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(pt) CAB: Revista Socialismo Libertáriio #1 - NOSSA CONCEPÇÃO DE PODER POPULAR (en)

Date Mon, 10 Dec 2012 14:10:39 +0200


“Uma em concepção e uma prática de autogestão têm, sua produção específica, seu próprio discurso. Têm sua própria produção de poder que, nesse caso, é de poder popular.” ---- Federação Anarquista Uruguaia (FAU) ---- O especifismo, nossa corrente do anarquismo, em especial na América Latina, vem se preocupando há mais de meio século com problemática do poder popular. Nesse texto, tratamos de formalizar elementos relevantes dessa discussão, que hoje são compartilhados pelas organizações que constituem a CAB. Nossa concepção de poder popular constitui, simultaneamente, um objetivo e uma estratégia, ambos os quais fornecem as bases para uma prática política ancorada no contexto histórico e geográfico em que estamos inseridos, de maneira a fortalecer nossa intervenção no conjunto de forças em jogo. Não se trata, dessa maneira, de uma discussão puramente teórica ou filosófica, que visa tão-somente conhecer a realidade ou refletir abstratamente sobre ela.

Para nós, o anarquismo é uma ideologia: um “conjunto
de idéias, motivações, aspirações, valores,
estrutura ou sistema de conceitos que possuem
uma conexão direta com a ação – o que chamamos
de prática política”. [FARJ. Anarquismo Social e
Organização]

Pensamos que o anarquismo deve,
necessariamente, conceber essa prática política no
inseridos, e é nesse sentido que concebemos
nossa proposta de poder popular, pautada em
uma estratégia determinada de intervenção
social, de uma prática política, que possa
impulsionar nosso objetivo revolucionário e
socialista.

O anarquismo e o poder popular

O anarquismo surge durante o século
XIX como uma forma de socialismo, ou seja,
como uma de suas correntes, a qual conta,
hoje, com uma longa história na luta dos
oprimidos, envolvendo embates, conquistas,
derrotas, prazeres, sofrimentos e martírios.

“Há sacrifícios, lutas, sangue e sonhos no
interior desse conceito de socialismo. Há
uma longa história de resistências. É uma
produção histórica vinculada aos anseios
dos de baixo. Não é uma ciência, mas uma
aspiração, uma esperança do ser humano,
das classes, coletivos e povos oprimidos.”
[FAU/FAG. Wellington Gallarza e Malvina
Tavares: trabalho FAU-FAG por uma teoria
política libertária]


Essa longa história do anarquismo,
inseparável das lutas que ocorreram e ainda
ocorrem no sistema de dominação em que nos
inserimos, constitui uma intensa memória, sobre
a qual constituímos nossas certezas ideológicas,
pautadas nos princípios que vêm fundamentando
a ideologia anarquista. A longa história do
anarquismo acumulou saberes, em mais de um
século de intensas batalhas, vividos e construídos
coletivamente, a partir de um conjunto riquíssimo
de experiências que buscaram um mesmo
objetivo finalista: promover a revolução social
e consolidar um sistema socialista e libertário,
chamado historicamente de socialismo libertário,
comunismo libertário ou simplesmente anarquia.
“O objetivo finalista originário do projeto socialista
é o estabelecimento de uma sociedade igualitária,
uma sociedade [...] sem classes”. [CAZP. Alagoas
e o Poder Popular] Esse objetivo prevê o fim da
dominação de maneira geral, tanto da exploração
econômica, quanto os outros tipos de dominação.
Para nós, é fundamental ultrapassar as discussões
de forma, dos termos em questão, e realizar uma
abordagem que leve em conta os conteúdos
fundamentais da proposta anarquista. Por isso,
entendemos que o anarquismo sempre esteve
pautado, desde seu surgimento, em estratégias
de poder popular. Quando Bakunin, por
exemplo, propunha um programa para a
intervenção dos anarquistas na Associação
Internacional dos Trabalhadores, não fazia
outra coisa senão propor um projeto de
poder popular, que pudesse transformar
a sociedade por meio de uma prática
revolucionária dos trabalhadores. Podemos
afirmar, diferentemente do que vêm sendo
afirmado, que o anarquismo nunca foi contra
o poder, mas desenvolveu, ao mesmo tempo,
críticas de um determinado tipo de poder
(dominação) e proposições de um outro tipo
de poder.

