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(pt) [Recife, Brasil] Desenvolvimento dos de cima versus lutas dos de baixo

Date Mon, 29 Oct 2012 13:33:16 +0100


Reflexões sobre o evento eleitoral no Recife em 2012

"Eleger um senhor, ou muitos senhores, seja por longo ou curto prazo, significa
entregar a outra pessoa a própria liberdade. (...) Votar significa formar traidores,
fomentar o pior tipo de deslealdade. (...) Hoje seu candidato se curva à sua
presença; amanhã ele o esnoba. Aquele que vivia pedindo votos transforma-se em seu
senhor. Como pode um trabalhador, que você colocou na classe dirigente, ser o mesmo
que era antes já que agora ele fala de igual para igual com os opressores? Repare na
subserviência tão evidente em cada um deles depois que visitam um importante
industrial, ou mesmo o Rei em sua ante-sala na corte! A atmosfera do governo não é
de harmonia, mas de corrupção. Se um de nós for enviado para um lugar tão sujo, não
será surpreendente regressarmos em condições deploráveis."
Élisée Reclus, "Votar é abdicar!" (Carta a Jean Grave, 1885).

A política se faz no dia a dia da luta, não nas urnas. Por isso, pensar sobre as
eleições nos leva a analisar o que acontece nos quatro anos que intercalam uma e
outra ida aos locais de votação. É este caminho de desmandos dos governos que leva
ao massacre cotidiano do povo. O resultado dos votos apenas indica qual será o
próximo engravatado a cumprir o papel de opressor, a ocupar a estrutura do Estado
para implementar o governo de poucos sobre muitos.

Discutir o pleito eleitoral em Recife, portanto, trata-se primeiramente de resgatar
como o povo da cidade resistiu à opressão dos governantes e, a partir daí, perceber
como o propagado desenvolvimento do Estado de Pernambuco e o processo de crescimento
da Região Metropolitana do Recife apenas contentam os empresários e não pretendem
atender aos anseios populares.

Ora, a correlação de forças do topo importa muito mais a quem quer estar nele.
Debater a disputa de legendas significa acreditar que votar em um candidato vai de
alguma forma beneficiar o povo. Para além da ficção eleitoral, a política feita nas
lutas prova que não.


Luta pela moradia versus Verticalização

No início do ano a comunidade do Bom Jesus, na Zona Sul, foi cruelmente expulsa em
nome da construção da Via Mangue, obra que "solucionaria" o problema dos
engarrafamentos na região mais motorizada da cidade. Sob a bagatela de R$5000 de
indenização para o pagamento de um novo imóvel(!), a polícia foi acionada para
empurrar, como sempre, os moradores ou para as margens da cidade ou simplesmente
para um conjunto habitacional com feições de campo de concentração qualquer.
Famílias inteiras e trabalhadores de todo tipo iam simplesmente ser desapropriados
em nome do escoamento da produção da indústria automobilística - vide o polo
automotivo ligado à Fiat que irá se instalar sob a guarda do governo do estado. Em
bom português, automóveis e estradas demonstram em mais este caso ter maior
relevância para o Estado que a vida de cidadãos e moradores pobres. A comunidade
resistiu: ocupou a câmara dos vereadores e, logo após, a prefeitura e exigiu
manter-se no espaço.

O fato ora descrito parece ir contra a grande oferta de moradias na cidade. Quem
anda pelo Recife percebe a proliferação de obras em diversos bairros. A especulação
imobiliária atinge níveis homéricos, resultado da demanda por moradias gerada pela
chegada de indústrias e pelo polo de Suape. As construtoras aceleram o ritmo de
entrega dos apartamentos e Recife se transforma cada vez mais em uma cidade
vertical. É o progresso capitalista batendo incomodamente às nossas portas. E, como
se espera, prejudicando o povo.

Nenhuma destas unidades habitacionais supre a demanda popular por moradia. Pelo
contrário. Produzidas para uma classe média migrante, os milhares de apartamentos
serão vendidos a juros altos embutidos nas prestações dos financiamentos bancários
ou alugados a preços cada dia mais caros.

Não à toa, as mesmas empresas que lucram com a especulação imobiliária da Região
Metropolitana são beneficiadas nos processos licitatórios para as "grandes obras"
pré-Copa, a exemplo da Queiroz Galvão, responsável pela famigerada Via Mangue. Os
grandes eventos que se aproximam estão acelerando a expulsão de comunidades pobres
como o Bom Jesus graças à execução de obras que adequam a cidade para a recepção de
um grande volume de turistas em 2013 e 2014.

O "progresso" e o "crescimento econômico" se constroem sobre a destruição das
iniciativas dos oprimidos e explorados, que resistem e lutam para manter o que já
conquistaram.


"Limpeza" da cidade: fora camelôs!

