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(pt) Terra e Liberdade! -- A Insurreição dos Povos frente ao Colonialismo e aos Impérios -- Resoluções do VII Congresso da União Popular Anarquista III. (3/3)

Date Tue, 4 Aug 2020 09:20:08 +0300


3.3 A ofensiva genocida, ultraliberal e clerical do governo Bolsonaro ---- Apesar de ser vendido como "outsider" e "antissistema", as bases de sustentação do governo Bolsonaro/Mourão estão totalmente estabelecidas entre os setores da "velha política", quer dizer, os poderosos e exploradores de sempre. A agenda conservadora imposta por esse bloco ultraliberal, teológico e militarista em nome do máximo lucro da burguesia significará o aumento da repressão e o genocídio do nosso povo, a superexploração e a precarização das condições de trabalho e a expropriação dos trabalhadores e povos do campo. ---- O terrorismo de Estado que impõe o genocídio e o controle no campo e na cidade, tende a assumir as feições de uma guerra colonial aberta (contrainsurgência). As forças de repressão devem agir sob as orientações de uma guerra de extermínio contra o povo negro, favelado, camponeses, povos indígenas, quilombolas e comunidade tradicionais.

Na mesma direção, as milicias vem aumentando seu poder de influência sobre os territórios das periferias e avança a institucionalização dos jagunços do latifúndio. A mudança das normas de posse de armas em propriedades rurais, o pacote anticrime (aprovado com o apoio da esquerda institucional), a criação da Força Nacional Ambiental e os decretos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) são algumas das mudanças que têm aprofundado os mecanismos de violência estatal-colonial sobre o povo.

A militarização também tem se estendido para as escolas e demais órgãos públicos. Além do programa federal de militarização das escolas, uma série de governos tem feito programas estaduais, inclusive governos do bloco socialdemocrata, tais como Bahia e Ceará. Nas universidades e instituto técnicos federais o governo tem desconsiderados as consultas eleitorais de reitorias e direções e imposto interventores. Além disso, o fenômeno da "militarização" das igrejas completa o quadro ideológico de reforço do militarismo entre os mais pobres.

Esse recrudescimento da repressão e do Estado policial-penal é a base principal sobre a qual se estrutura toda a agenda entreguista e neoliberal. Relacionada a essa política de contrainsurgência, avançam estratégias tipicamente coloniais de catequização, modernização e expropriação dos territórios indígenas, camponeses e quilombolas. Em julho de 2019, por exemplo, garimpeiros armados com metralhadoras invadiram a aldeia indígena Waiãpi, na região de Pedra Branca do Amapari, no Amapá, matando o cacique Emyra Waiãpi.

Junto a guerra suja da polícia e dos jagunços, o bloco no poder impulsiona no Congresso Nacional diversos projetos que reforçam a impunidade e a legalização das práticas colonialistas mais vis de ataque aos povos do campo, como o caso do PL 191/2020 da mineração em terras indígenas; da MP 910/19 que facilita/legaliza a grilagem de terras aumentando a pressão e a violência especialmente sobre a fronteira agrícola; do Decreto nº 10.252 que extingue o Pronera; da redução de investimentos para a "agricultura familiar" tal como o PAA; mercantilização das terras de reforma agrária aumentando a pressão sobre os camponeses no sentido da desterritorialização; flexibilização do controle e liberação de agrotóxicos: alteração da legislação ambiental; etc.

O bloco socialdemocrata, através dos governos estaduais, também tem dado continuidade ao modelo neoextrativista. No Ceará, o governo de Camilo Santana (PT) em articulação com o empresariado aprova a liberação de uma nova termelétrica fóssil que vai gerar impactos climáticos e socioambientais em uma região do estado que já vem sendo devastada por complexos industriais.

No Maranhão, o governo de Flávio Dino (PCdoB), em articulação com a burguesia industrial e extrativista, tem realizado uma política de violência e expropriação contra comunidades locais ocasionada pela concessão aos EUA da base de Alcântara (em acordo com Bolsonaro), a duplicação da BR-135, a construção de uma linha de transmissão de energia e de um porto privado internacional (com a multinacional chinesa CCCC).

Na Bahia, o governo Rui Costa (PT) também está por trás de uma série de ataques aos povos do campo, tal como a reintegração de posse de mais de 700 famílias sem-terra em novembro de 2019.

Há uma tensão entre a burguesia rural e os caminhoneiros que se expressa no tabelamento do frete criado pelo presidente Temer para tentar acabar com a greve dos caminhoneiros. A burguesia rural ataca o tabelamento do frete uma vez que encarece o custo do seu produto no momento do escoamento. Mas o governo Bolsonaro, alertado pelos serviços de inteligência sobre a insatisfação entre caminhoneiros tem evitado eliminar o tabelamento. De todo modo, o governo Bolsonaro já informou que o objetivo é "desmamar" os caminhoneiros pouco a pouco. Isto é, acabar com a tabela do frete tão logo seja possível para atender as reivindicações da burguesia rural, o que pode abrir novos conflitos.

Além destas tensões, a burguesia rural também tensionou com Bolsonaro a inciativa de mudança da embaixada de Tel Aviv para Israel. A Brfood (Sadia e Perdigão) chegou a dizer publicamente que esperava mais moderação do presidente, uma vez que tal feito poderia gerar retaliação dos países árabes na exportação de produtos brasileiros. O mesmo tem ocorrido nas relações externas com a China e o Irã, grandes importadores de commodities agroenergéticas do Brasil.

Neste mesmo sentido, a burguesia rural tensionou com Bolsonaro no momento da crise da Amazônia. A ameaça por parte de grandes empresas internacionais de embargar a compra de grãos e couro fabricados aqui, fez com que diferentes organizações e empresas da burguesia rural pressionassem Bolsonaro para mudar a retórica sobre a Amazônia e implementar também alguma política de controle das queimadas.

Mesmo sendo estas empresas as responsáveis pelas queimadas, o risco de perda de exportação gerou tensão com o modo como Bolsonaro infla o problema e gera desgaste internacional. Compreendemos melhor essa questão dentro do quadro de tensões do neoimperialismo e do discurso "ambientalista" como regulador das estratégias de poder e acumulação de capital. O governo se utilizou da ocasião e da retórica ambientalista para aumentar a repressão ao campesinato através da criação da Força Nacional Ambiental e o decreto da GLO na Amazônia.

As políticas do governo Bolsonaro têm gerado impactos profundos para as condições de trabalho. A taxa de desemprego atingiu 12,7% no primeiro trimestre de 2019, o que representa 13,2 milhões de trabalhadores. A população de desalentados também subiu para 4,9 milhões de pessoas, e o índice de subutilizados também cresceu. As mulheres e pessoas com 40 anos ou mais são a maioria de desempregados. A região com maior número de pessoas desempregadas é o nordeste (IPEA). Em julho de 2019, o trabalho informal apresentou recorde com 24,2 milhões, tendo havido um aumento de 3,9% (441 mil pessoas) frente ao trimestre anterior.