Todas as práticas anarquistas forjadas
em meio às classes oprimidas e que tiveram
e têm por objetivo torná-las protagonistas
de suas lutas e de seu próprio processo
de emancipação e libertação foram, e são,
para nós, projetos de poder popular. Há
germes de propostas de poder popular em
lutas populares do passado e do presente.
Portanto, não compreendemos que a idéia
de poder popular seja algo novo; o anarquismo,
conforme enfatizamos, em sua longa história,
desenvolveu alguns projetos de poder popular,
sempre situados dentro dos marcos caracterizados
pelos seus princípios.

--------------------------------------------
“Há sacrifícios, lutas, sangue e sonhos no
interior desse conceito de socialismo. Há uma
longa história de resistências. É uma produção
histórica vinculada aos anseios dos de baixo.
Não é uma ciência, mas uma aspiração, uma
esperança do ser humano, das classes, coletivos
e povos oprimidos.”
-------------------------------------------

Quando refletimos sobre a questão do
poder popular, em realidade, retomamos parte
significativa das teorias e práticas desenvolvidas
pelos anarquistas ao longo da história mas, ao
mesmo tempo, optamos por algumas delas em
detrimento de outras. Além disso, desenvolvemos
posições próprias, no intuito de revitalizar questões
que julgamos fundamentais, para uma prática
política adequada com o contexto em que estamos
inseridos.

O conceito de poder

São distintos os entendimentos do concei-
to de poder no campo da esquerda, e pela nossa
própria defesa do conceito de poder popular, en-
tendemos ser necessário definir com algum rigor o
nosso conceito de poder.

Concebemos o poder como uma relação
social estabelecida a partir do enfrentamento entre
diversas forças sociais, quando uma ou mais forças
se impõem às outras.

Qualquer sociedade possui uma relação
dinâmica e permanente entre as forças que estão em
jogo. Por isso, qualquer sociedade possui relações
de poder. Indivíduos, grupos, classes sociais
possuem capacidade de realização, que podem ou
não se tornar forças sociais. Dessa maneira,
distinguimos esses dois conceitos: “uma
força social tem determinada capacidade
de realização. Capacidade de realização
pode ser entendida, como a possibilidade
de produzir de determinada força social,
quando colocada em ação pelo agente que
a detém”. [Fábio López. Poder e Domínio]
Assim, a capacidade de realização coloca-se
no campo das possibilidades; um agente, um
agrupamento pode ter uma capacidade de
realização, mas transformará essa capacidade
em força social no momento em que intervier
nas forças em jogo. A força social implica que
a capacidade saia do campo da possibilidade
e passe a fazer parte do campo da realidade.

Não se pode, também, confundir
força social com poder. “Poder não pode ser
mero sinônimo de força social, pois para ter
poder é necessário fazer uso de sua força e
ela ter efeito – ou ao menos poder fazer uso
desta força (quando lhe convier) e isto ser
o suficiente para conseguir o efeito”. [Fábio
López. Poder e Domínio] O poder existe, de
fato, quando há uma imposição de vontade de
um agente ou conjunto de agentes por meio
da força social que consegue mobilizar para
sobrepor as forças mobilizadas por aqueles
que se opõem.

Poder e dominação

Falar que qualquer sociedade possui
relações de poder não significa, entretanto,
afirmar que todas as sociedades, e todas
as relações sociais, fundamentam-se na
dominação. É por isso que consideramos
fundamental distinguir os conceitos de poder
e de dominação.

A dominação é um tipo de poder, que
caracterizamos como um poder autoritário,
contra o qual temos nos mobilizado
historicamente. A dominação é uma relação
de poder hierárquica que pode se institucionalizar
com uns decidindo aquilo que diz respeito a
outros e/ou a todos. Ela explica as desigualdades
estruturais, envolve relação de mando/obediência
entre dominador/dominado, alienação do
dominado, entre outros aspectos. É o fundamento
básico das relações de classes, ainda que não se
possa reduzir dominação à dominação de classe.
[Alfredo Errandonea. Sociologia de la Dominación]
O anarquismo, desde seu surgimento, vem lutando
contra as distintas relações de dominação: entre as
classes sociais, de gênero, de raça, imperialistas etc.
Portanto, o anarquismo é contra um tipo de poder
caracterizado pela dominação que, infelizmente,
caracteriza o modelo de poder hegemônico no
capitalismo.

