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(pt) Federação Autônoma dos Trabalhadores: A REVOLTA DOS CAMINHONEIROS: O QUE APRENDER COM A LUTA DOS TRABALHADORES?

Date Tue, 12 Jun 2018 07:52:49 +0300


A Revolta dos Caminhoneiros mostrou que estamos realmente vivendo um novo ciclo de lutas, marcado pela eclosão constante de revoltas mais ou menos espontâneas da classe trabalhadora não só no Brasil, mas em todo o mundo. ---- Nós da Federação Autônoma dos Trabalhadores (FAT) não queremos inventar a roda. Ao contrário, é estando na luta direta dos trabalhadores que aprendemos com cada um deles como nossa classe está se organizando de fato e como está resistindo a todos os ataques que estamos sofrendo. Eis as lições que tiramos da Revolta dos Caminhoneiros. ---- A negação do Sindicalismo de Estado ---- Uma primeira característica das revoltas de trabalhadores do nosso tempo tem sido o fato delas não serem dirigidas pelos sindicatos. Ao contrário, os sindicatos de Estado têm sido repelidos pela classe trabalhadora. Não sem razão.
Os sindicatos de Estado formaram uma burocracia que não trabalha mais no pesado. Estão há anos vivendo só de representar os trabalhadores e não do trabalho realizado por nós. Assim, vivendo uma vida diferente da nossa passam também a ter interesses distintos dos nossos.

Na revolta dos caminhoneiros, a burocracia sindical desta categoria atuou em conluio com o governo Temer para a repressão dos trabalhadores e seus apoiadores.

Parte dela não só assinou um acordo com o governo (que teve a única função de legitimar o uso das forças repressivas contra os trabalhadores) como também afirmou publicamente que iria entregar para a repressão os nomes dos "infiltrados", fazendo o papel mais baixo e odioso, o de cagueta, delatora, informante. Assim, a burocracia sindical tem ocupado um papel fundamental de auxiliar do governo na REPRESSÃO aos trabalhadores.

Ao mesmo tempo, todas as Centrais Sindicais mostraram sua falta de apoio aos trabalhadores. Mesmo quando lançaram notas, não quiseram aproveitar o momento de paralisação dos serviços e atividades para chamar greves e se somar com solidariedade real aos caminhoneiros. Falam da boca para fora. Jamais agem a nosso favor.

A greve da Federação Única dos Petroleiros (FUP), um dos únicos sindicatos da CUT que dialogou corpo a corpo com os caminhoneiros, demonstrou a ineficiência do sindicalismo de estado para travar uma luta verdadeira nas condições atuais.

Como sindicato legal, faz parte da estrutura do Estado e obedece às suas normas. Assim, as multas aplicadas pelo Estado ao sindicato devido à greve foram suficientes para simplesmente acabar com a greve dos trabalhadores. Não dá para confiar em uma estrutura burocrática destas. É ineficiente para conseguirmos o básico.

Felizmente, no atual momento, os trabalhadores estão lutando independentemente dos sindicatos e estão criando outras formas de organização. Estas novas formas de organização ainda são embrionárias, mas já apresentam algumas características muito importantes. São elas:

a) a Autonomia das Lutas

A nova luta dos trabalhadores tem sido marcada pelo anti-oportunismo. Rejeitam não só a burocracia sindical, mas também os políticos profissionais e os partidos. Todos eles são vistos como corruptos, interesseiros, oportunistas. Era comum os caminhoneiros falarem que quando um deles (político, sindicato ou partido) se infiltra em um movimento, o movimento acaba, porque começa as divisões e o cara não tá lutando pelo povo, mas para si próprio. A mesma coisa pôde ser vista no movimento das vans escolares e dos ubers que se somaram em solidariedade de classe aos caminhoneiros.

Assim, está claro que a massa popular já não quer mais os oportunistas no movimento. Ela defende a autonomia, a independência de suas lutas de toda e qualquer organização burocrática.

b) a Descentralização

Outra característica da Revolta dos Caminhoneiros foi a descentralização. Os bloqueios e as concentrações de caminhoneiros se espalharam em uma vasta rede com pontos de aglutinação locais por todo o país. Assim, não havia uma direção formal do movimento, mas várias redes autônomas, que se comunicavam via whatsapp e telefone, mas sem um centro decisório.

A descentralização nacional dificultou a repressão, pois ela tinha que ser feita em cada um dos bloqueios; impediu que os oportunistas tomassem o movimento simplesmente ocupando a direção formal e burocrática, uma vez que ela inexistia e, ao mesmo tempo, impediu a formação de uma burocracia, mesmo que de caminhoneiros, que se aproveitasse do movimento para negociar e criar vantagens.

