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(pt) Portugal, Acção Directa #2 - p7 Memória Libertária: Jaime Rebelo + (en)

Date Thu, 07 Feb 2013 10:02:18 +0200


Jaime Rebelo ---- A 22 de Dezembro de 1900 nascia em Setúbal o anarcosindicalista e resistente antifascista Jaime Rebelo. Pescador e marítimo de profissão, ainda jovem aderiu à Confederação Geral do Trabalho (CGT), da qual foi um dos principais responsáveis em Setúbal. ---- Viveu a maior parte da sua vida em Cacilhas. ---- Como militante anarco-sindicalista foi um dos animadores, com Francisco Rodrigues Franco, da Associação de Classe dos Trabalhadores do Mar de Setúbal, mais conhecida por “Casa dos Pescadores”, que foi encerrada na sequência do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 e da qual conseguiu salvar documentação importante. ---- Em 1931, em consequência da chamada “Greve dos 92 dias” , foi preso e torturado pela PIDE. Durante os interrogatórios, cortou a língua com os próprios dentes para evitar falar e denunciar os companheiros. --- Sabendo deste facto, o escritor Jaime Cortesão dedica-lhe um dos seus poemas mais belos (ver caixa) – o Romance do Homem da Boca Fechada. Este poema circula clandestinamente durante toda a ditadura salazarista e foi publicado em 1937 no jornal comunista “Avante”, que procurava, nessa altura, forçar uma política de Frente Popular.

Uma vez em liberdade e vitima de perseguições
constantes emigrou para Espanha. Ali
filiou-se na CNT anarcosindicalista e durante
a Revolução Espanhola fez parte das milícias
confederais e comandou uma unidade que
combateu na frente meridional. Com o triunfo
fascista em Espanha, foi para França, voltando
depois a Portugal onde continuou a
lutar contra a ditadura do Estado Novo, ganhando
a vida a partir de 1968 como revisor
do jornal “A República”, ao lado do também
anarquista Francisco Quintal.

Depois do 25 de Abril presidiu à primeira
Assembleia Geral da restituída “Casa dos
Pescadores” e participou na constituição da
Cooperativa Editora de “A Batalha”, antigo
jornal diário da CGT. Membro activo do
Movimento Libertário Português (MLP)
participou na criação do jornal “A Voz
Anarquista”, editado pelo Centro de Cultura
Libertária de Almada. Jaime Rebelo morreu a 7
de Janeiro de 1975. O historiador César de
Oliveira dedicou-lhe um estudo “Jaime
Rebelo: um homem para além do tempo”,
publicado em Março de 1995 na revista
História. No bairro de São Julião, em Setúbal,
há uma avenida com o seu nome.

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Homens que conheci: Adriano Botelho, Artur Modesto e Jaime Rebelo

Logo a seguir ao 25 de Abril tive o privilégio de
conhecer e conviver com alguns militantes anarquistas
e anarcosindicalistas, sobreviventes ainda
da antiga Confederação Geral do Trabalho ou
das Juventudes Sindicalistas. A maioria andava
já na casa dos 70 anos, muitos tinham passado
pelo Tarrafal, outros estiveram anos e anos na
clandestinidade.

Hoje recordo três anarquistas de velha cepa.
Cada qual um ser singular e qualquer deles
valendo muito mais do que qualquer comissão
central de qualquer partido ou grupozito.
Adriano Botelho, quando o conheci, teria já 80
anos. De uma ternura comovente, nos anos do
fascismo, isolado dos companheiros, copiava
numa letra miúda textos anarquistas e ia-os
espalhando pelos autocarros e pelos eléctricos da
Carris em Lisboa. Era a sua maneira, com os
meios que tinha, de fazer propaganda. Editou,
julgo que já em 1975, um pequeno folheto com o
essencial das suas ideias.

Artur Modesto, era um antigo sapateiro de Beja,
militante das Juventudes Sindicalistas. Por eu ter
chegado também a Lisboa, naquele ano de 1974,
vindo de Beja, ligaram-nos laços especiais de
amizade. Artur Modesto era um revolucionário a
sério - mas de um pacifismo a toda a prova.

Humanista, autodidacta, chegou a ser secretário
particular de António Sérgio e, com ele, partilhava
uma especial afeição pelo cooperativismo.
Disse-me que o Despertar de Beja foi, no seu
início, constituído por jovens anarcosindicalistas
que adoptaram o nome do jornal
das Juventudes Sindicalistas - O Despertar - para
sigla do clube.

Para último deixo Jaime Rebelo. Um homem
seco e rijo. Quando o conheci em 1974 ainda
tinha problemas de fala. Esteve nas lutas dos
pescadores de Setúbal, depois na Revolução
Espanhola, integrando as fileiras da CNT. Preso
nos anos 30 pela polícia política, tinha cortado a
língua, recusando-se a responder às perguntas
que lhe colocavam. Jaime Cortesão soube da
história e escreveu um poema em sua homenagem,
que circulou clandestino, de mão em mão,
e que acabou por ser publicado anos depois no
Avante: o Romance do Homem da Boca Fechada.

Gente que hoje fazia falta por cá, neste
angustiante deserto de ideias e de altivez de
atitudes, que é a sociedade portuguesa.

CJ

http://acincotons.blogspot.pt/

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Romance Do Homem Da Boca Fechada

- Quem é esse homem sombrio
Duro rosto, claro olhar,
Que cerra os dentes e a boca
Como quem não quer falar?
- Esse é o Jaime Rebelo,
Pescador, homem do mar,
Se quisesse abrir a boca,
Tinha muito que contar.

Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.

Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto,
De noite, luta bravia,
Pois só ama a Liberdade,
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia...
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.

Algemas de aço nos pulsos,
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra,
Começaram de falar
- Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
- Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
- Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
- Mais vale morrer com honra,
Do que vida deshonrada!
- A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
- Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!

Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar,
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
- Antes que fale emudeça! -
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.

A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!

Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!

Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
Não deixa o Jaime Rebelo.
Pescador que se fez homem
Ao vento livre do Mar,
Traz sempre aquela visão
Na sombra dura do olhar,
Sempre de boca apertada,
Como quem não quer falar.

Jaime Cortesão
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