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(pt) Portugal, Conferência Libertária de Setúbal - dia 1 + dia 2 (en)

Date Mon, 15 Apr 2013 13:18:29 +0300





dia 1 ---- Participei hoje durante todo o dia na Conferência Libertária que está a decorrer em Setúbal, no Ateneu Setubalense. Em média – umas vezes mais, outras menos – estiveram presentes cerca de 30 militantes anarquistas, representando sobretudo grupos, espaços ou individuos da zona sul do país – Baixo Alentejo, Évora, Setúbal, Lisboa, Coimbra. Apesar de não haver uma agenda previamente definida, na parte da manhã, a discussão foi reservada para os temas específicos do movimento libertário e cada um dos presentes fez uma apresentação da realidade na sua zona ou associação. A conclusão é que as realidades são diversas, embora seja patente um crescimento da simpatia pelas ideias libertárias e assemblearias, em conjunto com uma maior visibilidade dos colectivos anarquistas que têm protagonizado acções diversas em ligação com os movimentos sociais emergentes, mas também demarcando-se claramente da esquerda e da extrema-esquerda do sistema.

A pausa para o almoço conduziu-nos à COSA (Casa Okupada Setubal Autogestionada) onde foi servido um almoço vegetariano aos participantes na Conferência. A COSA é o exemplo de uma ocupação já com história. A ocupação remonta ao início da década de 2000 e é um espaço de encontro e de resistência anarquista e anti-autoritária em Setúbal e uma referência para o movimento libertário em Portugal.

Os trabalhos da Conferência foram retomados pouco depois da duas da tarde e ficou definida a criação de uma mail list entre os diversos grupos e indivíduos presentes (a que outros, desde que o solicitem, se podem associar), como base de entreajuda e preparação de acções em comum, podendo ser o início de uma rede anarquista, embora informal, que englobe todo o território.

Depois tiveram inicio as sessões abertas ao público em geral, com mais gente na sala. O debate foi conduzido por Vitor Lima (Indignados de Lisboa) e teve como tema “Movimentos Libertários nas Manifestações Sociais”. Foi um debate muito participado e , entre diversos pontos, foi referida a necessidade de que os anarquistas participem e influenciem os vários movimentos sociais – muitos deles de base libertária -, sendo salientada a necessidade de um maior aprofundamento dos problemas que o capitalismo atravessa e das soluções de transformação da sociedade que, a partir de uma perspectiva libertária, podem ser equacionadas.

De seguida, um dos elementos do Colectivo Gonçalves Correia, de Castro Verde, apresentou o último número da revista Alambique, sobre comunidades alternativas de raiz rural. Mais um tema relevante que motivou também um debate participado. Seguiu-se o jantar na COSA.

Para este domingo (onde, em princípio, não poderei participar) vai-se discutir na parte da manhã a possibilidade de se organizarem umas Jornadas Libertárias a sul do Tejo (polinucleadas) e uma conversa em torno de uma convocatória alargada para uma manifestação no 1º de Maio, em Setúbal. Na parte mais pública haverá dois temas importantes em debate: “Os mecanismos da dominação” e a discussão em torno do jornal libertário “MAPA” cujo 1º número foi editado recentemente.

Apenas duas notas: os debates em que participei durante o dia de hoje foram importantes, sobretudo como espaço de construção de um movimento libertário que se tem conseguido renovar. E, também neste sentido, é importante ressaltar a grande qualidade teórica e anímica dos jovens que constituíam a esmagadora maioria dos participantes nos debates deste primeiro dia da CLS2013.

e.m.

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Dando conta do 2º dia da Conferência Libertária de Setúbal

Ao contrário do que tinhamos inicialmente pensado, afinal conseguimos (3 elementos do Colectivo Libertário de Évora) estarmos hoje presentes no 2º dia da Conferência Libertária de Setúbal, mas desta vez foi tempo um pouco perdido para os muitos quilómetros que tivemos de percorrer entre Évora e Setúbal. Se ontem os debates quer sobre os Movimentos Sociais, quer sobre as Comunidades Anarquistas (tema de capa da revista Alambique) foram animados e contextualizados, este domingo a sessão apenas se iniciou depois de almoço trazendo para o debate a organização do 1º de Maio. Pouco se adiantou – mas será bom que os companheiros de Setúbal levem para a frente tudo o que decidirem que nós, em Évora, os apoiaremos – e foi um tempo gasto com pouca utilidade.

Para hoje também estava prevista a discussão sobre a realização de umas Jornadas Libertárias – mas não se fez.