Somando-se aos ataques efetivados pelos governos petistas (reformas da previdência, trabalhista, etc.), pela "Agenda Brasil" do governo Temer (tal como EC 95 e Reforma Trabalhista), o governo Bolsonaro em apenas um ano - diante da covardia e apatia das burocracias sindicais - avançou na dilapidação dos direitos do povo.

Em abril, o governo editou a MP 881, conhecida como "nova reforma trabalhista" que, dentre outras coisas, liberou o trabalho aos domingos e feriados, flexibilizou regras de segurança e saúde do trabalhador, etc. A reforma da previdência, que havia sido barrada pelas greves e lutas durante o governo Temer, foi aprovada em outubro de 2019 atacando a aposentadoria e seguridade social dos trabalhadores. Ainda a MP 905 altera mais de 86 itens CLT e cria a "carteira de trabalho verde e amarelo", ampliando formas precárias e temporárias de trabalho, principalmente para os jovens marginalizados. Ao mesmo tempo, o ajuste fiscal acaba por desgastar mais ainda o precário serviço público, cujo usuário fundamental é o proletariado marginal.

Assim, os serviços de saúde e educação torna-se mais precários, potencializando a revolta da massa do proletariado marginal e também dos trabalhadores do serviço público e estudantes. O ajuste fiscal afetou todas as áreas, com exceção daquelas que sempre foram privilegiadas: o judiciário e o legislativo. Todas essas medidas que impõe exploração e miséria ao nosso povo buscam atender a ganância das frações burguesas (financeira, industrial, rural, comercial) que apoiam o bloco no poder.

Na Educação, a política foi de perseguição a professores, ameaça à liberdade de cátedra, e até a invasão de universidades. A educação sozinha representa 18% do total do contingenciamento (corte de bolsas, finais de programa, etc.). O PL Future-se é a grande arma para transformação dos modelos de educação que temos hoje, pois altera 16 leis nos mais variados ângulos da educação, propõe mudanças na LDB, na ciência e tecnologia, na comercialização da energia elétrica, cultura, de normas tributárias, organizações sociais, carreira de magistério superior e EBSERH.

Em janeiro de 2019, o Congresso aprovou o corte orçamentário de R$ 1 bilhão para a saúde pública, sendo o prenúncio de um ano de desmontes e retrocessos. O governo Bolsonaro impôs uma série de obstáculos aos usuários do SUS. Com menos dinheiro, as consequências eram inevitáveis: hospitais sucateados, menos servidores em campo, remédios em falta. A saúde indígena também sofreu ataques do governo. O próprio ministro da Saúde, Luiz Mandetta, chegou a propor a cobrança de atendimento no SUS.

O arrocho financeiro impactou no fechamento de 400 farmácias populares desde 2016, deixando de atender milhões de pessoas. Durante 2019, o Ministério da Saúde também suspendeu o contrato com sete grandes laboratórios públicos, usados para a produção de 19 medicamentos distribuídos pelo SUS. Além disso, na contramão da saúde do povo, o governo liberou a maior quantidade de agrotóxicos dos últimos 14 anos.

Ao observar os gastos autorizados no início do ano e os cortes para o contingenciamento, a área mais afetada foi a habitação, com corte de 90% dos recursos. A segunda área mais afetada foi a dos Direitos da Cidadania, com cortes de 27% dos recursos autorizados, nela se concentram as políticas voltadas para as mulheres, população indígena, negra, imigrantes, consumidores e pessoas com deficiência. Os programas que mais sofreram nessa área, foram: Justiça, Cidadania e Segurança Pública (com corte de 44,9%) e o Programa de Proteção e Promoção dos Direitos dos Povos Indígenas.

Em relação a política entreguista do bloco conservador é importante dizer que, apesar de seguir alguns aspectos de continuidade com o bloco socialdemocrata, ela amplia ainda mais as privatizações de setores estratégicos e termos de contratos que visam favorecer preferencialmente os EUA, mas também China, Reino Unido, França, etc.

De 2013 a 2018, cerca de 400 empresas brasileiras foram compradas pelo capital estrangeiro, que desembolsou aproximadamente 133 bilhões de reais para as aquisições, segundo dados da Transactional Track Record (TTR). Entre os principais compradores, estão os EUA com 75 operações; China, 23; França, 22; Reino Unido, 20; Alemanha, 17. Dados da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet) dão conta de que, em 2010, o capital estrangeiro respondia por 27% dos investimentos privados em infraestrutura no Brasil, o que em 2018 subiu para 70%. Pelas contas do governo, de 2009 para cá, quase metade do dinheiro chinês investido no Brasil foi para o setor elétrico, por exemplo.

Segundo a plataforma Land Matrix, o Brasil está entre os cinco países com maior área de terras agrárias vendidas a estrangeiros entre 2000 e 2015. As áreas preferenciais têm sido em Mato Grosso e Matopiba (principal fronteira agrícola no Brasil). Este conjunto de dados apontam uma política de privatizações ou fusões, o que contribuiu na formação de monopólios globais, com desnacionalização de terras e riquezas e superexploração da classe trabalhadora.

A sinalização do governo Bolsonaro para as privatizações de empresas inclui desde os Correios, Embraer, passando por Serpro e Dataprev (com enorme e inestimável banco de dados nacional, hoje importante mercado), presídios (como os pretendidos por Dória em SP, para maior lucro e disciplina no "mercado de presos") até a tão pretendida Petrobras, que já vendeu subsidiárias e leiloa exploração no pré-sal. Privatizar e desnacionalizar tem relação forte com os pacotes de reformas aprovadas e em andamento, como a da Previdência, a Trabalhista, a Tributária.

Há também a ascensão do poder clerical na sociedade e no Estado. Aqueles que vem sofrendo mais com o aumento desse poder são as populações negras e indígenas, vítimas de extorsão econômica (gerando uma desigualdade de renda gritante entre crentes e pastores), de discriminação religiosa (que envolve desde projetos de catequização à ataques físicos a símbolos/espaços de religiosidades de origem africana e indígena) e dominação patriarcal (negando a autonomia feminina sobre o seu corpo, trabalho e território). O poder clerical ganha cada vez mais espaço em instituições e políticas de governo, em escolas, universidades, políticas de saúde, políticas antidiscriminatórias, políticas para a infância e adolescência, etc.

É fundamental que a linha sindicalista revolucionária defenda a livre crença e não coloque os aspectos morais e religiosos como primeiro plano da união popular. Mas isso não significa que a estrutura de poder clerical não deva ser combatida. Assim, não se pode fechar os olhos para a violência patriarcal, mercantilista e racista (enfim, colonial) aprofundada pelo poder clerical, especialmente sua fração neopentecostal-sionista.

