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(sup) (pt)OS ANARQUISTAS NA REVOLUÇÃO MEXICANA

From a-infos-sup@ainfos.ca
Date Wed, 22 Oct 2003 11:44:16 +0200 (CEST)


________________________________________________
A - I N F O S N E W S S E R V I C E
http://www.ainfos.ca/
http://ainfos.ca/index24.html
________________________________________________

Incialmente publicado na página da FdCA http://www.fdca.it

de Pier Francesco Zarcone
Não é arriscado colocar a hipótese de que os anarquistas e libertários
hoje chegados à meia-idade ("os panteras cinzentas", se poderia dizer),
durante os anos '60/'70 do século passado viram com uma participação
emotiva intensa os filmes que a cinematografia italiana produziu acerca da
revolução mexicana, com certa freqüência e numa visão politizada no
seguimento de '68. Desde "Giù la testa" até "Tepepa ", ou "¿Quién sabe?",
"Vamos a matar compañeros", para não falar do prévio e mítico "¡Viva
Zapata! ".
Mas com toda probabilidade, a maioria deles não sabia (e talvez nem sequer
hoje saiba) qual tinha sido o papel desenvolvido pelos anarquistas e pelo
anarquismo mexicanos nesses eventos tão distantes. Nenhuma surpresa, no
fundo: trata-se de outra página da história anarquista escondida pelos
vários "media" (que nunca fornecem aquilo que realmente precisamos), e em
todo caso que pertence à aquela América Latina que não foi muito famosa na
Europa durante muito tempo.
A mesma cinematografia acima indicada, no fundo, freqüentemente não
chegava além dos aspectos exteriores, 'piscando o olho' aos humores de um
público influenciado por uma atmosfera de revolta difusa, como acontecia
nos anos '60 e '70. Coisa igualmente normal, porque a cinematografia
recebe oxigénio do capital e dentro das lógicas rigorosas do seu sistema:
assim, uma coisa é fazer dinheiro instrumentalizando também a contestação
e outra coisa é fazer conhecer o que não convém.
Sabemos que o verdadeiro radicalismo revolucionário não dá lucro: o
capital sempre pode concluir negócios até mesmo com os comunistas
autoritários, mas com os anarquistas não. E então o jogo está feito: na
apresentação (adaptada às exigências de espectacularidade) de páginas
revolucionárias gloriosas, o papel dos anarquistas e libertários deve
passar sob silêncio; ou - se isto não pode acontecer, como no caso da
Revolução espanhola, onde estava presente um evidente e não ocultável
fenómeno anarquista de massa - o zelo manifesta-se pela difamação, ou (no
melhor dos casos) não se diz nada sobre as realizações concretas da
revolução, talvez com a colaboração de aqueles supostos
anarquistas/liberais, de alma embranquecida, que hoje se associam aos
coros interessados na crueldade dos anarquistas espanhóis durante os
acontecimentos revolucionários.
Redescobrir as páginas de história da Revolução Mexicana na perspectiva do
anarquismo tem uma utilidade dupla: a) histórica, tratando-se da primeira
Revolução do século XX° que, sem a influência anarquista, teria sido sem
dúvida diferente; b) política actual, porque os efeitos desta revolução
são a base do zapatismo do EZLN no Chiapas de hoje, e podem ser
projectados, por extensão, sobre o renovado dinamismo do anarquismo
comunista latino/americano neste milénio novo.

SÍNTESE DA HISTÓRIA MODERNA DO MÉXICO


Durante muito tempo a Revolução mexicana foi considerada na Europa como
folclórica, como uma 'jaquerie' confusa indio/mestiça, de escassa valência
política/ideológica, que ocupa um lugar secundário na história. Avaliação
sem dúvida restritiva.
O México teve e tem uma história trágica que se manifesta no imaginário
coletivo do seu povo pela atribuição de uma conotação feminina à
mãe-terra, que tem o papel de Chingada (o mulher violada); e filhos da
Chingada são os mexicanos. A tragédia do México não teve origem na
conquista espanhola, sem dúvida vivida como uma catástrofe cósmica: o fim
de um mundo no sangue e na destruição, na colonização forçada das ruínas
do país e da psique mesma das pessoas.
O domínio azteca já era um domínio sangrento de um povo minoritário cujo
império - de acordo com uma ideologia religiosa - tinha que oferecer
continuamente sacrifícios humanos aos deuses. Os espanhóis - além de
idioma novo, religião nova, leis novas - levaram doenças que dizimaram os
sobreviventes da guerra de conquista, uma exploração selvagem de indígenas
e mestiços (estes nascidos depois da conquista), e para todos - dominantes
e dominados - a escura opressão espiritual da Inquisição católica.
No século XIX° os ventos originados pela Revolução francesa e o
napoleonismo chegaram também ao México, e deram força aos movimentos para
a independência do país. Mas houve aqui em elemento diferencial por
comparação aos outros países da América Latina. No México, o movimento
independentista não foi encorajado por membros das classes privilegiadas
(como, noutros lugares, Bolívar, Miranda, ou San Martín), mas por
camponeses indígenas e mestiços, dirigidos por dois padres, eles também
camponeses: primeiro o Miguel Hidalgo (1810-1811) e depois o José María
Morelos (1814), ambos derrotados e fuzilados pelos espanhóis.
O mestiço Agustín Itúrbide em 1821, levou o México à independência, e no
ano seguinte será proclamado imperador, terminando a sua vida em 1824
frente a um pelotão de execução. Será então o general António López de
Santa Ana a dirigir o México republicano de 1835 até 1855; e Santa Ana
terá que fazer frente à voracidade incipiente do imperialismo yankee. Em
1835 houve a secessão dos colonos norteamericanos do Texas (cuja entrada
na região foi imprudentemente favorecida pelo governo próprio mexicano)
que - depois da vitória efémera de Santa Ana em Álamo - em 1836 se
concluiu com a independência texana.
Os Texas uniu-se aos Estados Unidos em 1845, e no mesmo ano (sacudindo a
bandeira do "destino manifesto"; o deles) o governo de Washington achou a
maneira de fazer a guerra contra a república mexicana; guerra concluída em
1848: as partes assinaram o tratado de Guadalupe Hidalgo que privou o
México de territórios ulteriores: Alta Califórnia, Arizona, Novo México,
Colorado.
Deposto Santa Ana em 1855 (escapou para Cuba) chegou finalmente à
Presidência o índio Benito Juárez, liberal radical que partindo da defesa
da independência do que ficava do México quiz passar a um horizonte maior:
a Reforma da ordem social mexicana. O que significou luta contra os
conservadores feudais, as oligarquias do latifúndio e - por conseqüência
natural - a igreja católica que sempre foi um sólido pilar político,
económico e espiritual daquelas classes sociais.O México foi precipitado novamente na guerra civil desencadeada pelas
direitas reacionárias e conservadoras, com o agravar de uma intervenção
estrangeira - França, Espanha e Grã Bretanha - em 1864, depois da
interrupção nos pagamentos da dívida externa da República Mexicana, por
causa de dificuldades económicas. O emperador Napoleão III° tinha reais
projectos imperialistas e invadiu o país com o acordo das direitas
mexicanas. Maximilianp de Habsburgo aceitou a coroa imperial oferecida
pelos conservadores, sem bases reais de consentimento no país, só apoiado
pelas baionetas francesas.
A reação armada de Juárez, apoiado pelo povo, concluiu a aventura de
Maximiliano em 1867 com o fuzilamento dele em Querétaro.
Depois de Juárez começou, em 1876, o período ditatorial de Porfirio Díaz,
ex-general juarista que afundou a Reforma (porém, esta nunca foi além dos
seus límites liberais) criando a situação social explosiva que rebenterá
em 1910.
Naquele ano, os grandes proprietários de terras do México eram 840, e
aproximadamente 12 milhões, os camponeses sem terra. As grandes
propriedades rurais tinham dimensões semelhantes às de uma província
europeia, e os fazendeiros nas suas terra eram praticamente os donos
absolutos de homens e coisas. O exército - armado com canhões e rifles
alemães e metralhadoras norteamericanas - era o verdadeiro fundamento do
regime do Porfírio Díaz.
No mundo ocidental todo não existia uma classe social dotada de um nível
de vida e poder comparável ao nível dos proprietários de terras e minas
mexicanos (naquela altura, o México produzia um quarto da produção mundial
de prata).Os dois pilares principais do sistema da propriedade rural eram:

a) as tiendas de raya = lojas de géneros comestíveis, licores e roupas de
baixa qualidade (os proprietários delas eram os próprios fazendeiros),
onde os camponeses de uma fazenda eram forçados a fazer as compras, também
e principalmente a crédito; por este sistema os fazendeiros - que
revendiam bens de pouco valor a preços superiores - quase recuperavam o
dinheiro atribuído aos salários e os camponeses endividados não podiam
mover-se das fazendas onde trabalhavam antes de ter pago as dívidas assim
contraidas (o sistema ainda está em uso em muitas partes de América do
Sul);
b) a ley de fuga = que permitia aos donos de matar o camponês fugitivo;
para os trabalhadores rebeldes um castigo muito usado consistia em pôr o
rebelde num buraco na terra, com a cabeça fora, e fazê-la pisar pelos
cavalos a galope.
Naturalmente as mulheres e filhas dos camponeses eram "carne de cama" para
os fazendeiros (por exemplo, foi esta situação, sufrida pela sua irmã, que
deu origem à carreira de bandido, antes da Revolução, de Francisco Doroteo
Arango chamado depois Pancho Villa).
Entretanto o povo vivia num estado de miséria extrema: 70% da população
alimentava-se de tortillas de milho, mas as importações de géneros
supérfluos e de luxo pelas exigências dos ricos faziam sair do país um rio
de dinheiro, de ouro e de prata para os Estados Unidos e a França. Outro
rio consistente de ouro saía do México em virtude dos lucros que o governo
de Díaz assegurava aos investimentos dos capitalistas estrangeiros. Por
volta de 1910, 97% das minas estavam nas mãos de americanos, ingleses e
franceses. Eram de sociedades USA todos os poços de petróleo descobertos
em Tampico, Tuxpán, Matamoros e Reinosa, tal como a maioria das minas de
prata e ouro da Sierra ocidental e da Sierra do Sul.
Quando em 1910 a situação explodiu, ocorreu a primeira revolução social do
século de XX°: uma revolução mais rural que urbana, cuja influência nos
outros países da área foi enorme. Por exemplo, sem a revolução mexicana
não seria possível explicar nem Augusto César Sandino na Nicarágua nem
Farabundo Martí em El Salvador.

