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(pt) A-Info 16 - Janeiro 2013 - Entendendo o especifismo, plataformismo e afins (en)

Date Wed, 09 Jan 2013 11:41:05 +0200


O especifismo ou plataformismo (devido a influência da Plataforma Organizacional dos exilados russos do Dielo Truda) dependendo da região, é uma concepção de organização anarquista. Ao menos se definem assim. O que não se leva em conta, ou se omite propositalmente, é que todxs xs anarquistas procuram se organizar, porque se atacam os governos e os Estados, não negam a importância de uma organização entre iguais em direitos e deveres diretos sem enrolações burocráticas. Existe um erro comum e isso se aproveitam alguns, inclusive que se dizem “anarquistas”, de que ao se falar em anarquismo, estejam falando do liberalismo e sua radical negação de qualquer organização que leva à uma libertinagem egoísta e superficial, muito rebelde, pouco revolucionária.

O termo especifismo é utilizado e foi difundido pela Federação Anarquista Uruguaia (FAU), que com ele refere-se à corrente anarquista que historicamente defendeu a necessidade da organização específica anarquista. Isso significa, ao menos em um sentido prático, da formação de um núcleo de militantes formadxs e motivadxs pelo anarquismo e que possam atuar em diferentes meios, sem perder a referência anarquista. Pensemos o seguinte: atualmente existem diversos movimentos sociais, cada qual com suas características próprias e todos igualmente importantes para a luta emancipatória, se pensados assim. Em cada um deles, existem vários tipos de militantes, de partidos, de ONGs, de setores distintos da sociedade, com suas próprias perspectivas de mundo, que podem variar de um extremo a outro, tornando o movimento social um espaço de disputa ideológica e que sempre prevalece aquelxs que possuem maior influência, imprimindo maior ou menor capacidade de luta direta ou apenas ações reformistas e placebos.
Nesse ambiente como atuarmos? Uma resposta possível é termos grupos unidos (especificamente anarquista, daí especifismo) que possam participar e se conseguirem, influenciar os movimentos sociais diversos para fins emancipatórios. É assim que o especifismo atua, como um grupo de militantes anarquistas em todos os movimentos sociais e organizações que possam ter alguma forma de intervenção e quem sabe, ser a proposta mais influente naquele meio, a corrente “organizacional” da vez.
Deste modo, o especifismo apresenta que a organização da luta deve se dar em dois níveis distintos: o da organização anarquista e o dos movimentos populares – que devem se formar com base na necessidade e não se resumir a uma determinada ideologia, como no caso do anarcossindicalismo. Isso é uma perigosa justificativa para se atuar e fazer alianças com inimigos históricos (totalitários de esquerda, marxistas e partidos populistas). Se justificar que estão atuando pela necessidade, pode levar a negar princípios fundamentais do anarquismo e criar contradições, como formar chapas para concorrer à diretorias e presidências dos movimentos, fazer parcerias com traidores autoritários (correntes marxistas por exemplo) em busca de ampliar a influência, em busca do poder, mesmo que o diga “popular”, não o será dentro de instituições moldadas para reformas e controle, seja de uma minoria, seja de uma maioria. Apresentar o anarcossindicalismo como uma ideologia é não compreender o próprio papel de agente específico do anarquismo, onde o sindicalismo revolucionário é apenas uma parte do processo emancipatório. O que está omitido aqui é que o especifismo tende e atua no sindicalismo reformista, procurando se afirmar dentro dele como uma opção, uma facção, mais uma corrente dentro do sindicalismo legal, institucional. Daí, se formos pegar os princípios do anarcossindicalismo apresentados pela Associação Internacional dos Trabalhadores, a AIT ou IWA em inglês, teremos um problema sério: A AIT condena esse tipo de prática ou tática realizada pelo especifismo. Ou seja, no anarcossindicalismo, não é possível atuar, mesmo em forma de uma suposta “oposição”, dentro das organizações sancionadas pelos Estados e pelas patronais, com é o caso dos sindicatos oficiais no Brasil. Mas isso vai além, a Internacional de Federações Anarquistas (acrônimo IFA) que é co-irmã da AIT também se opõe a esse tipo de “parceria”, mesmo que seja uma oposição, por parte de qualquer grupo anarquista. Daí podemos ter uma noção do porque da dificuldade de atuação entre organizações especifistas e outras vertentes e da facilidade com que tem os especificistas em atuar com partidos políticos, grupos vanguardistas e instituições legais e governamentais.
O modelo de organização do especifismo possui suas bases no anarquismo clássico, tendo sido defendido por Mikhail Bakunin, Errico Malatesta, os russos exilados do Dielo Truda, entre outros. Bakunin defendeu um modelo deste tipo para a Aliança da Democracia Socialista, quando em sua atuação no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores (Primeira Internacional); Malatesta defendeu posições semelhantes em sua formulação do “partido anarquista”; o Dielo Truda, semelhantemente, na Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários. Posições similares foram defendidas em diversas épocas e nos mais diferentes locais por anarco-comunistas que sustentavam uma linha “organicista” de anarquismo, fundamentada na organização e na vontade dos trabalhadores para promover a transformação social por meio dos movimentos de massa. Nesse caso, é importante salientar que é importante a compreensão das condições históricas em que cada uma dessas concepções foram desenvolvidas, pois se num primeiro olhar vemos uma certa similaridade entre elas, ao analisa-las melhor, percebemos que cada uma foi construída com base e com determinado objetivo e se descontextualizado desse propósito, pode-se dar qualquer contorno, ao capricho do interprete.
Desde o século XIX, outras concepções vêm sendo incorporadas ao que hoje se entende como “especifismo”, que é defendido por uma série de organizações anarquistas brasileiras: a compreensão do anarquismo como ideologia e, portanto, com um vínculo necessário com uma prática política com objetivo de transformação social; a organização como elemento imprescindível para a luta; a concepção da organização específica anarquista como uma organização de minoria ativa; a centralidade da luta de classes e a prioridade no trabalho social junto aos movimentos populares (movimentos sociais, sindicatos, etc.); a unidade teórica e ideológica; a unidade estratégica e tática; o processo decisório marcado pela tentativa de consenso e, não sendo possível, pela votação; e a ênfase no compromisso militante.
O trecho acima explica por si só porque o especifismo causa tanta desconfiança a tantas vertentes anarquistas, e como não desconfiar de uma minoria ativa? De uma centralidade da luta de classes? De uma unidade de tudo... de uma totalização disciplinante, mesmo que chamada de anarquista? Isso realmente cria uma resistência em aceita-la como uma proposta anarquista de fato e não uma tendência partidarizante dentro do anarquismo. O aspecto positivo, que realmente é que com a organização, isso não é mérito exclusivo do especifismo, o anarquismo pode atuar de forma clara e objetiva em qualquer movimento social, sem se submeter as imposições partidárias, estatais, legais e reformista que também atuam nesses movimentos. Longe da atuação de uma suposta minoria ativa, o que se deseja e se faz, enquanto anarquismo é trazer o conhecimento emancipador a luz da ação, sem ser impositivo. O fato mais crucial de tudo isso é que se deve desenvolver o compromisso e autocritica de forma que o anarquista não fique refém de uma rígida disciplina e de uma crença cega que supostos militantes mais experientes possam induzir, já que isso não remeteria à práticas anarquistas e emancipatórias, mas sim, a uma regulamentação institucional proto-partidária.
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