Não podemos desconsiderar o papel real e nefasto que cumpre as estruturas desse poder no reforço de preconceitos e discriminações entre o povo, que têm sido promovidos e inculcados pelas instituições religiosas. O fato de crentes pobres reproduzirem esses preconceitos não indica que sejam opressores, mas que vivem sob um regime de opressão. O trabalhador crente também é uma vítima desse poder clerical. Daí a importância de construir estratégias que impulsionem a resistência e minem esse poder, colocando as próprias bases religiosas contra os seus algozes e opressores.

4. Linha de massas: cenários e estratégias de resistência

A conjuntura nacional aponta para o acirramento dos conflitos da classe trabalhadora com o Estado e com a burguesia. Ao contrário do alarmismo das organizações e da militância socialdemocrata, o povo não se encontra nem apático, nem defendendo o ideário fascista. O ciclo de lutas iniciado em 2013 ainda não se encerrou e a tendência é de emergência de novas revoltas e lutas. Encontramos, na luta de classes, o desenvolvimento das forças pela liberdade em oposição ao avanço das forças da autoridade. Ao contrário, por parte da socialdemocracia, o que temos visto é a mais aberta capitulação diante das forças reacionárias e burguesas.

Ainda assim, a classe trabalhadora continua lutando. O movimento indígena tem se mostrado um dos principais protagonistas do enfrentamento contra o governo Bolsonaro, assim como foi ao avanço do neoextrativismo nos governos do PT. As "retomadas" de suas terras ancestrais, sem espera pela tutela estatal, são o ponto mais avançado da ação direta por terra e liberdade hoje no Brasil. Essa tática de luta pela terra precisa ser fortemente apoiada, expandida e impulsionada para outros setores do campesinato.

Além disso, o proletariado marginal tem gerado lutas mais ou menos espontâneas e auto-organizadas, por parte de famílias de jovens assassinados e encarcerados, por parte de ambulantes em luta pelo direito de trabalhar, além dos trabalhadores terceirizados, de aplicativos, de call centers e de supermercados, que também tem experimentado novas formas de luta e organização.

A política neoliberal e interventora de cortes na educação, saúde e retirada de direitos de forma geral também levou a lutas e greves contra a reforma da previdência (tanto a federal como as estaduais), lutas contra os cortes na educação, contra o Future-se e pela autonomia universitária (com destaque para o ato do dia 30/05, que surge por fora das burocracias sindicais), uma greve nacional histórica dos petroleiros, greves de professores, dentre outras.

A principal estratégia da socialdemocracia nessas lutas foi impor ao movimento sindical-popular uma linha política passiva e condicionada à atuação de seus parlamentares e à sua participação eleitoral em 2020 e 2022. Na prática, as centrais sindicais hegemônicas foram fundamentais para desorganizar a resistência e garantir a aprovação das medidas anti-povo. A atuação das centrais se deu em três sentidos:

1) Por um lado, tomaram a iniciativa de convocar alguns atos e dias nacionais de lutas, impedindo que alternativas mais autônomas surgissem; 2) Por outro lado, agiram ativamente para que os atos fossem mal preparados, esvaziados e que não expressassem, em sua forma e conteúdo, um antagonismo efetivo e direto com o governo e as estruturas de poder; 3) Atuaram para que a insatisfação em alguns setores da classe não se tornasse uma onda de greves ou para que fosse canalizada para uma grande caravana de todo país para marchar em Brasília, tal como o Ocupa Brasília em 2016.

Essa prática da socialdemocracia tem deixado clara a sua estratégia: desgastar a imagem do governo Bolsonaro através de ações de massas simbólicas e explorar as contradições midiáticas e parlamentares, reproduzir uma sensação geral de medo e de impotência na sua própria base e na classe de forma geral e buscar canalizar toda essa insatisfação e revolta contra o governo para as próximas eleições. Para o PT e o PCdoB, é melhor que essas demandas anti-populares sejam aprovadas agora e desgastem a imagem de Bolsonaro do que elas sejam barradas e recaiam como demanda para um possível governo petista sucessor. Por isso, o discurso hegemônico do petismo tem sido o de respeitar o mandato de Bolsonaro e "dar o troco" nas próximas eleições.

A questão central é que o custo dessa estratégia eleitoreira das burocracias sindicais e partidárias é o sangue, o suor e o sofrimento do nosso povo. O ponto de descrédito que chegou a política eleitoral no Brasil exige uma estratégia, por parte da socialdemocracia, que forme uma base em absoluto desespero e indignação com o governo, mas, ao mesmo tempo, com um sentimento de impotência coletiva. Esse cenário é perfeito para o elitismo reformista, que se apresenta como um "salvador da pátria". A máxima imperial de "dividir para governar" serve para Bolsonaro, mas também para a socialdemocracia. O petismo-reformismo precisa governar o movimento de massas (dividi-lo, pacificá-lo, centralizá-lo) para alcançar novamente o governo federal.

A crise do sindicalismo de Estado e da socialdemocracia é estrutural. Ambos dependem da classe trabalhadora inserida de modo não precário no emprego. A flexibilização das formas de trabalho, como terceirização, subempregos com alta taxa de rotatividade, a burocratização dos sindicatos e partidos que deixam de ser máquinas de enfrentamento para se tornarem máquinas eleitorais e o afastamento de suas bases, colocam estas formas tradicionais de organização em crise. Este vazio de organização, combinado com a insatisfação difusa e generalizada, faz com que os levantes sejam, em geral, mais ou menos espontâneos e explosivos.

Os partidos de esquerda são incapazes de impulsionar esta insatisfação popular. Longe disto, eles continuam tentando salvar as instituições, fazendo uma leitura política que opõe a defesa da democracia e o fascismo, a barbárie e a civilização, o amor/tolerância e o ódio. Ao tornarem-se os defensores do status quo, se tornam incapazes de andar no sentido dos instintos populares de insatisfação com a ordem. E esta postura tem muito a ver com o próprio caráter de classe da esquerda partidária, vinculada muito mais a uma aristocracia intelectual e operária que, por suas próprias condições de vida quer manter o que possui e é refratária às revoltas insurgentes, as quais despreza e, ao mesmo tempo, teme.

O sindicalismo revolucionário tem agora um grande campo para crescer. Mas, para tanto, precisa se distinguir claramente da socialdemocracia. Não podemos nos deixar capturar pela polarização (petismo x bolsonarismo) que tende a crescer em ano eleitoral. Não podemos cair no discurso da defesa abstrata da "democracia", pois isso implica em desorganizar o trabalho preparatório de resistência (ideológico e organizativo) necessário para o enfrentamento da ofensiva que já está sendo realizada e será aprofundada. A defesa abstrata da "democracia" tem se mostrado uma narrativa que significa basicamente o retorno do bloco socialdemocrata ao poder. Não tem significado nenhum avanço real em direitos para a classe trabalhadora. Ao contrário, os reformistas têm, por todo lado, feito conchavos com o bloco conservador e inclusive apoiado o seu programa quando estão nos governos estaduais.

