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(pt) Brazil, Nuclea Negra, Tempos de Eleições -Texto da FAU - traduzido para o português (ca)

Date Thu, 03 Jan 2013 09:32:07 +0200


A revista intitulada “Zurda”, vinculada a um novo grupo da Frente Ampla*, fez uma reportagem com a fAu no período eleitoral. Fizeram-nos a seguinte pergunta: “Por que os anarquistas não votam?”. Nossa Organização deu sua opinião sobre o tema, e a Revista publicou na íntegra todas as considerações apresentadas. Segue abaixo o texto da entrevista. ---- Zurda – Por que os anarquistas não votam? ---- fAu – Mais uma vez nos fazem esta pergunta. ---- Uma pergunta que, obviamente, não tem uma resposta simples. É o equivalente a perguntar: Como o anarquismo concebe o mecanismo político? O anarquismo considera que há um nível político específico e que se deve atuar nele? As práticas políticas não são todas da mesma ordem, não tem algo em comum que as constitui e lhes dá um perfil inconfundível? As eleições não são parte substancial de toda prática política?

A categoria política está constituída sobre bases tão fluidas (muitas delas polêmicas)
que esta lista de perguntas, correspondentes a uma mesma constelação de questões,
poderiam ampliar-se muito mais.
É importante pontuarmos, antes de tudo, que seria um atrevimento de nossa parte querer
falar em nome do anarquismo. O anarquismo é uma ideologia, uma doutrina, com
muitas matizes. Assim, respondemos aqui como fAu, como uma organização política
anarquista que já tem 43 anos de existência e uma trajetória na qual fizemos, com
coerência, o que foi possível em função de seu projeto.

O anarquismo não é um dogma, nunca colocou-se como tendo em suas mãos a verdade
revelada. Consequentemente, sempre agiu ao mesmo tempo no campo social, no
trabalho crítico e reflexivo. E muito desta atitude está presente na fAu.

Pensamos, obviamente, que os contextos históricos estão constantemente apresentando
diferentes formas, e através de momentos de grande importância. O que podemos
chamar de “etapas do capitalismo” carrega determinados elementos específicos. E o
específico é questão de primordial importância para analisarmos tanto o tema que
estamos tratando, como uma formação social, ou um período pertencente a uma mesma
estrutura de dominação do sistema capitalista. Mas não acreditamos que o específico
anule o geral. É verdade que, no percurso do século que está por terminar, montaram-se
teorias, estabeleceram-se paradigmas falando-nos, com certezas científicas, de
totalidades quase inquestionáveis. Hoje muitos destes fundamentos teóricos, destes
paradigmas e epistemes, são altamente questionados e alguns caíram por terra.

Mas houve muita coisa positiva que as lutas e o pensamento socialista produziu. E
também, por que não dizer, muitas pesquisas independentes sobre temas particulares
que abriram campos de reflexão e trouxeram novos elementos para novos discursos.
Dentro do que foi produzido pelo pensamento socialista, corroborado em boa parte
pelas experiências sociais, estão teorias sobre os mecanismos de reprodução do sistema
vigente. Mecanismos básicos que, mesmo em contextos sociais altamente diferenciados,
operam de maneira semelhante. Como um conjunto básico de “peças” relacionadas,
articuladas, que possibilitam algumas coisas e impedem outras. Permitindo, por
exemplo, que a riqueza e a pobreza cresçam; que os distintos poderes fundamentais
estejam sempre nas mãos de uma minoria privilegiada; que os meios de comunicação
conformem “ideais”, “valores” e padrões “culturais”, reafirmando do sistema vigente.
Então, falar de eleições é fazer alusão a uma “peça” de uma estrutura de poder que é
muito mais ampla.
Sabemos que não é simples colocar certas propostas em nossa época, quando o aparato
ideológico do sistema, a guerra aberta à solidariedade e a tudo o que possa gerar
culturas de cooperação, acabam alimentando a fragmentação e a atomização, em que
cada um pensa somente em si.
Porque essa agressividade ideológica, por parte dos mesmos que dão por encerrada a
própria ideologia, a história e outras questões, tentam utilizar-se de fatos históricos, tais
como as chamadas “experiências socialistas” que tiveram um triste final, para gerar a
desmobilização moral e combativa das populações.Mas a verdadeira alternativa
socialista está aqui, diante de nós, não é uma elaboração feita de fora das experiências
históricas. Mas, com seus erros e acertos, é um produto autêntico que compreende as
ânsias de justiça e liberdade dos povos. Seria importante começar a se reformular uma
crítica mais rigorosa sobre tudo aquilo que fez naufragar a alternativa de estruturar uma
sociedade sobre bases diferentes das da miséria, que sustenta este sistema.
Dentro das reflexões – que muitos já se fazem – está o papel representado pelas eleições
num sistema como o atual. Há participação em um processo como as eleições?
Representam uma autêntica democracia? Se o elaborado discurso “moderno” serve para
nos inserirmos nessa estrutura, para deixarmos que tudo siga da mesma maneira; para
termos a ilusão de que estamos fazendo grandes transformações políticas, então não há
dúvidas de que as eleições, enquanto ação política clássica, representam atualmente o
espaço privilegiado para isso. Permitidas e altamente desejadas por aqueles nossos
conhecidos de sempre.

