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(pt) Editorial de Anarkismo.net: Colômbia: Há rumores... Será a paz, à vista?

Date Thu, 6 Sep 2012 11:47:30 +0200


Volta-se a cogitar de conversações de paz, com o beneplácito de boa parte do
establishment, na agenda política colômbiana. Uma trapalhada de Uribe [Alvaro Uribe,
ex-presidente], que revelou movimento do governo, de aproximação às FARC-EP, em
Cuba, quando tentava canalizar apoio para seu projeto ultradireitista [1], bastou
para gerar corrente de opinião favorável à aproximação. E o tiro saiu-lhe pela
culatra.
Santos [Juan Manuel Santos, presidente] frente à questão, mostrou-se hermético, mas
a rede Telesur, hoje, deu a notícia de um milhão de dólares: as FARC-EP assinaram o
início de um acordo de paz com o governo da Colômbia [2]. Há grandes expectativas,
dado que há apenas poucos dias, Gabino [Nicolás Rodríguez Bautista], principal
comandante do Exército de Libertação Nacional (ELN), declarara-se disposto a unir-se
numa iniciativa de diálogo da qual participassem as FARC-EP [3]. Pronunciamento de
alta importância, uma vez que, dentre outras lições do passado, já se sabe que não é
possível negociar em paralelo com as diferentes expressões do movimento guerrilheiro
colombiano. No momento em que escrevo essas notas, estamos à espera do
pronunciamento oficial de Juan Manuel Santos sobre a mesma questão.

A aproximação não acontece gratuitamente, nem é efeito da boa vontade do presidente
da Colômbia: é óbvio que a tese do "fim do fim" não se sustenta e que o Plano
Colômbia já faz água. A guerrilha respondeu ao desafio imposto pelo avanço do
militarismo e um novo ciclo de lutas sociais ameaça fazer deteriorar a situação
política no médio prazo, a ponto que a oligarquia encontrará dificuldades para
controlá-la. O cenário político mostra-se às vezes perigosamente volátil. Por outro
lado, também nada há de surpreendente na disposição dos guerrilheiros para
aproximar-se da mesa de negociações: em primeiro lugar, porque a guerrilha nunca
deixou de propor, já há 30 anos, em todos os tons possíveis, a solução política do
conflito social e armado; e em segundo lugar, porque a guerrilha, nos últimos anos,
melhorou notavelmente sua posição de força, não só militar, mas, sobretudo, no plano
político.


Atenção às falsas ilusões

Embora a assinatura desse acordo seja desenvolvimento positivo, não podemos ser
excessivamente otimistas, nem, e menos ainda, triunfalistas, pensando que a "paz",
por si só, representaria alguma espécie de triunfo para os setores populares e suas
demandas históricas, que, há mais de meio século, o Estado bloqueia a sangue e fogo.
É preciso ter plena consciência de que o caminho até eventual processo de
negociações é eivado de obstáculos, e que há diferenças substanciais, de fundo,
sobre o que esperar dessas negociações e sobre o que se entende por "paz", palavra
que anda em tantas bocas. É preciso ter plena consciência de que a oligarquia com a
qual se está negociando é a mais sanguinária do continente e que não pensa em
negociar movida por alguma súbita mudança de espírito.

Enquanto o conjunto das organizações sociais dizem que a paz é muito mais que o
cessar-fogo, e que tem de implicar a resolução coletiva de problemas estruturais que
originam a violência, para o estado continua a tratar-se de desmobilização,
reinserção e discussão de formalidades jurídicas relacionadas [4]. Santos quer "uma
?paz express?, sumária, mecânica. Quer paz clandestina, sem a presença da multidão,
sem sociedade civil, sem organizações populares. Quer paz sem reformas, sem qualquer
mudança, de tipo algum, na sociedade nacional. Para ele, basta o marco legal
recentemente aprovado e talvez as regulamentações que, com dificuldade, venham a ser
aprovadas por um Senado hostil que rapidamente se encolhe, ante o iminente processo
eleitoral" [5].

Santos sempre teve posição ambígua sobre a paz: por um lado, diz ter as chaves da
paz que, se forem perdidas, dia seguinte aparecem trancadas num cofre; por outro
lado, aprofunda a guerra suja, mediante o fortalecimento da militarização das
comunidades rurais (os chamados "Planos de Consolidação Territorial"); mediante
golpes cada vez mais fortes contra os comandos intermediários da guerrilha e uma
estratégia de judicialização das "redes de apoio" do movimento guerrilheiro,
mediante a qual as necessidades do projeto guerrilheiro são julgadas por tribunais
(essência do "Plano Espada de Honra"); e, ainda, mediante impunidade cada vez mais
ampla a encobrir as ações do Exército, seguindo uma estratégia sistemática de
terrorismo de Estado (a ressurreição do chamado "Foro Militar", criado por acordo
recentemente firmado entre Santos e Uribe).