Por outro lado, o senso comum de votar no "menos pior" evidencia um certo limbo da política brasileira. Ao mesmo tempo que expressa uma crítica aos candidatos (todos são ruins), se coloca em posição de impotência e passividade, na qual o adesismo ao "menos pior" seja a única postura possível para impedir que o "inimigo" (o "mais pior") assuma o poder. O anti-bolsonarismo e o anti-petismo surfam nessa falta de uma alternativa real para a classe trabalhadora. O que a crise política e o primeiro ano de governo Bolsonaro tem demonstrado é que a maior ameaça para o projeto da socialdemocracia não é o bolsonarismo (e vice-versa), mas a emergência de uma força coletiva autônoma do proletariado que seja impossível governar ou destruir.

Por isso, a missão dos anarquistas para o próximo período é exatamente fortalecer essa força coletiva. Ela não será "criada" do nada, ela já existe em estado potencial nos saberes e práticas da classe trabalhadora, ainda que com várias contradições. A sua matéria prima são tanto as lutas e revoltas que tem surgido por fora das burocracias quanto as lutas dirigidas pela burocracia sindical. No primeiro caso, o papel dos revolucionários é mais construtivo e diretivo e, no segundo caso, é mais de oposição e aprofundamento da contradição entre direção e base. Além disso, existem demandas de sobrevivência da classe que impulsionam ações de solidariedade e mutualidade. Em todas elas existem contradições sobre as quais é possível atuar.

Todas as experiências de luta e auto-organização, por mais locais e diversas que sejam, são importantes na medida em que respondem a demandas reais do povo e devem ser canalizadas para o projeto estratégico comum de construção de uma Confederação Sindicalista Revolucionária de massas no Brasil. O tempo da dualidade "burocratismo x ativismo" acabou. Eles são faces da mesma moeda, assim como "lulismo x bolsonarismo". Essas falsas polarizações têm levado a classe trabalhadora para um "beco sem saída", pois se desenvolvem para a manutenção do sistema e afastam a classe trabalhadora da verdadeira luta pela sua libertação, a luta da liberdade contra a autoridade.

Apesar das grandes possibilidades que podem se abrir no próximo período, no curtíssimo prazo os cenários serão difíceis para as alternativas revolucionárias e combativas. Será fundamental uma luta de palmo a palmo, casa a casa, rua a rua, combatendo em duas frentes: a reação clerical militar-burguesa e o lulismo-reformismo que aposta suas fichas na administração do governo federal. A estratégia revolucionária é resistir localmente, seguir construindo nacionalmente e expandir a convocatória a todos os sinceros militantes e movimentos combativos do Brasil. É preciso fazer um apelo histórico para o rompimento com o isolamento, o ativismo e o burocratismo ao qual alguns setores combativos ainda estão atrelados.

É importante cada militante se atentar ao método materialista de mobilização, para não se expor e se isolar com um estilo clichê meramente agitativo, que serve apenas para "demarcar posição ideológica", mas que tem pouca efetividade para as tarefas da luta de massas. Contará mais a criação de meios concretos para, de fato, massificar os sindicatos revolucionários e autônomos (melhorar as formas de arrecadação, filiação, apoio jurídico, métodos de greves e lutas reivindicativas, etc.).

É importante aprofundar a transição na linha de massas de uma estrutura de "oposição" para a construção de verdadeiras organizações representativas que façam a luta reivindicativa. Para isso, é fundamental distinguir o papel do braço de massas e o papel da organização anarquista, sem querer transpor para o braço de massas as tarefas político-ideológicas da organização, pois isso gera, na prática, uma sabotagem do potencial de ambas.

É importante preparar mais do que uma campanha de boicote eleitoral para as eleições de 2022. O cenário mais provável será de uma forte polarização política "lulismo x bolsonarismo". É necessário aprofundar a luta ideológica e política, em cada base e região, sobre a construção do Congresso do Povo e das assembleias populares como verdadeira alternativa de contrapoder para a classe trabalhadora. A política revolucionária e anarquista de negação da via eleitoral exige um passo além, sob o risco de ser neutralizada pela polarização sistêmica: é necessário que se construa uma forte campanha nacional de construção do poder popular (Congresso do Povo) e de defesa dos direitos, em unidade com o boicote eleitoral.

4.1 Terra e Liberdade: a teoria e política bakuninista da questão nacional, anticolonial e internacionalista

Após a segunda guerra mundial, praticamente todas as revoluções populares instrumentalizaram de alguma forma a questão nacional (como na China, Vietnã, Cuba, Argélia, etc) mas, em sua maioria, degeneraram como revolução e se reintegraram ao sistema-mundo capitalista como nações subordinadas. Assim, não foram capazes de romper com a dinâmica internacional do imperialismo e da dependência. Estes movimentos de libertação nacional na periferia do sistema-mundo estavam influenciados seja por concepções socialistas (oriundas da 3ª internacional comunista ou da Tricontinental) ou do republicanismo/nacionalismo burguês, fato que não impediu a colaboração dessas duas linhas em diversos momentos históricos. Nesse sentido, cabe uma crítica teórica relativa a essa questão.

Em primeiro lugar, existe uma visão corrente de que o marxismo, pelo fato de possuir concepção economicista, teria alijado o debate da "questão nacional" e se centrado apenas na "questão de classe". Essa visão é equivocada, dado que Marx e Engels muitas vezes se posicionaram na política concreta a favor das nações economicamente desenvolvidas em detrimento das nações e povos oprimidos (como nos casos dos eslavos, da Índia e do México). Segundo, a virada orientalista delineada a partir da Revolução Russa de 1917, materializada na política para os países coloniais e semicoloniais da 3ª Internacional, ainda que represente um avanço em relação a socialdemocracia clássica, reproduziu visões etapistas que previam a aliança com a burguesia nacional e mantinham a perspectiva estatista de revolução.

Os debates trazidos pelo "pan-africanismo" e as teorias decoloniais são fundamentais por revelar a face da colonialidade e do imperialismo no século XXI, mas não necessariamente apontam para emancipações substantivas se continuarem a operar nos quadros das revoluções anticoloniais do século XX, nas quais tiveram origem. Os movimentos "pan-nacionalistas" (pan-arabismo, pan-africanismo, pan-eslavismo, pan-indianismo, etc), apesar de suas notáveis diferenças, tem como uma de suas principais características a constituição de ontologias centralistas fundamentadas na ideia de "Estado-Nação". Por outro lado, o anarquismo, surgido a partir e, ao mesmo tempo, da crítica ao "pan-eslavismo", oferece um paradigma científico e popular que, apesar de subalternizado historicamente, fornece uma crítica contundente ao paradigma centralista do Estado-Nação.

