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(pt) Apoio Mútuo #2 - A Confederação Geral do Trabalho e a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores

Date Sat, 09 Mar 2013 22:35:21 +0200


Os anarco­sindicalistas e sindicalistas revolucionários[1] portugueses foram, desde a primeira hora, defensores da criação de uma Internacional do sindicalismo revolucionário, um desejo que se viria a concretizar no Congresso de Berlim, realizado entre os dias 25 de Dezembro de 1922 e 2 de Janeiro de 1923, que criou a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Este artigo, redigido para assina­lar o 90o aniversário da Associação Internacional dos Trabalhadores, pretende recuperar alguns ele­mentos da história das relações internacionais da organização operária portuguesa – constituída como Confederação Geral do Trabalho (CGT) a partir de 1919 – e do seu contributo para a criação da AIT[2].

Já no Congresso Pró­Paz realizado em 1915 na cidade portuária gale­ga de Ferrol, no qual o anarquista Manuel Joaquim de Sousa representou a secção Norte da União Operária Naci­onal (UON)[3], os delegados portugue­ses e espanhóis haviam concordado na
necessidade de “estreitar os laços de so­lidariedade entre o proletariado de am­bos os países, dando­se assim princípio à organização da Federação Ibérica, cé­lula inicial da Federação Internacional dos Sindicatos Operários, contra a guerra, contra todas as guerras, contra a exploração capitalista e contra a tira­nia do estado”[4].

Em Setembro de 1919, realiza­se em
Coimbra o 2o Congresso Operário Naci-­
onal[5], no qual é criada a Confederação
Geral do Trabalho, que agrupa cerca de
duas centenas de sindicatos, represen­-
tando pelo menos 85 mil trabalhado­-
res[6]. A fundação da CGT tem lugar
num contexto de expansão e radicaliza­-
ção do movimento sindical. Sucedem­se
os movimentos grevistas que colocam
violentamente em confronto o operaria­-
do, o patronato e o Estado[7]. A 23 de
Fevereiro de 1919, inicia­se a publicação
do diário A Batalha, ainda como órgão
da UON, que rapidamente se torna no
terceiro jornal de maior tiragem em
Portugal.

No Congresso de Coimbra é discuti­-
da a questão da filiação internacional da
organização confederal, concluindo­se
pela rejeição da adesão à Internacional
de Amesterdão (reformista) e pela ne­-
cessidade de estabelecer relações com
centrais sindicais de outros países com
vista à criação de uma internacional
sindicalista revolucionária. É aprovada
a seguinte tese da autoria de Manuel
Joaquim de Sousa:

“1.o O Congresso Operário Portu­-
guês, reunido em Coimbra, resolve pôr
de parte a resolução votada no Congres­-
so de Tomar, segundo a qual a Confede­-
ração Operária Portuguesa se deveria fi­-
liar na União Sindical Internacional
(Amesterdão), executando e fazendo
executar as suas resoluções, tanto por­-
que aquele organismo parece já não dar
sinal de vida, como e principalmente,
porque, dado que existe, não corres­-
ponde às necessidades e objectivos de
emancipação da classe operária inter­-
nacional.

“2.o O proletariado português, orga­--
nizado pela sua Confederação Nacional,
entrará, desde já em relações com as
Centrais operárias dos outros países,
sem alienar ou apoucar a sua autono­-
mia, respeitando reciprocamente os
mesmos princípios, por parte das orga­-
nizações dos outros países, condição
indispensável para um bom entendi­-
mento dentro dos moldes sindicais.
“3.o A Confederação Operária Por­-
tuguesa influirá nas conferências, con­-
gressos internacionais ou nas simples e
amistosas relações quotidianas com as
Centrais dos outros países, para que se
institua a Confederação Internacional
do Trabalho, com representantes exclu­-
sivamente operários, não sendo estes
investidos de qualquer mandato políti­-
co, para que por este organismo novo se
coordene a acção geral dos trabalhado­-
res de todos os países que aspiram ao
fim comum da sua integral emancipa­-
ção.

“4.o O Congresso do Operariado
Português declara contribuir, na medi­-
da das suas possibilidades, para a exe­-
cução de qualquer resolução votada pe­-
lo operariado organizado dos outros
países, no sentido de apressar a queda
do regime económico actual da produ­-
ção e sua substituição pela gestão do
trabalho emancipado por meio dos seus
organismos de classe”[8].

A revolução russa teve um profundo
impacto no movimento operário portu­-
guês, sendo desde cedo saudada nas pá­-
ginas da imprensa operária, que faz a
sua defesa contra os ataques e calúnias
da imprensa burguesa. A imprensa
anarco­sindicalista mostrava­se “espe­-
rançada nos bolcheviques”, embora pu­-
blicando opiniões diversas e contraditó­-
rias sobre o regime soviético. Embora
soubessem que o regime bolchevique
não respeitava os princípios libertári­-
os[9], os anarco­sindicalistas recusavam
colocar­se ao lado da reacção burguesa
que ameaçava a revolução russa[10].

É sobretudo a tentativa de apropria­-
ção e reformulação da doutrina sindica­-
lista revolucionária, através da adopção
de métodos bolcheviques, que vai dar
início a uma batalha ideológica que, a
partir de 1919, se manifesta na impren­-
sa operária[11].

Ao longo do ano de 1919, os sindica­-
listas partidários da “ditadura do prole­-
tariado” bolchevique organizam­se em
“conselhos maximalistas”, começando a
publicar, em Outubro, o semanário A
Bandeira Vermelha, órgão da Federação
Maximalista Portuguesa, anunciado co­-
mo um “valioso instrumento de propa­-
ganda sindicalista e libertária”[12].

