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(pt) FARJ* LIBERA No. 154 - A organização específica anarquista - enquanto acúmulo organizativo e construção do poder popular*

Date Wed, 05 Dec 2012 12:20:07 +0200


Malatesta identifica a necessidade da luta econômica e política como dois dos elementos necessários para o avanço rumo à emancipação do povo oprimido. Quanto às lutas econômicas, considerando nosso contexto atual, podemos entender também as diferentes mobilizações e reivindicações, não apenas no âmbito das relações de trabalho, mas também aquelas que abarcam as questões que tocam as demais necessidades do povo. Desemprego, falta de acesso à moradia, ao saneamento, a sistemas eficientes de saúde, educação, cultura, entre outros problemas, podem ser entendidos também como consequências de um sistema organizado no sentido de explorar e dominar o povo, como é o capitalismo, para garantir suas necessidades econômicas e políticas e perpetuar o estado atual das coisas.

Assim, partindo de Malatesta, entendemos essa luta pelas demandas cotidianas como um
dos elementos de extrema importância na construção do poder popular e, consequente-
mente, de um sujeito revolucionário que não é dado a priori, mas também é construído na
luta diária. Essa luta se traduz nos locais de moradia, de trabalho e, no caso da luta rural, no espaço onde as duas situações podem se encontrar.

Mas a luta cotidiana ou econômica também tem seus limites.“Então a força dos trabalha-
dores se choca com a dos patrões, assim como contra o governo, que é seu órgão político
e armado de defesa. Então a luta econômica se torna política.”

Podemos entender desse modo, a organização política como uma consequência, e uma
necessidade do avanço dessa luta cotidiana. A organização política anarquista, que aqui
representamos com nossas organizações irmãs, não substitui a luta popular, mas ajuda a
potencializá-la. Não é uma organização de eleitos autoproclamados, mas pretende como
minoria ativa, apoiar a auto-organização da classe sob uma perspectiva revolucionária e
ajudar a construir um projeto de poder popular que não forme novos dominadores em
seu movimento.

A construção do poder popular passa por essa dinâmica. A opção, por parte do povo, de
um projeto de organização de classe autônomo, organizando-se diante de um sistema
muito bem estruturado para nos dominar e explorar, prova, nas lutas cotidianas, ser uma
opção viável de libertação.

“Os trabalhadores não poderão jamais se emancipar enquanto não encontrarem na união
a força moral, a força econômica e a força física necessárias para desmantelar a força orga-
nizada dos opressores”. Essas palavras malatestianas articulam um tripé impossível de ser
desfeito aos que pretendem a transformação radical da sociedade.

O acúmulo organizativo que vamos construindo, passo a passo, deve ser generoso em suas
perspectivas. Não deve limitar-se apenas à solução das necessidades materiais. Sabemos
que os elementos simbólicos, culturais e religiosos transpassam todas essas questões ma-
teriais. Pensar a solução dessas demandas sem levar em conta os laços que constituem
todo um “tecido social”, destroçado pelo capitalismo, é limitar as possibilidades do nosso
projeto.Assim como esperar que o sistema se desestruture pacificamente, sem a mobiliza-
ção e a luta avançada da classe, é uma ingenuidade desfeita pela análise histórica de matriz libertária.


A organização política influencia e é influenciada pelo povo e suas orga-
nizações de base.

“À vontade de crer, oponho a vontade de saber, que deixa aberto diante de nós o campo ilimitado da pesquisa e do descobrimento.” Malatesta

Podemos entender que, muito mais do que certezas, ou aplicação de fórmulas, a constru-
ção do poder popular implica em saber ouvir e conhecer não só os problemas e as deman-
das do local de atuação da militância, mas reconhecer, valorizar e estimular as iniciativas populares de organização. Querer antecipar a consciência libertária da classe com ações e formas forçadas, deslocadas de certos contextos, é sinal de impaciência política e compromete um real acúmulo coletivo. É cair no erro de atuar sempre ideologicamente, repro duzindo o que seria uma “forma revolucionária”, em vez de trabalhar com as ferramentas teóricas construídas e pautadas nos princípios ideológicos. Prática que acaba levando ao sectarismo ou à intolerância que logo classifica de “alienados” aqueles que não pensam e agem daquela “forma” que se crê ser a mais correta.