Frente ao processo de integração sistêmica dos movimentos de libertação nacional, acreditamos que as vias que reivindicam a autonomia dos povos "fora do Estado", como os zapatistas e curdos, com todas as suas contradições, respondem a um problema histórico do século XX e constroem novos caminhos para a autodeterminação e autogoverno dos povos-nações oprimidos. Nesse sentido, vemos uma conexão entre os dilemas pontuados pelos novos e periféricos movimentos de libertação nacional da atualidade com a elaboração da teoria bakuninista, elemento que pode oferecer novos paradigmas interpretativos e políticos para os movimentos de libertação dos povos-nações subalternos.

A elaboração político-teórica de Mikhail Bakunin traz importante contribuição sobre o problema da Questão Nacional. Bakunin produziu uma análise da resistência popular aos Estados imperiais europeus e seu papel colonial sobre os povos marginalizados do continente, principalmente camponeses e operários superexplorados de nações oprimidas. Esta perspectiva, constantemente esquecida, marca sua trajetória política e de todo um setor do movimento operário e socialista europeu, que passa da luta anti-imperialista, vinculada à luta pela liberdade dos povos-nações oprimidos, para a luta anti-estatista, revolucionária e socialista. Bakunin, no período que compreende 1848-1876, elabora uma dura crítica ao Estado-Nação apontando para a autodeterminação dos povos e da classe trabalhadora. Não à toa, no auge de sua atuação política, afirma: "sigo sendo francamente um patriota de todas as pátrias oprimidas" (BAKUNIN, Carta aos meus amigos da Itália, 1871).

A percepção de Bakunin acerca da Questão Nacional possibilitou que este desvelasse a estratificação da classe trabalhadora entre as nações centrais e periféricas, percebendo pioneiramente a formação do duplo mercado de trabalho vinculado às estruturas do colonialismo europeu, interno e externo. Muito antes de Lênin, Bakunin já havia percebido a formação de uma aristocracia operária nas nações imperialistas, ligada à consolidação dos Impérios, principalmente nos países germânicos-anglo-saxões, que se diferenciava da massa da classe trabalhadora superexplorada dos demais países.

Essa perspectiva o levou a defender, no nível teórico e prático, o papel protagonista das massas trabalhadoras das nações oprimidas (camponeses, servos, escravos e o proletariado "esfarrapado") na revolução social. A lógica que aplicou na análise de classes na década de 1860-1870 é profundamente semelhante à lógica que aplicou ao estudo da Questão Nacional em 1840. Assim, a luta do campesinato eslavo superexplorado e oprimido nacionalmente que aparece no primeiro momento, se desdobra teoricamente na defesa do protagonismo dos setores mais explorados na revolução social.

Um dos documentos centrais que sintetiza o pensamento de Bakunin neste período é o escrito "Aos Russos, Poloneses e a todos meus amigos eslavos" de 1862, que nos parece uma espécie de balanço do projeto organizativo e programático do Populismo Revolucionário. Neste documento, Bakunin aborda a criação do grupo Terra e Liberdade, o programa socialista e camponês, a ideia de federação em contraposição ao centralismo e a crítica à degeneração do movimento nacionalista polonês. Resumimos aqui as principais contribuições do que chamamos de "Populismo Revolucionário", sintetizado por seu lema principal "Terra e Liberdade":

a) crítica ao centralismo epistemológico e ao projeto de modernidade capitalista baseados nos modelos/povos da Europa ocidental presentes nos movimentos liberais e socialdemocratas;

b) incorporação dos saberes e lutas dos povos originários ao projeto revolucionário;

c) defesa da insurreição e da aliança camponesa-operária;

d) defesa de um socialismo de base agrário-camponesa;

e) defesa de uma federação das comunas camponesas;

f) direito à autodeterminação dos povos;

g) defesa do armamento nacional.

Não à toa o anarquismo se expandiu para os países periféricos e semiperiféricos no último quartel do século XIX, levando consigo a linha Populista e Sindicalista Revolucionária. Dessa tradição, vinculada ao populismo revolucionário, temos algumas experiências históricas que devemos ressaltar: o Magonismo e o Zapatismo na Revolução Mexicana de 1910, o papel da Makhnovitchina na Revolução Ucraniana de 1917-19, e o papel dos anarquistas na Comuna da Manchúria (Coréia) em 1929-1932. Todas sob o lema de "Terra e Liberdade", com forte conotação anti-imperialista e baseadas na construção de territórios livres defendidos pela insurreição camponesa, de caráter federalista e socialista.

Podemos dizer, então, que o anarquismo foi fruto de dois movimentos: a radicalização do populismo revolucionário russo e sua fusão com a corrente operária mutualista no interior da AIT, dando origem à ala coletivista ou socialista revolucionária. No encontro dessas perspectivas, se processaram as concepções fundamentais do anarquismo: a aliança operário-camponesa, o sindicalismo revolucionário, a revolução anti-capitalista, anti-estatista e, portanto, anticolonial, de baixo para cima e da periferia para o centro.

Em nossa visão, o populismo revolucionário está para o anarquismo da mesma forma que o sindicalismo revolucionário. Ambos os setores existiram na AIT (vide que as seções da AIT na Rússia e no leste europeu eram marcadamente influenciadas pelo populismo), mas só atingiram sua potência no início do século XX - o Populismo Revolucionário na Ucrânia, Manchúria e no México, e o Sindicalismo Revolucionário em todo mundo.

Dessa forma, o anarquismo funda uma linha integradora para as lutas de classes e para as lutas de libertação nacional. Mas nem sempre ela se desenvolveu unificada desta forma, e o caso do próprio México é emblemático, em que uma insurreição camponesa de caráter federalista e socialista, que alçou o lema populista "Terra e Liberdade", sob a liderança de Emiliano Zapata, sofreu com uma dura reação perpetrada pela burguesia em aliança aos "sindicatos revolucionários" operários que consideravam os camponeses insurgentes "conservadores" devido, entre outros elementos, à religiosidade popular.

A separação entre populismo revolucionário e sindicalismo revolucionário, levada a cabo pelas revisões feitas ao pensamento bakuninista, produziu processos de degeneração e isolamento do projeto revolucionário anarquista tanto na cidade como no campo. Assim, avaliamos que, entre outros elementos, a falta de uma rearticulação da linha sindicalista e populista revolucionária, na ideia de uma confederação de trabalhadores e povos livres em luta, foi uma das debilidades do anarquismo, em seu processo de expansão global no século XX, para intervir de maneira mais contundente nas lutas dos povos do terceiro mundo, e promover a articulação mais consistente da luta dos povos negros e indígenas a seu projeto revolucionário.