Em oposição à dominação e ao modelo
de poder que a caracteriza, o poder dominador,
defendemos a autogestão e o federalismo
libertário, caracterizados por um modelo de poder
autogestionário e federalista, chamado por nós de
poder popular. A autogestão e o federalismo são
o oposto da dominação e implicam a participação
no planejamento e nos processos decisórios,
proporcionalmente ao quanto se é afetado por eles,
pessoal, grupal ou coletivamente. Sua aplicação
generalizada implica a substituição de um
sistema de dominação por uma sociedade
igualitária/libertária.

“Podemos dizer que autogestão seria, em
termos gerais, o poder efetivo de decisão sobre
o conjunto das questões políticas, econômicas,
sociais; não realizado de cima para baixo, a
partir da cúpula, mas de baixo para cima, a
partir da base. Definição que abrange diversos
campos: formas de organização política,
organização dos processos de produção
e serviços, educação, aspectos culturais e
ideológicos. A autogestão, assim concebida,
com a amplitude que acreditamos estar nela
implicada, é toda uma concepção que precisa
de elementos coerentes para um autêntico
desenvolvimento. Implica uma transformação
radical, não apenas econômica – como, de
forma limitada, é tratada muitas vezes –, mas
também política e ideológica. A autogestão
não disciplina corpos para a submissão, para
a obediência e para o mando, mas tende a
destruir, a descontinuar a noção atual de
política como algo reservado a uma casta,
dando um outro conteúdo a esse conceito:
a tomada, pelas próprias mãos, dos diversos
organismos sociais, em todos os níveis e
sem intermediários, dos assuntos que lhe
competem, visando construir uma ordem
social sobre essas bases. O que também
implica socializar a política; não desconstruir
seu espaço específico, mas concebê-lo de uma
outra maneira.” [FAU. Poder, Autogestão e
Luta de Classes: uma aproximação do tema]

Conforme buscaremos demonstrar,
nossa concepção de poder popular está
fundamentada nas noções de autogestão
e de federalismo libertário em oposição à
dominação. Por isso diferenciamos poder
de dominação; o poder que defendemos,
construído a partir da idéia de autogestão
e de federalismo, constitui as bases de nosso
conceito de poder popular e se opõe radicalmente
à dominação.

O conceito de poder popular

Como já enfatizamos, compreendemos que
“o poder não é algo necessariamente antipopular”;
“o poder popular legítimo deve existir para oprimir
os planos de tirania, que sempre surgem nas
cabeças de alguns agentes”. [Fábio López. Poder e
Domínio] Assim, nosso projeto de poder popular
torna-se uma ferramenta, um tipo de contrapoder
ao poder existente, caracterizado pela dominação.

Em termos macro-sociais, podemos dizer
que concebemos o poder popular como um modelo
generalizado de poder pautado na autogestão
e estabelecido pelas classes oprimidas em
relação às classes dominantes, o qual fornece
as bases para uma nova sociedade. O poder
popular, assim concebido, visa a supressão
do capitalismo, do Estado e das relações de
dominação de maneira geral, substituindo-os
por uma nova estrutura de poder, estabelecida
a partir dos locais de trabalho e de moradia; só
pode consolidar-se, portanto, por meio de um
processo revolucionário.

Opor nosso projeto de poder popular
à dominação implica, obrigatoriamente,
um combate árduo contra as forças sociais
mobilizadas, fundamentalmente, pelas classes
dominantes. Em meio à luta de classes, que
caracteriza o sistema de dominação em que
estamos inseridos, temos uma posição muito
clara de, como parte das classes oprimidas – já
que compreendemos o anarquismo como uma
ideologia das classes oprimidas –, impulsionar
um processo que conforme a capacidade de
realização dessas classes em força social e, a partir
de sua intervenção como movimentos populares,
consiga impor nossa força às classes dominantes,
acabar com a dominação e estabelecer esse poder
popular, pautado na autogestão generalizada. O
poder popular deve, portanto, ser edificado pela
força dos oprimidos, a partir da comunhão de
certos princípios, irmanados solidariamente em
sua diversidade e com um mesmo objetivo.