O tradicional comércio de rua da cidade está ameaçado. Pelo menos desde 2011 os
vendedores estão sendo coagidos a parar de trabalhar. Primeiro, na região central: a
prefeitura (ligada ao PT) orientou a Dircon, órgão responsável pela fiscalização, a
retirar os trabalhadores da região da rua Sete de Setembro e rua do Hospício. Quem
vendia lanches próximo das escolas públicas, se dizia, também estaria ameaçado.

Os trabalhadores protestaram, se organizaram e ocuparam as ruas e a Câmara Municipal
da cidade. Com isso, parte dos trabalhadores do Centro conseguiu permanecer, mas
durante meses, trabalhadores removidos da Sete de Setembro ficaram sem local de
trabalho, à espera do Camelódromo prometido pela prefeitura e do auxílio-desemprego.

No meio do ano passado foi a vez dos barraqueiros da Zona Oeste. As históricas
barraquinhas de lanche construídas ao redor da Universidade Federal de Pernambuco
foram ameaçadas de remoção. As primeiras a serem ameaçadas foram as barracas
localizadas à frente do Hospital das Clínicas, logo despejadas em uma operação quase
cinematográfica de tão grande e truculenta. As cerca de 20 barracas, de pessoas que
estavam trabalhando lá há quase 20 anos foram surpreendidas com uma força estatal
digna de guerra: Dircon, CTTU, Polícia Militar e Batalhão de Choque, além de um
helicóptero. Todo este aparato cercou os trabalhadores, que fizeram uma corda humana
para tentar impedir a demolição de sua fonte de sustento. De nada adiantou: a força
repressora DERRUBOU as barracas. A única garantia que tiveram foi a de não poderem
mais trabalhar naquele local.

A luta dos barraqueiros continua na tentativa de garantir direitos mínimos, o que se
traduz em impedir que todos os demais sejam removidos. Com a organização deles, as
expulsões na região da Universidade foram suspensas e estão sendo negociadas. Mas as
remoções continuam em outros lugares.

Agora é a Zona Norte o foco das ações de "limpeza". A região de Casa Amarela, com um
dos maiores mercados do Recife, contava com uma grande concentração de comerciantes
nas ruas e calçadas próximas ao camelódromo oficial. A história se repete: polícia
acionada, trabalhadores sendo assediados e impedidos de trabalhar por fiscais da
Dircon, criminalização do povo. A desculpa usada para a remoção é de um primor à
toda prova: o comércio de rua "atrapalhava o trânsito"(!)... Para além da conversa
pra boi dormir, os reais interesses por detrás são abafados, a saber, a concorrência
com os comerciantes lojistas, representados pela CDL-Recife (Câmara dos Dirigentes
Lojistas do Recife), além, é claro, da onipresente Copa do Mundo...


Mobilidade?

Se locomover em Recife está ficando cada dia mais difícil: todo o mês de janeiro, às
vésperas do carnaval e em época de férias, aumenta o preço da passagem de ônibus.
Neste ano não foi diferente. Mais 15 centavos na tarifa. Em reação ao aumento
abusivo, novamente se organizaram protestos para exigir a revogação da medida e
denunciar o caráter privado do transporte coletivo na região metropolitana do
Recife.

Neste ano, contudo, os manifestantes sofreram uma repressão desmedida. O governo do
estado e a prefeitura provaram que são capazes de permitir atrocidades para rezar
pela cartilha dos empresários do transporte - um punhado de cinco famílias que
controlam toda a frota. No primeiro dia de protestos, a polícia jogou bombas de gás
lacrimogênio dentro da Faculdade de Direito, ligada à Universidade Federal de
Pernambuco, onde, em tese, não poderiam agir. Já no dia seguinte, a polícia
exercitou o que sabe fazer melhor - atirar tanto bombas quanto balas de borracha e
dar porrada - sobre um pequeno grupo de manifestantes desarmadosque chegaram a se
ajoelhar perante suas investidas, em tom pacífico. Um estudante foi exemplarmente
agredido com um soco que lhe arrebentou o nariz. O batalhão atacava a todos, sem
distinção.

Tantos foram os desmandos que até mesmo a imprensa, rotineira inimiga de protestos e
manifestações, pronunciou-se contra o que acontecia nas ruas. O governo não teve
outra saída senão recuar. Mas o estrago já havia sido feito e milhares de pessoas
passaram a apoiar presencialmente os atos gritando em uníssono palavras de ordem
contra o governo do estado na figura de Eduardo Campos, que além de xingado, passou,
ali, a ser chamado de "ditador". Uma das primeiras manifestações históricas de massa
contra um governante que as pesquisas vulgarmente apontam como tendo mais de 80% de
aprovação...

