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(pt) [Curitiba, Brasil] Eleições Municipais 2012: O consenso conservador em Curitiba

Date Mon, 29 Oct 2012 13:43:45 +0100


Curitiba hoje é a 17° cidade mais desigual do mundo e a 5° do país. Comparada as
cidades da Europa e famosa por ser a "cidade modelo", ela esconde por trás deste
slogan todas as mazelas dos grandes centros urbanos: violência em altos níveis,
falta de serviços básicos ou acesso precário a eles, além da especulação imobiliária
(quase 10% dos imóveis da cidade estão vazios) que afeta as condições de vida e
moradia de milhares de curitibanos.
Entre os candidatos do primeiro turno temos velhos conhecidos vindos das elites
locais. Luciano Ducci, herdeiro político de Beto Richa (filho de proeminente
político da região), do mesmo grupo que há algumas décadas vem administrando a
cidade, afinadíssimo com os interesses do capital. Como "oposição" temos Gustavo
Fruet (até bem pouco tempo do PSDB de Richa), filho de outro político da região da
época da reabertura, agora no PDT, com uma suspeita aliança de ocasião com o PT.
Temos para reforçar o time das "figurinhas carimbadas" Rafael Greca, prefeito na
"era de ouro" de Curitiba, quando a cidade era "exemplo" de urbanismo (leia-se
urbanismo e exclusão social) onde foi sucessor e continuador dos projetos de Lerner
e "sua turma" (grupo do qual hoje Richa e Ducci são os "continuadores" oficiais),
grupo que vem dando as cartas na cidade há algum tempo e que fez da Curitiba a
"cidade modelo", hoje em uma suspeita oposição.

Dos quatro candidatos com maior número de votos, três eram, foram, ou são (fica
difícil saber até que ponto romperam um dia...) do grupo que domina a política local
e que governa há anos para as classes dominantes, todos ou são provenientes das
elites, ou mantém estreitos laços com elas. Por "fora" a "verdadeira alternativa"
(ao menos com chance real de vencer as eleições), temos Ratinho Jr., o mais votado
no primeiro turno. Se não é vinculado às elites locais e de família já tradicional
na política, é filho de um grande comunicador, latifundiário, dono de empresas de
telecomunicações, e outros tantos negócios. Com toda certeza este ultimo também não
é um candidato que vem das camadas populares, mas sim é mandatário das classes
dominantes tanto como os outros, apenas busca "disfarçar-se" por trás da "popular"
personalidade de seu pai, Ratinho pai. Esse candidato busca confundir seus eleitores
reivindicando-se de uma família de trabalhadores (afinal seu pai é mais um dos
exemplos daqueles que "venceram" na vida e que se construíram com "seu" trabalho,
como se fosse possível enriquecer com seu próprio trabalho).

Olhando para os possíveis prefeitos da cidade, não se tinha chance nenhuma de a
burguesia perder o poder político da cidade (nem poderia ser diferente), entre os
quatro possíveis para chegar ao segundo turno (é certo que Greca sempre esteve bem
pouco cotado), três vem do grupo que há anos controla a cidade. Longe de ser
surpreendente, isso somente afirma que as eleições são uma teatralização da escolha
e da democracia, sequer passando perto de alterar os grupos de poder e o status quo,
mostrando que nada ou muito pouco pode mudar para os de "baixo" através delas. Não
são mais que disputas personalistas do aparato do Estado, de busca por um lugar
privilegiado e cativo em meio às classes dominantes.

No espectro das diferenças entre estes candidatos, programaticamente percebemos que
são pouco perceptíveis. Há muito o PSDB de Curitiba aprendeu com o PT como adentrar
os movimentos populares e colocá-los dentro do Estado. Sua política em Curitiba
abarcou certos elementos propostos pelos gestores petistas no que tange a
participação. Na gestão de Richa foram pouco mais de 200 audiências públicas, na de
Ducci (2 anos apenas) foram mais nove. Isto coloca o PT(agora aliado ao PDT) em
difícil situação, já que alguns dos bairros onde tinha vinculação histórica são
cooptados. E mais, o PSDB aporta essa proposta mostrando claramente que não tem
nenhum problema (e é até mesmo conveniente, pois promove a conciliação de classe)
para a burguesia em colocar a classe trabalhadora para ajudar a gerir suas mazelas
junto ao Estado, que esta política participativa pode ser bancada pelos partidos
burgueses stricto senso, assim de certa forma roubando a originalidade do projeto
petista de gestão, cabe citar que Ducci chega a aportar até mesmo a economia
solidaria e o cooperativismo . Fruet em sua campanha não conseguem ir além de
propostas em torno da transparência (mesmo nas privatizações) e ética, negando
bandeiras históricas dos trabalhadores/as como as não privatizações.

