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(pt) Periódico da FARJ: Novo Libera! #157 - Nota de repúdio ao assassinato de militante do MST-RJ

Date Wed, 17 Apr 2013 16:47:00 +0300


As organizações e movimentos sociais dos países participantes do X Encontro Latino Americano das Organizações Populares Autônomas – ELAOPA, reunidos em Porto Alegre nesta data, manifestam o mais profundo sentimento de luto e revolta em relação ao brutal assassinato do militante do MST Cícero Guedes dos Santos. Assassinado por conta das retaliações locais oriundas da ocupação “Luís Maranhão”, na usina de cana-de-açúcar Cambahyba em Campos dos Goytacazes – RJ. Ocupação emblemática, pois nestas terras, pertencentes à família de Heli Ribeiro Gomes, cujos fornos de fabricação de açúcar eram emprestados para incinerar corpos de militantes mortos pela ditadura militar. --- Companheiro presente desde a primeira ocupação do MST no estado do Rio de Janeiro, onde hoje é o assentamento Zumbi dos Palmares, Cícero era um militante de garra e presença marcante.

Onde houvesse luta, onde houvesse animação no movimento lá estava o companheiro com
sua voz firme e suas palavras de ordem sempre desafiando o Capital, sempre com-
batendo a exploração da classe trabalhadora, resistindo e organizando. Sua
trajetória enquanto trabalhador rural é semelhante a de milhares de outros
camponeses em nosso continente, migrando de região em região, lutando
contra o latifúndio em diversos acampamentos e ocupações de terra em
busca de justiça social e soberania popular. Sua família, assim como tantas
outras que resistem no campo, nunca se cansou de lutar pela reforma agrá-
ria, dispostos sempre a organizar a produção de alimentos saudáveis e a
mobilizar novos companheiros para seguir na construção de uma sociedade
mais digna e igualitária.
Manifestamos mais uma vez nossa indignação, exigindo que sejam punidos
os assassinos e reforçando que é culpado também o Estado brasileiro, que
não realiza a reforma agrária. Neste governo que mantém milhares de fa-
mílias debaixo de lona e na beira de estradas, sofrendo com todo tipo de
ameaças e dificuldades. É culpado também o agronegócio com seu modelo
de exploração dos pobres que, quando não mata com o veneno de seus
agrotóxicos, mata com a bala de seus capangas.
As sementes do poder popular seguem com vida e, neste momento, com-
panheiros de luta nas mais diversas barricadas da América Latina gritam:
NÃO TÁ MORTO QUEM PELEIA!!!
ARRIBA LOS QUE LUCHAN!!!
COMPANHEIRO CÍCERO GUEDES...
PRESENTE, PRESENTE, PRESENTE!!!
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Com estes dois textos clássicos que aqui seguem, debatemos a questão da
terra por uma perspectiva anarquista, alimentando nosso trabalho de base
de inspiração e reflexão teórica. Ricardo Flores Magón escreve seu texto no
interior de um processo revolucionário sem igual: a Revolução Mexicana.
Protagonizada por camponeses, foi a primeira revolução social do século
XX e marcou o imaginário e a prática política dos trabalhadores latino-
americanos.
O outro texto é de autoria de Errico Malatesta, um militante anarquista
italiano envolvido com o sindicalismo revolucionário de seu tempo e que
produziu análises das mais variadas sobre a luta e os desafios dos trabalha-
dores.
Ambos os revolucionários que aqui desfilam suas palavras não foram “teóri-
cos” no sentido estrito do termo. Como militantes revolucionários, dividiram
sua vida entre o trabalho e a militância, continuamente sofrendo persegui-
ções pelos diferentes governos. Magón morreu numa prisão estadunidense.
Malatesta, em prisão domiciliar, faleceu após problemas de saúde em meio
à ascensão do fascismo.
Suas palavras, no entanto, jamais morreram e chegam até a nossa militância,
incentivando-nos a nunca desistir na luta contra o capital e o estado. Com-
partilhamos especialmente aos/as companheiros/as dos movimentos sociais do
campo com quem construímos um povo forte, essas lúcidas e poderosas pala-
vras.

