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(pt) Portugal, Acção Directa #4 - p4-5 - Textos - Albert Libertad

Date Sat, 02 Mar 2013 16:08:49 +0200


Albert Libertad (nasceu em Bordéus, França em 1875 e morreu em Paris em 1908) é um dos mais conhecidos representantes da corrente anarcoindividualista que, embora sempre minoritária no seio do movimento anarquista, inspirou e influenciou de forma relevante todo o movimento libertário até aos dias de hoje. Partindo da afirmação de que a liberdade e o bem estar de cada indivíduo é a base e o fim da organização social, o individualismo anarquista não subordina nem opõe o individuo ao colectivo, nem entende que o colectivo deve ocultar o individual. Para os anarquistas em geral, muito influenciados pelos anarquistas individualistas, o colectivo só tem razão de existir se fortalecer e aumentar o espaço individual de todos os que o integram.---Albert Libertad-- O Gado Eleitoral ---- Aqui mesmo, esbocei a traços largos o gado sindical, o gado patriótico, o gado dos fura-
greves, o gado dos honestos; hoje tenho que
pintar o mais importante dos gados, o mais
forte pela patetice, o gado eleitoral.

Sobre a pele de burro do tambor nacionalista,
sobre a pele do intestino de boi dos tamboris
republicanos, às cordas da guitarra sentimen-
talmente humanitária, aos cobres da trombeta
revolucionária, eis que se bate, que se toca,
que se entoa a chamada do gado; é a ária
pastoril dos eleitores que ressoa por toda a
parte através do espaço.

Votem no Serapião, votem no Jeropigas,
votem no Coisinho. Cartazes multicolores
prendem-vos a atenção em todas as esquinas,
a fim de vos contarem a candura, o espírito, a
lealdade dum candidato qualquer.

Em poucas linhas, um Gérault Richard dos
«boulevards» exteriores, um Rouvier assal-
tante de estradas, um Marchand da naifa e do
pé-de-cabra tornam-se padrões de virtude, de
honestidade e de doçura.

O gado eleitoral comenta a força do cajado
pastoral de Fulano, a chicotada de Beltrano, o
dedilhado crapuloso de Coiso e o desboca-
mento tonitruante de Jeropigas.

O gado pesa também o valor das promessas
feitas; não que ignore que jamais serão cum-
pridas, mas para ficar com um pouco de ilu-
são.

A Lua, a felicidade, a diminuição dos impos-
tos, a liberdade são outras tantas quimeras,
nas quais não acredita mais, mas em que
todavia lhe parece bom fingir acreditar ainda.
Corre aos encontros que lhe marcam os
aprendizes de pastor, após ter feito a escolha
com o jogo de dados da tasca. Vou ao comí-
cio dos nacionalíferos ou ao dos socialistói-
des? Os dados respondem.

Guarnece a sala e escuta religiosamente o
orador-candidato que trincha fatias de felici-
dade e debita pequenos paco-
tes de reformas. Escancara as
fauces e as orelhas para cap-
tar mais e mais.

«Terás a papinha feita, os
passarinhos cairão bem friti-
nhos do céu para a tua boca; o
teu pardieiro tornar-se-á um
palácio: com trinta anos já
viverás dos rendimentos, diz
o candidato. – Ah!Ah!Ah!,
como este homem fala bem!
São mentiras que nos conta,
mas como nos faz bem acre-
ditar um momento que são
verdades, diz o maníaco do
voto».

Algumas vezes, acontece que
outro candidato interrompa
para dizer: “Não é exacto, os
passarinhos cairão bem cozi-
dinhos do céu para a tua boca». E o gado
eleitoral segue, atento, o debate apaixonante:
«Cozidos ou fritos, como serão preparados
esses pássaros que não comerá?»

No momento em que todos estão em pleno
sonho, uma voz interrompe brutalmente, sem
precauções oratórias, os charlatães palrado-
res:

«Os pássaros não cairão nem fritos, nem
cozidos do céu para a tua boca, parvalhão. E
se acaso caíssem logo todos preparados, se-
ria, por causa da tua patetice, para as goelas
dos candidatos.»

Então, há gritos, vociferações: «Matem-no!
Escorracem-no! Cala a boca! Bufo! Agente
da reacção! Amarelo! Vermelho! Jesuíta!
Comuna!»