Por outro lado, entre Novembro de
1920 e Fevereiro de 1921, o sindicalista
revolucionário Carlos Rates tentará,
através de uma série de artigos publica­-
dos nas páginas de A Batalha, harmoni­-
zar a doutrina sindicalista revolucioná­-
ria com as ideias de “ditadura do prole­-
tariado” e de “vanguarda revolucioná­-
ria”. Grande defensor da fórmula se­-
gundo a qual le syndicalisme se suffit à
lui­même [“o sindicalismo basta­se a si
próprio”] na polémica que em 1913 opôs
sindicalistas revolucionários e anarquis-­
tas, Rates advoga agora que este precei­-
to clássico do sindicalismo revolucioná­-
rio corresponderia ao papel da organi­-
zação operária na direcção da vida soci­-
al, advogando a conquista do poder pela
CGT, que deveria assumir o papel de
vanguarda revolucionária, para instituir
uma ditadura proletária, descentraliza­-
da e exercida directamente pelos sindi­-
catos e suas federações[13]. As ideias de
Carlos Rates são contrariadas por Emí­-
lio Costa que refuta a ideia de ditadura
do proletariado com base no exemplo
da Rússia, onde esta forma de ditadura
não é mais que “uma ditadura propria­-
mente dita, com os seus decretos, as
suas sanções, os seus agentes executivos
e sobretudo a sua força armada...”[14].

Apesar de o órgão da CGT, A Bata­-
lha, permanecer durante muito tempo
neutral em relação à clivagem ideológi­-
ca entre sindicalistas anarquistas e sin­-
dicalistas defensores do bolchevismo, a
reacção anarco­sindicalista à tendência
bolchevista envolverá activamente o
próprio secretário­geral da CGT, Ma­-
nuel Joaquim de Sousa, no diário anar­-
quista de que é director, A Comuna[15].

Só em Dezembro de 1920, a redacção de
A Batalha toma uma posição, negando a
conquista do poder enquanto método
revolucionário, numa série de editoriais
intitulada “O caminho a seguir”[16].

Em Fevereiro de 1921, o primeiro
Congresso da Federação de Juventudes
Sindicalistas[17] afirma “os meios sindi­-
calistas revolucionários como meios de
luta económica e de acção, a dentro da
actual sociedade, educando­se e prepa­-
rando­se para receber um novo regime
social, que tendo por sistema político o
anarquismo e como regime económico­-
social o comunismo anárquico”[18].

Pouco depois do congresso, a facção
bolchevista liderada por José de Sousa
abandona as Juventudes Sindicalistas,
assumidamente anarco­sindicalistas,
para integrar o Partido Comunista Por­-
tuguês (PCP) fundado em Março[19].

Ainda em Fevereiro, Manuel Joa­-
quim de Sousa publica um artigo em A
Batalha, intitulado “Relações Internaci­-
onais”, em que anuncia a realização de
uma conferência sindical revolucionária
em Berlim[20] e desafia o proletariado a
pensar a questão da organização operá­-
ria, colocando de parte a Internacional
Comunista “por ir contra o estabelecido
em Coimbra de não estabelecer relações
com partidos políticos”[21].

Em Julho de 1921, em resposta ao
manifesto de fundação do PCP, o Comi­-
té Confederal da CGT publica a Nota
Oficiosa “Em face de um novo partido
político”. Nesta, o Comité Confederal
“afirma “a característica anti­colabora­-
cionista da organização sindical com as
instituições da burguesia e com quais­-
quer partidos políticos, seja qual for o
seu método de acção e a sua finalidade
político­social” e defende que “o prole­-
tariado, a caminho da sua emancipação
pela libertação da tutela dos senhores
de hoje, não quer criar novas cadeias
onde o prendam, amanhã, novos se­-
nhores”. Face às afirmações do PCP, de
que constitui “um organismo político­-
revolucionário de administração políti­-
ca” e que preconiza a socialização dos
meios de produção, “entregando a ges­-
tão da produção às Federações de In­-
dústria”, a “CGT afirma que a organiza­-
ção sindical – os Sindicatos, as Uniões
de Sindicatos, as Federações de Indús­-
tria e a Confederação – sendo organis­-
mos de combate, serão organismos de
expropriação e não confiam a qualquer
partido político [...] o que só os traba­-
lhadores podem e devem realizar pela
acção directa, nos seus organismos de
classe”. Contrariando a afirmação do
PCP de que “a organização sindical não
se basta a si própria”, o Comité Confe­-
deral responde que “a CGT aceita o sig­-
nificado da frase [...] se com ele se quer
explicar que para conseguir um estádio
social, filosoficamente superior, não
basta a luta económica pela acção do
sindicalismo; mas se se quer tirar a ila­-
ção de que a acção do operariado, como
classe social escravizada, não basta ser
exercida no terreno económico, para o
ser simultaneamente no terreno político
parlamentar e com o concurso estéril e
perigosamente nocivo dos videirinhos
da política, então a CGT fiel às decisões
dos Congressos Nacionais sindicais, de­-
clara que a acção do operariado basta, e
que, como tal, nem emparceira com
qualquer partido político, nem consente
que no seio da organização se desenvol­-
va a deletéria acção política”[22].

Em Julho de 1921, realizou­se o
Congresso da Internacional Sindical
Vermelha (ISV) em Moscovo[23]. Graças
a um sistema de representação que os
favorecia, os bolcheviques conseguiram
levar adiante o seu plano de criação de
uma internacional sindical (Profintern)
subordinada à Internacional Comunista
(Comintern). As organizações sindica­-
listas revolucionárias, muitas das quais
ainda sem possuírem uma posição clara
em relação à ISV, não conseguiram le­-
var adiante o projecto de uma internaci­-
onal sindical revolucionária, apesar de
os seus delegados presentes no Con­
gresso terem adoptado um “Manifesto
dos sindicalistas revolucionários inter­-
nacionais” e concordado em criar uma
“associação de elementos revolucionári­-
os internacionais”[24].