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Um Manifesto*
Ricardo Flores Magón e Librado Rivera

Companheiros:
O relógio da história está próximo de as-
sinalar, com seu ponteiro inexorável, o ins-
tante que há de produzir a morte desta
sociedade que agoniza.
A morte da velha sociedade está próxima,
não tardará a ocorrer, e só poderão negar
este fato aqueles a quem interessa que viva,
aqueles que se aproveitam da injustiça em
que está baseada, aqueles que verão com
horror a revolução social, porque sabem
que ao dia seguinte dela terão que traba-
lhar ombro a ombro com seus escravos da
véspera.
Tudo indica, com a força da evidência, que
a morte da sociedade burguesa não tarda
em sobrevir. O cidadão vê com turvo olhar
o policial, a quem ainda ontem considerava
seu protetor e seu apoio; o leitor assíduo
da imprensa burguesa encolhe os ombros
e deixa cair com desprezo a folha prosti-
tuída em que aparecem as declarações dos
chefes de Estado; o trabalhador põe-se em
greve sem se importar que com sua atitude
os interesses pátrios se prejudiquem, cons-
ciente já de que a pátria não é sua proprie-
dade, senão a propriedade do rico; na rua
se vêem rostos que às claras delatam a tor-
menta interior do descontente e há braços
que parece que se agitam para construir a
barricada. Murmura-se na cantina; murmu-
ra-se no teatro; murmura-se no bonde e
em cada lar, especialmente em nossos lares,
nos lares dos de baixo; lamenta-se a partida
de um filho para a guerra, ou os corações
se oprimem e os olhos se umedecem ao
pensar que amanhã, talvez hoje mesmo, o
rapaz que é a alegria do casebre, o jovem
que com sua frescura e sua graça envolve
em resplendores de aurora a triste existên-
cia dos pais que estão no ocaso, será ar-
rancado do seio amoroso da família para ir
enfrentar, arma ao ombro, outro jovem que
é, como ele, o encanto de seu lar, e a quem
não odeia, e a quem não pode odiar porque
nem sequer o conhece.
As chamas do descontente avivam-se ao
sopro da tirania, cada vez mais ensoberbe-
cida e cruel em todo o país, e aqui e lá, e
a acolá, e em todas as partes, os punhos
contraem-se, as mentes se exaltam, os co-
rações batem com violência, e onde não se
murmura, se grita, suspirando todos pelo
momento em que as mãos calejadas em
cem séculos de labor devam deixar cair
a ferramenta fecunda para levantar o rifle
que espera, nervoso, a carícia do herói.
Companheiros, o momento é solene; é o
momento precursor da mais grandiosa
catástrofe política e social que a história
registra: a insurreição de todos os povos
contra as condições existentes.

Vai ser, seguramente, um impulso cego das
massas que sofrem; vai ser, sem dúvida, a ex-
plosão desordenada da cólera comprimida
apenas pelo revólver do policial e da força
do carrasco; vai ser o transbordamento de
todas as indignações e de todas as amargu-
ras e vai produzir-se o caos, o caos propí-
cio ao crescimento de todos os pescadores
no rio revolto; caos do qual podem surgir
novas opressões e tiranias novas porque
nesses casos, regularmente, o charlatão é
o novo líder.
Toca, pois, a nós, os conscientes, preparar a
mentalidade popular para quando chegar o
momento, não preparar a insurreição, por-
que a insurreição nasce da tirania.
Preparar o povo não só para que espere
com serenidade os grandes acontecimen-
tos que vislumbramos, mas também para
que seja capaz de não deixar-se arrastar
pelos que querem conduzi-lo agora por ca-
minhos de flores e idêntica escravidão ou
tirania semelhante à que hoje sofremos.
Para conseguir que a rebeldia inconsciente
não forje com seus próprios braços a ca-
deia nova que novamente há de escravizar
o povo, é preciso que nós, todos os que
não cremos em governo, todos os que es-
tamos convencidos que governo, qualquer
que seja sua forma e quem quer que se en-
contre à frente dele, é tirania, porque não é
uma instituição criada para proteger o fra-
co, mas para amparar o forte, coloquemo-
nos à altura das circunstâncias e sem temor
propaguemos nosso santo ideal anarquista,
o único humano, o único justo, o único ver-
dadeiro. Não fazê-lo, é trair com pleno co-
nhecimento as vagas aspirações dos povos
a uma liberdade sem limites, que não sejam
os limites naturais, isto é, uma liberdade que
não cause danos à conservação da espécie.
Não fazê-lo, é deixar as mãos livres para
aqueles
que
querem aproveitar para fins
meramente pessoais, o sacrifício
dos humildes.
Não fazê-lo, é afirmar o que
dizem nossos contrários: que
está muito distante o tempo
em que possa implantar nosso
ideal. Atividade, atividade e mais
atividade, isto é o que reclama o
momento.
Que cada homem e cada mulher que amem
o ideal anarquista o propague
com firmeza, com obstinação, sem ligar
para zombarias, sem medir perigos, sem re-
parar nas conseqüências.
Mãos à obra, camaradas, e o porvir será
para nosso ideal!
Terra e Liberdade!