O que quer lançar a verdade para o ar é rode-
ado, empurrado; os punhos erguem-se sobre
a sua cabeça, escarram-lhe para a cara, atiram
-no fora.

E, tranquilo, o fazedor de promessas vende a
elicidade a retalho, oferece o paraíso e o
ado eleitoral retoma o fio do sonho que
sonha bem acordado, bebe de novo o vinho
decepcionante da esperança.

Como em todos os rebanhos, há os cabeci-
lhas, o pessoal do comité. São aqueles a
quem o candidato prometeu outra coisa que
não a carne magra da esperança. Têm a mis-
são de «aquecer» a sala, velar por que ne-
nhum maçador possa entrar. Preparam o pú-
blico, embriagam com vinhaça ordinária
alguns matulões de pulso que farão com o
peito uma muralha de protecção ao charlatão
palrador.

Ao lado deles, há alguns sinceros: aqueles
cuja patetice atinge o último grau. São os que
melhor completam a maquia, são os carneiros
que saltam pela borda fora, mostrando a via a
todo o rebanho.

Digamo-lo bem alto: que o gado eleito-
ral seja tosquiado, comido, temperado
com todos os molhos, que mossa nos
pode isso fazer? Nenhuma.

O que nos importa é que, arrastados pelo
peso do número, rolamos na direcção do
precipício, para onde nos conduz a in-
consciência do rebanho. Vemos o preci-
pício, gritamos que vamos partir a espi-
nha. Se nos pudéssemos desembaraçar
da massa que nos arrasta, deixá-la-íamos
rolar para o abismo; pela minha parte
até, di-lo-ei, creio mesmo que a empur-
raria para lá. Mas não podemos. Por
isso, devemos estar em toda a parte para
mostrar o perigo, para arrancar o véu
que encobre o charlatão palrador. Traga-
mos para o terreno da realidade o gado
eleitoral que se extravia pelas areias
movediças do sonho.

Não queremos votar, mas os que votam,
escolhem um amo, o qual será, quer nós
queiramos ou não, o nosso amo. Por
isso, devemos impedir quem quer que
seja de consumar o gesto essencialmente
autoritário do voto.

No meio dos nacionalistas e dos socia-
listas, dos republicanos e dos monárqui-
cos, a toda a parte devemos levar a pala-
vra anarquista: «Nem Deus, nem amos.»
E quer pela razão, quer pela violência,
temos que impedir a corrida para o abis-
mo, para onde nos arrastam a frouxidão
e a patetice dos maníacos do voto.

Que o gado eleitoral seja levado à corre-
ada, isso pouco nos importa, mas o facto
é que ele constrói barreiras, estacarias,
dentro das quais se amalha e nos quer
amalhar, nomeia amos que o dirigirão e
nos querem dirigir.

Essas barreiras que envolvem os cerca-
dos e os redis, são as leis.

Esses amos são os legisladores.

Temos que trabalhar para destruir quer
estes, quer aqueles, ainda que, para o
efeito, tivéssemos que espalhar ao longe
o estrume onde crescem os deputados, o
estrume eleitoral.

Albert Libertad, 18 de Abril de 1906

(publicado em “Albert Libertard, Textos de
Crítica da Democracia”, traduzido por Júlio
Carrapato, edição de Livraria Editora Sotaven-
to, 1979)

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Aos resignados

Odeio os resignados, tanto como os imundos,
como os inertes.

Odeio a resignação! Odeio a imundície, odeio a
inacção.

Odeio o doente abatido por alguma febre mali-
gna; odeio o doente imaginário que com um
pouco de vontade podia pôr-se de pé.

Compadeço-me com o homem encarcerado,
rodeado de carcereiros, esmagado pelo peso das
correntes e do número.

Odeio os soldados, dobrados pelo peso de um
galão ou por três estrelas; os trabalhadores
dobrados pelo peso do capital.

Estimo o homem que diz o que sente onde quer
que se encontre; odeio o votante em perpétua
conquista de uma maioria.

Estimo o sábio esmagado pelo peso da investi-
gação científica, odeio o individuo que se colo-
ca debaixo do peso de uma força desconhecida,
de um qualquer X, de um Deus.