AS ORIGENS DO ANARQUISMO MEXICANO


Seria um erro pensar, com base nas poucas fontes escritas existentes em
italiano solbre o assunto, que o anarquismo mexicano nasceu com o
pensamento e trabalho de Ricardo Flores Magón (1874-1922): o nascimento
desta corrente no México aconteceu pelo menos 50 anos antes da grande
revolução do 1910. O seu desenvolvimento ocorreu no quadro do México
depois da independência e da sua abertura às influências europeias.
Como era óbvio, a independência não resolveu nenhum dos problemas do país,
e começou um período longo de convulsões políticas e sociais/económicas,
ditaduras, intervenções militares estrangeiras (E.U.A. e França), perda de
quase a metade do território primitivo, tragado pelo imperialismo yankee,
motins populares e repressões. Problemas que existem ainda hoje -
naturalmente na mudança de contextos seguida à Revolução de 1910, por
causa da normalização feita pela burguesia "radical" saída vencedora dela.
A tentativa de Robert Owen em 1824, de instalar no Texas (região mexicana
naquela altura) uma concretização da sua sociedade perfeita chamada
"Harmonia Nova" não teve éxito, e a história do anarquismo no México
começou com o a pessoa do imigrado grego Plotinós Rhodakanaty. Inspirado
pelas idéias de Fourier e Proudhon, ele assumiu um certo conhecimento dos
problemas dos camponeses explorados pelos proprietários de terra, e quis
dar impulso a uma organização rural, enquanto obrava para constituir um
sistema socialista de colónias agrícolas.
Com o objetivo de fazer prosélitos editou a Nota Socialista, uma espécie
de catecismo fourierista. Não tendo podido juntar um número suficiente de
pessoas para organizar uma colónia agrícola, entrou numa escola
preparatória, e fazendo propaganda do socialismo libertário chegou a
formar em 1863 um grupo de estudo - o Grupo de Estudiantes Socialistas que
serão personalidades importantes no movimento socialista mexicano:
Santiago Villanueva, organizador do primeiro movimento de trabalhadores no
país; Hermenegildo Villavicencio colaborador daquele; Francisco Zalacosta,
figura de relevo na futura luta dos camponeses.
Completada a formação em 1864, aqueles estudantes darão vida à primeira
organização mútua mexicana, a Sociedad Particular de Socorros Mútuos, com
orientação socialista libertária. Do mesmo grupo de estudantes, em 1868
nasceu uma sociedade secreta de inspiração bakuninista - A Social-Sección
Internacionalista - que desapareceu em 1868, e foi formada novamente em
1871 (entre os sócios: Rhodakanaty, Villanueva, Zalacosta e
Villavicencio), exercendo uma influência notável na criação dos movimentos
camponês e de trabalhadores no decurso do século.
Em Maio de 1865 Zalacosta, Villanueva e o grupo deles desenvolveu um papel
importante nas agitações que levaram à primeira greve, a dos trabalhadores
das fábricas têxteis de San Idelfonso Tlalnapantia e A Colmena, terminadas
com a intervenção armada do governo.
Depois desta derrota, Villavicencio e Villanueva criaram outra sociedade
bakuninista, a Sociedad Agrícola Oriental que nos anos '60, '70 e '80 do
século XIX foi o centro principal da atividade anarquista no México.
Entretanto Rhodakanaty continuava os esforços para constituir comunidades
agrícolas, e organizou em Chalco uma escola para camponeses - a Escuela
del Rayo y del Socialismo - de acordo com os princípios do socialismo
libertário. Um dos estudantes mais talentosos dele foi Julio Chávez López.
Chávez López era a favor do recurso aos métodos enérgicos e à acção
directa, o que o pôs em contraste com o pacifismo inveterado de
Rhodakanaty, o qual deixou esta Escola em 1867. De seguida, Chávez López
desenvolveu um papel activo nas lutas armadas sociais que fizeram dele um
precursor do zapatismo.
Junto com alguns camaradas com as mesmas ideias dele, Chávez López começou
a atacar propriedades rurais, primeiro nas áreas de Chalco e Texcoco,
depois no Morelos do Sur, em San Martín Texmelucán e no Tlalpán. Em 1869 o
governo enviou uma expedição militar que só fez ampliar o apoio popular à
revolta, tanto que em Abril do mesmo ano, Chávez López teve a audácia de
publicar um cartaz para incitar os mexicanos à rebelião armada geral.
A importância de seu cartaz está no facto de que, pela primeira vez na
história mexicana, a revolta dos camponeses vir conceptualmente e
conscientemente integrada na luta de classes, dentro do contexto histórico
específico daquele país, com determinação clara dos papeis e das
responsabilidades das classes dominantes. O cartaz propunha também a
substituição do governo nacional com um sistema de governos autónomos
locais. Capturado, Chávez López pasado pouco tempo fugiu e retomou a luta
contra o exército até que, novamente capturado pelas tropas do Presidente
Benito Juárez, foi fuzilado a 1° de setembro de 1869.
Contudo, a derrota e morte de Chávez López, o regresso de Rhodakanaty para
a sua pátria, a falta de progressos de La Social e a Sociedad Particular
de Socorros Mútuos, não representam o fim do jovem anarquismo mexicano.
Entretanto Villanueva e Villavicencio constituíram a Sociedad Artística
Industrial que teve uma influência fundamental no desenvolvimento do
movimento dos trabalhadores, começando uma intensa ação de proselitismo na
área da capital entre os anos 1866 e 1867. No Verão de 1868 os
trabalhadores da fábrica têxtil 'A Fama Montesa' de Tlalpán, organizados
por Villanueva, fizeram pela primeira greve, a primeira na história
mexicana.
Este evento deu impulso ulterior à actividade de organização, e em 1870 -
sempre por estímulo de Villanueva - foi criado o Centro General de los
Trabajadores Organizados, depois com o nome de Grande Círculo de Obreros
México. Villanueva morreu em 1872, mas o movimento estava em marcha, e no
1876 os esforços de criação de uma organização nacional levaram ao
Congresso General Obrero da República Mexicana; e, paralelamente, entre
1877 e 1878, La Social alcançou a sua máxima expansão, de maneira que
naquela fase os anarquistas ficavam hegemónicos no movimento operário.
Em 1878 foi formado o Partido Comunista Mexicano, de tendência
bakuninista, que foi dissolvido muito depressa pela repressão do Porfírio
Díaz.
Apesar da derrota de Chávez López, o movimento rural continuou a
trabalhar, encontrando apoio na imprensa operária da capital. Naquela
altura, portanto, surgia fora da realidade uma separação política entre o
mundo operário e o mundo rural, que -pelo contrário- acontecerá durante a
Revolução, e que será prejudicial para ambos. Na década 1870/1880 o mais
importante animador do movimento rural mexicano era José María González.
Estabelecido o longo regime ditatorial de Porfirio Díaz, o grupo
bakuninista organizado em La Social elaborará um plano revolucionário,
recebido favoravelmente pelos grupos rurais, que previa o colapso do
governo nacional, a criação de assembleias municipais autónomas, uma
reforma agrária radical, a abolição final do sistema de salário, a
formação de bancos territoriais para apoiar a venda dos produtos agrícolos
e a criação de um Falanstério Social para regular o trabalho urbano e
rural. Para apoiar desta iniciativa Zalacosta formou um Comité de
Coordenação, o Gran Comité Central Comunero.
No contexto destas agitações, o coronel Alberto Santa Fé publicou na
imprensa operária a Ley del Pueblo considerada o documento agrarista mais
sofisticado e mais complexo da altura antes da Revolução. Por esta
inciativa Santa Fé foi aprisionado.
A repressão do governo começou a desenvolver-se com dureza: Francisco
Zalacosta foi fuzilado na cidade de Querétaro em 1880, duas revoltas foram
afogadas em sangue pelo exército federal, os círculos anarquistas foram
fechados e progressivamente o governo pôde assumir o contrôlo do movimento
operário. Um golpe duro ao movimento anarquista das cooperativas foi dado
através de uma norma que as ilegalizou e, quando a norma foi revocada, a
legalização das cooperativas foi subordinada ao regulamento e controle do
governo. Tentativas ulteriores de revolta foram reprimidas, como aconteceu
em 1886 com a revolta do general Miguel Negrete, que - no Estado de
Morelos- já anteriormente tinha dado o seu apoio à ação de Chávez López.
Negrete foi fuzilado no mesmo ano.
Lembramos, finalmente, que entre 1898 e 1899 o anarquista catalão J.
Zaldivar constituiu grupos anarquistas na península de Yucatan.

