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(pt) A PLEBE nº 94 - Fevereiro/2017 (100 anos da Greve Geral de 1917) -- Órgão de Divulgação da Federação Operária de São Paulo (FOSP/COB-ACAT/AIT)

Date Sun, 26 Feb 2017 09:38:33 +0200


HIATO BRASILIS ---- Brava gente brasileira, sem aviso prévio fomos atropelados pela história: em 1500 d.C., na contagem oficial latina (calendário gregoriano), vivendo em plena pré-história fomos arrastados no transcurso dos anos.... Dominados, fomos colonizados! Tentamos resistir estabelecendo um pacto entre todos os povos moradores da Terra, formamos a Confederação dos Tamoios, lutamos por um século contra portugueses, franceses e holandeses.... ---- Nossos colonizadores, a rica nobreza portuguesa, trouxe para lhe servir a corja da Europa.... Os miseráveis rebeldes, vilões e os hereges sobreviventes da Cruzada Albigense, fugindo da Inquisição, foram lançados aos galeões e trazidos para desbravar a mata e o sertão. Desbravaram tanto, terminaram se misturando aos nativos, que criaram o matuto, e em sua sombra o Bugre. Assim, sem nunca ter chegado a constituir uma civilização própria, fomos colonizados, reorganizados de cima para baixo dentro da estrutura da sociedade feudal Ibérica.

Derrotados, tentaram nos escravizar! Não aceitamos sua disciplina e eles trouxeram os negros da África, já acostumados a escravidão. Mamelucos belezas, nos misturamos outra vez, enquanto reinventávamos o Carnaval ao estilo dos Coríntios, germinando o famoso jeitinho - que afinal era o que a baiana tinha... e dessa mistura toda surge o QUILOMBO, o primeiro em Alagoas, nos Palmares! Mesmo depois da queda e do massacre deste, restou o exemplo do retorno da alegria na liberdade, e a luta quilombola se espalhou pelo Brasil... No início do século XIX, pouco após a queda da monarquia na França e da tomada do poder pela incipiente burguesia, compramos nossa independência de Portugal assumindo uma dívida de 300.000 moedas de ouro à Coroa Inglesa.... Assim fomos inseridos no Sistema Capitalista, que então já dominava toda a Europa.
Fazendo um paralelo no tempo:

Haiti é o primeiro país da América-Latina a se tornar INDEPENDDENTE. Apoiada no processo de expansão Napoleônico. (1804) A transferência da Corte portuguesa, para fugir das ameaças das Guerras Napoleônicas, trouxe vantagens para a nova Colônia-Reino. (1808)
Queda do Império Napoleônico e restauração da Monarquia na França. (1815) Anexação do Uruguai pela Coroa Portuguesa, criando a Província Cisplatina. (1816)
Revoltas Liberais na França se estendem pela Europa (1830) Declaração da Independência do Brasil. (1822)

A Primavera dos Povos é a marca de uma série de movimentos revolucionários na Europa (Alemanha, França, Itália - 1848) Coroamento de D. Pedro II (1841)
A Revolução dos Farrapos vai de 1835 a 1845.
Luiz Felipe realiza o 18 de Brumário e declara o 2º Império Napoleônico (1851) O Parlamento aprova a Lei da Terra, que aumenta o poder dos grandes proprietários, alienando Índios e antigos moradores (1850)
Nasce o movimento Abolicionista no Brasil.
É fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT-IWA). (1864) Guerra do Paraguai destrói o pais. (1864 a 1870)
Queda de Luiz Bonaparte com a derrota da França na guerra Franco-Prussiana, nascimento do Estado Alemão(1870)
? Eclosão da Comuna de Paris (1871) Promulgada a Lei do Ventre Livre (1871)