Do ponto de vista de Santos, paz ou guerra não passam de estratégias para impor um
insustentável projeto econômico-social neoliberal, baseado no Plano de
(sub)Desenvolvimento Nacional do santismo, cujos pilares são a agroindústria, com
mega mineradoras. Conseguir converter essa oportunidade para iniciar negociações num
espaço a partir do qual seja possível fazer avançar as transformações sociais que o
povo colombiano exige dependerá da capacidade de pressão e mobilização do próprio
povo. E isso acontecerá apesar do Estado, não graças a ele.


Paz? Que paz?

Há algo que o bloco dominante nunca perde de vista. É que a negociação com a
guerrilha já não é idêntica à negociação de 1990-1994. Aqui já não há organizações
cujo espectro ideológico seja um liberalismo radicalizado; não estamos frente a
grupos reformistas armados, cuja direção esteja recheada de social bacanería; nem as
demandas políticas dessas organizações guerrilheiras serão satisfeitas com promessas
de reformas constitucionais cosméticas ou garantias generosas para a desmobilização;
tampouco aceitarão alguma "agenda restrita". Estamos ante movimentos revolucionários
que expressam os mais pobres dos mais pobres. Estamos ante movimentos guerrilheiros
que manifestam as aspirações históricas desse campesinato que sempre esteve fora e
abaixo de todas as iniciativas de "paz". Estamos ante guerrilheiros cujos pés
confundem-se com a terra que pisam. São os que nunca tiveram coisa alguma e tudo
merecem.

E não se trata de grupos militarmente derrotados, como os que se desmobilizaram em
1990-1994, mas de organizações fortemente arraigadas em amplas áreas do país, com
capacidade operativa em quase todo o território nacional colombiano, com renovada
capacidade de atacar as forças armadas do Estado; em amplas regiões do país, a
guerrilha é realidade política inescapável, duplo poder autêntico, legitimado em
outras comunidades pisoteadas pela consolidação territorial do Exército e o flagelo
paramilitar. Por mais que alguns comentaristas queiram convencer-se do contrário
[6], se a guerrilha negocia hoje é porque pode negociar, porque tem força e
capacidade para negociar. Eles sabem bem, na Casa de Nariño [sede do governo da
República da Colômbia], que a desmobilização e a rendição com que o uribismo sonha
não são possibilidades políticas reais.

É o que se vê reconhecido, em coluna de 25 de agosto, de o Espectador:
"É claro que as FARC não são interlocutor fácil. Querem reforma agrária, seja
baseada na Lei de Terras ou na Lei de Vítimas; querem que se debatam novos contratos
de trabalho com as multinacionais do petróleo e da extração de minérios; querem
espaços políticos para avançar para contexto mais democrático; e creem que, hoje, a
paz passa pelo melhor manejo do meio ambiente. O que resta são detalhes formais,
como a exigência absoluta de que qualquer acordo a que se chegue seja assinado em
território colombiano."[7]

Vê-se claramente que o discurso que apresenta as FARC-EP como organização
"terrorista", "bandoleirizada", "convertida em cartel do narcotráfico",
"lumpenizada", já não se sustenta, não passa de propaganda, mesmo que as FARC-EP
talvez se sirvam de alguns métodos que podem ser questionado. Ninguém, em perfeito
juízo, negará que tudo o que a guerrilha exige (terras, atenção aos recursos
naturais, democracia, atenção ao meio ambiente, educação, saúde, seguridade social
etc.) são temas de importância crucial, pontos em que as políticas do governo fazem
água e para cujo encaminhamento é indispensável à participação do conjunto da
sociedade. Que a guerrilha tome esses temas e converta-os em elementos
indissociáveis com vistas a qualquer procedimento para superar o conflito social e
armado de raiz, é perfeito pesadelo para os setores mais recalcitrantes da
oligarquia.

O que aterroriza a oligarquia não é alguma suposta "bandoleirização" da guerrilha,
sobre a qual tanto insistem os veículos da imprensa governamental, mas seu caráter
político e revolucionário, tanto quanto a capacidade da guerrilha para articular as
demandas de diferentes setores sociais.

Por isso, o bloco dominante sabe que a grande luta que se prepara no futuro é luta
no campo político, muito mais que no campo militar. Porta-vozes do empresariado
pronunciaram-se a favor de uma agenda limitada de negociação, à maneira da
negociação com o M-19, quer dizer, negociação, sem mudanças estruturais [8]. Esperam
sair das negociações com o menor número possível de concessões e reformas, e sabem
que isso os põe em oposição não só à guerrilha, mas também a um setor importante do
povo organizado. Por isso temos de estar atentos ao recrudescimento da guerra suja e
dos ataques contra organizações populares que lutam por mudança social - ações que,
tradicionalmente, sempre acompanharam os processos de diálogo na Colômbia.