O SÉCULO NOVO - RICARDO FLORES MAGÓN


Nos primeiros anos do séc. XX, o anarquismo mexicano surgia emancipado das
tendências cooperativistas, e orientado em direcção a uma posição
anarcosindicalista e mais dura na luta de classes, também pela presença e
influência imigrados anarquistas espanhóis. E foi no começo do novo século
que o anarquismo mexicano, em virtude do trabalho de Ricardo Flores Magón,
veio ter uma organização política poderosa.
Ricardo Flores Magón com os seus dois irmãos - Jesus e Enrique -
iniciou-se em política participando nas manifestações contra uma nova
candidatura do Porfirio Díaz às eleições presidenciais do 1892. Em seguida
publicou a revista O Democrata, orientando-se progressivamente para
posições de esquerda libertária. A 7 de agosto de 1900, pela influência do
Paulo Robin - pedagogo libertário, camarada de Bakunin e velho membro da
Comuna de Paris - com dois irmãos e Antônio Horcasitas, fundou o periódico
Regeneración, que muito cedo se tornou o fórum de uma oposição maciça e
inflexível contra o regime do Porfirio Díaz.
A 30 de Agosto do mesmo ano, em San Luís Potosí, Camilo Arriaga publicou o
Manifiesto del Partido Liberal, começando um processo que levará à
constituição do Partido Liberal Mexicano (PLM) no 1905. Ricardo Flores
Magón aderiu formalmente a este processo em 1901.
O Partido Liberal estava constituído inicialmente em torno de um programa
burguês muito radical, tanto que a sua seção relativa à Plataforma del
Trabajo foi adoptada pela maioria do movimento operário mexicano durante a
Revolução.
No entanto, a situação social do país deteriorava-se ulteriomente, com uma
progressão que em poucos anos iria levar à perturbação mais radical que o
México jamais conheceu desde a conquista espanhola.
Contra esta campanha anti-reeleccionista de Regeneración desencadeou-se a
repressão do governo, e o periódico interrompeu as publicações
temporariamente. Ricardo e Enrique Flores Magón refugiam-se nos Estados
Unidos, e em Novembro de 1904 puderam recomeçar a publicação da revista
(verdadeiro espinho no flanco da ditadura do Díaz) em San Antonio, Texas.
A permanência de Ricardo Flores Magón nos Estados Unidos foi muito difícil
pelas numerosas detenções sofridas por instigação do governo mexicano;
passou nas prisões norteamericanas a maioria dos anos seguintes de sua
vida, até quando morreu em 1922, contudo conseguindo exercer alguma
influência na Revolução.
Em Junho de 1906, uma greve dos trabalhadores da sociedade americana
Cananea Cobre Company, de Sonora, levou a dois dias de batalha feroz entre
os grevistas e... os Rangers do Arizona (!), chamados pela Direção da
Cananea, estando distantes as tropas mexicanas. Outra greve importante
foi, em Dezembro a da fábrica de Rio Blanco em Orizaba, organizada por um
grupo de trabalhadores afiliados ao PLM. A agitação, que teve pouco éxito,
causou escaramuças com o exército que esmagou a revolta.
O PLM - cujos mais importantes membros, além de Ricardo Flores Magón, eram
Práxedes Guerrero, Juan Sarabia Villa Real, Enrique Flores Magón, Rivera
Liberado e Manuel Sarabia) - organizou 44 grupos secretos de guerrilheiros
espalhados pelo país inteiro (em média um grupo tinha 50 pessoas, mas
houve também grupos de 300) que tinham o seu centro directivo em Douglas,
Arizona; mas os tempos não estavam ainda maduros. Os Rangers do Arizona
pararam a maioria dos revolucionários do PLM em Douglas, e uma revolta em
Vera Cruz, dirigida por Hilario C. Salas, falhou.
Contudo, o prestígio do PLM saiu disto imensamente aumentado.

Outro ambiente onde o PLM trabalhou era o indígena. Com referência a este
deve-se clarificar preliminarmente que a resistência dos índios contra a
opressão européia e mexicana até hoje não parou nunca, em suas várias
formas também armadas, e que as nações indígenas de México sempre foram
parte activa nas convulsões sociais que periodicamente sacudiam o país. A
resistência índia sempre reivindicou os tradicionais direitos das
comunidades, lutando contra a propriedade capitalista.
Foi em 1906 a primeira tentativa do PLM de tomar contato com a realidade
indígena através de uma luta armada contra Díaz. Javier Guinetea foi
encarregado disto em relação à tribo yaqui de Sonora, cuja ferocidade
bélica era lendária no país inteiro. Não era uma simples táctica, mas a
expressão da sensibilidade magonista para com o mundo índio.
A realidade das comunidades indígenas (até hoje em dia vivas no México)
não podia deixar de influenciar a evolução libertária de Ricardo Flores
Magón, e o comunalismo indígena representou um dos eixos do pensamento
dele, cuja esencialidade não escapou aos directos interessados.
Demonstra-o uma declaração oficial, de julho de 1914, da tribo yaqui (que
as autoridades mexicanas consideraram sempre como se fosse um conjunto de
animais ferozes, dignos de matar ou escravizar):
"Com a mão sobre o coração convidamos Vocês a vir a este acampamento onde
Vocês serão recebidos com os braços abertos pelos irmãos de miséria. Nós
não temos palavras para expressar quanto apreciamos os sacrifícios feitos
em nosso favor, e esperamos que Vocês sejam sempre bem dispostos a dar-nos
a mão, enquanto o capitalismo não desapareça desta região yaqui e até que
a bandeira vermelha de Terra e Liberdade não tenha mais inimigos".
A greve da Cananea foi só um episódio da sequência de agitações sociais
que revolveram o país e que também continuarão depois.
Neste vórtice de eventos, o PLM - sob influência de Ricardo Flores Magón -
entrou numa dinâmica de ultrapassar os objectivos originais radicais,
essencialmente destinados a expulsar Porfirio Díaz e restabelecer os
direitos civis e políticos no país. Objectivos e posições que ainda em
1905 permitiam a Francisco Madero (1873-1913) elogiar o PLM e contribuir
economicamente para as necessidades de seu órgão Regeneración. Mas já em
1906 Madero discordava da declaração do PLM sobre esgotamento dos meios
pacíficos para combater Díaz. Foi em 1907 que, formalmente, Ricardo Flores
Magón completou o seu caminho para o anarquismo, começado em 1900 partindo
das obras de Kropotkin, Bakunin, Jean Pesado, Malatesta, Gorki.
Radicalização libertária que também interessou a maioria do PLM, pelo
efeito combinado da participação nos movimentos de 1906 e do apoio dado
pelo Partido ao movimento operário: o que levou à fractura completa com o
Madero. Naturalmente o PLM sofreu as deserções de quantos não
compartilhavam a mudança de posições, e isto acentuou o radicalismo de
Ricardo e da maioria do PLM.
A permanência nos Estados Unidos de Ricardo Flores Magón e os seus
camaradas, como foi dito, não era propriamente um exílio dourado. Os
governos americanos, depois do assassinato do Presidente Mc Kinley no
1901, tinham declarado guerra aos anarquistas, vítimas de repressões
pesadas que nos anos '30 levaram à liquidação, na prática, do anarquismo
naquele país.
As autoridades do EUA compreenderam logo que os magonistas, e
principalmente Ricardo, não constituiam só um problema mexicano, mas que
eles também podiam tornar-se um problema na própria casa dos Yankees, pela
a capacidade de galvanização do seu líder. Já em 1907, quase toda a
direção do PLM exilada nos Estados Unidos foi aprisionada pelas pressões
do governo mexicano. A perseguição judicial não parou e os magonistas
exilados foram freqüentemente processados pelas suas idéias e com a
acusação de ter violado a neutralidade norteamericana com referência aos
assuntos do México (santa hipocrisia dos yankees!). Ricardo passou nas
prisões norteamericanas mais que a metade dos 19 anos da sua permanência
além do Rio Grande, assistindo, impotente, ao progressivo deteriorar-se,
durante a sua ausência, do PLM: uma parte dos membros convergiu para as
fileiras dos maderistas, e depois houve outra divisão entre as várias
facções que começaram a combater Madero.