Ainda que tenham existido experiências nesse sentido, sua sistematização muitas vezes não foi realizada, ou precisa ser recuperada. O debate atual sobre a autodeterminação dos povos no interior dos movimentos indígenas e negros na América Latina pode trazer contribuições inovadoras para os dilemas dos movimentos de libertação nacional e social, e o anarquismo tem uma contribuição para esse processo, assim como deve saber aprender e integrar em sua perspectiva as experiências de luta dos povos-nações oprimidos em todo o mundo.

A derrota dessas experiências e o revisionismo operado na teoria anarquista relegaram a interpretação bakuninista da questão nacional ao esquecimento e à estagnação, muitas vezes transformando o internacionalismo em um princípio abstrato e distante dos povos colonizados, ou deixando-o ser capturado pela linha marxista ou liberal. Dessa forma, o anarquismo foi perdendo paulatinamente a capacidade de responder às demandas da luta de classes na periferia do capitalismo e abrindo brechas para as correntes estatistas, fossem nacionalistas ou comunistas, que tomaram a direção desses movimentos por volta da década 1930.

4.2 Construir a aliança revolucionária das classes trabalhadoras e povos oprimidos

Nessa conjuntura nacional e internacional, de ofensiva conservadora e de extrema direita, é fundamental retomar a crítica anarquista das experiências das frentes únicas antifascistas e anti-imperialista com as burguesias nacionais. Bakunin, Makhno e o Amigos de Durruti legaram um importante debate teórico-político sobre as alianças em torno de projetos nacionais-democráticos hegemonizados pela burguesia. É tarefa dos bakuninistas na atualidade contribuir teoricamente e politicamente com a defesa da intransigência de classe, contra as várias propostas de conciliação de classe "contra o fascismo" ou "em defesa da democracia" que tem surgido desde o início da crise da socialdemocracia no mundo e, mais especificamente, do lulismo no Brasil.

Tem sido reeditada a ideia de "frentes democráticas" entre partidos republicanos, socialdemocratas e direitistas com o objetivo de defender as instituições da democracia burguesa. Essa política de conciliação de classes não tem se restringido apenas ao campo eleitoral, mas também tem influenciado mais ou menos o movimento sindical e popular em todo o país. O que devemos reafirmar no movimento de massas é que a política de conciliação de classes e a desorganização e recuo da classe trabalhadora são consequências diretas da estratégia socialdemocrata (PT, PCdoB, PSOL, etc.), o que fortalece o avanço da extrema direita e da exploração do povo. O reformismo é a antessala do conservadorismo. Por isso, essas "frentes democráticas" não combatem o fascismo ou a ditadura em sua raiz, mas são somente estratégias para que os partidos da esquerda e da direita institucional retornem ao poder.

Além disso, frente a toda a ofensiva conservadora, existe uma demanda legítima pela organização de coletivos antifascistas. No entanto, esses coletivos "antifas" têm apresentado dois problemas: 1) sua captura pelas polarizações eleitorais, servindo muitas vezes de instrumentos do reformismo; 2) uma concepção do antifascismo baseada em um viés eurocêntrico e, as vezes, contracultural, que impede o seu avanço. É necessário um trabalho militante paciente, junto aos coletivos antifas e movimentos populares, que desmascare o oportunismo das "frentes democráticas" dos partidos socialdemocratas. Que deixe claro que ao se manter o compromisso com o desenvolvimento do estatismo e do capitalismo brasileiro, é impossível o combate real às raízes do militarismo, do colonialismo e do imperialismo.

Além disso, é fundamental nos atentarmos aos aspectos do colonialismo e imperialismo que impactam as estruturas de classes e étnico-raciais do Brasil. A linha anticolonial, classista e internacionalista que daremos continuidade e aprofundamento no próximo período se traduz na aliança revolucionária das classes trabalhadoras e povos oprimidos. Essa linha é local, nacional e internacional.

Olhando para a escala local, destaca-se a importância das ações nos nossos bairros periféricos, favelas e presídios, bem como junto às comunidades camponesas, indígenas e quilombolas. Esse trabalho não deve ser somente de fora pra dentro (do tipo assistencialista), mas deve ser uma verdadeira aliança e solidariedade revolucionária e classista entre cidade e campo. Reafirmamos a importância estratégica da defesa dos territórios indígenas, quilombolas, camponeses e periféricos para a luta contra o colonialismo interno.

Em segundo lugar, olhando para o território nacional, é fundamental expandir as formas de resistência e auto-organização popular para as cidades pequenas e médias e integrá-las ao movimento revolucionário regional e nacional. É preciso um método de construção da Confederação Sindicalista Revolucionária que abranja não apenas os trabalhadores urbanos ou assalariados, ou mesmo os grandes centros urbanos e capitais, mas que se expanda e agregue os movimentos do proletariado marginal, dos trabalhadores das pequenas e médias cidades e dos povos do campo, indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

Além disso, a importância geográfica nacional (não apenas setorial ou social) das cidades pequenas e médias é que elas são o espaço privilegiado para a consolidação da aliança operário-camponesa. Esses territórios periféricos no campo e na cidade concentram a ampla maioria do proletariado marginal e do campesinato, frações de classe estratégicas para a revolução brasileira, e, não por acaso, alvos prioritários da política militarista e colonialista do Estado.

Essa linha de articulação orgânica significa muito mais do que o reformismo (marxista ou libertário) tem feito com uma atuação de apoio a movimentos populares em paralelo e com status inferior ao das estruturas sindicais formais e oficiais. O fato é que o sindicalismo de Estado é parte do Estado colonial brasileiro. Ele é a estrutura hegemônica de controle e fragmentação do Estado sobre a classe trabalhadora. Assim, a linha de massa revolucionária deve necessariamente caminhar para articular uma pressão para a destruição do sindicalismo de Estado por dentro e por fora, com movimentos e federações autônomas.

O combate às estruturas e à hegemonia do sindicalismo de Estado no Brasil é uma tarefa irremediável e incontornável da construção da aliança revolucionária das classes trabalhadoras e povos oprimidos. A experiência dos governos petistas demonstrou o papel nefasto cumprido pela burocracia sindical e a aristocracia operária ao se integrar ao Estado e colaborar com as políticas neoextrativistas e industrialistas. Ainda hoje, em plena ofensiva conservadora, a política principal da aristocracia operária da CUT é a ilusão de um novo pacto de conciliação de classes que beneficie empresários e operários da indústria nacional. O nacionalismo, o desenvolvimentismo e o industrialismo são ideologias dessa aristocracia operária. Essas ideologias são absolutamente incompatíveis com as lutas e resistências anticoloniais dos povos.

Por último, essa linha de massas é internacional. Significa, na prática, que as organizações sindicalistas revolucionárias devem estabelecer diálogos e redes de solidariedade com as experiências de luta dos povos originários e movimentos populares nos países periféricos, tal como os curdos, zapatistas e mapuches. Essas redes devem evoluir, de acordo com as condições, para estruturas mais orgânicas de federações ou confederações regionais e internacionais de autogovernos, comunas e povos livres em luta, retomando para o século XXI a política histórica do bakuninismo.