Entretanto, o aumento se manteve e, no frigir dos ovos, manifestantes e população em
geral saíram prejudicados. Alguns dos que participaram dos protestos carregam até
hoje as marcas das balas de borracha no corpo e a população continua obrigada a,
todos os dias, enfrentar o drama de conseguir apenas sentar nos ônibus e/ou
continuar a espera homérica de 30 ou 40 minutos nas filas das integrações. E, para
coroar, pagando uma das passagens mais caras do Brasil.

Já quem tenta não ficar sob a dependência dos ônibus ou do metrô usando a bicicleta
como transporte alternativo, não paga a tarifa, mas sofre com as ruas cheias de
carro e sem nenhuma adequação para o livre trânsito sobre duas rodas. E quando a
prefeitura da cidade de alguma maneira beneficia quem vai e volta do trabalho
pedalando, logo volta atrás em nome da melhor circulação de carros.

Pouco antes das eleições, a CTTU (órgão municipal que cuida da ordenação do
transporte) implantou uma ciclofaixa nas principais avenidas da Zona Norte.
Obviamente, com a retirada de uma faixa de carros para o uso das bicicletas,
deixando o restante para ônibus, automóvel, táxis, etc, o trânsito já caótico da
região piorou. Rapidamente os burgueses moradores das redondezas protestaram contra
as mudanças no trânsito que, indiretamente, eram causadas pela ciclofaixa e
diretamente eram motivadas pelo privilégio ainda dado ao transporte privado. Pouco
tempo depois, a prefeitura retirou parte da ciclofaixa que afetava os bairros de
classe alta da área. Em protesto, ciclistas pintaram uma ciclofaixa na avenida Rosa
e Silva, mas a ciclofaixa oficial continua apagada.

Duas vezes o povo pobre foi prejudicado: o aumento das passagens onera ainda mais
nossos bolsos, pois agora se gasta, no mínimo, R$4,30 por dia para ir ao trabalho e
voltar pra casa. Já a retirada da ciclofaixa mantém a insegurança no trajeto
cotidiano dos ciclistas, muitos deles simples trabalhadores que usam o modal como
meio de transporte.

No frigir dos ovos, a prioridade do governo e empresários claramente é a locomoção
individual e motorizada. Com uma fábrica da FIAT, como já dito, em Pernambuco e
parcelamentos cada vez mais baratos para carros e motos, o trânsito de Recife não
flui e vivemos com o fantasma das obras solucionadoras do "problema do tráfego".
Surgem as propostas de grandes obras para "melhorar" o caos urbano, a exemplo dos 10
viadutos que se pretendia construir sobre a avenida Agamenon Magalhães. Elefantes
brancos criados para mascarar a raiz do problema: o sucateamento do transporte
coletivo e a inconsequente insegurança dos ciclistas estimulam o aumento exponencial
da frota de carros e motos na cidade. Ganham as indústrias petroleira e
automobilística. Novamente perde o povo.


A farsa dos de cima e a necessidade da organização desde baixo

Durante todos os dias do ano, reclamamos dos absurdos ora citados e lembramos o
quanto estas elites nos exploram. Mas em época de eleição parece até que estas
figuras, as quais em silêncio nos massacram cotidianamente, podem mudar algo. A
nossa raiva muitas vezes se direciona a um político e votar em outro parece solução.
Falso. As opressões que sofremos todo dia não aparecem na propaganda. O candidato
que hoje pede voto somente irá continuar reprimindo quem luta para beneficiar quem
lucra.

A partir das lutas populares, fica claro que a tríade indústrias, construtoras e
Copa do Mundo é a verdadeira base do projeto dos governos e empresários para a
cidade. É devido aos falsos representantes e suas políticas de fomento da economia
que o povo sofre cotidianamente com expulsões, falta de moradia e dificuldade de
locomoção. Eles criam o mal com o qual prometem acabar. E não importa a legenda.

Vale comentar que nestas eleições a maior disputa estava entre projetos que se
colocariam no campo da esquerda. Um, do Partido dos Trabalhadores (PT), o outro, do
Partido Socialista Brasileiro (PSB). O PT buscava manter a administração do Recife e
o PSB conquistá-la, tendo como principal trunfo a figura do Governador Eduardo
Campos como cabo eleitoral.

O PT, que para muitos deixou uma boa herança para a cidade com a administração da
década de 2000, é o mesmo PT que levou à frente as obras da Via Mangue, expulsou os
moradores das palafitas de Brasília Teimosa e está levando à frente a privatização
da área de galpões no Recife Antigo. Já o PSB é o partido do neto de Miguel Arraes,
o qual faz questão de usar o parentesco para garantir uma fatia de poder para
membros da família. Nepotismo descarado: a mãe, Ana Arraes, figura como presidente
do Tribunal de Contas do Estado, governado por seu filho. Sem contar a absurda
repressão aos protestos contra o aumento das passagens deste ano, a privatização
paulatina da saúde, através dos convênios escusos com o IMIP, e o sucateamento da
educação pública, com a retirada do 'Plano de Cargos e Carreiras' dos professores
além de altos investimentos numa falsa inclusão digital, com a entrega de tablets
para docentes e alunos, que pouca melhora traz à qualidade do ensino.