* Título dado pelo LIBERA.
Publicado originalmente em 16/03/1918.

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Notícias Libertárias

Mais um passo dado para a inte-
gração dos que lutam!

Nos dias 25, 26 e 27 de janeiro, na cidade de Viamão (Rio
Grande do Sul) foi realizado a 10a edição
do Encontro Latino Americano de Organi-
zações Populares e Autônomas – ELAOPA.
Foram mais de 60 organizações, coletivos,
agrupações sindicais e estudantis, movi-
mentos sociais e iniciativas populares que
participaram de diversas oficinas, comissões
de discussão temáticas e espaços de confra-
ternização e cultura, construindo acordos e
encaminhamentos para avançarmos nesse
projeto popular e autônomo.
O tema transversal do Encontro foi o Plano
IIRSA, sendo discutidos alguns conflitos e
formas de luta e de resistência a esse plano
de saque. Sua dinâmica foi organizada em
comissões temáticas (Educação/Estudantil;
Sindical; Terra e Meio Ambiente; Direitos
Humanos; Gênero, etnia e sexualidade; Co-
municação; Muralismo e Comunitário), o
que ajudou a movimentar e orientar a mi-
litância dos diferentes países. No dia 27, o
X ELAOPA se encerrou com uma confra-
ternização entre os presentes, ao som das
bandas La Digna Rabia, Farabute e Orquestra
de Mulheres.
Destacamos nessa edição a homenagem
realizada em memória ao companheiro
Alberto “Pocho” Mechoso, lutador social
uruguaio sequestrado e assassinado pela di-
tadura militar argentina, que foi coordenada
por um companheiro do Ateneu do Cerro
(Montevidéu-Uruguai). Aproveitamos assim
para recordar a memória não só do cita-
do companheiro, mas também de todos
militantes que são referência de nossa luta
cotidiana. Nós, povos latino americanos, não
estamos e nem ficaremos quietos, não es-
queceremos e nem perdoaremos os crimes
das ditaduras na América Latina.
Sabemos que o encontro não tem preten-
são de dar respostas a todos os problemas
que coletivamente precisamos enfrentar,
mas estamos certos que, enquanto espaço
de articulação das lutas, ele tem a função
de reafirmar nosso compromisso na cons-
trução de uma integração dos povos gerada
desde baixo, desde os que lutam para cons-
truir um Poder Popular.
Se escucha, se escucha!
Arriba lxs que luchan!
Viva o ELAOPA 2013!
Texto na íntegra em: www.elaopa.org

Liberdade para os presos de Bariloche:

No dia 5 de fevereiro passado,
companheir@s da Organização Popular,
MTD-Pela Base e da FARJ realizaram um
pequeno ato na frente do consulado ar-
gentino, exigindo a imediata libertação dos
companheir@s do Movimento Social e Co-
operativo 1o de Maio (Bariloche), presos na
província de Rio Negro (Patagônia argenti-
na) desde 13 de janeiro. O Movimento 1o de
Maio agrupa 3 cooperativas que há mais de
10 anos lutam contra o desemprego e toda
classe de injustiças que os trabalhadores
têm que suportar. Foram levantadas as ban-
deiras das organizações, cartazes e uma faixa
exigindo a libertação d@s companheir@s
detidos e distribuídos panfletos. O interes-
se dos populares foi bastante satisfatório e
diversas pessoas pararam para se informar,
inclusive alguns cidadãos argentinos. Nesse
mesmo dia, foram realizados atos simultâ-
neos em diversas cidades da Argentina, Bra-
sil e Uruguai. Atualmente, Haydee Grande,
estão Giselle Poblete e Catalina Lineros em
prisão domiciliar e José Paredes e Miguel
Mansilla estão presos em delegacias de Bari-
loche. Reproduzimos abaixo a nota emitida
pelo ELAOPA no final de janeiro:

PRESOS POR LUTAR, A LUTA OS
LIBERARÁ!