Considerar que a organização política já possui todas as respostas antecipadamente é re-
produzir erros antigos de orientações ideológicas exógenas ao anarquismo. A organização
política não está pronta. Tem de preferir dar dois passos com a classe a dar mil, isolada
entre seus iguais. Esta prática deve ser compreendida como um exercício permanente de
organização, algo que os sindicalistas revolucionários e os anarquistas chamavam de “gi-
nástica revolucionária”. Esse movimento, que permanece como um projeto em construção,
edifica-se junto às classe que deseja fortalecer e não isolada, em suas próprias reflexões.
Aprender é escutar. Mas não basta simplesmente estar nos movimentos e viver à reboque
deles; é preciso estar lá com um programa e uma estratégia bem definidas, para não des-
perdiçar e fragmentar as energias militantes.

É na base que construímos o federalismo de matriz libertária, valorizando a delegação en-
quanto responsabilidade coletiva. Nossos esforços militantes devem ser medidos de acor-
do com este parâmetro, pois o poder popular é aquele que se enraiza de baixo para cima, “pela base e à esquerda”, como dizem os zapatistas. Nesse sentido, a atuação de nossos/as militantes no sindicalismo, no movimento estudantil, popular e rural deve procurar cons-
truir a casa pela sua fundação, sem ignorar que a complexidade
das lutas implica na mediação da política com a realidade.

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[...] A organização po- lítica não está pronta.
Tem de preferir dar dois passos com a classe, do
que mil isolada entre seus iguais.
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Por um estilo militante de trabalho social e político

Entendido como o modo específico de realização da política
aplicada pelo/a militante, e que se traduz diretamente em sua
relação com o trabalho e a inserção social, o estilo militante é a
coerência do/a militante e do conjunto da militância com os princípios, métodos e a linha política de uma organização. Sabemos que não há nenhum/a militante que reúna todas as qualidades exigidas por uma organização e que nesta convivem
vários temperamentos e singularidades. Mas há elementos básicos que são necessários. Espera-se que o militante seja um bom organizador, que tenha responsabilidade coletiva e comprometimento com as tarefas exigidas (internas – da organização, e externas – dos movimentos sociais). Que seja ético, camarada, que escute os seus/suas companheiros/ as de luta e que, nos trabalhos sociais, principalmente, saiba que ele/a é o “rosto” da or- ganização. Que não se comporte autoritariamente ou de forma vaidosa/excêntrica e que lide com o povo e com seus companheiros com respeito e sinceridade. Que fale a lingua-
gem que o povo compreenda. Que não faça “terra arrasada” nas assembleias e atividades
públicas, como se estivesse num combate de “foices” ou esgrima, onde se deve abater o
da, adversário Se a os utopia valores ao doinvés que socialismo criam de contribuir os libertário novos com sujeitos que oqueremos coletivo.

Se a utopia do socialismo libertário que queremos realizar se faz com uma longa caminha-
da, os valores que criam os novos sujeitos constituem-se no presente e são inegociáveis.
mesmo que sutis –, tampouco de domínio e exploração para com os outros/as companhei-
ros/as de luta e trabalhadores. Sabemos o quão difícil é abandonarmos valores próprios
da cultura burguesa (alguns anteriores a esta) em que vivemos e fomos cotidianamente
formatados (sexismo, machismo, homofobia, competição, racismo, preconceito, etc). Este
não é um processo simples, nem imediato, e tampouco se tem a ilusão de que uma trans-
formação total e absoluta é possível, como se houvesse um interruptor disponível que
possamos acionar. Sabemos que estamos falando de pessoas de carne e osso; mas é preciso
sempre pautar a ligação estreita que pretendemos dar, entre a utopia e a ética.