Mas, à medida que foram tomando
conhecimento da repressão que atingia
os anarquistas e anarco­sindicalistas na
Rússia bolchevique, endurecida ao lon­-
go do ano de 1921, as posições das orga­-
nizações sindicalistas revolucionárias
foram­se clarificando. Em Junho de
1922, realizou­se em Berlim “uma con­-
ferência sindicalista internacional com
o objectivo de estudar as diferenças de
posições existentes entre o movimento
sindicalista revolucionário de todos os
países e a Internacional Sindical Ver­-
melha” e para chegar a um acordo sobre
a formação de uma Internacional de
Sindicatos Revolucionários, caso as di­
ferenças com a ISV não possam ser re­-
solvidas”[25]. A conferência acabou por
decidir a ruptura com a ISV e a convo­-
catória de um congresso internacional
de sindicatos revolucionários.

Entretanto, em Portugal, nos pri­-
meiros dias de Outubro de 1922, reali­-
za­se na Covilhã o 3o Congresso Operá­-
rio Nacional. As principais teses apre­-
sentadas a votação diziam respeito à es­-
truturação orgânica da CGT, destacan­-
do­se a tese “Organização Social Sindi­-
calista”[26], e às relações internacionais,
com uma proposta de adesão à Interna­-
cional Sindical Vermelha. O Congresso
acabou por ser dominado pela questão
das relações internacionais, porquanto
esta colocava em confronto a facção bol­-
chevista, minoritária, que pretendia
conquistar a CGT, e a grande maioria
sindicalista revolucionária e anarco­sin­-
dicalista, que pretendia conservar o ca­-
rácter sindicalista revolucionário, autó­-
nomo e apolítico da confederação ope­-
rária. O debate foi vivo, tendo 40 dele­-
gados pedido a palavra para intervir
nesta questão.

Fernando de Almeida Marques, re­-
presentando as Juventudes Sindicalis­-
tas, pronunciou um discurso em que
afirmou: “As Juventudes Sindicalistas
discordam da adesão a Moscóvia, decla­-
rando­se fiéis aos princípios sindicalis­-
tas revolucionários que sempre defen­-
deram. [...] Se se aceitar a adesão a
Moscóvia temos de aceitar a ligação
com o P.C.P., quando há pouco tempo
toda a organização o repeliu solidari­-
zando­se com a nota oficiosa da C.G.T.
[...] A transformação da I.S.V. é impos­-
sível porque Portugal só teria 1 voto
dentro dela, enquanto a Central Russa
tem 17. Semelhante sistema de votações
é o esmagamento”[27].

A proposta de adesão à Internacio­-
nal de Moscovo acabou por ser rejeita­-
da, com a aprovação, com 55 votos a fa­-
vor, 22 contra e 8 abstenções, de uma
moção de Clemente Vieira dos Santos,
que começa por tecer uma série de con­
siderações: “Considerando: que o sindi­-
calismo revolucionário teve a sua ori­-
gem histórica nas pugnas desencadea­-
das no laboratório ideológico da 1.a In­-
ternacional, levada a efeito pelos fervo­-
rosos partidários dos princípios autori­-
tários e centralistas; que a tese “Orga­-
nização Social Sindicalista” preconiza o
princípio da 1.a Internacional [...]; que a
tese em alusão confirma também que o
movimento operário sob a inspiração
suprema do sindicalismo revolucioná­-
rio, partiu de um momento de espontâ­-
nea revolta contra o predomínio dos
partidos políticos; que a organização
portuguesa moderna tem visado um
ideal, afirmando uma tática – a do sin­-
dicalismo revolucionário, e uma finali­-
dade – o comunismo livre; que [...] o
Sindicalismo, organização baseada nas
profissões, tem por fim imediato e sub­-
jectivo, a defesa, a luta directa de clas­-
ses e a expropriação contra o regime
burguês, patronal e estatal; que, por
consequência, [...] tem uma acção ex­-
clusiva e puramente anti­política e es­-
tatal e é estranha a qualquer poder go­-
vernativo, rejeitando, ipso­facto, os
princípios e meios de acção da demo­-
cracia; [...] que os princípios ideológicos
consignados na tese “Organização Soci­-
al Sindicalista” condizem perfeitamente
com os princípios expressos nas moções
aprovadas na Conferência Internacional
de Berlim [...]”.

Referindo­se à tese apresentada no
Congresso a favor da adesão à Interna­-
cional Sindical Vermelha, a moção
aprovada classifica­a como “erro la­-
mentável que revoga toda a característi­-
ca doutrinária e originária do Sindica­-
lismo Revolucionário”, uma vez que a
ISV “defende a conquista dos poderes e
a ditadura do proletariado nas mãos de
um poder central erroneamente prole­
tário; [...] determina um contacto es­-
treito e uma ligação orgânica e técnica
entre a Internacional Sindical Vermelha
e a Internacional Comunista; [...] esta­-
belece uma junção real e estreita entre
os sindicatos operários e o partido co­-
munista russo aceitando a interpene­-
tração de membros dum e doutros nos
seus corpos directivos; [...] estando per­-
feitamente ligado ao Partido Comunista
Russo, que está no poder, encontra­se,
ipso­facto, ao lado do Estado e do go­-
verno moscovita [...] sendo assim, está
considerada como um instrumento do
estado russo, sendo sua subordinada
política, o que destrói toda a essência
sindicalista revolucionária que a orga­-
nização operária portuguesa deve man­-
ter a todo o custo”.
Desta forma, a moção de Clemente
Vieira dos Santos conclui:
“O Congresso Nacional Operário,
reunido na Covilhã, resolve:

“1.o ­ Rectificar a sua plena concor­-
dância, para manter a tese já aprovada
sobre a Organização Social Sindicalista;

“2.o ­ Manter a genuína característi­-
ca do sindicalismo revolucionário em
que a organização operária portuguesa
tem assentado;

“3.o – Não aceitar a adesão a qual­-
quer uma das duas Internacionais exis­-
tentes, uma (a de Amsterdão), por fal­-
sear a sua missão histórica, colaboran­-
do com a burguesia; outra, a I.S.V, por
estabelecer a coligação com os partidos
políticos comunistas e estatais que pre­-
tendem estagnar e absorver a revolu­-
ção, e por estar intimamente relaciona­
da com o Estado russo;

“4.o – Aceitar os princípios estabele­-
cidos na Conferência de Berlim, por es­-
tarem consentâneos com o espírito re­-
volucionário pré­estabelecido na tese
Organização Social Sindicalista, aguar­-
dando, para resolução definitiva, a efec­-
tivação do Congresso marcado pela
mesma Conferência, no qual se fará re­-
presentar – se possível for – o operaria­-
do português”[28].

O congresso de constituição da in­-
ternacional anarco­sindicalista, desig­-
nada Associação Internacional dos Tra­-
balhadores, teve finalmente lugar em
Berlim, entre os dias 25 de Dezembro
de 1922 e 2 de Janeiro de 1923. A CGT
portuguesa enviou o seu apoio por es­-
crito e foi reconhecida como membro de
pleno direito do congresso[29].

Apesar da indicação precisa sobre a
orientação das relações internacionais
da C.G.T., dada pelo Congresso da Covi­-
lhã, era necessária uma decisão definiti­-
va sobre a adesão à Associação Interna­-
cional dos Trabalhadores, entretanto
fundada em Berlim. Esta decisão defini­-
tiva chegou em 8 de Setembro de 1924,
quando 115 sindicatos se pronunciaram,
a pedido do Conselho Confederal da
C.G.T., num referendo sobre a adesão
internacional da organização operária
portuguesa. O resultado foi ainda mais
esclarecedor, segundo Manuel Joaquim
de Sousa porque no Congresso da Covi­-
lhã “estavam os delegados, no referen­-
dum falaram os próprios organismos”:
104 sindicatos pronunciaram­se pela
adesão à AIT, contra apenas 6 que vota­
ram favoravelmente à adesão à ISV de
Moscovo, registando­se 5 abstenções[30].

Em 1923, teve lugar em Évora a
Conferência das Organizações Operári­-
as de Espanha e Portugal, com a pre­-
sença de Ácrato Lluhl, Manuel Pérez e
Sebastián Clara, como delegados da
CNT, e de José da Silva Santos Arranha
e Manuel Joaquim de Sousa, pela CGT.
Nesta reunião, segundo Edgar Rodri­-
gues, “Manuel Joaquim de Sousa – com
o apoio de Manuel Pérez – propôs, pela
primeira vez, a unificação do Movimen­-
to Confederal e Libertário da Península
Ibérica, englobando anarquistas espa-­
nhóis e portugueses”[31]. A ditadura de
Primo de Rivera instaurada em Espa­-
nha em 1923, que ilegalizou a CNT, e a
ditadura militar em Portugal em 1926, e
a consequente ilegalização da CGT, em
1927, tornariam impossível o projecto
de uma confederação operária ibéri­-
ca[32].

Entretanto, o Partido Comunista
Português prossegue o seu trabalho de
oposição dentro da CGT, com o objecti­-
vo de a “conquistar“, seguindo as or­-
dens do regime de Moscovo e recebendo
do mesmo orientação e apoio[33].
Em 1924, sucedem­se os congressos
operários, onde a adesão à AIT é apro­-
vada (3a congresso Corticeiro; 3o Con­-
gresso dos Operários do Calçado, Couro
e Peles; 1o Congresso dos Operários da
Indústria das Conservas; 2o Congresso
da Indústria da Tanoaria)[34]. O 6o Con­-
gresso dos Trabalhadores Rurais aprova
uma Declaração de Princípios em que
afirma: “Os trabalhadores rurais rejei­-
tam o salariato, nem o compreendem
dentro do regime de comunismo livre
com as terras socializadas. Preferem o
acordo fraternal entre os organismos
camponeses e os organismos industriais
para a troca recíproca de produtos utili­
záveis, as ferramentas e as matérias­
primas, no país por intermédio da CGT
e no mundo pela AIT”[35].

Entre os dias 23 e 27 de Setembro
de 1925, realiza­se o 1o Congresso Con­-
federal (4o Nacional) em Santarém,
com a presença de 164 delegados, re­-
presentando 113 sindicatos, 11 federa­-
ções de indústria e 5 uniões de sindica­-
tos. Manifestaram a sua adesão ao Con­-
gresso ainda 22 sindicatos que não pu­-
deram enviar delegados. A AIT foi re­-
presentada neste congresso por Arman­-
do Borghi e a CNT de Espanha por Ave­-
lino Gonzalez e Segundo Blanco. O
Congresso ratificou, sem polémica, a
adesão à AIT[36].