Essa linha, tanto em escala nacional como internacional, significa uma ruptura com toda uma tradição de teorias socialdemocratas e comunistas que deturparam o princípio do internacionalismo a partir de concepções centralistas e eurocêntricas, especialmente a URSS que, no pior cenário, se direcionou para um "social-imperialismo". Além disso, ela rompe frontalmente com a polarização interimperialista EUA x China que tem capturado muitas organizações de trabalhadores para atuar como força de apoio de interesses burgueses e estatais, muitas vezes sob a farsa de "internacionalismo". Assim, o Internacionalismo Revolucionário, de baixo para cima, sem nenhum povo ou nação como central ou dominante sobre os demais, deve ser resgatado da tradição coletivista na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT).

Dentro dessa linha de massas, é essencial a incorporação e o impulsionamento das lutas feministas classistas, das camponesas, indígenas, negras, trans, trabalhadoras e estudantes pobres, como parte de um programa e estratégia revolucionária de combate ao patriarcalismo, ao colonialismo e ao capitalismo. A Revolução Integral, formulação teórica e política bakuninista, é a destruição de todos os sistemas centralistas de dominação e exploração que pesam hoje sobre as classes trabalhadoras.

Assim, a construção do autogoverno e do socialismo (bases da revolução integral) não é uma noção abstrata, mas significa a desconcentração global e radical da riqueza e do poder. Envolve, portanto, a transformação profunda, e como processo integrado, das relações assimétricas de gênero, étnicas, geracionais, culturais e discriminatórias de forma geral, junto com a destruição da propriedade privada e do Estado. Caso contrário, é uma farsa.

Dessa forma, as estruturas sistêmicas patriarcais não podem ser remediadas ou "desconstruídas" individualmente ou em abordagens separatistas ou reformistas. As mulheres trabalhadoras devem estar organizadas em fortes movimentos revolucionários, nos organismos de novo poder e autogoverno, nas assembleias populares, nas cooperativas de produção e distribuição independentes, nos sindicatos autônomos, etc. As lutas femininas indígenas e comunitárias na América Latina, as greves globais de mulheres, as grandes marchas pelos direitos reprodutivos e contra o feminicídio, os círculos de autodefesa, e outros, emergem no século XXI como importantes experiências para essa nova política antipatriarcal, anticolonial e anticapitalista das classes trabalhadoras e dos povos oprimidos.

A socialdemocracia, em seu processo cíclico de se inserir no sistema, abdicou da disputa ideológica e organizativa exatamente desses territórios e setores proletários marginalizados, moldando cada vez mais o seu perfil social e territorial a padrões pequeno-burgueses e metropolitanos. A socialdemocracia age assim por que o seu objetivo são os coeficientes eleitorais (visibilidade midiática, centros administrativos de poder, metrópoles, "digital influencers" da pequena burguesia, alianças com partidos burgueses, etc.). É uma decorrência do seu centralismo epistemológico e colonial.

A teoria e a prática socialdemocrata, portanto, nunca enfrentará verdadeiramente as estruturas de poder do colonialismo interno e do imperialismo a ponto de destruí-la. Ela cria, no máximo, uma alternativa não-hegemônica, mas nunca antissistêmica. Porque toda a sua teoria e política (inclusive territorial) leva à integração sistêmica e à abdicação do enfrentamento onde ele é mais necessário para quebrar as estruturas de dominação e exploração do colonialismo interno. Por isso, ela só vê a política territorial (da construção de um poder como disputas pelo controle de frações do espaço) como uma política de Estado, ou seja, para o momento em que ela própria assumir o Estado burguês e colonialista e organizar esse território de cima para baixo.

As jornadas de junho, as ocupações de escolas, as revoltas nas obras do PAC, a greve dos caminhoneiros, a revolta popular-camponesa pela água em Correntina (BA), e outras, demonstraram não apenas o potencial revolucionário de certas frações de classe, mas também a importância estratégica da descentralização e enraizamento territorial da insurgência pelo interior do país, já que o colonialismo interno age no território nacional preferencialmente pela apropriação de terras, água e minério, redes de transporte e infraestrutura, recursos distribuídos de maneira desigual pelo espaço geográfico.

As tarefas anti-imperialistas e anticoloniais da revolução brasileira só poderão ser plenamente cumpridas com o enraizamento territorial da insurgência que poderá propiciar, a médio e longo prazo, a insurreição geral do campo e da cidade. Para tal, é importante romper com essa política centralista e colonial da socialdemocracia. É preciso unir a estratégia, teoria e tradição do sindicalismo revolucionário às práticas e teorias de resistência dos povos oprimidos do Brasil. Nessa junção histórica, o território é essencial, e dele decorrem as possibilidades de autogoverno e autonomia.

A construção do Congresso do Povo e das assembleias populares e territoriais serão essenciais nesse processo. O tema dos territórios revolucionários (ou autogovernos populares) já aparece em Bakunin quando este coloca a formação de Governos Revolucionários Provinciais, Nacionais e Regionais como estratégia da Revolução Proletária Mundial.

Para os anarquistas revolucionários, é fundamental aprender, sistematizar e incorporar ao movimento de massas revolucionário no Brasil as experiências de resistência, auto-organização e mutualidade dos povos originários, populações negras, indígenas, ribeirinhos, seringueiros, camponeses, etc. Essas lutas étnicas e nacionais demandam um método de incorporação anti-centralista (organizativa e epistemologicamente) ao processo geral da revolução brasileira e mundial, absolutamente diferente das atuais abordagens socialdemocratas e comunistas, pós-modernas e neoimperialistas.

É fundamental desenvolver um trabalho político de massas que valorize e aprenda com a experiência de resistência e organização nas pequenas e médias cidades do Brasil, que caminhe para sistematizar os limites e possibilidades do trabalho revolucionário nestas formações sociais e geográficas. Existe um determinado perfil médio militante (daquilo que é definido como qualidade, capacidade, etc.), bem como uma série de simbologias, pautas de luta, etc. que não podem se manter inalteradas em relação a militância que se desenvolve nas metrópoles e aquele que se construirá nas cidades pequenas e médias.

4.3 Só o povo salva o povo: o mutualismo na política de massas classista, anticolonial e internacionalista

A criação de práticas e laços de solidariedade entre trabalhadores é parte da história da luta pela existência das classes trabalhadoras e povos do mundo, sem se restringir ao sistema capitalista ou aos trabalhadores assalariados. No Brasil, as experiências de solidariedade e apoio mútuo como expressões de luta contra os poderes dominantes estão presentes desde as resistências ao colonialismo e ao escravismo, são experiências históricas do nosso povo.