Enquanto na Europa, o século 19 foi de aprofundamento do Capitalismo, e, em sua antítese, o nascimento do Movimento Socialista, culminando com a Comuna de Paris e, com seu massacre, a reorganização econômica da Europa sob o domínio do Império Alemão, com Bismarck e Guilherme II, apoiados por um forte capitalismo industrial.... Nesse contexto se prepararia o cenário que culminaria, 40 a 50 anos depois, com a barbárie da I Grande Guerra.
No Brasil, e de certa forma em toda a América Latina, o século 19 se converteu num forte movimento anticolonialista, libertário que conquista a autonomia política, através de movimentos independentistas. A dimensão e profundidade desses movimentos variou enormemente de um país a outro. Dessa forma os destacados heróis, libertadores da América foram os Solano Trindade, Rosas, José Marti, Simon Bolívar são todos de origem hispânica... Ainda que tenham origem nas elites colonialistas espanholas, eram impulsionadas pela lembrança de sociedades livres ainda recentes para os povos nativos do continente, as populações andinas - ligadas as tradições Maias -, mantinham traços de sua civilização milenar enquanto que os Tamoios sobreviventes vinham de diferentes povos, com diferentes línguas e culturas... mantinham o amor individual pela sua vida livre... No Brasil a luta pela Independência desagua num acordo da elite, que nos traz como falsos heróis o príncipe boêmio - que depois virou rei de Portugal... como consequência tivemos o aprofundamento dos poderes semifeudais, dos grandes proprietários/senhores feudais - que dariam origem aos coronéis, que ainda hoje controlam o poder regional. Na implantação do Parlamento o voto era censitário: só tinham direito a se candidatar e a votar os grandes latifundiários, proprietários de milhares de escravos (mão de obra básica do Império brasilienses...)
Assim, enquanto o proletariado francês assume o controle de Paris, mantendo um processo autogestionário embrionário e dizendo claramente que o caminho da liberdade era o caminho da igualdade, que o fim do Capital e do Estado seriam o obrigatório parto revolucionário do Socialismo, Comunismo Libertário, em 1871, no Brasil ainda convivíamos com a escravidão, não tínhamos sequer um proletariado formado pela história... Isso não significa que não lutávamos pela igualdade/liberdade: além da Revolta Farroupilha, tivemos outras (a Balaiada, a República Cunane, no Amapá, a Guerra de Canudos, a Revolta Federalista, etc.). Há também que considerar o fato de que a luta Quilombola se manteve ativa até a abolição da escravidão, em 1888... Ainda que mancando, a história oficial fale da benesse da princesa Aurea, o fato é que a existência de QUILOMBOS ATIVOS E REVOLTOSOS - como o chamado Quilombo da Traição e do Jabaquara, na região de Santo Amaro, que teriam liderado o bloqueio da linha de trem que levava o café para o porto de Santos... para esse bloqueio teriam convergido milhares de quilombolas de todas as regiões, levando a um cerco da capital paulista... depois de alguns enfrentamentos com a Força Pública, os negros ameaçaram invadir a capital... o que teria precipitado a assinatura da Lei Aurea - levando a perda de apoio dos latifundiários escravagistas, que apoiam o golpe militar que derrubaria a monarquia... Esse foi o parto da República Velha, a cristalização do poderio político dos senhores feudais.
Dessa forma terminamos o século 19 com uma estrutura feudal, dando sustentação a refundação do Estado brasileiro, que dá início a implantação do capitalismo sob o impulso do capitalismo inglês. Nasce, desse universo ‘sans culotes', o embrionário proletariado brasileiro, ao qual se somariam no início do século 20, os emigrantes portugueses, espanhóis, italianos, eslavos, japoneses...
A partir desse ponto a história oficial, apoiada pela inteligência marxiana, afirma que os imigrantes foram os responsáveis por trazer a consciência socialista da Europa proletária........ É um mito que não encontra apoio na história de resistência e lutas populares: sem contar as raízes profundas da luta libertária, dos Tamoios e dos Quilombos, por demais recentes... no ano seguinte a declaração da República já se realizava a primeira Manifestação de 1º de Maio, na capital da República, não autorizada e reprimida, e, antes do final do século 19 já havia Associações de Trabalhadores e Caixas de Apoio-Mútuo; em 1891 foi fundado o primeiro Partido Socialista, por intelectuais e militares.
Desta forma, os reformistas brasileiros buscavam não só os direitos sociais, mas também a emancipação nos direitos políticos. No sistema vigente, após a proclamação da República, votavam apenas homens, brasileiros, maiores de vinte e um anos, alfabetizados. Já os programas dos partidos operários brasileiros propunham a eleição direta para todos os cargos e o sufrágio universal. Os partidos de gênero socialista/comunista se multiplicaram neste período. Houve mais ou menos vinte partidos de cunho social, entre os anos de 1890 e 1920, "sem raízes": criados, viviam meses, um ou dois anos e desapareciam. De fato, a sociedade não os compreendia e nem ajudava na sua criação e permanência, pois os partidos não tinham muito a ver com o real, representando mais desejos utópicos ou simples influência de leitura do que estava acontecendo na Europa.