A participação activa da CGT na ac­-
tividade da Internacional prolongou­se
ao longo da década de 20, com particu­-
lar empenho de Manuel Joaquim de
Sousa. Em 1925, a CGT foi representada
no 2o Congresso da AIT, em Amester­-
dão, por Manuel da Silva Campos. Em
1926, Manuel Joaquim de Sousa foi o
delegado da CGT à Conferência Inter­-
nacional de Paris. Também em 1926,
Manuel Joaquim de Sousa representou
a AIT, juntamente com Armando
Borghi, no Congresso de Marselha, da
Federação de Grupos Anarquistas de
Língua Espanhola[37].

Apesar de não ter estado presente
nas reuniões internacionais que condu­-
ziram à criação da Associação Interna-­
cional dos Trabalhadores, a organização
operária portuguesa foi, desde cedo,
uma forte apoiante da criação de uma
internacional sindicalista revolucioná­-
ria. A criação desta internacional inte­-
grava, para os sindicalistas revolucioná­-
rios e anarco­sindicalistas portugueses,
um projecto de transformação social a
nível global, a levar a cabo pelas organi­-
zações sindicais revolucionárias. A par­-
tir de 1920­21, passou também a cor­-
responder à necessidade de manter a
confederação sindical numa linha revo­-
lucionária e independente de qualquer
formação política. Este último objecti­-
vo, tornou­se premente face às tentati­-
vas de um sector do sindicalismo fasci­-
nado com a “ditadura do proletariado”
na Rússia, entretanto organizado en­-
quanto Partido Comunista Português
(PCP), de subordinar a organização
confederal às directrizes do governo
bolchevique de Moscovo, tentando a
sua adesão à recém­criada Internacio­-
nal Sindical Vermelha (ISV). Da mesma
forma, a federação das organizações re­-
volucionárias do movimento operário,
primeiro a nível ibérico e depois a nível
mundial, era um objectivo que vinha
sendo defendido, pelo menos desde
1915, pelos militantes anarco­sindicalis­-
tas portugueses.
R. Pereira

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<http://www.fdca.it/fdcapt/imprensa/cadernos/hist_port/indice.htm>.


Notas:

1 - Embora os termos sindicalismo revolucionário e anarco-
sindicalismo sejam frequentemente utilizados como sinóni-
mos, tomamo-los aqui com diferentes acepções. Manuel
Joaquim de Sousa dá conta das divergências que opuseram
sindicalistas revolucionários e anarquistas, em 1913, no
seio do movimento sindical: os primeiros, como Manuel Ri-
beiro e Carlos Rates, “seguindo a interpretação de Sorel”,
defendem que “o sindicalismo se basta a si próprio”, os se-
gundos, como Emílio Costa, Clemente Vieira dos Santos e
Neno Vasco, concluem que “se o Sindicalismo exprime o
conceito de luta de classes, à margem dos partidos políticos
e visa à transformação económica da sociedade, a sua
existência como doutrina e acção cessa no momento em
que o acordo livre e voluntário determina novas fórmulas
que atendem a novas necessidades materiais e espirituais
da vida humana nas suas mais variadas e complexas mani-
festações” (SOUSA, Manuel Joaquim de – O sindicalismo
em Portugal. Porto: Afrontamento, 1972 [1a ed. 1931],
p. 95-96).

O sindicalista holandês Christiaan Cornelissen, ao estudar o
movimento sindicalista revolucionário do seu tempo, “dis-
tinguiu três grupos entre os activistas do sindicalismo revo-
lucionário: os sindicalistas, que consideravam o sindicalismo
como 'auto-suficiente' e distinto de qualquer outra ideolo-
gia [...]; os anarquistas, que viam no movimento sindical
uma possibilidade de passar da agitação à acção; e, final-
mente, membros dos partidos socialistas e grupos que de-
sejavam retirar o socialismo do impasse do parlamentaris-
mo” (DAMIER,V., Anarchosyndicalism in the 20th Cen-
tury. Edmonton: Black Cat Press, 2009 p. 24). Todas es-
tas tendências são observáveis do seio do movimento sindi-
cal português das primeiras duas décadas do século XX.
2 - É inegável a enorme contribuição, neste sentido, de
Manuel Joaquim de Sousa, militante anarquista activo em
todos os debates sobre relações internacionais no seio do
movimento operário português. Manuel Joaquim de Sousa,
operário do calçado, nasceu em 1885 em Paranhos, na ci-
dade do Porto. Desde cedo aderiu às ideias anarquistas, in-
tegrando o movimento operário portuense. Apesar de pos-
suir apenas a 2a classe da instrução primária foi um influ-
ente orador, polemista, jornalista e militante do movimento
anarco-sindicalista. Em 1919, foi eleito como primeiro se-
cretário-geral da Confederação Geral do Trabalho e mais
tarde foi o redactor principal do diário confederal “A Bata-
lha”. Respondendo a um pedido da AIT redigiu o livro O
Sindicalismo em Portugal, uma das principais fontes para a
história do movimento operário no primeiro quartel do sé-
culo XX.

3 - A União Operária Nacional, a primeira organização naci-
onal unitária do movimento operário português, foi consti-
tuída em Março de 1914 no Congresso de Tomar. Neste
congresso, confrontaram-se as correntes reformista e revo-
lucionária do movimento sindical, resultando deste embate
uma solução de conciliação. A influência do Partido Socia-
lista Português era ainda grande, sobretudo nos sindicatos
do Norte do país. Os “elementos revolucionários foram
obrigados a relevantes cedências”, mas “lograram oficiali-
zar a independência sindical face ao poder e aos partidos
políticos”. Este congresso terá tido por efeito “um recuo da
influência socialista mas também anarquista nas associa-
ções de classe”, sendo os sindicalistas revolucionários
quem garantia a “unidade entre reformistas e anarco-sindi-
calistas” (PEREIRA, Joana Dias - Sindicalismo revolucio-
nário: a história de uma idéa. Lisboa: Caleidoscópio,
2011, p. 85-88).