A estratégia dos militares está em momento de esgotamento

Mas, embora essa oligarquia tenha muito receio de abrir as porta às negociações que,
com certeza, levarão a um debate nacional sobre projetos antagônicos de país, ela
também sabe que persistir no rumo guerreirista é atar a corda ao próprio pescoço; a
guerrilha se está fortalecendo e vê-se hoje uma escalada do conflito social, com
maior mobilização popular em todo o país, a qual se persistir, pode vir a ameaçar
seriamente o comando do bloco dominante. O país está à beira de um novo ciclo de
violência precipitado pelo deslocamento forçado, pelo despejo violento de camponeses
e comunidades inteiras, pela penetração das mega mineradoras e da agroindústria por
todo o país. A violência com se vem sendo imposto o sacrossanto modelo, mediante o
"Plano de (sub)Desenvolvimento Nacional" de Santos, gera, necessariamente,
resistência. E a resistência, num país como a Colômbia , dá-se de múltiplas formas,
e é o caldo do qual se pode nutrir uma situação potencialmente explosiva.

Negociar com a guerrilha pode ser útil para a oligarquia em suas projeções mais
otimistas, para alcançar a paz neoliberal que permita fazer avançar o projeto
neoliberal agro-extrativista, com redução dos níveis da resistência, pelo menos, dos
projetos de guerrilha. Recente pesquisa entre empresários, feita pela Fundación
Ideas para a Paz, concluiu que "A grande maioria deixou claro que descarta qualquer
agenda de negociações que inclua reformas estruturais e com atores múltiplos, como
aconteceu em Caguán. Preferem agenda limitada ao desarmamento dos guerrilheiros, com
desmobilização e reintegração, na qual o estado possa ser ?generoso?." [9]. Quer
dizer: paz para facilitar a exploração das massas e do meio ambiente colombiano.

Nas projeções menos otimistas da oligarquia, as negociações serviriam ao menos para
ganhar tempo e preparar-se para enfrentar, de maneia mais letal e eficiente, o
próximo ciclo que violência que já começa a surgir no horizonte. Tal foi a intenção
real do governo de Pastrana ao enfrentar o processo de negociações de San Vicente do
Caguán. O próprio Pastrana, que falava de paz, enquanto negociava o Plano Colômbia e
dava rédea solta ao aparelho paramilitar do Estado, reconheceu isso, cinicamente, em
artigo para marcar os dez anos do fim dos diálogos do Cagúan:

"O Plano Colômbia (...) [nos] permitiu sentarmos à mesa de diálogo em desvantagem,
praticamente desarmados, mas com a certeza de que, bem-sucedido ou fracassado,
aquele diálogo terminaria com um Estado armado até os dentes e preparado, como nunca
antes, para a paz e para a guerra."[10]

Em ambos casos, se a oligarquia buscar a pacificação do país sem mudanças
substanciais, ou se buscar ganhar tempo para prosseguir no negócio da guerra,
qualquer paz que se consiga será efêmera, não será mais que a calmaria que
antecederá a violenta tempestade que armará a mão dos excluídos, dos despossuídos,
dos violentados, dos oprimidos. E são eles que têm de se mobilizar para impor a
necessária vontade de mudanças estruturais e de fundo: o vento sopra a seu favor de
momento, pois a mobilização popular aumenta e há uma saudável tendência à unidade
dos que lutam. Estes dois elementos favorecem as possibilidades de que o bloco
popular converta-se em fator de peso nas negociações, sobretudo quando o bloco
dominante apresenta contradições internas que, sem serem antagônicas, são bastante
agudas e geram uma crise de hegemonia.


Os "inimigos esmagados" (mas não muito): Santoyo e as contradições entre os burgueses

A hegemonia do bloco dominante, consolidada durante quase uma década de Plano
Colômbia e a mal chamada "Seguridade Democrática" (da qual Santos foi continuador),
vê-se afetada não só pela crescente mobilização e pelo descontentamento popular, mas
também pela erosão da unidade do bloco dominante. São cada vez mais frequentes os
choques entre o uribismo entrincheirado entre elementos linha-dura das forças
militares, dos ruralistas e criadores de gado, da narcoburguesia e do gamonalismo,
que veem na guerra seu grande negócio; e o santismo, que representa os interesses
supremos dos mais ricos e do capital transnacional, que buscam a "paz" para abrir
passagem aos seus negócios e investimentos na área agro-extrativista. Embora esses
últimos também tenham recorrido ao paramilitarismo para assegurar a "confiança dos
investidores" e à violência para enriquecer, prefeririam um modo menos caro de
garantir os próprios lucros, o que os põe em posição diferente em relação aos
setores da burguesia que dependem, estruturalmente, do saqueio violento para
acumularem capital.

