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(pt) Portugal, Colectivo Libertario Evora - O papel contra-revolucionário das vanguardas marxistas-leninistas é cada vez mais evidente para muitos insurgentes em todo o mundo by Raul Zibech (en)

Date Mon, 25 Mar 2013 19:00:40 +0200


As potentes mobilizações que atravessam o mundo estão a desafiar tanto democracias como ditaduras, regimes nascidos de eleições ou através de golpes de Estado, governos do primeiro ou do terceiro mundo. Mas não só. Desafiam os muros de contenção dos partidos socialdemocratas e de esquerda, nas suas diversas variantes. Desafiam também os saberes acumulados pelas práticas emancipatórias com mais de um século, pelo menos desde a Comuna de Paris. ---- Naturalmente que isto produz desconcerto e desconfiança entre as velhas hostes revolucionárias, que reclamam uma organização mais sólida, um programa com objectivos alcançáveis e caminhos para os conseguir. Em suma, uma estratégia e uma táctica que pavimentem a unidade de movimentos que estariam condenados ao fracasso se persistissem na dispersão e improvisação actuais.

Isto é dito frequentemente por pessoas que participam nestes movimentos e que estão satisfeitas por eles existirem, mas que não aceitam que eles possam caminhar por si próprios sem que exista uma intervenção mediadora que estabeleça uma certa orientação e direcção.

No entanto, os movimentos actuais questionam de forma radical a ideia de vanguarda, de que é necessária uma organização de especialistas para pensar, planificar e dirigir o movimento. Esta ideia nasceu, como nos mostra George Haupt no livro “La Comuna como símbolo y como exemplo” (Siglo XXI, 1986), com o fracasso da Comuna. A leitura que foi feita por uma parte do campo revolucionário foi a de que a experiência parisiense fracassou devido à inexistência duma direcção: foi a falta de centralização e de autoridade que custou a vida à Comuna de Paris, disse Engels a Bakunin. O que naquele momento era acertado.

Haupt sustenta que a partir do fracasso da Comuna surgiram novos temas no movimento socialista: o partido e a tomada do aparelho de Estado. Na socialdemocracia alemã, o principal partido operário da época, abre-se caminho à ideia de que a Comuna de 1871 era um modelo a recusar, como escreveu Bebel poucos anos depois. A onda que se lhe seguiu de revoluções operárias, que teve o seu ponto alto na revolução russa de 1917, foi marcada a fogo por uma teoria da revolução que fez da organização hierárquica e especializada o seu eixo central.

No último meio século sucederam-se novas movimentações dos de baixo: as revoluções de 1968 e as actuais, que provavelmente têm o seu ponto de arranque nos movimentos latino-americanos contra o neoliberalismo, na década de 1990. Neste meio século sucederam-se, integrados nos dois ciclos, alguns factos que modificaram radicalmente aqueles princípios: o fracasso do socialismo soviético, a descolonização do terceiro-mundo e, sobretudo, as revoltas das mulheres, dos jovens e dos operários. Os três processos são tão recentes que muitas vezes não reparamos na profundidade das mudanças que encerram.

As mulheres fizeram entrar em crise o patriarcado, o que não quer dizer que tenha desaparecido, quebrando um dos núcleos da dominação. Os jovens desafiaram a cultura autoritária. Os operários e as operárias desarticularam o fordismo. É claro que os três movimentos pertencem a um mesmo processo que podemos resumir na crise da autoridade: do macho, do hierarca e do capataz. No seu lugar instalou-se uma grande desordem que força os dominadores a procurarem novas formas para dominarem os de baixo, para imporem uma ordem cada vez mais efémera e menos legítima, já que frequentemente é apenas violência: machista, estatal, a partir de cima.

Ao mesmo tempo, os de baixo apropriaram-se de saberes que antes lhes eram negados, desde o domínio da escrita até às modernas tecnologias da comunicação. Mas o mais importante é que aprenderam dois factos entrelaçados: como actua a dominação e como fazer para a desarticular ou, pelo menos, como neutraliza-la. Há um século atrás os operários que dominavam estas técnicas eram uma exígua minoria. As rebeliões, como a que inspirou a Comuna, eram feitas de brechas que outros abriam nos muros da dominação. Agora os de baixo aprendemos a abrir frestas por nós próprios, sem depender da sacrossanta conjuntura revolucionária, cujo conhecimento era obra de especialistas que dominavam certos saberes abstractos.

Nalgumas regiões pobres do mundo deu-se a recuperação de saberes ancestrais dos de baixo, que tinham sido esmagados pelo progresso e pela modernidade. Neste processo os povos indígenas jogam um papel decisivo ao dar-se uma vida nova a um conjunto de saberes ligados à saúde, à aprendizagem, à relação com o meio e também à defesa das comunidades, ou seja, à guerra. Aí estão os zapatistas, mas também as comunidades de Bagua, na selva peruana, e um sem fim de experiências que mostram que aqueles saberes são válidos para formas de resistência.

Este conjunto de aprendizagens e novas capacidades adquiridas na resistência puseram fora de uso e pouco operativa a existência de vanguardas, de grupos que têm vocação para mandar porque julgam saber o que é melhor para os outros. Na actualidade, povos inteiros sabem como se podem conduzir a si próprios, alguns com base no mandar obedecendo, mas também inspirados nos princípios que temos podido escutar e praticar neste últimos anos: caminhar ao ritmo do passo dos mais lentos, entre todos sabemos tudo e caminhamos perguntando.

Isto não quer dizer que já não seja preciso organizarmo-nos em colectivos militantes. Sem este tipo de organizações e grupos, integrados por activistas ou como se queira chamar às pessoas que dedicam as melhores energias a mudar o mundo, a mudança nunca mais chegaria, porque ela não cai do céu, nem é oferta de caudilhos e estadistas esclarecidos. As revoluções que estamos a viver são frutos dessas múltiplas energias. Somos muitos e muitas a detoná-las. Mas, uma vez postas em marcha, a pretensão de dirigi-las de forma centralizada só pode produzir resultados opostos aos desejados.

http://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2013/03/25/as-revolucoes-contra-as-vanguardas/

fonte: http://metiendoruido.com/2013/03/las-revoluciones-contra-las-vanguardias/
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