"Desde muito antes, desde os primeiros anos da República, tentativas se fizeram, tendo por fim a organização do nascente proletariado brasileiro em partido político do tipo social-democrático ou trabalhista, estruturado principalmente sobre a base de associações profissionais, de beneficiência ou de resistência, que já existiam ou começavam a existir. Neste sentido, um congresso foi convocado e se reuniu, em 1892, na capital do país; mas, dessa iniciativa restou, apenas, o noticiário nos jornais do tempo. Dez anos mais tarde, e, já com um caráter mais diferenciadamente político, reunia-se, em São Paulo, um congresso do Partido Socialista Brasileiro, o qual aprovou um longo programa socialista de tipo reformista; mas também essa iniciativa dentro em pouco se desfazia em nada." (nas palavras de Astrogildo Pereira)

Por outro lado, a tradição libertária tinha profundas raízes populares, o primeiro jornal anarquista brasileiro surgiu em 1815, O ANARQUISTA FLUMINENSE, ao estilo do "Casseta e Planeta", atacava as autoridades da época - não teve longa vida...
Apoiada nas tradições do Fourrierismo, que se difundiu na América no início do século 19, foram realizadas experiências de comunidades alternativas anarquistas, como a Colônia Cecilia (1888 a 1891) ou a Colônia de Guararema na virada do século XX.
Foi exatamente essa tradição que impulsionou a criação das primeiras Associações de Trabalhadores e barriais, do proletariado nascente. As primeiras greves operárias ocorreram dentro do processo de criação do anarco-sindicalismo, no final do século 19. No início do século XX foram fundadas as Federações Operárias (em São Paulo -1905), a Confederação Operária Brasileira-1906 - que resistindo a repressão, decorrentes da ilegalidade - que organizaram e lideraram as Greves Gerais de 1917 e 1920, realizando três Congressos Operários Brasileiros. Conquistando a maior parte dos direitos operários de que hoje desfrutamos.
No transcurso dos anos 20 os anarcosindicalistas, que já vinham sendo vítima de prisões e deportamentos desde o início do século XX, foram arrastados aos Campos de Concentração, criados pelo presidente Arthur Bernardes na ordem de dezenas de milhares, com índices de mortalidade na ordem de 80% dos internados, repetindo a repressão sobre os comunards de Paris, simplesmente imitando o método que os bolcheviques usavam no início dos anos 20 contra os anarquistas russos. Nesse contexto, seduzidos pelo ‘ouro de Moscou', a partir de 1922, 70 desertores do anarquismo fundam o Partido Comunista Brasileiro, que passa a se declarar como a ‘vanguarda do proletariado brasileiro', abraçando sem críticas o marxismo-leninismo/bolchevismo. Com a realização do levante tenentista, que culmina com a ‘Revolução de 30', que conduziria Getúlio Vargas ao poder - com a formação da Aliança Liberal, articulação de oposição a candidatura de Júlio Prestes, indicando Getúlio e João Pessoa (então presidente da Paraíba), levando a queda da República do "Café com Leite"...