Odeio todos aqueles que cedendo aos outros,
por medo ou por resignação, uma parte da sua
força de homens, não só se deixam esmagar a si
mesmos, mas também a mim, a tudo o que eu
amo, debaixo da sua infame iniciativa ou da sua
estúpida inércia.

Odeio-os, sim, odeio-os porque o sei, sei que
não me ajoelho diante das insígnias do oficial,
ante o bando do presidente de Câmara, ante o
ouro do capitalista, ante todas as suas morais e
religiões; há já algum tempo que sei que tudo
isto são apenas bugigangas que se quebram
como o vidro... Estou esmagado com o peso da
resignação de outros. Odeio a resignação.

Amo a vida.

Quero viver, não de forma mesquinha como os
que satisfazem apenas uma parte dos seus mús-
culos, dos seus nervos, mas indo mais além,
satisfazendo tanto os músculos faciais como os
das pernas, tanto os rins como o cérebro.

Não quero entregar uma parte do hoje em troca
de um fictício amanhã, não quero ceder nada do
presente em troca do vento do futuro.

Não quero colocar nada de mim por baixo das
palavras: “pátria, deus, honra”. Conheço muito
bem o vazio destas palavras: fantasmas religio-
sos e laicos.

Rio-me das pensões, dos paraísos; esperanças
utilizadas pelo capital e pela religião para nos
manterem resignados. Rio-me de todos os que
acumulam para a velhice e se privam na juven-
tude; daqueles que, para comer aos sessenta,
jejuam aos vinte.

Trocemos da família, da lei, antigas formas de
resignação.

Mas isso não é tudo; uma vez que tenho olhos e
ouvidos quero, para além de comer, beber e
fazer amor, ter prazer de outras maneiras. Que-
ro ver belas esculturas, belas pinturas, admirar
Rodin ou Monet. Quero escutar as melhores
óperas de Beethoven ou de Wagner. Quero
conhecer os clássicos da comédia, revisitar a
bagagem literária e artística que liga os homens
do passado aos do presente; ou melhor, revisitar
a obra sempre inacabada da humanidade.

Quero prazer para mim, para a companheira
que escolher, para os meus filhos, para os meus
amigos. Quero uma casa agradável para des-
cansar o corpo quando acabe de trabalhar. Por-
que quero também o gozo do trabalho, esse
gozo saudável, esse gozo forte.

Quero que os meus braços usem a serra, o mar-
telo, a pá, a gadanha. Que os músculos se de-
senvolvam, que a caixa toráxica se encha com
movimentos fortes, úteis e equilibrados.

Quero ser útil, quero que sejamos úteis. Quero
ser útil ao meu vizinho e quero que meu vizi-
nho me seja útil. Desejo que façamos mais,
porque a minha necessidade de gozar é insaciá-
vel. E é porque quero gozar que não me resigno.
Sim, sim, quero produzir, mas quero gozar;
quero amassar a farinha, mas comer o melhor
pão; fazer a vindima, mas beber o melhor vi-
nho; construir uma casa, mas viver no melhor
alojamento; construir móveis, mas possuir tam-
bém o útil, ver o belo; quero fazer teatros, mas
tão grandes que neles possam caber todos os
meus companheiros.

Quero participar na produção, mas também no
consumo.

Existem homens que sonham produzir para
deixar aos outros - ó ironia - a melhor parte dos
seus esforços; eu quero, de forma livre e associ-
ado a outros, produzir mas também consumir.
Resignados, olhem, cuspo nos vossos ídolos,
cuspo em Deus, cuspo na Pátria, cuspo em
Cristo, cuspo em todas as bandeiras, cuspo no
capital e no Tosão de Ouro, cuspo nas Religi-
ões: bugigangas, escarneço, rio-me de todas
elas...

Sem vocês não são nada, se as abandonarem
desfazer-se-ão como migalhas.

Contudo, sois uma força, ó resignados, uma
dessas forças ignoradas, mas que, apesar disso,
não deixa de ser força, e não posso cuspir em
cima de vocês, só vos posso odiar.... ou amar.
Por cima de todos os meus desejos está o de ver
-vos sacudir a vossa resignação num tremendo
despertar de vida.

Não há nenhum paraíso futuro, não há futuro,
nada há senão o presente.

Vivamos!
Vivamos! A resignação é a morte.
A rebelião é a vida.

Albert Libertad
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