“Não se trata de colocar o nome de poder popular
às velhas e conhecidas formas de ação política e de
representação que excluem o povo de toda instância
de decisão fundamental. Portanto, não se trata
simplesmente se tomar das classes dominantes o
atual poder político centralizado, e sim de difundi-
lo, descentralizá-lo nos organismos populares, de
transformá-lo em outra coisa. De transformá-lo em
uma nova estrutura político-social. Tomar o poder
é tomar o poder nas fábricas, nos campos, nas
minas, nas oficinas, nas escolas, nos hospitais, nas
centrais elétricas, nos meios de comunicação, nas
universidades, e o poder é dos trabalhadores e do
povo quando são organismos por eles controlados,
amplamente democráticos e participativos, onde
os que os assumem, apropriam-se das funções
tutelares exercidas desde a esfera estatal.” [FAG.
Declaração de Princípios]

O poder popular é, portanto, ao mesmo
tempo um objetivo e uma estratégia defendidos
pelo anarquismo especifista. Ele aproxima
nosso ideal libertário de um projeto de poder
imprescindível para levar a cabo as rupturas que
implicam o alcance de nosso objetivo finalista e
não possui relação com as concepções vigentes
de “tomada do poder” a partir das instituições
de dominação, como no caso do Estado, seja de
maneira revolucionária ou reformista.

O projeto estratégico de nossa corrente

A coerência estratégica que marca
a intervenção anarquista na realidade
fundamenta-se na noção, para nós bastante
óbvia, de que o objetivo deve condicionar a
estratégia e esta a tática. Ou seja, os meios que
utilizarmos conduzirão, necessariamente,
a fins condizentes com eles. Se colocamos

=====================================
“Ainda que o poder popular seja um
projeto de longo prazo (quando a força
das classes oprimidas supera as forças
das classes dominantes), ele começa a
desenvolver-se e se fortalece a partir das
experiências de mobilização e luta de
curto prazo, forjadas sobre necessidades
imediatas da população. Portanto,
construir o poder popular exige uma
atuação imediata e não de espera em
relação a outros fatores que possam
trazê-lo sem maiores esforços, pois é na
sociedade presente que se desenvolve o
embrião da sociedade futura.”
====================================
o poder popular como um objetivo
estratégico a ser atingido por um processo
revolucionário de mobilização e luta, não
há como não conceber estratégias e táticas
condizentes com esse objetivo e que nos
façam caminhar rumo a eles. Esse projeto
estratégico do anarquismo especifista
caracteriza-se basicamente pelo que temos
chamado de construção do poder popular e
da criação de um povo forte. É nesse sentido
que o poder popular ganha, também, uma
função estratégica fundamental.


Afirmamos que a base do poder popular é
a autogestão e o federalismo libertário; portanto,
nesse processo estratégico de mobilização e luta,
compreendemos que a autogestão e o federalismo
devem fundamentar a base de nosso programa
de intervenção na criação e na participação
de movimentos populares. Dentre as distintas
estratégias defendidas historicamente pelos
anarquistas, nossa estratégia de poder popular
caracteriza-se por constituir uma estratégia de
massas. Isso significa que queremos contribuir
com a organização das massas de maneira que elas
possam ser protagonistas de suas lutas, de curto e
longo prazo, responsabilizando-se tanto por suas
conquistas e melhorias do dia-a-dia, como também
pelo processo de transformação revolucionária,
que as emancipará e libertará complemente.

“Ainda que o poder popular seja um projeto
de longo prazo (quando a força das classes
oprimidas supera as forças das classes
dominantes), ele começa a desenvolver-se
e se fortalece a partir das experiências de
mobilização e luta de curto prazo, forjadas
sobre necessidades imediatas da população.
Portanto, construir o poder popular exige uma
atuação imediata e não de espera em relação
a outros fatores que possam trazê-lo sem
maiores esforços, pois é na sociedade presente
que se desenvolve o embrião da sociedade
futura.” [OASL. Anarquismo especifista e
poder popular]

Por isso, sustentamos que o poder
popular tem de começar a ser edificado na luta
popular, organizada e protagonizada pelos
diversos setores das classes oprimidas, em
torno das questões mais imediatas, visando
os processos de ruptura mais profundos.
Construir o poder popular e criar um povo
forte implicam, além de fazer as lutas de
curto prazo, avançar para lutas de médio e
longo prazo e, por isso, temos defendido a
organização popular em uma frente de classes
oprimidas, que pode fortalecer permanente a
força social das classes dominadas, colocado-
as em oposição direta às forças mobilizadas
pelas classes dominantes. Tal processo de
organização popular, deve ser forjado “como
resultado de um processo de convergência
de diversas organizações sociais e diferentes
movimentos populares, que são fruto da
luta de classes”. [FARJ. Anarquismo Social
e Organização] Trata-se de rearticular os
oprimidos em torno de um projeto comum de
transformação social.

