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(pt) Portugal , Açores: Tortura não é arte nem cultura
Date
Sun, 17 Jan 2010 12:52:31 +0100
por Mariano Soares
De acordo com o jornal Diário Insular do passado dia 14 de Janeiro, em
breve os Açores vão ter um regulamento de espectáculos tauromáquicos de
natureza artística. Mas o que é isto de tauromaquia artística? Nem mais
nem menos todas as actividades em que se farpeiam touros
(http://base.alra.pt:82/iniciativas/iniciativas/EPpDLR030-09.pdf).
Será a tauromaquia uma arte? Antes de escrevermos algumas linhas sobre o
assunto, apresentamos abaixo um pequeno texto da década de 20 do século
passado que não perdeu actualidade:
?Tauromaquia! Arte de tourear! ... Que desgraçada concepção de arte! A
arte deve ter como objectivo o Belo, e o Belo verdadeiramente belo, deve
ser encarado no seu duplo aspecto: material e moral. Portanto o Belo deve
ter também um fim útil?que não seja, pelo menos, imoral?Que utilidade ou
que beleza poderá haver em farpear touros? Não desfazendo (como é costume
dizer-se) da habilidade, do saber e da valentia do homem que se dedica a
esta estúpida tarefa, devemos concordar que isso não deve merecer o nome
de Arte! Ninguém chama arte, a não ser por ironia, ao trabalho de quem se
dedica, embora expondo a vida, a fazer mal, assaltando e roubando o seu
semelhante? ou ainda mesmo quando o faça com habilidade, sem empregar
meios violentos, como fazem os vigaristas!? (Abilos, A Batalha, Suplemento
Semanal Ilustrado, nº119, 8 de Março de 1926)
Dizem os adeptos das touradas que estas são uma manifestação de arte e de
cultura, com muitos apaixonados em todo o mundo, entre os quais eminentes
homens das letras e das artes, entre os quais estão nomes como os de Goya,
Picasso, Vargas Losa e Hemingway.
A verdade é que a nível mundial é cada vez menor o número de países onde
ainda ocorrem touradas. Actualmente a tourada só existe em nove países e
mesmo nestes a contestação à sua realização tem vindo a aumentar, como é o
caso da Espanha onde ela já foi abolida nas Canárias e onde várias cidades
já se declararam Livres de Touradas, entre elas Barcelona.
Se é verdade que alguns artistas e escritores são ou foram adeptos da
tourada, outros de igual valor foram seus opositores, de que são exemplo
Vitor Hugo, Franz Kafka, George Bernard Shaw, Mark Twain.
A nível nacional referiremos os nomes de Alexandre Herculano que
considerava a tourada um ?espectáculo de eras bárbaras, que a civilização
desenvolvendo-se gradualmente por alguns séculos ainda não pode desterrar
da Península? e Ferreira de Castro que a propósito escreveu: eu amo a
galhardia mas odeio a barbaridade. Eu amo os gestos audaciosos, arrojados,
mas detesto-os profundamente sempre que eles se traduzem em crueldade?
Entre nós, como opositor às touradas, destacaríamos o nome do cientista
terceirense Aurélio Quintanilha que, entre outras funções, foi professor
da Universidade de Coimbra, e que a meados do século passado afirmou o
seguinte: "Como homem e como professor não posso deixar de lhes enviar a
minha mais completa e entusiástica adesão ao protesto levantada pela
Sociedade Protectora dos Animais contra um espectáculo indigno do nosso
tempo, da nossa mentalidade, da nossa civilização".
Outro terceirense ilustre, o libertário Adriano Botelho também se
pronunciou sobre o pretenso espectáculo das touradas nos seguintes termos:
?fazem-se por outro lado, reclames entusiastas de espectáculos, como as
touradas de praça onde por simples prazer se martirizam animais e onde os
jorros de sangue quente, os urros de raiva e dor e os estertores da agonia
só podem servir para perverter cada vez mais aqueles que se deleitam como
aparato dessa luta bruta e violenta, sem qualquer razão que a justifique?.
Mesmo sendo uma tradição, como o é em algumas ilhas dos Açores, como a
ilha Terceira, e acreditando que seja cultura ou arte, não é legítimo
torturar um animal, no caso em apreço um touro, em nome do que quer que
seja.
Numa sociedade moderna, como o é a nossa, não há lugar para a crueldade
com os animais. Tortura não é arte nem é cultura!
FONTES:
Anónimo (2002). Contra as touradas. Lisboa: Cadernos d´A Batalha.
http://www.bullfightingfreeeurope.org/index_por.html
[* http://www.pt.indymedia.org/]
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