4 - SOUSA, Manuel Joaquim de – O sindicalismo em Por-
tugal. Porto: Afrontamento, 1972 [1a ed. 1931], p. 105.

5 - PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 133. A tese princi-
pal deste congresso, respeitante à criação da Confederação,
“consagra claramente os princípios do sindicalismo revoluci-
onário - a autonomia de base federativa, a inde
ependência face a toda a escola política ou doutrina religio-
sa, o objectivo da supressão do salariato pela posse de to-
dos os meios de produção”. “Neste congresso procura-se
contornar já não as diferenças entre reformistas e revolucio-
nários mas entre os militantes influenciados pela revolução
russa e os anarquistas”, funcionando o sindicalismo revolu-
cionário como a solução de conciliação (PEREIRA, Joana Di-
as – Op. Cit., p. 133).

6 - FREIRE, João – Anarquistas e operários: ideologia,
ofício e práticas sociais: o anarquismo e o operariado
em Portugal, 1900-1940. Porto: Afrontamento, 1992, p.
203. Este autor estima em 85 mil o número de trabalha-
dores confederados em 1920-1921, 90 mil em 1922, 55
mil em 1923-1924 e 70 mil em 1925. Outros autores,
como Rudolf Rocker, colocam a afiliação da CGT em 150
mil membros em 1922 (ROCKER, Rudolf - Anarcho-syndi-
calism), provavelmente seguindo a informação de Manuel
da Silva Campos, delegado da CGT ao 2o Congresso da AIT
em Amesterdão (FREIRE, João – Ibid.).

7 - PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 120. Neste contex-
to, o Partido Socialista Português vê “a sua influência no
meio sindical reduzida ao mínimo” e os seus representan-
tes abandonam “a pretensão de hegemonizar o movimen-
to operário” (p. 120-121).

8 - SOUSA, Manuel Joaquim de – Op. Cit., p. 112-113.

9 - A revista anarquista A Sementeira, respondendo à per-
gunta lançada por Pierre Monatte ao movimento operário
francês - “O Soviet é porventura coisa muito diversa da
União Local de Sindicatos?” - afirmava o seu receio face a
“certas superfetações políticas, resultantes do dualismo da
organização económica (soviet económico ou sindicato) e
da organização política centralizada (sindicato político)”
(PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 127).

10 - PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 126-127.

11 - Os primeiros protagonistas desta polémica, que tem
lugar nas páginas do diário da CGT A Batalha, serão o sindi-
calista revolucionário Manuel Ribeiro, que começa a defen-
der que o melhor caminho para obter a “emancipação dos
proletários” é “a conquista do poder”, divulgando “a for-
midável obra de remodelação social feita pelos sovietes”, e
o anarquista Emílio Costa, que recusa a “táctica socialista
de conquista dos poderes públicos” e a “ditadura do prole-
tariado”, “um perigo para (...) a base necessária de uma
melhoria na vida colectiva: a liberdade” (citados por PEREI-
RA, Joana Dias – Op. Cit., p. 127-128).

12 - PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 138. A Bandeira
Vermelha fará a apologia do regime soviético, divulgando
as ideias dos líderes bolcheviques russos e procurando legi-
timar a “ditadura do proletariado” como uma fase de tran-
sição para a sociedade desejada pelos sindicalistas portu-
gueses e o “sovietismo” como a “fórmula slava do sindica-
lismo operário ocidental”. Defendendo a “Revolução Social
concretizada na Ditadura do Proletariado” como uma nova
era no plano das ideologias (Manuel Ribeiro, “Novas Ten-
dências Sociais”, A Bandeira Vermelha, 7 de Outubro de
1919, citado por PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 139),
a Federação Maximalista Portuguesa não descurava assu-
mir o papel de vanguarda revolucionária quando houvesse
as condições para a constituição de um poder soviético em
Portugal e afirmava já a necessidade de um “forte organis-
mo extra-sindical de carácter proletário e revolucionário”
(PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 139). Mas a confusão
ideológica entre os partidários do bolchevismo em Portugal
era de tal ordem que, em resposta às críticas que foram
surgindo, A Bandeira Vermelha afirma ainda: “todo o indi-
víduo que em Portugal se declare bolchevista é anarquista
ou sindicalista revolucionário (...) adoptando contudo a
designação de bolchevistas, comunistas, maximalistas ou
sovietistas desde que combatam intransigentemente as ins-
tituições burguesas e apressem a evolução do regime capi-
talista para a sociedade anarquista que é o objectivo para
que tendem os bolchevistas russos” (“Declaração de Prin-
cípios”, A Bandeira Vermelha, 12 de Outubro de 1919, ci-
tado por PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 139). Em A
Bandeira Vermelha “a recorrência às grandes figuras da es-
cola libertária será muito frequente”, sendo os ideólogos
anarquistas “praticamente tão citados como Lenine” (PE-
REIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 140).

13 - PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 147-149.

14 - Emílio Costa, “A Revolução sem Ditadura, Para Evitar
Confusões”, A Batalha, 21 de Janeiro de 1921, citado por
PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 149.

15 - PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 151.

16 - PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 152.