Nós Organizações reunidas
no 10o Encontro Latino Americano de Or-
ganizações Populares e Autônomas, realiza-
do nos dias 25, 26 e 27 de janeiro de 2013
no município de Viamão, realizamos este ato
público em solidariedade a uma dezena de
lutadores sociais argentinos do Movimento
Social e Cooperativo 1o de Maio, presos pelo
Estado Argentino acusados de incitarem
uma série de saques de alimentos e mer-
cadorias no mês de dezembro de 2012 em
Bariloche. Há mais de 10 anos esses militan-
tes sociais vêm se mobilizando e buscando
alternativas contra o desemprego e toda a
classe de injustiças, repressão, precarização
das condições de trabalho, assassinatos à
juventude pobre, derivadas das políticas de
clientelismo e assistencialismo, únicas res-
postas dos governos as demandas popula-
res. No dia 20 de dezembro, em mais de 40
cidades da Argentina, centenas de famílias
pobres decidiram tomar com suas próprias
mãos alimentos de grandes supermercados,
dando um basta à fome causada pela indi-
ferença dos governos aos reclamos de tra-
balho e melhores condições de vida. Uma
série de companheir@s da Cooperativa 1o
de Maio foram então acusados de incitarem
os saques em Bariloche e presos. Junto com
eles foram detido pessoas que participaram
dos saques e outras que saíram as ruas em
solidariedade exigindo a libertação desses
lutadores. Estes fatos estão inseridos em
um contexto de criminalização do protesto
e das mobilizações populares; de tentativa
de desestruturar o trabalho daqueles que
não se enquadram na lógica paternalista e
clientelista dos governantes argentinos; e no
processo de redução salarial e precarização
das condições de trabalho para que as gran-
des empresas possam lucrar cada vez mais.
É por isso que saímos às ruas em solidarie-
dade, gritando: Mão estendida aos compa-
nheiros! Punho cerrado aos inimigos! Liber-
dade aos lutadores sociais do Movimento
Social e Cooperativo 1o de Maio! (assinam
40 organizações sociais e políticas)


O PAU COMEU NA TERRA DO JOCA
Num canto de sertão
Havia um “coroné”
Usava botas de couro
E na cabeça
Um “chapé”
No ombro
Usava um laço
Nas mãos
Uma espingarda
Montado
No seu cavalo
De cima
Falava alto:
- Corta cana!
- Colhe a cana!
- Vamos todos trabalhar!
- Corta o mato!
- Colhe o mato!
- Ninguém pode descansar!
Mas “teve” um dia
E Que Não “arresolveram”
“guentaram” os “bóia-fria”
mais
Mudar de ideia
Hum!
Coitado do “coroné”
E seus “capatais”
“Inté” o chão
Que era mansinho
Com o fogo ardeu
E o pau comeu...
É, o pau comeu
Na terra do Joca.
Joca se juntou a Juca
Teca se juntou a Tuca
E foram todos para a luta.
Joca se juntou a Juca
Juca se juntou a Teca
Teca se juntou a Tuca
E foram todos para a luta.
(pausa)
Quando amanheceu
Zefinha Havia cantoria
que era feinha
Bonita “inté” “ficô”
Ciro que era calado
“Int锓discursô”.
Meninos
Brincavam de roda
Meninas
De roda brincavam
Os velhos
Sentados nos bancos
Na cara
Um “oh!” de espanto:
- Conseguiram!
Vamos Teca corta todos cana,Tuca “trabalhá”
colhe a cana
Joca corta o mato, Juca colhe o mato
É da gente esse “lugá”
Teca corta cana
Tuca colhe a cana
Vamos todos “descansá”.
Joca corta o mato
Juca colhe o mato
Vamos todos “governá”.
Julinho Terra
Coletivo Anarquista Vira-Lata, anos 1980.
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