Mas há algumas coisas sobre o funcionamento do sistema, seu caráter classista, seus
mecanismos de poder e reprodução que o socialismo assinalou, e em especial o
socialismo de matriz libertária. Esses mecanismos tem uma dinâmica perversa e seria
puro voluntarismo e idealismo procurar subvertê-los utilizando-se de seus próprios
meios. Não são onipotentes e podem ser enfrentados e desestruturados, mas... não a
partir de dinâmicas que o retroalimentam.
Assim, todo jogo eleitoral cumpre fins que tendem à legitimação do sistema. Seguindo a
vida de maneira regular, alternado com alguma ditadura quando convém, é vital ao
sistema esta legitimação e esta ficção de participação popular, que cumpre ao mesmo
tempo o papel de expropriação da soberania popular. Mas esta fantasia, que oculta os
núcleos duros de poder, não é ingênua, é muito exigente. Para participar dela é preciso
despir-se, somente são aceitos os que vem com pouca roupa. Num documento da fAu,
de 1969, dizíamos: temos que ir “buscando a aprovação dos poderosos: FMI, capital
internacional, militares... ter bom comportamento, rebaixar programas, criticar
duramente as culturas combativas”.

As regras do jogo da burguesia são fortes e envolventes, costuram com um invisível fio
de aço. Por isso, mesmo com tantas pessoas bem intencionadas é pouco ou nada o que
podem fazer, e na maioria das vezes o ambiente da estrutura política “faz suas cabeças”.
Em tal contexto é preciso ter atenção a cada passo que se dá; há pouco tempo um
político da Frente Ampla disse que sua ida às eleições havia significado perdas de voto.
Esse mecanismo de democracia virtual parece estar se desgastando de modo geral, no
Uruguai mais lentamente. Este “carrossel” que troca políticos, partidos, constituições;
que alterna de lugar períodos social-democratas, democratas, partidos tradicionais, e que
não deixa nada de novo ou positivo. É hora de pensar em práticas políticas diferentes.
Não bastam discursos com adornos modernos e tratando de assuntos atuais. A questão
parece ser a de avançarmos em direção a práticas e estratégias que superem as instâncias
que não dão lugar ao novo. Ainda mais se o novo busca mudanças profundas e urgentes.
Ouvimos todos os dias que vivemos uma outra época. Mas repetem-se as mesmas
velhas e fracassadas receitas. Claro que vivemos uma época assombrosa em termos de
avanços técnico-científicos, como a robótica, a cibernética e a genética fazendo
maravilhas. Temos meios de comunicação instantâneos, que parecem mágica. Mas junto
com toda essa maravilha, que muito apreciamos, também temos mais populações
miseráveis, mais devastação do meio ambiente, mais invasões brutais e genocídios. E
tudo isso não é casualidade.

Nós, anarquistas da fAu, votamos em muitas situações e instâncias como sindicatos,
cooperativas, centros populares e estudantis, plebiscitos populares. O problema não é o
voto nem a democracia. A questão é a que mecanismo pertence tal voto e de que
democracia falamos.
Nestas circunstâncias, quando a agressão ideológica do sistema é alta, quando os meios
de comunicação tem a cada dia maior poder de fabricar opiniões, quando coordenar-se e
mobilizar-se se torna uma tarefa difícil, quando a miséria do povo cresce, quando o
projeto neoliberal dizima os pobres do mundo, quando os discursos dos setores de
esquerda e de intelectuais tornam-se lavados e confusos, faz-se imperativo contar com
orientações precisas e firmes. Há uma busca – na qual se encontra muita gente – de
ferramentas que permitam a unidade do povo para a luta por suas imperiosas e urgentes
necessidades. É nessa busca que nós queremos estar.
Repetiríamos mais uma vez, a questão não é emitir um voto a cada cinco anos, mas sim
o que fazemos durante esses cinco anos nessa luta que deve ser cotidiana.
fAu – Federação Anarquista Uruguaia.
(setembro de 1999)
Tradução Revisão para o português: Gabriel Rafael V.A.

* Frente Ampla – Coalizão eleitoral de centro-esquerda do Uruguai, fundada em 1971,
da qual integram vários partidos políticos e organizações da sociedade civil.
Original em espanhol:

Related Link: http://federacionanarquistauruguaya.com.uy/?p=951
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