Ao aderir ao marxismo e formar o Partido Comunista, passaram a se considerar a vanguarda intelectual do proletariado, assumindo as verdades absolutas do bolchevismo, e depois, do estalinismo. Dez anos após a fundação o PC já tinha passado por um amplo expurgo, por simpatia ao trotskismo (José da Costa Pimenta havia sido delegado do PCB ao Congresso da Internacional Bolchevique, em 1927). O próprio Astrogildo Pereira, foi defenestrado do cargo de Secretário Geral do Comitê Central do PCB. Isso para abrir espaço para a indicação de Luiz Carlos Prestes, até então um líder do tenentismo liberal, que virá a se converter ao marxismo no transcurso dos anos 30. E assim se formou a tradição da academia marxista no Brasil, perdendo a conexão com o espírito libertário do jovem proletariado brasileiro. Repetindo, como refrão, os esquemas e slogans marxistas, sob a tutela dos censores do estalinismo. Parados no tempo, foram repetindo os erros do marxismo europeu.
NESSE PONTO TEMOS QUE CRIAR UMA RUPTURA NO TEXTO, buscando entender e encontrar o HIATO BRASILIS. Nossa pedra de toque será a ‘Primavera dos Povos'.
- Primavera dos Povos é o nome que se dá a uma série de movimentos revolucionários de cunho liberal que ocorreram por toda a Europa durante o ano de 1848. Com a Revolução Francesa de 1789, os ideais libertários espalharam-se por toda a Europa, assustando as monarquias absolutistas europeias. Nesse contesto, basicamente europeu, duas peças basilares do Movimento Socialista se deram, levando a cisão definitiva do movimento socialista no século subsequente.
Na Alemanha, no transcurso da revolução liberal as jovens Associações operárias tinham
que tomar partido: Marx, em seu jornal ‘A Nova Gazeta Renana', defende a aliança com a burguesia; mas enfrentava FORTE OPOSIÇÃO por parte do setor autonomista do movimento operário, representado por Wethiling, operário metalúrgico. Para ganhar a posição do setor que se recusava a aceitar uma aliança com a burguesia liberal, Marx e Engels escrevem, as pressas, o "Manifesto do Partido Comunista" - que por questões de segurança foi impresso na Suíça, mas que devido a súbita reviravolta no processo revolucionário - com o avanço da repressão monarquista, que pouco antes vitimara Robert Brum, ainda em território suíço - nunca chegou a entrar no território alemão, mas se torna a grande contribuição de Marx/Engels ao movimento socialista.

Não me debruçarei aqui na crítica ao pensamento marxiano, simplesmente direi que no ‘Manifesto' ele cria a definição de "comunista" como o afiliado ao partido comunista, vanguarda do movimento operário, por ter em seus quadros os intelectuais que tinham o perfeito entendimento do ‘Socialismo Científico' - que através do Materialismo Histórico concluiu que a Revolução Social se daria dentro do mesmo esquema da revolução burguesa: o próprio Capitalismo cria a semente de sua destruição, o operário industrial, que concentrará a força para derrubar a burguesia do poder do Estado, que seria reformado, passando por uma Etapa de Transição, definida como a Ditadura do Proletariado, através da vanguarda operária, o Partido Comunista, que através do exercício de poder ditatorial criaria as condições para o estabelecimento do Comunismo, num futuro mais ou menos remoto.
Na França, no transcurso da revolução liberal na derrubada da nova Bastilha, durante a
Comuna de 1848, Joseph-Pierre Proudhon é libertado como o grande herói operário do movimento socialista francês. Preso ainda jovem, filho de peixeiros de Besançon, o jovem sapateiro recentemente chegado em Paris se envolve com os levantes anti-monarquistas, do início dos anos 30, acaba preso por mais de 15 anos, até ser libertado pelo povo em 1848. Autodidata escreveu em 1842 o livro O QUE É A PROPRIEDADE?, ao que ele responde "a propriedade é o roubo!", no mesmo momento em que se auto-define como "anarquista". Após sua libertação Proudhon sustenta suas ideias, defendendo A CAPACIDADE POLÍTICA DA CLASSE OPERÁRIA, não para a luta política, mas pela ação direta, através da l.uta Econômica, do Apoio-Mútuo entre Associações Autônomas, de produtores/consumidores livres, com vistas a assumir diretamente a administração do conjunto da Sociedade pelo Pacto Federativo, livremente aceito, o que hoje se denomina AUTOGESTÃO OPERÁRIA GENERALIZADA.
Sem discutir as etapas de transição de Marx, o Comunista, Proudhon se coloca como Mutualista, defendendo a auto-organização operária num coletivismo comunal. Declara que o "Estado, como a propriedade, estão em plena metamorfose e que a ‘Democracia Industrial' não exclui, antes reforça a ‘Democracia Política'..." Proudhon distingue três formas de organização econômica, correspondente a um igual número de fases do Capitalismo: a Anarquia Industrial, a Feudalidade Industrial e o Império Industrial. A estes três regimes a revolução social viria opor a "Democracia Industrial' e a ‘República Industrial'.