Dentre as várias ferramentas
existentes para a ampliação de força social
está a organização. Quando nos propomos a
organizar movimentos populares e participar
deles com um programa determinado,
acreditamos que estamos potencializando
as forças das classes oprimidas a partir dessa
importante ferramenta. “Construir o poder
popular implica, assim, desde já, organizar novos
movimentos sociais e integrar movimentos
já existentes, defendendo uma posição de
fortalecimento permanente. E ele só poderá
surgir e realizar-se com e pelo povo, enquanto
classe.” [OASL. Anarquismo Especifista e
Poder Popular] Em nossa intervenção no
sentido de criar movimentos populares e
neles ingressar, nos apoiamos em princípios
que permitam impulsionar lutas de massas
que possam contribuir no fortalecimento do
nosso projeto de poder popular; independência
e solidariedade de classe, combatividade e
ação direta, democracia direta, autogestão
e federalismo. Tais princípios, defendidos
historicamente pelos anarquistas no seio das
lutas populares, nos servem de inspiração e
de guia para a organização autogestionária no
sentido de construir o poder popular.

Construir o poder popular significa
construir outras relações de poder que coloquem
em xeque os poderes dominantes, suas estruturas
e instituições econômicas, políticas, jurídicas,
militares, ideológicas, culturais; enfim, o status
quo. Trata-se de ousar derrotar o sistema de
dominação e realizar, na plena solidariedade
da luta popular, o acúmulo de força social
necessário para desequilibrar as relações sociais
impostas pelas classes dominantes e, por meio do
conflito social, avançar, acumular, potencializar
e romper com as estruturas sistêmicas atuais.
Essa estratégia só poderá contribuir com esse
processo de acumulação de forças e rupturas
se estiver funcionando em nossas próprias
práticas políticas, que devem demonstrar uma
consonância entre discursos e ações.

Compreendemos que a criação
de um povo forte só poderá ocorrer se as
lutas dos movimentos populares estiverem
fundamentadas na autogestão. É somente por
mecanismos ampliados de participação, que
implicam meios libertários e igualitários, que
entendemos poder estimular o fortalecimento
popular de maneira a criar os sujeitos capazes de
realizar essa transformação social de bases tão
amplas. Organizar as diferentes expressões de
luta popular segundo nossos princípios é criar
um povo forte; um fator imprescindível para o
sucesso de nossa estratégia.

Os sujeitos revolucionários não estão
dados historicamente por uma posição histórica
determinista e mecanicista; nem chegarão à
consciência e à luz por meio da atuação de auto-
reivindicadas vanguardas.

“Para construir povo forte e poder popular
é preciso construir os sujeitos da mudança,
pois estes não são dados a priori. [...] Quanto
aos sujeitos revolucionários a estrutura
econômica-política é um ponto de partida, mas
não define mecanicamente os agentes sociais
transformadores. [...] Todavia, os trabalhadores
enquanto não se reconhecem e enquanto não
possuem vontade própria, continuam a ser peças
reprodutoras da engrenagem do sistema. Criar
capacidade política no povo é desenvolver seu
potencial organizativo e prático, potenciais estes
que o próprio povo já possui em estado latente
uma vez que lida diariamente com as situações de
trabalho e dos problemas da vida social cotidiana.”
[CAZP. Alagoas e o Poder Popular]

O novo sujeito, capaz de construir o
projeto de poder popular que defendemos, deve,
portanto, necessariamente ser (re)construído. A
intervenção que temos por meio de nossa prática
política busca essa reconstrução na luta contra a
fragmentação do tecido social, completamente

=================================================
“O problema do poder, decisivo em uma
transformação social profunda, só pode ser
resolvido a nível político, através da luta
política. E esta requer uma forma específica
de organização: a organização política
revolucionária. Só através de sua ação,
enraizada nas massas, é possível se conseguir
a destruição do aparato estatal burguês e
sua substituição por mecanismos de poder
popular.”
=================================================

esgarçado pelas práticas de dominação, e pelo
acúmulo das lutas cotidianas, que geram saberes e
práticas relevantes, com potencial transformador.
“É, portanto, no seio das lutas que se constrói o
poder popular e, por conseqüência outro sujeito
histórico, tanto no pessoal como coletivo. Um
sujeito que não é determinado a priori, mas
historicamente, no seio das lutas dos movimentos
sociais.” [OASL. Anarquismo Especifista e Poder
Popular] Devemos estar convictos de que esse
novo sujeito deve levar consigo a idéia de um
mundo novo, com outra forma de organização
social, e que ele é capaz de empoderar-se,
protagonizar e transformar a realidade em que
está inserido.