A REVOLUÇÃO


A 20 de novembro de 1910 explodiu a Revolução contra Díaz, e depois da
batalha de Ciudad Juárez vencida pelas forzas revolucionárias de Pancho
Villa e da demissião/fuga do ditador a 25 de Maio de 1911, Madero
tornou-se Presidente da República em resultado das eleições presidenciais
de 1° de Outubro.
Embora a repressão dos EUA tenha paralisado a Direção do PLM no exílio -
os magonistas e os revolucionários do PLM foram personagens principais da
libertação da Baja Califórnia, coordenadas por Ricardo Flores Magón,
momentaneamente em liberdade nos Estados Unidos. A 29 de Janeiro de 1911,
dirigidos por José Maria Leyva e Simón Berthold, os guerilheiros do PLM
conquistaram a cidade de Mexcali, com uma força de apenas 18 homens, que
ascenderam depressa a 500, dos quais aproximadamente 100 (exemplo de
verdadeiro internacionalismo revolucionário) deles eram 'wobblies'
norteamericanos dos sindicatos da Industrial Workers of the World (IWW):
entre eles Frank Little e José Hill. Jack London escreveu um cartaz de
apoio a estes revolucionários onde lhes estava garantido o apoio dos
corações e das almas de "socialistas, anarquistas, vagabundos, ladrões de
galinhas, e cidadãos indesejáveis dos Estados Unidos de América". As
tentativas das tropas federais de reconquistar Mexcali falharam.
Os magonistas, além disto, obtiveram vitórias noutras cidades tais como
Novo León, Chihuahua, Sonora e, em Março do 1911, Prisciliano Silva do PLM
conquistou Guadalupe, no Estado de Chihuahua e em junho Casas Grandes, na
mesma região.
Mas no Verão, Madero enviou os seus homens armados para retomar pela força
o controle da Baja Califórnia e os revolucionários anarquistas do PLM
sofreram uma dura derrota militar .
O Presidente Madero formou um governo burguês que (nem podía ser o
contrário, dada a formação dos seus membros) não teve qualquer intenção de
ir para além do liberalismo democrático.
Os magonistas exilados nos E.U.A. lançaram um cartaz ao povo mexicano para
que apoiasse a causa anarquista, não propuseram nenhum candidato à
Presidência nem um tipo novo de governo: simplesmente eles chamaram a
lutar pela emancipação económica das classes trabalhadoras, a expropriação
das terras dos latifundistas e a coletivização dos outros meios de
produção industrial e de toda a riqueza social, e a fazer oposição à
formação de um governo, como condição indispensável para obter um sistema
de liberdade autêntica.
Ficando claro que as esperanças suscitadas por Madero eram simplesmente
órfãs, já em 1912 estavam em completo desenvolvimento as revoltas contra o
regime dele; destas revoltas, a que foi realmente revolucionária foi a
dirigida por Emiliano Zapata no Sul, partida do Estado de Morelos. A 25 de
Novembro de 1911, Zapata lançou famoso Plan de Ayala, o documento
ideológico da revolução camponesa mexicana.
Zapata não era formalmente anarquista, mas os seus objetivos eram os mesmo
dos anarquistas, retomando a bandeira de Tierra y Libertad, característica
dos magonistas nos primeiros anos do século e que o Zapata fez sua. O
acordo entre ele e os membros libertários do PLM estava então na ordem das
coisas, e não constituiam nenhum obstáculo a perspectiva política de
Ricardo Flores Magón mais larga que a de Zapata.
Somaram-se às repressões sangrentas no Sul contra os zapatistas as
ocorridas a Norte (Chihuahua) contra Pascual Orozco (que naquela altura se
rebelou assumindo posições de esquerda), com um papel militar crescente
atribuído por Madero ao general Victoriano Huerta (o seu futuro
'Pinochet') que - sem êxito - tentou fuzilar Pancho Villa. A 16 de outubro
de 1912, em Vera Cruz, houve uma tentativa de revolta dirigida pelo
general Félix Díaz (o neto do ex-ditador) que foi reprimida.
Até quando, em Fevereiro de 1913, depois de uma fracassada tentativa de
golpe de estado em Ciudad de México, dirigida pelo general porfirista
Mondragón, Huerta (apoiado activamente pelo embaixador dos EUA Lane
Wilson, muito ligado aos industriais petrolíferos do seu país) tirou
proveito da ocasião para mandar matar Madero e tomar o poder.
Estes factos causaram uma guerra civil terrível (mais de 800.000 mortos)
que viu lutar contra Huerta e o exército federal várias facções (que
depois lutarão a uma contra a outra), dirigidas por Pancho Villa em
Chihuahua, Emiliano Zapata em Morelos, Venustiano Carranza no centro e
Álvaro Obregón em Sonora.
Para o fim do 1914, Ricardo Flores Magón numa declaração oficial dirigida
aos trabalhadores dos Estados Unidos afirmou: "Se na superfície deste
conflicto terrível aparecem os nomes de Villa, Carranza ou alguma outra
personalidade que, com base no que ensinam as acções deles, não têm outro
objectivo que a tomada do poder, a verdade é que estes homens não são a
revolução mas simples líderes militares que tentam satisfazer os seus
desejos pessoais a expensas do movimento popular". E profeticamente
concluiu que "Se alguma pessoa conseguir esmagar a revolução económica, os
trabalhadores norteamericanos sofrerão as conseqüências, através de uma
imigração de trabalhadores mexicanos numa medida bem maior do que
aconteceu nos dez ou quinze anos passados, com uma quebra inevitável dos
salários... As riquezas dos magnatas irão para o México, um campo ideal
para todos os tipos de aventureiros e exploradores; os fabricantes dos
Estados Unidos se mudarão para o México, que se tornará um território
ideal para os negócios por causa dos salários baratos".
Na luta contra Huerta, o Venustiano Carranza era o homem político mais
importante e aparentemente o líder da coalizão. Em 1914 a guerra civil -
na qual as reivindicações de revolução social e agrária de índios e
'peones' (proletários agrícolas) foram entrelaçadas novamente com os
factores politicos/democráticos - tornou-se desfavorável para Huerta que
preferiu escapar, e Carranza tomou poder pelo prestígio nacional adquirido
com sua reação vigorosa contra a ocupação temporária de Vera Cruz
(previamente bombardeada) pelos marines USA, a 24 de abril de 1914.
Mas a guerra civil não acabou com a entrada de Carranza na Cidade de
México a 20 de Agosto daquele ano. As contendas pessoais e políticas entre
as várias facções e os chefes delas levaram a uma tentativa de conciliação
criando uma Convenção, que se reuniu pela primeira vez a 1° de Outubro de
1914.
Villa e Zapata nem participaram nem enviaram seus representantes. A
Convenção mudou-se então para Aguascalientes (que estava fora da área de
influência do Carranza), e a maioria dos membros mostrou-se contrária à
manutenção de Carranza no cargo de chefe do executivo provisiório, e
nomeou para esta responsabilidade o general Eulálio Gutiérrez, que
atribuiu a Villa a chefia do exército convencionalista. A 24 de Novembro,
Zapata ordenou ao seu exército (que naquela altura tinha cerca de 25.000
homens) para marchar contra Ciudad de México, coisa que também fez Villa
(ele havia aceitado o Plan de Ayala) de acordo com Zapata: a 10 de
Dezembro de 1914 villistas e zapatistas ocuparam a capital.
Os conflitos entre Villa (mais que nunca caudillo) e Gutiérrez explodiram
logo: e Gutiérrez escapou da capital. A situação precipitou o caos,
frustrando a conquista de Ciudad de México, com toda a vantagem para
Carranza, cujas tropas - dirigidas pelo óptimo general Obregón - em 1915
derrotaram as tropas de Villa em Celaya e depois definitivamente na
batalha de Água Prieta. Villa pôde escapar da captura com poucos homens.
O reconhecimento dos EUA ao governo de Carranza fez perder a cabeça a
Villa: em Janeiro de 1916, durante o ataque a um combóio em Sonora, Villa
fez fuzilar 15 técnicos mineiros norteamerticanos que aí viajavam, e a 9
de Março passou a fronteira com o Estado norteamericano de Novo México e
saqueou a cidade de Colombus: o que causou nas regiões septentrionais do
México a intervenção de uma coluna militar USA que - para todos os efeitos
- não foi nem sequer capaz de avistar Villa pelos binóculos. Villa acabou
por negociar com os governamentais a sua rendição, e será assassinado em
1923 por alguns sicários (de Ogregón?).
Depois da derrota de Villa, Carranza convocou uma Assembleia Constituinte,
naturalmente sem convidar Zapata: nesta, foi votada uma nova Constituição
e Carranza eleito Presidente do México.
Quem continuava resistindo - embora isolado - era Emiliano Zapata, que
acabou por ser assassinado numa emboscada a 10 de Dezembro de 1919.
Carranza, quebradas as ligações com o Obregón, será assassinado a 1920 e a
1° de Dezembro daquele ano o seu rival ascende à Presidência. Em 1924 será
sucessor de Obregón o general Plutarco Elías Calles, cuja rígida política
anticlerical causará a 1° de Agosto de 1926 uma reação do clero católico,
que suspendeu a celebração das funções religiosas no país inteiro. Os
católicos passaram à revolta armada (dita dos Cristeros), com crueldades
por ambas as partes: esta última guerra civil acabou em 1929 com a derrota
dos rebeldes católicos. No 1928 Obregón foi reeleito para a Presidência
mas a 17 de Julho foi assassinado por um estudante católico. Com a morte
dele pode considerar-se convencionalmente fechado o período
revolucionário.