17 - As Juventudes Sindicalistas (JS) existiram enquanto
movimento organizado entre 1913 e 1927, filiando-se si-
multaneamente nos movimentos anarquista e sindical. A
organização das Juventudes Sindicalistas baseava-se em
Núcleos locais autónomos, cujas finalidades passavam pela
educação moral, intelectual e física dos seus associados,
pela dinamização do espírito associativo e reivindicativo,
pela propaganda dos princípios do sindicalismo revolucio-
nário e da acção directa operária, pela difusão das ideias
internacionalistas e anti-militaristas. Em 1921, sofreram
uma cisão provocada pelo seu secretário-geral José de
Sousa, que constituirá a organização juvenil do Partido Co-
munista com uma fracção de membros das Juventudes
Sindicalistas. Só no Congresso Operário da Covilhã se dá o
reconhecimento oficial da Federação das Juventudes Sindi-
calistas (FJS) por parte da CGT. No período 1913-1937
terão existido 35 Núcleos estáveis das JS. Em 1922, já
depois da cisão bolchevique, as JS contariam com 5000 fi-
liados, que, em 1923, seriam cerca de 3000 e, em
1926, aproximadamente 2000. Na Declaração de Princípi-
os aprovada no seu 2o Congresso de 1926, a FJS afirma
ser “anarquista a sua ideologia” e “sindicalista revolucio-
nário o seu método de acção”, afirma-se igualmente anti-
militarista, anti-autoritária, revolucionária, sendo de “fran-
ca hostilidade a sua atitude em face dos partidos políti-
cos”. As JS foram um alvo preferencial da repressão polici-
al devido à sua reputação de radicalismo, que a partir de
1920 começa a ser associada às bombas e aos atentados
pessoais. Em 1921, o próprio Congresso da Federação
consagra a violência como meio de acção e decide a cria-
ção secreta do Comité de Defesa Sindical, uma organiza-
ção paralela e secreta destinada a acções de apoio às lutas
sindicais. A repressão levou, só em Março de 1922, à de-
tenção de cerca de 200 militantes e ao encerramento dos
Núcleos de Lisboa, Almada e Évora. Um grande número de
militantes das JS sofreram a deportação para as colónias
portuguesas de África e para Timor. Cf. FREIRE, João – As
Juventudes Sindicalistas: um movimento singular. Penélo-
pe, 4 (1989).

18 - “O I Congresso das Juventudes Sindicalistas”, A Bata-
lha, 2 de Fevereiro de 1921, citado por PEREIRA, Joana
Dias – Op. Cit., p. 155.

19 - OLIVEIRA, César – O Primeiro Congresso do Partido
Comunista Português. Lisboa: Seara Nova, 1975, p. 35.
Segundo este autor, a fundação do PCP decorre da acção
da Federação Maximalista, mas “não resulta do cresci-
mento desta organização nem corresponde ao aumento da
sua influência de massas. De facto o período áureo da CGT
situa-se exactamente entre 1919 e 1923-1924” (p. 35-
36).

20 - Em Dezembro de 1920, a sindicalista revolucionária
FAUD (Freie Arbeiter-Union Deutschland) acolheu uma con-
ferência internacional em Berlim, que teve por objectivo
tentar obter um acordo entre os sindicalistas revolucionári-
os sobre a questão internacional e, particularmente, sobre
o congresso para a criação de uma internacional sindical
anunciado para Maio de 1921 em Moscovo (este congres-
so seria adiado para Julho). Estiveram presentes delega-
ções das organizações: FAUD (Alemanha), Comités Syndi-
calistes Révolutionnaires (França), SAC (Suécia), NAS (Ho-
landa), Shop Stewards' and Workers' Comittee Movement
(Grã-Bretanha), Federación Regional Obrera Argentina e In-
dustrial Workers of the World (EUA). A conferência recebeu
ainda manifestações de apoio da Fagoppositionens Sam-
menslutning dinamarquesa, da Norsk Syndikalistik Federa-
tion norueguesa e da CGT portuguesa. Também esteve pre-
sente um representante da central sindical soviética. A con-
ferência não pôde contar com a presença da Unione Sinda-
cale Italiana, devido ao seu envolvimento no movimento
de ocupações de fábricas em Itália, nem com a Confedera-
ción Nacional del Trabajo de Espanha, a braços com uma
vaga de repressão. Destas organizações, os Shop Stewards
da Grã Bretanha e os CSR de França já haviam aderido à
ISV. A Declaração saída da Conferência de Berlim, aprovada
por todos os delegados com a excepção dos franceses e
dos russos, apela à participação das organizações revoluci-
onárias no congresso de Maio de 1921 em Moscovo, com
vista à formação de uma internacional de sindicatos revolu-
cionários de todo o mundo, ao mesmo tempo que afirma o
papel dos sindicatos na revolução e a independência dos
mesmos em relação aos partidos políticos. Foi também es-
tabelecido um Bureau de Informação Sindicalista (THORPE,
Wayne – The workers themselves”: revolutionary syn-
dicalism and international labour, 1913-1923. Dordre-
cht: Kluwer, 1989, p. 150-153).

21 - PEREIRA, Joana Dias – Op. Cit., p. 155.

22 - SOUSA, Manuel Joaquim de – Op. Cit., p. 130-136.
Analisando mais tarde as desinteligências provocadas pelos
comunistas no seio da CGT, Manuel Joaquim de Sousa lem-
brará que, na CGT, “Nem todos os militantes eram anar-
quistas, mas todos eram revolucionários, antiparlamentaris-
tas e pouco ou nada colaboracionistas mesmo no terreno
económico” e que “às primeiras manifestações do desvio
preconcebido do PC em formação, respondeu a CGT com a
Nota Oficiosa [...] e toda a organização respondia apoi-
ando-a sem a menor restrição” (Manuel Joaquim de – Op.
Cit., p. 159).

