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(pt) Anarkio.net: A-Info 16 - Janeiro 2013 - Flash da luta (en)

Date Tue, 08 Jan 2013 12:47:17 +0200


Um suave som ao longe. A medida que os ouvidos se acostumam pode-se distinguir uma palavra e por vezes uma frase completa, há várias pessoas gritando, procurando exprimir algo semelhante a uma ordem. Aos poucos o silêncio vai se impondo, um murmúrio aqui, outro ali, vão se tornando mais esporádicos e por fim o silêncio relativo dentro daquela sala mal iluminada e cheia de fumaça, imprimindo a cena, uma sensação de déjà vu em algum romance barato sobre o século XIX. ---- Ali estavam muitxs que nunca haviam participado de um combate ou mesmo de alguma tomada de decisão em coletivo. Muitxs viviam em meio a torpeza de seu egoísmo e não ligavam para seus próximxs. Em menos de uma semana este quadro havia se modificado e deviam muito a contragosto, se unir com pessoas estranhas. Em fim, era o preço de um processo de resistência em que haviam entrado.

O inicio da noite estava destinado a uma avaliação do que estava ocorrendo no país e muito especialmente na região declarada comuna livre, um amontoado de bairros do que fora uma cidade de uns 3 milhões de pessoas. O clima era animado, embora o cansaço se mostrava vivo na face dxs “comunitárixs”, como haviam estabelecidos se chamarem.
O local da reunião era um ginásio de esportes, para poder caber todos os interessados, já que não havia restrições quanto ao número de participantes nas reuniões diárias da comuna. Em um rápido olhar, via-se centenas de olhares em torno de uma plataforma ao centro da quadra, cercada por alguns milicianxs armadxs, cada qual com uma arma diferente. Seis caixas de som com um tamanho médio, conectadas a um microfone, formavam o palanque aonde se revezavam xs representantes das diversas seções da comuna. Cada umx, dizia como estava a situação de sua seção, os problemas com a falta de alimentos, com as deserções, os feridos e as soluções que estavam implementando dentro da seção para amenizar a recente falta de suprimentos e quase sempre terminavam em um pedido de apoio das outras seções. Algumxs criticavam o excesso de autonomia das seções, outrxs ao contrário, pediam maior liberdade, lembrando que esse era o ponto que deveria ser mais desenvolvido dentro dos limites da comuna.
Fora daquele local, haviam milicianxs andando em bandos, sem rumo, descontraídxs. Os holofotes vasculhavam o céu, procurando algum brilho indesejável. Os ataques dxs reacionárixs haviam parado por dois dias, em várias cidades; em outras, as ruas era palco de uma luta fratricida, onde sempre o excesso de violência de ambos os lados era aterradores, mesmo para combatentes experimentadxs. O governo mantinha seu exército 24 horas de prontidão, vários pelotões estavam há vários dias em combate. Os soldados sentiam o desgaste físico da luta. Todos os suprimentos, oriundos do exterior, acumulavam-se na retaguarda, esperando os desgastados cumprirem seu dever. Pelo lado dxs milicianxs a situação não era melhor, e até se agravava, já que não tinham a quem pedir ajuda material.
A ONU lavará suas mãos, deixando que a guerra civil se culminasse. Afinal, ninguém esperava de um povo com uma índole pacifica como aquele entrasse neste caminho extremo e doloroso da política por outros meios. Mesmo assim, foi enviando pequenas tropas de capacetes azuis só para constar.
Nas cidades em que os ataques haviam parado, procurava-se organizar o socorro axs feridxs, o controle dos poucos remédios em estoque e enterro dos mortos. Várias destas cidades organizaram hospitais improvisados, carentes de vários itens, principalmente de médicxs, já que muitos haviam fugido, assustados com as hordas populares contra donos, patrões e cia que incrédulos ao que acontecia, haviam ficado em seus lares e escritórios e por isso sofreram a justiça popular, implacável, obsequiosa de sangue para aplacar sua sede de séculos de silêncio imposto por grilhões jurídicos. Nas entradas das cidades comunais, viam-se as cabeças e corpos, resultado da justiça popular, implacável e incompreensível para aqueles que não sofreram diariamente o aperto gradiente da fome, da injustiça, da violência e da degradação de seres humanos que retrocediam as cavernas primitivas em meio ao progresso espacial.
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