Depois, estava agendado o debate em torno do jornal MAPA de que saiu recentemente o 1º número. Muitos colaboradores estavam presentes, mas foi difícil chegar a alguma ideia. Apesar de considerar o MAPA uma experiência bem sucedida, útil e em evolução, ainda não consegui perceber, por exemplo, se este é um jornal anarquista ou se pretende juntar diversas posturas ideológicas que não se reconheçam no sistema; não entendi o que se pretende com ele quando se refere que pretende “ligar” as lutas (um jornal que sai de dois em dois meses, é mais uma revista. Carece de actualidade e de imediatez); pareceu-me que o grafismo e a densidade de texto não se coadunam com a ideia de o tornar “popular”, ou seja, atractivo para um público que, à partida, não esteja “ganho” para a “causa”; reafirmei que o projecto em papel não pode fazer esquecer o projecto na Internet, acessível a muito mais gente. Coloquei estas questões em cima da mesa e foram, de alguma forma, mal recebidas por parte de alguns dos presentes – sobretudo quando disse (e reafirmo) que um jornal deve ser algo mais do que um conjunto de egos (de eus) – deve ter um projecto perceptível e claro na sua génese e uma definição que permita cumprir os objectivos para que foi criado (e que, neste caso, suponho ser o de dar uma informação não manipulada, alternativa aos media do sistema e actuante relativamente aos princípios anti-autoritários).

Outros companheiros elogiaram o jornal, outros fizeram críticas pontuais, mas foi tudo muito ao de leve, pela rama. Pela minha parte deixo aqui escrito o que ali disse: prezo o trabalho e a dedicação destes jovens e menos jovens companheiros, o seu empenho e a certeza de que esta “escola de jornalismo” vai ser importante quer para este, quer para projectos futuros. Mas, por favor, aceitem as críticas, os reparos – até os menos justos. Um jornal, para o ser, tem que ser um projecto colectivo dos que o fazem, dos que o já lêem e dos que ainda o não lêem. Um jornal é o seu conteúdo – mas sobretudo a utilidade que ele possa ter ou não para os seus leitores. E, muitas vezes, nos meios libertários há uma autosuficiência e uma quase arrogância face a qualquer crítica, que não significa força – apenas fraqueza e medo de nos confrontarmos com aquilo que não nos agrada.

Depois não assisti ao final da Conferência, por questões de agenda, mas pelo que julgo saber pouco mais se avançou. Se o primeiro dia da Conferência ainda se “salvou”, tendo mesmo bons momentos, neste segundo dia nada de concreto se definiu em termos internos ao movimento libertário, nem daqui saiu qualquer proposta de trabalho em conjunto, a não ser a criação de uma mail list.

Foi pouco e, apesar do bom trabalho logístico desenvolvido pelos companheiros de Setúbal para que esta Conferência se tivesse realizado e pelo facto de muitos de nós nos termos conhecido ou reencontrado, daí resultando sempre um valor acrescido, esta Conferência representou mais uma oportunidade que não foi aproveitada de debater as questões internas e relevantes que vinham da Conferência do Porto de Setembro passado, nomeadamente as actividades coordenadas ou a definição de uma plataforma de entreajuda mais funcional entre as organizações, grupos, espaços ou indivíduos anarquistas. Mostrou também que uma Conferência deste tipo tem que ser melhor organizada, com temas e intervenções mais debatidas e melhor preparadas, e com um trabalho preparatório que envolva de facto a generalidade do movimento anarquista em território português, levando-o a participar e a apresentar propostas pensadas e estruturadas. O que, viu-se, não aconteceu desta vez.

Mas, é claro, o caminho faz-se caminhando e outras oportunidades haverá. Só que, face à emergência do movimento social derivada do contexto actual, seria importante uma presença mais efectiva dos anarquistas portugueses na linha da frente na luta pela transformação social. E o que acontece (como tem acontecido ao longo das últimas dezenas de anos) é que muitas vezes o pior inimigo do anarquismo são os anarquistas que não sabem aproveitar as oportunidades de crescimento e de influência sobre as lutas sociais que a realidade lhes tem oferecido quase de mão-beijada. E esse é o caso dos dias que correm: se o movimento anarquista, mais uma vez, não crescer e não criar raízes profundas na sociedade portuguesa, a culpa só a nós pode ser assacada.

(Quanto a um possível manifesto, conclusões ou comunicado final não sei se haverá, embora os companheiros de Setúbal tenham tomado notas para fazer uma acta do encontro). Apesar de tudo, para eles, no final, uma palavra de agradecimento pelo empenho, esforço e dedicação (apesar da escassez de recursos) com que organizaram a Conferência. Fizeram o que puderam, pelo que vi. E também o melhor que puderam.

e.m.
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