23 - A CGT enviou como observador ao Congresso da ISV o
sindicalista Perfeito de Carvalho. Manuel Joaquim de Sousa
narra assim a história da delegação portuguesa ao Congres-
so da ISV: “a CNT convidou a CGT a enviar à Rússia um de-
legado para assistir ao Congresso da ISV e dando conta
que de Espanha iriam 5 delegados. O Comité da CGT Portu-
guesa ignorava que aquela delegação fosse ilegal e arbitrá-
ria (Pleno de Lérida) e que o Pleno de Logronho da CNT a
desautorizasse, desautorização confirmada, mais tarde pela
Conferência de Saragoça. Aceitou como leal e bom o convi-
te e nomeou Perfeito de Carvalho. Este, porém, devendo
assistir ao Congresso da ISV, respeitando os princípios e de-
cisões da organização portuguesa votados no Congresso de
Coimbra, deveria, segundo prévio compromisso seu, elabo-
rar uma brochura relatando as condições de vida do povo
russo dentro do novo regime e sobretudo as do proletariado
– relato baseado nas suas observações directas com o fim
de elucidar o proletariado português. Não satisfez, porém,
o compromisso. Na sua vinda a Portugal, Novembro de
1921, limitou-se a dar explicações verbais e a traduzir os
discursos pronunciados no Congresso da ISV – a que já não
pôde assistir, por ter chegado tarde – duma brochura do
delegado comunista francês, Rosmer. Investido dum man-
dato da ISV, retirou de novo de Portugal, para voltar quan-
do do Congresso da Covilhã ainda no desempenho deste úl-
timo mandato, mas sem ter-se desempenhado do que lhe
foi confiado pela CGT portuguesa.” (SOUSA, Manuel Joa-
quim de – Op. Cit., p. 138-139).

24 - “Todas as organizações sindicalistas revolucionárias
que tomaram parte na conferência de Berlim de 1920 en-
viaram representantes (com a excepção da FAUD)” (DAMI-

ER, V. - Anarchosyndicalism in the 20th Century. Ed-
monton: Black Cat Press, 2009, p. 74).

25 - DAMIER, V. - Op. Cit., p. 78-79.

26 - A tese “Organização social sindicalista” preconizava a
adesão “à Internacional que mais esteja de harmonia com
o ideal sindicalista revolucionário” (SOUSA, Manuel Joa-
quim de – Op. Cit., p. 213).

27 - SOUSA, Manuel Joaquim de – Op. Cit., p. 143-144.

28 - SOUSA, Manuel Joaquim de – Op. Cit., p. 144-147.

29 - Estiveram representadas a FORA (Argentina), a USI
(Itália), a FAUD (Alemanha), a secção chilena da IWW, a
SAC (Suécia), a NSF (Noruega), a Syndikalistik Propagan-
daforbund (Dinamarca), a NAS (Holanda), a CGT (Méxi-
co). Os delegados da CNT (Espanha) foram detidos antes
de chegarem a Berlim. O delegado da FORU (Uruguai)
também chegou demasiado tarde para participar. Foram
ainda concedidos votos consultivos a organizações de
França, Alemanha, Rússia e Checoslováquia (THORPE,
Wayne – Op. Cit., p. 214-215).

30 - SOUSA, Manuel Joaquim de – Op. Cit., p. 148-149.

31 - RODRIGUES, Edgar – História do Movimento Anar-
quista em Portugal, Piracicaba: Ateneu Diego Giménez,
2010, p. 17.

32 - GARDNER, Jason – Creating Unity or Division? The
Origins of the Federacion Anarquista Iberica. University of
Sussex Journal of Contemporary History, 6 (2003), p.
9. Segundo Jason Gardner, “só quando a Federação sindi-
calista Ibérica se tornou uma impossibilidade, o processo
da criação da FAI [Federação Anarquista Ibérica] começou
seriamente a avançar” (p. 9). Criada em 1927, a Federa-
ção Anarquista Ibérica correspondeu a uma “sentida ne-
cessidade de unir o movimento libertário da Península Ibé-
rica”, com vista, também, à revitalização do anarquismo e
do sindicalismo em Espanha e Portugal (GARDNER, Jason
– Op. Cit., p. 10).

33 - Jules Humbert Droz, enviado pela Internacional Co-
munista a Portugal para organizar o PCP, escreverá em
1923 no seu relatório: “O trabalho no seio da CGT a favor
da Internacional Sindical Vermelha é feito pela minoria
sindical que mantém as melhores relações com o partido e
que concluiu com ele um pacto pelo qual o partido deixa à
minoria sindical o cuidado de conduzir a acção no seio da
CGT. Mas o partido impõe aos seus membros a obrigação
de aderirem à minoria sindical. Reserva-se o direito de aí
propor e defender o seu ponto de vista e conserva o direi-
to de formar em todos os sindicatos os seus núcleos comu-
nistas que apoiarão a acção da minoria e farão propagan-
da comunista. O partido é o braço direito da minoria sindi-
cal e a sua acção é muito importante para a conquista da
CGT”. E afirma ainda, Humbert Droz, acerca da “minoria
sindical”: “Organizei-a no mês de Agosto e ela já fez um
trabalho interessante. [...] A maioria sindicalista está em
plena crise; o secretariado queria aplicar sanções à mino-
ria; foi reprovado pelo conselho e teve de se demitir. Foi
nomeado um novo secretariado que tolera a minoria, mas
este incidente provocou lutas muito vivas no seio da maio-
ria, lutas individuais e de prestígio que aproveitarão aos
nossos amigos”. Citado por OLIVEIRA, César – O Primeiro
Congresso do Partido Comunista Português, p. 94-96.

34 SOUSA, Manuel Joaquim de – Op. Cit., p. 154

35 SOUSA, Manuel Joaquim de – Op. Cit., p. 157

36 SOUSA, Manuel Joaquim de – Op. Cit., p. 161-162

37 SOUSA, Manuel Joaquim de – Op. Cit., p. 189
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