Essa descentralização fez com que em cada bloqueio o movimento os caminhoneiros se organizassem de um modo. É certo que alguns deles apresentaram estruturas internas extremamente hierárquicas, com um pequeno grupo decidindo por todos.

A ausência de assembleias locais, como ponto de decisão geral, foi uma falha em diferentes bloqueios. Além da descentralização nacional, é fundamental auxiliar a classe trabalhadora a criar mecanismos de descentralização local.

Ao mesmo tempo, a descentralização nacional deve ser combinada com a organização de baixo para cima de uma estrutura nacional orgânica, capaz de tomar decisões que sejam retiradas diretamente na base.

É preciso assim fortalecer o FEDERALISMO, possibilitando a coordenação de todos os pontos de base via delegados revogáveis a qualquer momento e rotativos, dando assim um passo rumo à organização mais sólida dos trabalhadores.

Essa ausência foi duramente sentida, quando ao não tomar nenhuma decisão, o movimento apenas foi continuando e acabou sendo finalizado por ato da repressão, o que gerou grande frustração entre os caminhoneiros.

c) a Ação Direta

Outro elemento fundamental que a Revolta dos Caminhoneiros apresenta é que a AÇÃO DIRETA é o elemento fundamental da resistência. Piquetes, bloqueios, paralisação, foram as formas encontradas pelos caminhoneiros para pressionar os governos. A posição dos caminhoneiros na estrutura do capitalismo, com sua grande disposição de agir por si mesmos, demonstrou a força da ação direta popular, capaz de promover o verdadeiro caos social, a perda bilionária de dinheiro das empresas, o desabastecimento e a paralisação dos serviços públicos e privados. Assim, os trabalhadores confiam cada vez menos nas instituições e cada vez mais na força de suas próprias ações.

d) a Solidariedade de Classe

A revolta dos caminhoneiros demonstrou que a solidariedade de classe se faz independente de uma consciência elaborada de classe. Os motoristas de vans escolares, de Uber e motoboys, identificando-se imediatamente com a causa concreta do aumento do combustível se puseram em movimento e dirigindo-se como categoria de trabalhadores aos caminhoneiros estabeleceu laços de solidariedade e ajudou a ampliar a pauta do diesel para todos os combustíveis. É incrível como uma revolta contundente dos caminhoneiros contagiou outras categorias de trabalhadores precarizados impulsionando a auto-organização e a solidariedade de classe sem que isso fossem estimuladas por nenhum partido ou sindicato.

Limites e contradições da luta dos caminhoneiros

A Revolta dos Caminhoneiros, por outro lado, também apresentou alguns limites da consciência de classe trabalhadora na atual etapa de revolta espontânea.

Em primeiro lugar, o movimento se mostrou policlassista, tanto na prática quanto na consciência.

A participação dos patrões, inclusive coagindo seus empregados para paralisarem, foi em grande parte aceita pelos caminhoneiros reais, os que trabalham mesmo.

O nacionalismo e a ideia predominante de todo o povo brasileiro (incluindo fazendeiros e burgueses) contra a classe política é ingênua e não percebe que os políticos são sustentados pelos ricos, pelos grandes patrões da cidade e do campo.

A crença, ainda que não generalizada e não profunda, no Exército e na intervenção militar, mostra que o trabalhador não confia na classe política, mas, que deve levar essa desconfiança para todas as estruturas do Estado, que defende os ricos.

A prática da luta direta dos caminhoneiros mostrou para o trabalhador de que lado realmente todas as forças da repressão estão. Exército, PM, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal, todos eles atuaram junto com o governo Temer para reprimir os trabalhadores. E assim farão em todas as revoltas populares.

Rumo à Greve Geral

A Revolta dos Caminhoneiros foi, assim, uma grande lição aos burgueses e um grande aprendizado para todos os trabalhadores. Nos colocamos com ela no combate ao sindicalismo de Estado e à burocracia sindical, por um movimento dos trabalhadores autônomo e sem chefes, descentralizado, federalista, organizado de baixo para cima, e combativo, utilizando a nossa própria força, a força da ação direta contra os governos e patrões.

Agora, mais do que nunca, devemos fortalecer nossas organizações, e semear para que toda a classe trabalhadora se organize cada vez mais com estes princípios, confiando só em si mesma, e não nos oportunistas, nos patrões e nos governos.

Que a insatisfação hoje generalizada da nossa classe, gere mais revoltas, mais greves e paralisações e que rumemos para a greve geral para por fim a nossa exploração e a vida cada vez mais miserável que somos, por agora, obrigados a viver. Organizar, Resistir, Lutar!

https://federacaoautonoma.wordpress.com/2018/06/08/a-revolta-dos-caminhoneiros-o-que-aprender-com-a-luta-dos-trabalhadores/
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