Talvez algumas singelas diferenças que vemos entre as candidaturas de PDT/PT e
PSB/PPS (com massivo apoio de PSDB) estão no que tange um discurso privatizante mais
explicito de Ducci que se mostra um apologeta da entrada do privado nos serviços
públicos via "concessões", gerindo de maneira neoliberal. Fruet ainda se diferencia
de uma linha extremamente conservadora (ao menos no discurso) no debate da segurança
pública, pois Ducci trata a criminalidade simplesmente como "caso de policia", sua
política é inequívoca nesse sentido vide a implementação das UPSs(Unidade Paraná
Seguro, claramente inspiradas nas UPPs do RJ). O candidato do PDT encara a
problemática tratando-a como de ordem social a relacionado a desigualdade social e a
concentração de renda.

Já Ratinho Jr. sequer apresenta um programa, sua politica é baseada meramente no
marketing político. Observamos um conservadorismo extremo quando aborda as
problemáticas das drogas e criminalidade "evocando" as autoridades religiosas para o
auxiliarem na moralização da cidade. Manifestou-se também, publicamente, contra o
casamento entre homossexuais, o que gerou uma certa comoção do público LGBT no
intento de deslegitimá-lo e boicotar sua candidatura. Em suas propostas formalizadas
articula demandas das classes mais populares, ao mesmo tempo que carrega o velho
conservadorismo e as "parcerias" com o setor privado, elencando a necessidade de
estabelecer mais vínculos entre prefeitura e FIEP.

Greca traz a campanha mais agressiva, enfatizando os problemas gerados pelo
sobrecarregamento do sistema público de serviços de Curitiba e recordando com
"saudosismo" a "maravilha" que eram os serviços em seus gloriosos tempos de
"Curitiba modelo", omitindo que os problemas que a população de Curitiba enfrenta
são decorrentes do modelo de cidade que ele mesmo ajudou a consolidar, afinal Richa
e Ducci são seus sucessores

Naqueles que disputaram "para valer" o primeiro turno encontramos um mesmo consenso
conservador, seja no que se refere a uma "idílica" história de Curitiba que deve ser
retomada, um projeto que deve "retomar os trilhos" para que voltemos a ser a cidade
"modelo", que avancemos de cidade "ecológica" para "sustentável", ou no "manter as
conquistas de Curitiba", mostra que nenhum destes candidatos tem um compromisso, a
menos que discursivo, em transformar a situação da classe trabalhadora, pois
defendem a "velha" Curitiba, que afasta a pobreza (inclusive isto é marca de seu
planejamento) e que se molda aos interesses do capital de todas as ordens
imobiliárias, industrial, automobilístico, etc.

Outro componente de destaque é a postura que as esquerdas diretamente vinculadas ao
Estado tomam nestas eleições. Sua degeneração chegou a um nível em que nem mais
dissimulam o pragmatismo político na disputa pelo poder. PT e PC do B aliados
históricos, agora frente a frente no segundo turno, o primeiro com Fruet o segundo
com Ratinho, ambas candidaturas dissociadas de qualquer movimento de base, e
inclusive imposta as suas bases no caso do PT. Fica eminente que no caso da disputa
do Estado, o que era meio vira fim, a tática vira estratégia, e em troca do poder,
da "máquina", vale tudo. Assim auferindo o maior pragmatismo político, cada um
aposta num "cavalo" diferente e que vença o "melhor".

Na "margem esquerda" das eleições encontramos PSOL e PSTU, ambos partidos que
reivindicam-se revolucionários. O programa do Prefeito Avanilson, candidato do PSTU,
é bastante coerente no que diz respeito as condições sócio econômicas de Curitiba,
apresentando uma tese marxista sobre Estado contemporâneo. Apresenta uma proposta
classista, porém resume os problemas do Estado aos seus gestores e a corrupção,
referindo-se aquela velha história da "crise de direção" e propõe-se, é claro, à
gerir a máquina de forma socialista. O programa do PSOL sequer existe, lança sua
candidatura apenas com consignas e, através destas, traz propostas bastante mediadas
na tentativa de conquistar apoio da "classe média" (comumentemente se denominam
setores mais abastados da classe trabalhadora, ou seja maior inserção no consumo
como uma classe, discordamos de tal definição, mas entendemos a quem se refere).
Para isso, acaba abandonando a perspectiva classista, seu programa socialista vai
mais no sentido da conciliação de classes e de resolver os problemas do capital no
capital do que de rompimento com as suas contradições e exploração dos
trabalhadores. O abandono chega a tal ponto que algumas candidaturas se dirigem
inclusive ao pequeno empresariado, sintomático para um partido que se propunha
socialista.

E com o fim do primeiro turno, resta ao curitibanos escolher entre Ratinho Jr. e
Gustavo Fruet, ou seja, manter a velha elite, ou trocá-la por uma nova. No fim das
contas sabemos para quem o novo prefeito irá governar, independente de qual seja
eleito. E mais uma vez, através das eleições, burguesia legitima seu domínio e
exploração sobre os trabalhadores.


Coletivo Anarquista Luta de Classe

27 Outobre 2012

http://coletivoanarquistalutadeclasse.wordpress.com/
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