1- A ANARQUIA INDUSTRIAL é o capitalismo concorrencial idealizado pela economia política clássica, o Capitalismo Selvagem. Ela se dá no nada do ‘Direito Econômico', pois a propriedade e a concorrência reinam de forma absoluta na ‘sociedade econômica'.
Dentro do processo dinâmico...
2- Através do processo de competição a Anarquia Industrial, pela concentração dos capitais, leva à FEUDALIDADE INDUSTRIAL, que é a organização capitalista e bancária em proveito de uma oligarquia de chefes de empresas financeiras e industriais associadas - que mais tarde serão chamados de TRUSTs e CARTÉIS. Esses Feudais industriais e bancários aproveitam-se do poder econômico que detêm para fundar vastas associações de dominação e submissão dos trabalhadores ao seu arbítrio. Em poucas palavras, é o Capitalismo Organizado.
3- Dentro dos processos de competição, as monstruosidades da Feudalidade Industrial conduzem, ameaçadoramente, ao IMPÉRIO INDUSTRIAL, o ‘ápice da crise'. O ponto culminante da absorção capitalista, bancocrática e especulativa: é a centralidade da vida econômica nas mãos do Estado, que exerce a sua ditadura sobre a indústria para DIVIDIR OS LUCROS DESTA com os patrões. É o CAPITALISMO DE ESTADO, o ‘cesarismo econômico'.
Certamente Proudhon, que morreu no exílio, em 1865, devido as perseguições de Luís Felipe Bonaparte, via já no Segundo Império a sombra do Império Industrial, mas também antevia o ‘dirigismo fascista'. Mas ele não acredita na viabilidade dessa equação, pois o "Império Industrial não é mais do que uma contradição... A fórmula Imperial é inaplicável a ordem econômica" (O que de certa forma explicaria a derrocada do Capitalismo de Estado do império Russo, implantado pelo bolchevismo). O Império Industrial se torna o bureau da crise.
A partir daí fica clara a opção de Proudhon naquilo que ele considerava a antítese ao Capitalismo, a Democracia Social e Econômica, baseada na capacidade política da própria classe trabalhadora, mantida a autonomia de suas organizações. Na introdução da obra "De la Justice dans la Revolution et dans l'Èglise", de 1858, Proudhon afirma que a Democracia Industrial se revelará como "uma gestão do trabalho pelo trabalho..."; e considera que "seja qual for o aspecto sob que consideremos as coisas, torna-se cada vez mais claro o fato de nos encaminharmos, sob uma aparência de restauração feudal, para uma democracia industrial. Resumindo, Proudhon prevê um Coletivismo Pluralista Descentralizado, destinado a substituir o Capitalismo Organizado (Império Industrial). Este coletivismo recorreria a AUTOGESTÃO OPERÁRIA para estabelecer o equilíbrio entre a propriedade federalizada dos meios de produção sob o controle da Democracia Industrial dos operários e a Democracia Política limitada em suas funções. Esses temas ele aprofundará no livro "Do Princípio Federativo", de 1863.