EMILIANO ZAPATA, ZAPATISMO E ANARQUISMO


Após a morte de Madero e a crise do PLM, a bandeira de Tierra y Libertad
ficava só nas mãos do zapatistas.
As reivindicações do Plan de Ayala, em termos de reforma agrária radical,
não eram "slogans" políticos vazios para os guerrilheiros de Zapata. Na
redacção deste famoso cartaz revolucionário participaram elementos
fortemente radicais como Otilo Montaño, professor simpatizante do PLM e o
grupo libertário feminino Mulheres de Anahuac; e durante a guerra civil
entraram no exército zapatista anarcosindicalistas como Luís Méndez,
Rafael Pérez Taylor, Antônio Grove e Percorre, Jan Khna (suíço,
sobrevivente da Comuna de Paris) e Miguel Mendoza. Este último, além de
desenvolver um trabalho de educação racionalista entre os camponeses do
Estado de Morelos, foi promoveu várias assembleias municipais libertárias
nos anos 1915/1917.
Quando os zapatistas ocupavam um território, simplesmente expropriavam as
'haciendas', e davam a terra não aos indivíduos, mas às comunidades de
aldeia enquanto tais, de forma que, de acordo com os costumes tradicionais
delas, a pusessem à disposição dos camponeses membros da comunidade: isto
com base no princípio que a terra deve estar ao serviço da comunidade e
não dos interesses pessoais individuais.
O zapatistas constituiam um grupo socialmente homogéneo fortemente
enraizado nas comunidades de Morelos; o que era um ponto óbvio de força
naquele território, mas também de fraqueza fora dos limites daquele
Estado, porque os zapatistas estavam pouco propensos para ir combater
muito tempo longe da terra deles.
Emiliano Zapata, ao contrário de Villa e Carranza, não era um caudillo, e
na estrutura de comando das formações zapatistas desenvolvia
essencialmente um papel de coordenador, indubitavelmente favorecido pelo
seu prestígio enorme, que outros teriam usado de uma maneira muito
diferente.
A estrutura de comando zapatista era bastante descentralizada, e os
comandantes dos vários grupos de guerrilha estavam acostumados a fazer
ações bélicas em sincronia, e precisamente o comunalismo agrário básico
dos zapatistas permitia que não se formassem hierarquias rígidas e
institucionalizadas. As estruturas tradicionais das comunidades locais
também contribuíam para que o poder político e social estivesse ao nível
da comunidade e fluisse de baixo para cima.
Nas áreas controladas pelos zapatistas, o antagonismo contra o capitalismo
e a propriedade privada era muito marcado. O centro da organização local
ficava no Conselho de aldeia e, para obter o seu bom funcionamento, a
premissa indispensável era sempre a expulsão violenta dos magistrados,
fiscais de impostos, policias, etc. As decisões tomavam-se na comunidade,
e por esta, e sem recorrer a uma autoridade superior ou estranha.
O ideais sobre a comunidade dos zapatistas foram formalizados num
documento de 1916, a Ley General sobre las Libertades Municipales.
Naturalmente o controle estatal nos Conselhos de aldeia foi abolido; os
Conselhos eleitos directamente pelos habitantes; o limite temporal dos
encargos foi fixado em um ano, com possibilidade de reeleição só depois de
um intervalo de dois anos; o controlo da administração económica era uma
prerrogativa de cada habitante.
Depois da morte de Zapata e a recuperação do controlo governamental no
Estado de Morelos, a Dezembro de 1920, o sistema das autonomias locais foi
suprimido pela autoridade e os Conselhos das municipalidades foram
nomeados pelo governo do Estado.
Embora entre magonistas e anarquistas das cidades e Zapata e os
zapatistas, não tenham existido contatos operacionais directos, ainda fica
em aberto a pergunta da existência de contactos entre Ricardo Flores Magón
e Zapata. Em todo caso, em 1912 Zapata, favorável ao PLM, avançou com a
proposta de uma transferência de Regeneración para Morelos, onde ele teria
posto à disposição de Flortes Magón a Fábrica de San Rafael e os meios
necessários para fazer um jornal de expansão nacional.
A coisa não teve éxito, por várias razões: pelas detenções periódicas e os
problemas de saúde, Ricardo Flores Magón não teve a possibilidade de se
mover; também, convenceu-se de que a manutenção da sede da revista nos
Estados Unidos teria tido uma maior influência psicológica a favor da
acção que ele exercia para evitar uma intervenção armada americana na
Revolução mexicana, aproveitando da grande popularidade que tinha naquele
país.
Mas Zapata sentia não só a influência de Magón: uma influência direta foi
exercida através de Antonio Díaz Soto y Gama, entusiasta das idéias de
Tolstoi e Kropotkin, anarcosindicalista da capital que se uniu ao exército
zapatista com outros camaradas, tornando-se logo o ideólogo do movimento.
Não seria em todo caso exacto definir 'tout court' anarquista o Emiliano
Zapata e o movimento dele, faltando aquela clara orientação sistemática
que caracterizará Makhno ou Durruti, por exemplo. Fica assente que as
influências anárquicas eram as mais evidentes e muitas metas eram comuns,
embora faltasse uma identidade global.
Deve-se também considerar que no cenário político mexicano, apenas os
anarquistas podiam coerentemente apoiar o programa zapatista e a
radicalidade de meios que implicava. O que, na realidade, explica bem a
presença de alguns anarquistas e militantes do PLM entre os zapatistas.
Infelizmente as coisas, em linha geral, não se encaminharam nesse sentido,
como vamos ver.


