da parte
das bases, como mostrou o trabalhador da Renault, Daniel Mothé nos seus
artigos na revista Socialisme ou Barbarie dos anos cinquenta. Aquilo que
descrevemos como pequenos roubos, sabotagem de pequena escala e
divertimento (todas estas coisas implicam auto-organização) é, também,
aquilo que torna o restaurante suportável. A resistência ao trabalho é
uma forma de recuperar alguma da “humanidade” que o trabalho nos rouba:
por isso torna o nosso dia de trabalho menos alienante. Negar isto é não
compreender como o capitalismo funciona nem porque continua apesar de
todos os seus horrores. A
auto-organização da vida de trabalho (e das suas lutas) é,
paradoxalmente, também a condição para uma possível revolução.



O significado do movimento comunista não reside em ver-se livre dos
aspectos dolorosos do trabalho ao transferir o seu fardo para máquinas
que trabalham para nós enquanto nós nos refastelamos, escrevemos poemas
ou fazemos amor. (Nos tempos antigos, quando existiam poucas máquinas,
Aristóteles justificou o trabalho manual escravo pois permitia à elite
levar uma vida boa e intelectual). O leitor perceberá que não desejamos
uma sociedade onde cada segundo seja um divertimento. Deixemos tais
sonhos para Vaneigem.



Isto está relacionado com o conteúdo do trabalho concreto feito num
destes restaurantes. Todos os fast food são a expressão de uma sociedade
onde o tempo é dinheiro, e onde os actos vitais humanos como comer têm
de ser feitos no tempo mais curto (mais lucrativo) possível. Os
hamburgueres, no entanto, são apenas um exemplo entre muitos . Os bifes
(outrora um símbolo da civilização ocidental) são outro meio de
rapidamente grelhar e despejar proteínas e calorias suficientes para
mandar o apressado homem moderno de volta à sua fábrica ou escritório. E
o mesmo se pode aplicar às saladas dos self-services que se tornaram tão
populares nos últimos vinte anos. Os bifes transmitem uma mensagem dura,
de alguma forma masculina, enquanto as saladas se associam a uma atitude
supostamente mais branda, aberta e sem género. E uma empresa
multinacional de comida que queira estar na moda pode adoptar o nome de
Slow Food...



Nós somos o que comemos...É verdade, mas também somos o que fazemos. Nós
comemos tal como vivemos e seria ingénuo acreditar que poderia ou iria
existir uma maneira melhor de comer, que poderia existir uma e única
comida saudável. Mais uma vez espero que o leitor perceba que não
defendemos refeições veganas orgânicas e universais.

NOTAS:



[1] Kämpa Tillsammans! significa "Lutemos Juntos!".



[2] Quando afirmo que o comunismo é um movimento, quero dizer que existe
como uma dinâmica subjacente à luta de classes ou como uma tendência
contida nela. Não vemos na luta de classes a sociedade comunista mas sim
um potencial para o comunismo. Qualquer luta contra o capital contém um
aspecto universal pois é um protesto contra uma vida desumana e isso é
uma semente para uma futura comunidade humana. “ Uma revolução social
tem portanto um aspecto universal, porque, embora possa ocorrer em
apenas uma zona industrial, é um protesto humano contra uma vida
desumana, porque parte do indivíduo único e real, e porque o social é a
vida social real do homem, uma vida realmente humana.” Mas é importante
entender que isto é apenas um aspecto, e também que a semente não
consegue crescer em todas as situações.

[3] Esta citação é do grupo indiano Kammunist Kranti. Pode-se dizer que o
capital sobreviveu a estes ataques porque as térmitas também trabalham
para ele. Isto é verdade, mas também é verdade que o capital precisa e
tenta controlar e destruir todas estas lutas secretas. E é também nos
conflitos no trabalho, na luta proletária contra o trabalho assalariado
que podemos encontrar a actividade emancipatória que nos pode libertar e
destruir o capital.



[4] Não quero dizer que o proletariado e os patrões têm os mesmos
interesses. Todas as lutas acabam por, de uma forma ou de outra,
confrontar os patrões, a polícia, os chefes ou outros funcionários do
capital. Quero apenas sublinhar que não são os patrões que controlam
tudo e que, no restaurante, a nossa relação com o patrão, de forma
paradoxal fortaleceu a “perspectiva” comunista na luta. Tornava-se claro
para todos que o inimigo não era o patrão mas que aquilo a que nos
opúnhamos era ao absurdo de trabalhar por dinheiro.



Disponibilizado em português por FMI-Fundação Marx e Irmãos
http://www.geocities.com/lipstickinrage/


Seria interessante que outros companheiros partilhassem as suas
experiências e reflexões sobre este assunto, o trabalho, que
infelizmente é o centro da nossa vida e que por isso a esvazia. Mas é a
partir da sua crítica, sobretudo prática, que começa toda a subversão
radical ,pois é lá que reside a raíz da miséria e da opressão.





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