A organização requer apenas o mínimo de autocrítica e lucidez, ao compreender as susce-
tibilidades que nos formam sob o sistema de dominação que vivemos e a abertura do mili-
tante para sua conversão ao projeto libertário. Um programa libertário muito bem formu-
lado dentro dos movimentos e espaços sociais que atuamos pode naufragar completamen-
te se nos comportamos da mesma forma que nossos inimigos de classe ou reproduzirmos
comportamentos políticos e sociais que condenamos no outro. Não se convence ninguém
sem exemplos ou comportamentos aproximados e apropriados à nossa ética libertária,
que deve estar refletida em nossas práticas. O ditado popular, identificando a contradição
usual entre discurso e ação no seio da sociedade burguesa, já o diz:“Uma ação vale mais do
que mil palavras”. Não importa a capacidade de uma organização traduzir racionalmente
seus projetos e programas políticos (panfletos, livros, discursos), se seus militantes não
conseguem convencer pelos exemplos, sua adesão e coerência ética ao projeto político
que pretendem realizar. Obviamente isto não é um projeto simples, mas é importante que
seja um horizonte dos que pretendem interferir politicamente na realidade.


A importância da vontade, dos elementos subjetivos e da intenção política no trabalho de base.

“O Anarquismo como método para realizar a anarquia por meio da liberdade.” Malatesta

No trabalho cotidiano, ao estimular a organização popular, pode-se identificar uma dimen-
são mais objetiva da nossa política, que está relacionada às propostas concretas e a um método de se organizar autônomo e independente. Há, no entanto, uma dimensão subjetiva,
intuitiva, que costura todo o trabalho social que fazemos e reforça a importância política
de se estar organizado. Essa dimensão reforça e constrói aspectos identitários. Ideal Peres, num dos momentos de rearticulação dos militantes anarquistas cariocas, dizia-nos que era preciso “explodir bombas nos corações dos trabalhadores”. Referia-se à necessidade de compartilhar os sentidos, signos e significados da utopia no próprio cotidiano militante e assim transformar, pelas conquistas sociais e políticas, mentes e corações.

Deste modo, nossa vontade de transformação e nossas intenções conformam um imagi-
nário social e político de matriz revolucionária. Pensar nesse imaginário apenas como um
modelo acabado e definido (uma ideologia mais ou menos consciente) já prescrito nos
livros e brochuras é ignorar toda uma tradição popular que se assenta na resistência
histó rica da classe. Seguindo a analogia de NenoVasco, se a ideologia anarquis-
ta se pretende o “fermento do bolo” e já o sabemos que a vontade de
comer (necessidades materiais) está posta na ordem (capitalista) do dia,
lembremos que a “feitura do bolo” é atravessada por práticas de resis-
tência que não podem ser reduzidas apenas ao algoritmo de uma recei-
ta. Esses elementos imaginários da classe (símbolos, significados, ícones,
representações) estão arraigados na cultura popular e são manejados
eficientemente por nossos inimigos, que nesse sentido também pro-
põem e mobilizam ideologicamente alguns milhares ou milhões. Longe
de reduzir as questões da transformação radical às oposições dualistas
já consagradas pelos debates clássicos (subjetivo x objetivo, material x
ideal, etc.) do campo do socialismo, propomos articular esses três elementos. A partir da
luta e da auto-organização da classe para resolução de suas necessidades materiais, nos
esforçarmos para enraizar a ideologia política operacionalizada pela organização específica anarquista com os elementos imaginários da resistência da classe. Uma tarefa gigantesca que só pode colher seus frutos com o esforço coletivo e consciente dos que acreditam na transformação social por uma matriz libertária.

Federação Anarquista do Rio de Janeiro - FARJ
*Texto apresentado no ConCAB, 2012
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