O ANARQUISMO FORA DOS CAMPOS DE BATALHA - A ALIANÇA COM A BURGUESÍA
CAPITALISTA - A DECADÊNCIA

Frente à grande massa de trabalhadores rurais, em 1910, a classe operária
mexicana era coisa muito pequena, numericamente falando, mas durante a
Revolução acentuou-se notvelmente o seu nível organizativo. Os esforços
combinados dos operários mexicanos e de um grupo de exilados espanhóis
membros da CNT levaram em 1912 à criação da primeira central sindical, a
Casa del Obrero Mundial (COM). Organização ao nível nacional, de
orientação anarcosindacalista, que entre 1912 e 1918 hegemonizou o
movimento operário mexicano. A COM entrou em contacto operativo com o
Grupo Luz cujo membro mais notável era Juan Francisco Moncaleano. Este
grupo de anarquistas expressou muitas das ideias fundamentais da COM no
Manifesto Anarquista del Grupo Luz.
Francisco Madero não foi muito liberal com a COM: fechou-a, suprimiu o
órgão de imprensa dela, aprisionou os líderes sindicais e exilou os
membros estrangeiros. Paralelamente apoiou, em oposição à COM, a muito
menos activa Gran Liga Obrera.
Ele não teve o tempo necessário para uma luta de longa duração contra os
anarcosindicalistas, mas com Huerta as coisas foram muito piores, sendo o
general um antagonista absoluto do próprio conceito de movimento operário,
tendo as mãos mais livres do que Madero e usando-as com máximo prazer. A
COM, que entretanto se tinha reforçado, teve a audácia de convocar para o
1° Maio do 1913 em Ciudad de México uma grande manifestação comemorativa
dos mártires de Chicago, que juntou pelo menos 20.000 pessoas. Seguiram-se
detenções "aos molhos" e Huerta, da mesma maneira que Madero, tentou dar
vida a organizações rivais da COM.
Caído Huerta, a COM ficava frente de um dilema que não se apresentava
fácil: apoiar Villa, Zapata ou Carranza? Problema de extrema delicadeza
política, porque o seu resultado teria produzido conseqüências de longa
duração e, por isto, os eventuais erros seriam fatais. O que realmente
aconteceu.
Os mais próximos da COM eram Zapata e seus guerrilheiros camponeses, nada
fechados em relação aos problemas dos trabalhadores urbanos. A 7 de
Novembro de 1915, nos territórios do Sul controlados pela guerrilha
zapatista, foi publicada uma Ley del Trabajo que previa o dia de trabalho
de 8 horas, a proibição de trabalhar para os menores de 14 anos, a entrega
da administração das fábricas às cooperativas de trabalhadores, o salário
mínimo garantido. Estas normas nasciam do coração mesmo da revolução
rural, duma matriz comunalista indígena. Por isto, não se movia nas
diferentes ópticas urbanas da COM e formando-se autonomamente, não tinha
em conta problemas como o controle das propriedades estrangeiras, a
igualdade de tratamento e salário entre os trabalhadores mexicanos e
estrangeiros, o direito de greve e a criação dum estatuto de protecção
para os sindicatos. Todas estas coisas, naturalmente, faziam parte da
bagagem da COM, que o programa zapatista não tinha, mas às quais não se
opunha, de qualquer maneira.
Não há dúvida de que se podiam intergar pacificamente e completarem-se os
dois programas, bastava que a COM apenas tivesse querido perguntar isto,
mas..., havia um "mas", e que teve um peso decisivo: a maioria dos
zapatistas cultivava sentimentos religiosos, então... o jogo estava
decidido!
A conclusão -fatal para o movemento operário- foi que, entre a aliança com
revolucionários inflexíveis como os zapatistas mas não ateus, e a aliança
com a burguesia capitalista agrária e urbana, representada por Carranza, a
ateísta pureza anarquista da maioria dos membros da COM escolheu este
último! E assim amadureceu uma oposição, também violenta e militar, entre
movimento operário organizado e camponeses revolucionários.
Esta escolha não foi bem digerida por todos os membros da COM, como se viu
quando - fugido Carranza da capital e chegadas as tropas de Villa e Zapata
- os membros da COM dividiram-se em três grupos: a maioria estava com
Carranza, muitos da minoria uniram-se a Villa e o resto a Zapata, entre os
quais Antônio Díaz Soto y Gama e Luís Méndez.Na realidade, foi Carranza que usou os seus novos e temporários aliados
anarcosindicalistas. Pela ajuda militar contra Villa e Zapata (para
Carranza, vital), concedeu-lhes carta-branca na organização do trabalho:
mas esta era sempre revocável, uma vez consolidado definitivamente o poder
dele. Os anarcosindicalistas aliados a Carranza formaram os famosos
"Batalhões Vermelhos" que participaram imediatamente nas batalhas contra
os zapatistas nos arredores da capital.
Alguns historiadores modernos tentaram dar uma explicação/justificaão
desta aliança - indubitavelmente antinatural no plano das premissas e dos
objetivos - sublinhando que o mundo da comercialização e industrialização
que Carranza e os seus representavam e promoviam, em substância era o
mundo onde trabalhavam e viviam os operários urbanos. Mas é significativo
que, da prisão dos EUA onde estava novamente detido, Ricardo Flores Magón
tenha condenado violentemente o acordo com Carranza, afirmando que assim
os anarcosindicalistas se venderam.
Certamente, naquela altura eles receberam alimentos, dinheiro,
equipamentos, sitios onde reunir-se, liberdade de imprensa e acção mas,
como notou a posteriori Rosendo Salazar (um dos membros da COM que foram a
favor do acordo) por aquela escolha, a COM tinha assinado a sua condenação
a morte e tinha traído, por outro lado, os seus próprios princípios a
troco de vantagens de curta duração.
A evidência da anomalia desta aliança entre o Carranza e a COM está nos