A luta insurgente de povos indígenas e negros contra o sistema colonial escravista no Brasil desenvolveu processos avançados de resistência e solidariedade, dos quais os quilombos são a maior expressão (mas também as greves negras, sabotagens, fugas, redes de apoio, etc.). Além disso, não podemos deixar de citar a tradição de apoio mútuo do campesinato, tais como as terras de uso comum e os mutirões.

O banditismo e o messianismo popular no Brasil também foram expressões de resistência e união da classe trabalhadora brasileira contra a opressão e a exploração. As associações operárias para o socorro mútuo no século XIX e XX também foram bastante fortes e estão na origem do sindicalismo revolucionário. A origem e crescimento das Ligas Camponesas nos anos 1940-50 ocorreu, não à toa, através do apoio mútuo para a garantia de caixões para os camponeses que morriam.

O mutualismo, assim chamado por Proudhon, é uma forma de expressão da capacidade dos próprios trabalhadores de se organizarem por si mesmos e futuramente substituírem as instituições do Estado e do capital pelas próprias organizações dos trabalhadores. As práticas mutualistas tiveram centralidade para a criação dos primeiros sindicatos no Brasil e em todo mundo. Caixas de resistências, cooperativas, restaurantes comunitários, escolas, atividades culturais e recreativas eram algumas das atividades responsáveis pela massificação dos sindicatos revolucionários, já que as bases sindicais eram majoritariamente de trabalhadores pobres. Muitas dessas praticas acabaram sendo absorvidas pelo Estado e algumas influenciaram as primeiras legislações social e trabalhista.

Com o refluxo mundial do sindicalismo revolucionário após os anos 30 (devido a vários motivos como a repressão, o revisionismo e outros), essas práticas diminuíram no campo do anarquismo e sindicalismo revolucionário, mas sempre estiveram presentes de maneira difusa nas práticas cotidianas de luta pela existência de trabalhadores pobres e povos originários.

Atualmente, no Brasil, as práticas tipicamente "mutualistas" são hegemonicamente controladas pelo Estado, pelas empresas, pelas Igrejas ou por máfias políticas e criminosas. São desenvolvidas de cima para baixo para a manutenção das relações de dominação e exploração sobre o proletariado marginal. Elas tendem a aumentar a dependência dos trabalhadores em relação aos centros de poder. Não são, portanto, práticas de fato mutualistas, no sentido atribuído pelo anarquismo: de união horizontal e autônoma entre os trabalhadores com o objetivo destes se apropriarem cada vez mais das condições de reprodução da sua existência.

Hoje, com o avanço do sindicalismo revolucionário, uma oportunidade importante se abre. Quando o bakuninismo nasceu no Brasil, o anarquismo tinha pouca ou nenhuma organização entre o proletariado marginal, o que hoje é uma realidade e potencialidade na nova estrutura de massas que vem assumindo os sindicatos revolucionários e autônomos. Mas ainda é preciso adequar a estrutura dos sindicatos ao proletariado marginal e não o contrário, o que é um processo que exige pensar em dinâmicas de assembleias, linguagens, pautas e táticas que facilitem o ingresso em massa do proletariado marginal e do campesinato nessas organizações.

Nisso reside a importância do mutualismo. A linha de massas deve dar a devida centralidade ao mutualismo como propulsor do sindicalismo revolucionário. É importante que as organizações impulsionem algum projeto mutualista ou que se integrem em projetos já existentes, buscando incorporá-los ao sindicalismo revolucionário.

Existem várias demandas sociais, a depender da regi ão e da categoria, como cozinhas sociais, centros de cultura, caixas de resistência, fundos de greve, práticas esportivas, bolsas de trabalho, lavandarias comunitárias, cooperativas de produção ou de consumo, apoio psicológicos e várias outras práticas que podem ser realidade com categorias específicas ou mesmo em comunidades, bairros, favelas e até mesmo em prisões.

Por outro lado, para que essa linha não se transforme em desvios é importante ser regida por duas questões:

1) O trabalho de massas hoje consolidado em categorias e frações de classe deve ser consolidado e aprofundado, pois ele é central para expandir as práticas mutualistas e a organização do proletariado marginal. As práticas mutualistas devem servir para consolidar e expandir a unidade de classe entre os setores com mais direitos e os setores precarizados. Um exemplo é o da educação, em uma massa de terceirizados e temporários (majoritariamente mulheres e negros) está desorganizada enquanto os efetivos têm ainda uma razoável adesão às entidades de representação oficial;

2) O mutualismo não pode ser confundido com assistencialismo ou empreendedorismo. Mutualismo é auto-organização e autonomia coletiva dos trabalhadores. É um embrião da economia socialista. Assim, a linha de massas não pode dar brecha pro idealismo pequeno-burguês (em sua versão benevolente ou empreendedora), tal como fazem setores reformistas do marxismo e do ecletismo. Os pobres não são coitados que precisam ser "ajudados", eles precisam estar organizados, assumindo o poder e o seu posto de combate na construção da grande Confederação Sindicalista Revolucionária.

A política mutualista do anarquismo e do sindicalismo revolucionário não é um fetiche. Ela surge da necessidade frente ao aumento da miséria, do desemprego, do genocídio e do encarceramento, bem como do avanço da precarização e da privatização dos serviços públicos. Portanto, deve estar integrada como parte da resistência geral pelos direitos do povo e pela revolução.

Ou seja, os paradigmas globais do liberalismo e da socialdemocracia e comunismo (privatização x estatização) devem ser superados pela construção de uma estratégia mutualista e sindicalista revolucionária, que unifique a criação de instituições econômicas e serviços públicos de novo tipo com a expropriação e autocontrole das terras e meios de produção e circulação pela própria classe trabalhadora. Essa linha mutualista, aplicada no campo e na cidade, é um instrumento fundamental da aliança operário-camponesa.

Por fim, em momentos históricos como os que estamos vivendo, não apenas no Brasil como no mundo todo, é importante reforçar o papel iniciador-dirigente dos anarquistas na luta de classes e, portanto, o papel de vanguarda que deve assumir a organização anarquista. Como diriam os makhnovistas, fugir a essa tarefa é falhar com as massas trabalhadoras e com a revolução.

Sendo assim, a estratégia da União Popular Anarquista (UNIPA) é a sua constituição como partido revolucionário anarquista e a construção do seu braço de massas e demais frentes. Reforçamos a convocação a todos os sinceros militantes do povo a ingressarem nas fileiras de combate do bakuninismo, pela causa do povo, pelo autogoverno e pelo socialismo.

Construir o Partido Revolucionário Bakuninista!

Contruir a Confederação Sindicalista Revolucionária!

Trabalhar Pela Revolução!

Anarquismo é Luta!

https://uniaoanarquista.wordpress.com/2020/05/29/terra-e-liberdade_vii-congresso/
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