O papel da organização específica anarquista

Ainda que estejamos defendendo
o poder popular como uma estratégia de
massas, isso não significa abrir mão de um
outro elemento imprescindível, a nosso ver,
na construção do poder popular; trata-se da
organização específica anarquista.

“O problema do poder, decisivo em uma
transformação social profunda, só pode
ser resolvido a nível político, através da luta
política. E esta requer uma forma específica
de organização: a organização política
revolucionária. Só através de sua ação,
enraizada nas massas, é possível se conseguir
a destruição do aparato estatal burguês e
sua substituição por mecanismos de poder
popular.” [FAU. A Organização Política
Anarquista]

A organização específica anarquista,
esse organismo político revolucionário,
constitui, portanto, um elemento central
em nossa estratégia de poder popular. Não
no sentido autoritário e substituísta, que
subjuga a capacidade das classes oprimidas
no processo de transformação social, ou as
quer substituir nessa luta. A organização
anarquista é por nós compreendida como
um agente que funciona como fermento ou
motor das lutas populares: “a organização
política não é direção, mas, antes de tudo, um
motor das lutas”. [CAZP. Alagoas e o Poder
Popular] Trata-se de uma diferenciação entre
o caráter de minoria ativa, que atribuímos às
nossas organizações políticas (nível político),
e o caráter de vanguarda das organizações
políticas autoritárias, naquilo que diz respeito às
suas relações com os movimentos populares (nível
social).

“Diferentemente da organização de vanguarda, o
nível político organizado como minoria ativa, que
atua com ética, não possui relação de hierarquia
e nem de domínio em relação ao nível social.
Para nós, como enfatizamos, os níveis político e
social são complementares. [...] O nível político
complementa o nível social, assim como o nível
social complementa o político. Ao contrário do que
propõem os autoritários, a ética da horizontalidade
que funciona dentro da organização específica
anarquista se reproduz em sua relação com os
movimentos sociais. Quando em contato com o
nível social, a organização específica anarquista
atua com ética e não busca posições de privilégio,
não impõe sua vontade, não domina, não engana,
não aliena, não se julga superior, não luta pelos
movimentos sociais ou à frente deles. [...] O
objetivo da minoria ativa é, com ética, estimular,
estar junto ombro a ombro.” [FARJ. Anarquismo
Social e Organização]

Trata-se, portanto, de sustentar
uma relação de complementaridade, em
que a organização anarquista potencializa
os movimentos populares e estes, por sua
vez, constituem o campo privilegiado para
a prática política anarquista. Nessa relação
autogestionária entre organização anarquista
e movimentos, impulsiona-se o programa
anarquista, pautado em seus princípios
fundamentais e em sua estratégia, de maneira
a reconstruir o tecido social, organizar as
classes oprimidas, estimular entre elas as
práticas autogestionárias e caminhar para a
construção do poder popular.

Para nós, anarquistas especifistas,
construir o poder popular implica, portanto,
uma prática dupla: como membros das
classes oprimidas, nos organizarmos
nos movimentos populares em torno de
associações amplas, que agregam militantes de
diferentes ideologias; ao mesmo tempo, como
anarquistas, nos organizarmos, pautados em
nossas posições ideológicas, para intervir na
realidade de maneira mais adequada. Para

===============================================
“O nível político complementa o nível social,
assim como o nível social complementa o
político. Ao contrário do que propõem os
autoritários, a ética da horizontalidade que
funciona dentro da organização específica
anarquista se reproduz em sua relação com
os movimentos sociais. Quando em contato
com o nível social, a organização esp
ecífica anarquista atua com ética e não
busca posições de privilégio, não impõe
sua vontade, não domina, não engana, não
aliena, não se julga superior, não luta pelos
movimentos sociais ou à frente deles. [...]
O objetivo da minoria ativa é, com ética,
estimular, estar junto ombro a ombro.”
===============================================

isso, defendemos ser fundamental a afinidade
ideológica, teórica, estratégica e prática dessas
organizações anarquistas, que possuem como
fundamento a responsabilidade e a disciplina
de seus membros, sempre pautadas na ética
anarquista.