fundamentos do conceito político do próprio Carranza e que ele não
escondeu a ninguém. O futuro do México, para ele, estava representado pela
empresa capitalista, a propriedade privada dos meios de produção, o
individualismo social, o Estado forte que, juntamente com as élites
económicas iria dar prontamente bem-estar às massas.
Os problemas entre o Departamento do Trabalho de Carranza e a COM
começaram cedo. Em 1916, foram dissolvidos os Batalhões Vermelhos, houve
um período de greves entre o fim de 1915 e o princípio de 1916 e depois da
desvalorização do peso mexicano e das agitações que isto causou, chegou-se
à luta final entre Carranza e a COM, luta cujo resultado era muito
previsível.
A COM no mês de Julho de 1916 apelou à greve geral, com uma participação
maciça dos trabalhadores e Carranza enviou as tropas para ocupar as sedes
da COM e aprisonar os membros da sua Direcção. Em todo o país, os soldados
desmantelaram os sindicatos aderentes à COM e aprisionaram os seus maiores
expoentes; os governadores dos Estados e os chefes militares receberam a
ordem de apreender toda a literatura subversiva em circulação e, se
possível, de aprisionar os autores.
Tudo isso sem tiroteios - embora Carranza tenha feito ressuscitar uma
velha lei de 1862, que assimilava a greve à traição, com a sanção da pena
de morte - só porque, inesperadamente, os tribunais militares absolveram
os promotores da greve.
Assim a derrota dos anarcosindicalistas ex-aliados de Carranza foi total.
Os outros seguiram o seu destino nas hostes de Villa e Zapata.
Em 1921, depois da matança de Carranza, alguns membros da velha COM,
aderentes ao sindicato IWW e elementos de orientação comunista fundaram a
Confederación General del Trabajo (CGT), imediatamente hostilizada pelo
governo, que impediu até de usar o serviço postal para distribuir o jornal
confederal Via Libre.
O governo dirigiu os seus favores à Confederación Obrera Regional Mexicana
(CROM), na pragmática óptica carranzista de que (ao contrário de Huerta)
assumia a moderna inevitabilidade dos sindicatos e preferia tentar a carta
da subordinação deles, em vez de os destruir. Para este objetivo, a CROM
era ideal: oportunista, orientada para uma conciliação entre trabalho e
capital, promotora da profissionalização da burocracia sindical. A CGT era
- e foi pelo menos até o 1930 - um sindicato libertário, programado para a
acção directa, sem burocratização, em que as responsabilidades eram
voluntária e gratuitamente assumidas, com democracia directa, consenso
como meio principal para tomar as decisões, autonomia em relação ao Estado
e aos partidos, antinacionalista e favorável à socialização dos meios de
produção.
Um dos apoios delas era a Federación Comunista del Proletariado Mexicano
(FCPM), organização libertária fundada no 1920, conhecida por ter usado os
piquetes pela primeira vez durante as greves, para impedir a entrada nos
estabelecimentos.
Os anos 20 foram um período negativo, crucial para o anarquismo mexicano.
Zapata morto, em 1919 e vencidos os revolucionários rurais do Estado do
Sul; morto na prisão nos Estados Unidos, Ricardo Flores Magón; viragem à
direita de 360° feita por Soto y Gama, que foi eleito deputado e num
discurso parlamentar pontificou sobre a impropriedade do socialismo em
relação às necessidades do México; Antonio Villa Real que se tornou
secretário do Ministério da agricultura; etc..
Além disto, em 1930, começaram a enfraquecer-se os ideais libertários e os
dirigentes da CGT ficaram mais sensíveis à corrupção exercida por
políticos e patrões, chegando a dar cobertura sindical às práticas de
despedimenro. No entanto, a CROM tentou subtrair espaços de hegemonia à
CGT.
Para se assistir a uma renovação dos ideais anarcosindicalistas deve-se
esperar até à constituição, em 1941, da Asociación Mexicana del Trabajo
(AMT), que sobreviveu até aos anos '70, e cujo lugar foi tomado
sucessivamente pela Frente Auténtico del Trabajo (FAT), onde ainda hoje
actuam uma parte dos libertários mexicanos, presente mais ou menos em 15
Estados, organizada em assembleias, favorável a um socialismo
autogestionario, e cuja actividade está baseada em quatro sectores
básicos: operário, urbano, rural e cooperativista. Em várias ocasiões
participam nas lutas organizadas pelos coletivos anarquistas.

Em termos de saldo material o balanço do anarquismo na Revolução mexicana
aparece certamente negativo. Derrotados os zapatistas, anarcosindicalistas
urbanos aliados com Carranza (vimos os resultados), fracassos na acção do
PLM e da COM, ausência forçada de Ricardo Flores Magón durante os
acontecimentos revolucionários, deriva conservadora dos vencedores
burgueses na Revolução. Positivos, ficam o papel dos magonistas na
preparação da luta contra Porfírio Díaz e o semi-anarquismo do movimento
zapatista. Contam-se heróis e mártires, não vencedores.
Mas, se é verdade o que disse Ernesto Guevara - "as batalhas vencem-se
sempre" (porque só as não combatidas constituem uma derrota seca) - então
devemos dizer que no México não morreram os ideais anarquistas e
libertários: as bandeiras (e os ideais) do magonismo e do zapatismo
voltaram hoje a ondular nas lutas sociais mexicanas. Mas isto são coisas
recentes e não sabemos se premonições, ou não, duma revolução futura.



BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

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York 1969.J. WOMACK Jr. Zapata y la Revolución Mexicana, New York 1968.





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