O processo de fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT-IWA), que se iniciará em Londres, com o impulso dos operários franceses em 1864, está baseado nesses aspectos da análise proudhoniana. O convite e indicação de Marx para compor o Secretariado Provisório, que se manteria até 1872 - um ano após a Comuna de Paris-, será a pedra de toque da nova direção política e da cisão do processo de organização revolucionária internacional construído e controlado diretamente pelos operários.
Em 1872 - pouco depois do massacre da Comuna - Marx, antes de abandonar o Secretariado da AIT, dirige um Congresso armado para expulsar Bakunin, e diversos anarquistas. A Internacional está cindida, os anarkistas sendo perseguidos em todo o continente, em função da repressão e perseguição aos comunardos. Para justificar sua posição Marx e seus seguidores, apoiados pelos blanquistas, denunciaram a existência de uma ‘organização política' dentro da AIT, liderada clandestinamente por Bakunin, a ALIANÇA DA DEMOCRACIA SOCIAL - um bureau de correspondência entre velhos camaradas que participara do Congresso Pela Paz e Pela Liberdade (articulação contra a guerra franco-prussiana), que se dissolvera formalmente quando Bakunin aderiu a AIT, em 1867. Desde sua adesão Bakunin mantem a posição dos proudhonianos/mutualistas, de oposição às propostas e posturas que favoreciam a luta política, e/ou combatiam a formação de um partido político (proposta defendida por Marx e Engels - que se declarava comunista, desde a revolução de 48.
No mesmo ano, 72, as Seções que mais apoiaram a Comuna, e as propostas de Bakunin nos Congressos da AIT de 68/Bruxelas e de 69/Basileia, atendem ao convite da Seção Suíça e realizam um Congresso Clandestino em Saint-Imier, que assume o caráter de Congresso da AIT NEGRA. A partir daqui a história definiu os passos que mostraram que o marxismo, que buscou se assenhorar do socialismo, na verdade foi o precursor do Capitalismo de Estado. Que este Capitalismo de Estado pudesse soar como algo revolucionário e progressista no século XIX, hoje mostra-se claramente como precursor de um neo-liberalismo corporativista, dentro do Império Industrial.

No século 19 a Reforma da sociedade era entendida como sinônimo de Revolução. Enquanto Marx se dizia precursor do Partido Comunista, em 1848, assistiu, 40 anos depois, a fundação do Partido Social Democrata Alemão (PSD)- como primeiro partido de orientação marxista, sob forte influência do Lassalismo. Curiosamente com o nome originado da organização que tanto combateu na Internacional, ao difamar Bakunin, a Aliança da Democracia Social. Menos de dez anos após sua fundação o PSD já havia criado, com Bernstein, a tese do "SOCIALISMO EVOLUCIONÁRIO" e enveredado na luta político-parlamentar, sob a liderança de Kautski - precursor do centralismo democrático, que Lenin proporia ao PSD Russo, no Congresso em 1903, em Londres. A cisão entre eles aconteceria em função da deflagração da Primeira Grande Guerra em 1914, em função de interesses nacionalistas. 60 anos depois o PSD abandona formalmente o marxismo, e qualquer compromisso com a Revolução Social. Nesse momento, entre os anos 60 e 70, o Capitalismo de Estado no ‘mundo soviético', já era um grande navio, dominado pela burocracia militarizada, completamente envolvida pelos vícios da opulência capitalistas. Mas o que nos importa aqui era o momento em que o marxismo leninismo (ou bolchevismo) chega ao Brasil e impõe sua presença no transcurso destes anos. Assim foi que a história do ‘partidão' é marcada pela adesão à política burguesa.