Maravilhas das gestões "populares" que nunca aparecem no guia eleitoral. Ao fim de
tudo, foi a chamada direita que saiu ganhando no pleito. O PSDB, com um candidato
egresso do Partido Verde (PV), conseguiu o segundo lugar na disputa e desbancou o
Partido dos Trabalhadores. Em primeiro, ficou o candidato do PSB, Geraldo Júlio,
figura até então desconhecida da população, agora representante do governador do
Estado na prefeitura e futuro executor dos projetos do partido para a cidade - um
"laranja político". Em último lugar ficou o povo, espectador cuja única garantia é a
continuidade das obras milionárias de destruição da cidade e, deste modo, da
qualidade de vida.

Assim, a disputa de cinema das propagandas serve para mascarar as reais práticas dos
políticos e partidos. Práticas reproduzidas por eles nos movimentos sociais, os
quais constantemente tentam aparelhar para impedir a queda de suas máscaras. Na
realidade, os partidos são o câncer dos movimentos, aqueles que se inserem nos
espaços para garantir a estabilidade dos atuais governos autoproclamados de esquerda
ou para projetar novos. Vejamos. Sindicatos domesticados e burocratizados servem
como correia de transmissão dos interesses de centrais pouco ou nada combativas, não
raro submissas à situação ("Não podemos manchar a imagem do governo"), enquanto a
categoria sofre, às moscas, com os mais diversos ataques. Conselhos e associações de
moradores que muitas vezes empreendem políticas assistencialistas tão-somente - a
exemplo da política de distribuição de leite nas comunidades ('Leite para todos') -
são carcomidas por candidaturas intestinas ou mesmo empregos em cargos comissionados
concedidos pelos que estão no poder, enfraquecendo com isto o horizonte de luta.
Movimentos estudantis que na verdade servem em muitos casos como palanques e escola
para futuros políticos profissionais de alta cúpula. Nos holofotes do sufrágio,
partidos se capitalizam, enquanto mais e mais à sombra ficam os movimentos sobre os
quais se projetaram e ainda se projetam.

Em suma, temos duas batalhas a travar: enfrentar governos e patrões e, ao mesmo
tempo, construir dentro dos movimentos autonomia frente aos partidos políticos. Não
existe salvador da pátria nem partido "menos ruim": quem está em cima
automaticamente oprime os de baixo. E, para que as ações estejam sempre pautadas nos
anseios coletivos, não podemos permitir a atuação aparelhista e de vanguarda dentro
dos movimentos. Apenas a construção independente e horizontal das mobilizações pode
impedir a projeção de lideranças cristalizadas e a subordinação das pautas às
vontades de poucos.

Ao relembrarmos as lutas populares, fica claro para nós as represálias com as quais
sempre sofremos, seja qual for o governo. Evidente: para se manter no topo do poder
estatal nesta falsa democracia é necessária aliança com o empresariado, classe que
lucra com a exploração diária da maioria. E quem se junta com opressor, opressor se
torna.

Por isso, não devemos depender de políticos profissionais ou de partidos: eles
usurpam o nosso poder para nos submeter. Nós de baixo, nas bases da pirâmide social,
devemos tomar a responsabilidade nas mãos e pensar, a partir de onde nossos pés
pisam, como lutaremos juntos para acabar com a ditadura velada destes setores.
Significa que não devemos ficar parados assistindo os de cima tirarem nossos
direitos e usarem nossos recursos contra nós. O poder está em nossa organização
coletiva, e não na prefeitura ou na presidência, ilusão criada para que nos
continuem dominando.

A eleição é um evento de encenação, no qual a classe gerenciadora da política finge
estar ao lado do povo para, depois de passado o pleito, destruir comunidades
inteiras com os tratores do progresso e reprimir quem protesta com os "cacetetes
democráticos", como diria um companheiro de luta. Passada a consulta nas urnas, que
como resultado trouxe o alinhamento entre governo do estado e prefeitura, sente-se
os ventos da repressão a caminho, junto com o barulho das obras das construtoras. É
tarefa do povo organizado combater autonomamente este processo e, aos poucos, deixar
às vistas de todos esta ditadura velada. Só a nossa resistência pode parar as
máquinas, pois na prática a nossa política, a política dos de baixo, é sempre
'tratorada' pelas urnas.


Coletivo Anarquista Núcleo Negro

Outubro 2012

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