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[Brasil] Há 48 anos do Golpe Militar: Memória, Verdade e Justiça! Para que nunca mais acontJustiça! Para que nunca mais aconteça!

Date Fri, 13 Jul 2012 18:18:43 +0200


Resultado de uma conspiração que envolveu setores empresariais, a grande imprensa,
setores religiosos conservadores e militares, a ditadura civil-militar que se
iniciou em abril de 1964 cumpriu o objetivo das elites econômicas e políticas de
nosso país de calar as lutas dos trabalhadores que vinham se desenvolvendo com vigor
no campo e nas cidades, pautando uma série de reformas estruturais com o intuito de
garantir maiores direitos e condições de vida mais dignas aos oprimidos. Entre essas
reformas, a reforma agrária ocupava um local de destaque, provocando a ira dos
privilegiados.
A ditadura, que se estendeu até 1985, marcou um período onde o Estado brasileiro
montou todo um aparato terrorista com a finalidade de perseguir, prender, torturar,
sequestrar, assassinar e até desaparecer com os corpos de diversos companheiros que
ousaram lutar contra as mazelas sociais e mais especificamente, contra a ditadura.
Uma geração de militantes camponeses, sindicalistas, estudantis, artistas e
intelectuais foi trucidada pela repressão que, por sua vez, contou com um apoio
direto de muitos setores civis oriundos das elites políticas e econômicas, que se
beneficiavam com a perseguição sistemática aos lutadores.

Passados 48 anos desta triste página de nossa história sentimos a forte presença de
seu legado em nosso país. Ainda hoje não temos o esclarecimento exato da maioria dos
acontecimentos do período; militantes seguem desaparecidos sem nunca termos tido
notícias sobre o seu paradeiro e em que condições foram assassinados; torturadores
seguem impunes e gozando de inúmeros privilégios, como aposentadorias milionárias,
presença em cargos importantes em empresas e no Estado e inclusive sendo
homenageados com seus nomes em ruas, escolas, praças, etc.

Essa impunidade, e pior, essa homenagem aos ditadores faz com que pouco ou nada seja
feito para acabar de uma vez por todas com os resquícios da ditadura em nosso
cotidiano. Podemos ver isso nos sistemáticos assassinatos a jovens pobres e negros
nas periferias, a tortura que segue presente, inclusive em escala maior, nas
delegacias de polícia e a criminalização e repressão às lutas sociais (Corumbiara,
Eldorado dos Carajás, Felizburgo, Sonho Real, Pinheirinho, Eltom Brum, só pra citar
alguns poucos).

Há um pouco mais de 1 mês o governo brasileiro finalmente nomeou a "Comissão da
Verdade" com o objetivo de esclarecer estes trágicos acontecimentos. Somente agora
se inicia um processo, ainda tímido e vacilante, de esclarecer os acontecimentos,
isso passados mais de duas décadas de uma transição pactuada com os carrascos da
ditadura, que garantiu uma das maiores aberrações existentes em nosso país: uma
auto-anistia para os responsáveis pelo terrorismo de Estado.

A Comissão da Verdade, por sua vez, apresenta não apenas diversas limitações, como
não reivindicar justiça para os crimes hediondos praticados por aqueles impostores
que oprimiram o país desde o pau-de-arara, mas também apresenta inaceitáveis
vacilações, como a proposta defendida por alguns de seus membros de se investigar os
"crimes cometidos pela esquerda" durante esse período e a extensão do período a ser
investigado, que vai de 1948 a 1988.

Além de resistir ao terrorismo de estado, aqueles que em um ato de dignidade
aderiram a luta armada foram, em sua maioria, presos, julgados em tribunais de
exceção, torturados, assassinados e muitos seguem desaparecidos. Querer iguala-los à
maquina de tortura, sequestro, assassinato e desaparecimento do Estado é no mínimo
um ato covarde e desleal daqueles que buscam igualar forças por si só muito
desiguais e escondem por detrás desta "teoria dos dois demônios" seu envergonhado
apoio à ditadura. Infelizmente a Comissão já começou os seus trabalhos com
provocações desde alguns de seus próprios quadros, como é o caso de Gilson Dipp,
ex-ministro do STJ, responsável pela defesa do Estado brasileiro quando este esteve
sendo julgado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos pelos crimes da
ditadura.

Dipp mostrou-se um contumaz e decidido defensor dos algozes de diversos de nossos
companheiros torturados, assassinados e desaparecidos. Hoje, esse mesmo elemento
arrota aos quatro cantos a necessidade da comissão investigar os "crimes da
esquerda".

Por sua vez, a absurda extensão do período a ser investigado é outra parte do jogo
que conspira no sentido de desviar o que deveria ser o objetivo principal da
comissão: a ditadura civil-militar de 1964-1985 e os responsáveis militares e civis
por este período de terror que se abateu em nosso país. Estas limitações e
vacilações da recém criada Comissão da Verdade nos leva a ter uma postura cética em
relação aos seus desdobramentos, embora acreditamos que ainda com todos estes
problemas sua instalação já marcou um relativo avanço em relação a essa histórica
pauta relacionada aos direitos humanos e a própria história da classe trabalhadora e
da esquerda brasileira, que foi pautar o tema na sociedade, levando a ira os sádicos
impostores, que torturam, estupraram, assassinaram e desapareceram com inúmeros
companheiros e companheiras.

Cabe a nós, enquanto esquerda agitar essa pauta em todos os espaços onde estamos
inseridos, organizando atos e tencionando o debate no sentido de repudiar a "teoria
dos dois demônios" e exigir para além da verdade e da memória, a justiça; que todos
os responsáveis pela ditadura sejam punidos e que tenhamos definitivamente
esclarecidos as circunstâncias da morte e desaparecimento de nossos caídos, assim
como o aparecimento de seus corpos. Não será em articulações institucionais que
seremos capazes de conquistar definitivamente a justiça, mas sim a partir de nossa
força nas ruas, nos locais de trabalho, estudo e moradia. Transformemos a luta por
memória, verdade e justiça em uma autêntica luta de classes!

Em memória a todos nossos caídos!
Não esqueceremos...
Jamais perdoaremos!
Punição aos culpados!


Federação Anarquista Gaúcha

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