CAPITALISMO TARDIO E SACIALISMO MORENO

Então, sob impulso do Capitalismo Selvagem do Imperialismo Britânico, a pesada estrutura feudal brasileira é, a contra-gosto, arrastada por cerca de 170 anos - passando às mãos do Imperialismo Estadunidense, no momento em que éramos governados pelo fascista Estado Novo, de Getúlio, iniciando a construção de indústrias de base, como a COMPANHIA SIDERÚRGICA NACIONAL, em Volta Redonda. Hoje temos o que resultou de tudo isso: uma classe dominante, testa de ferro de interesses alheios às necessidades básicas da própria nação, associada a uma tecnoburoccracia corrupta na origem e a uma estrutura militar dominada por interesses, supostamente nacionalistas, dos coronéis locais.
Enquanto alcançamos a fase de Feudalismo Industrial capenga, com amplos setores ainda vivendo um Capitalismo Selvagem/Anarquia Industrial; a Europa, os estadunidenses e os russos avançaram a passos largos tentando estabelecer super-Estados - a NAFTA, a Comunidade Europeia, os "Estados Independentes", na Ásia a China estende seus domínios - assumindo este papel. Os social-democratas tupiniquins buscaram seguir o caminho da Globalização, e contra a proposta da ALCA criaram o MERCOSUL - enquanto a Venezuela, com um discurso mais nacionalista ‘latino-americano', cria a ALBA - configurando uma articulação econômica partidária, Bolivariana. Nesse contexto se cristaliza a opção do Império Industrial na virada do século XX-XXI, mas após as crises econômicas - (2001) bolha da Internet/USA (que culminaria com a quebra da NASDAQ) e a de (2008)bolha imobiliária/USA (que conduziria a um processo recessivo global) - e a quebra da Grécia. Tomada pela extrema esquerda marxista/trotskista (SYRISA-Tsipras), com a promessa de não aceitar as condições impostas pela CE, apoiados num nacionalismo melancia, a Grécia - que radicalizara a luta nas ruas desde 2008 - vê o governo recém-empossado trair seu programa, ficando de quatro para se manter na CE - menos de uma ano após ser eleito...

Mais uma vez o marxismo se coloca como aliado da esquerda política da burguesia, com medo dos mesmos apelos nacionalistas pelo qual se elegeu. Mas era só a ponta do iceberg...
A previdência social é uma das áreas mais retalhadas, e a Europa sofre com um envelhecimento de sua população. Segundo dados do Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), entre 1960 e 2014 a UE teve envelhecimento de 9,44 anos na média populacional. Os dados correspondem a 22 dos 28 países que formam o grupo. A Espanha envelheceu 12,2 anos, enquanto Itália teve aumento de 13,5 anos, e Portugal 15,5 anos. Em tempo de austeridade, pessoas em idade de aposentadoria tem cortes em suas pensões e um atraso no fim de seu período de trabalho. Em outras palavras, fica difícil se aposentar.
É nessas condições que a extrema direita cresce em suas propostas xenófobas, pseudo-nacionalistas, avançando eleitoralmente em todos os países do bloco. Da mesma maneira o movimento cessionista cresce, culminando com o BREXIT - que contou inclusive com o apoio da Federação Anarquista Inglesa*. Estes mesmos impulsos nacionalistas encontraram reflexo no continente americano com a sucessão de vitórias eleitorais, ou por ‘golpes parlamentares' ou por vias judiciais, da direita do espectro político. Conjunturalmente, pelos últimos 25 anos, a esquerda do Capital (pró Globalização/queda de fronteiras nacionais) manteve uma hegemonia planetária - só contrarestada pelo Movimento Anti-Globalização Capitalista milenarista**, e, agora/2016, a esquerda se vê escorraçada, apeada do poder pelo avanço eleitoral de setores ligados ao Capitalismo Selvagem, aliados a setores do Feudalismo Industrial, colocando em cheque o discurso da GLOBALIZAÇÃO, mantido pela esquerda. No Brasil não foi diferente, embora patético, por coincidir com a eleição de Trump - um típico representante do Capitalismo Selvagem Ianque, ao contrária de Hillary, a bonequinha das Corporações...

* (sob o entendimento de que rechaçavam a supercentralização do neo-super-Estado - a Comunidade Europeia) ** (na virada do milênio)

Renato Seixas - o7/01/17
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