O sistema de dominação e o projeto anarquista de poder popular

A luta contra a dominação implica
métodos de análise e teorias para a compreensão
crítica da realidade em que atuamos.
Caracterizamos o sistema de dominação
contemporâneo como uma estrutura
dominadora, fundamentada nas relações
sociais das distintas esferas, e que possui na
luta entre classes com interesses antagônicos
sua expressão mais relevante.

O capitalismo, o Estado e as diferentes
estruturas e instituições que contribuem para
o estabelecimento desse sistema devem ser
suprimidas. Temos o dever de analisar e criticar
as realidades, as forças em jogo, os agentes em
questão, nossos inimigos, aliados concretos e em
potencial. Essa análise, juntamente com nosso
objetivo finalista e nosso conjunto de estratégias
e táticas, constitui nosso projeto estratégico para
intervenção e transformação da sociedade.

Acreditamos que, enquanto houver
um sistema de dominação, haverá lutas pela
emancipação dos oprimidos, que possuem
ensinamentos genuínos ao nosso projeto de
poder popular. É em meio a essas resistências
que acreditamos que o anarquismo deve
estar, contanto com toda a diversidade que
caracteriza os diferentes terrenos populares nos
quais atuamos; devemos fortalecer os valores
libertários que ideologicamente viabilizam a
existência desse projeto.

As dominações econômicas, caracteriza-
das pela exploração capitalista; as dominações
políticas, caracterizadas pela divisão da sociedade
em governantes e governados e pelas opressões
levadas a cabo pela força bruta, pela coerção,
ambas impulsionadas pelo Estado; as dominações
de ordem cultural e ideológica, fundamentadas
pelas idéias que circulam e fortalecem esse
sistema – todas essas dominações devem ser
combatidas por nós. A cultura e a ideologia
produzidas pelos sistemas de dominação criam
sujeitos individualistas, sem identidades que lhes
vinculem às classes oprimidas, completamente
incorporados ao sistema capitalista; esse é
também um problema relevante, que também
devemos enfrentar.

O projeto de poder popular anarquista
contrapõe, em todos esses níveis de dominação,
alternativas autogestionárias de luta, “gerando
espaços e estímulos para a participação em
sindicatos, cooperativas, centros comunitários
e estudantis, nas organizações de protesto e nas
reivindicações: por trabalho, saúde, teto, terra”.
[FAU. Poder, Autogestão e Luta de Classes]

Nessas distintas práticas, é fundamental
que sustentemos a retomada da economia e da
política por parte das classes oprimidas, assim
como o estímulo ao desenvolvimento das
identidades e culturas de classe dos distintos
oprimidos, e também a difusão de uma ética
pautada em valores; meios que devem sustentar
nosso projeto de poder popular.

A CAB e a construção do poder popular

Nossa proposta de anarquismo, como
fermento e motor capaz de impulsionar as
lutas populares, a nível nacional e continental,
torna-se, portanto, completamente vinculada a
esse projeto de poder popular que continuamos
a impulsionar; uma estratégia e um objetivo
que julgamos ser coerentes para o tempo e o
lugar em que atuamos.

A ideologia anarquista constitui, para
nós, a base fundamental de nossa prática
política; concebemos, portanto, que nossas
idéias transformadoras possuem, a partir
de nossa intervenção prática na realidade,
a materialidade necessária para intervir no
jogo de forças que caracteriza o sistema de
dominação em que estamos inseridos e buscar
transformá-lo com as práticas de intenção
revolucionária que nos são características.

Não basta apenas desejar a utopia
socialismo libertário; precisamos caminhar
em sua direção. Nosso projeto de poder
popular parece adequado para enfrentar esse
desafio, fundamentando nossas incansáveis
intervenções, desde as questões mais comuns,
cotidianas, de curto prazo, até aquelas que
envolvem planejamentos estratégicos de médio
e longo prazo.

A CAB tem por objetivo impulsionar
um projeto de poder popular nas localidades
em que atua, fazendo do anarquismo a centelha
que deve incendiar os movimentos populares,
rumo ao nosso ideal de socialismo e liberdade.

Lutar, criar, poder popular!
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