El colunista Alfredo Molano, há alguns meses, analisava esta contradição no bloco
dominante e o impacto que teria sobre um eventual processo de negociação:
"é mais fácil para o presidente negociar com a guerrilha que com os militares, os
empresários e os caciques [orig. los gamonales], para não acabar derrotado em outro
Caguán. Esse foi o verdadeiro obstáculo da negociação entre Pastrana e Marulanda. O
erro do ex-presidente não foi a distância de 30 mil quilômetros; foi não ter
negociado antes com o establishment e com os militares o preço que essas duas forças
poderosas estavam dispostas a pagar."[11]

Enquanto se aprofunda a crise de hegemonia do bloco no poder, e enquanto avançam as
lutas populares, como a guerrilha, seria insensato para Santos não reagir à agitação
que o uribismo continua a promover nos quartéis e seu trabalho de polarização no
interior do establishment. Nem Santos (nem os ricos que ele representa, nem o
imperialismo que o apoia) aceitarão que Uribe passe a ser fator de desestabilização.
Todos eles apoiaram Uribe enquanto lhes foi útil e os ajudou a recompor a hegemonia
de uma oligarquia decadente. Mas nem o imperialismo nem a oligarquia têm amigos: só
têm interesses. No momento em que deixa de cumprir esse papel, Uribe passa a ser
"descartável".

Nesse sentido, deve-se interpretar o encurralamento geral que a justiça está impondo
ao círculo íntimo do uribismo, com a condenação de Rito Alejo, os crescentes
indiciamentos de paramilitares como Mancuso, por seus laços com as Autodefesas
Unidas da Colômbia (AUC) [principal grupo paramilitar terrorista de direita, espécie
de esquadrões da morte], as brigas entre os parentes narcos do ex-presidente e a
deportação do general Santoyo. Não que só agora nos estejamos apercebendo do que há
de podre à volta de Uribe: sabe-se disso há muito tempo; mas agora o contexto é
outro. O caso Santoyo, principalmente, parece ser instrumento importante contra
Uribe: se alguém pode comprometê-lo com o narcotráfico e o paramilitarismo, é ele.
Já começou a falar de alguns generais, inclusive do braço direito de Uribe, Mario
Montoya; e ameaçou "cantar" sobre políticos [12]. Será Santoyo a carta do santismo
para tentar por Uribe sob controle? Será preciso ver a reação de Uribe às notícias
sobre a paz, o que provavelmente se conhecerá pelo Twitter. Mas se decidir continuar
tentando a desestabilização, sua queda, muito provavelmente, é questão de tempo.


Introduzir povo na negociação

Por mais que devamos ver sem ingenuidade as negociações, e com muito realismo, é
indubitável que o momento atual abre enorme potencial para superar as condições
estruturais que levaram ao conflito social e armado na Colômbia, e que alimentaram
esse modelo de capitalismo mafioso, cuja acumulação se faz pela expropriação
violenta. Tanto Santos como os empresários rejeitam, ou resistem a aceitar, a
participação de "múltiplos atores" no processo de paz. Quer dizer, buscam excluir o
povo da resolução de um conflito que o afeta diretamente, deixando assim intactas as
condições para que novas violências eclodam, como as que eclodem cronicamente nas
sociedades do pós-conflito centro-americano. Apesar de o movimento guerrilheiro na
Colômbia ser parte de um importante acúmulo de lutas populares, e embora tenha
importante nível de legitimidade em muitas regiões do país, claro está que nem a
guerrilha nem nenhuma expressão do movimento popular colombiano poder assumir a
exclusiva representação do movimento popular.

A própria guerrilha manifestou-se em várias ocasiões o seu acordo com essa posição,
que eles veem como consistente com seus postulados históricos. Em sua resposta, ao
professor Medófilo Medina, o comandante máximo das FARC-EP, Timoleón Jiménez,
explica o sentido da luta política, "por poder para o povo", dessa guerrilha
comunista:

"Nem no Programa Agrário, nem em qualquer documento posterior das FARC até hoje,
jamais se propôs que, como organização político militar, nossa meta seja tomar o
poder depois de derrotar, em guerra de posições, o Exército colombiano, como
costumam repetir sempre os que insistem em nos mostrar que esse seria objetivo
impossível. Desde nosso nascimento, as FARC sempre concebemos o acesso ao poder como
questão de multidões em agitação e movimento."[13]

Nessa linha, o citado artigo de El Espectador expõe claramente, como problema para a
negociação, que:

"De antemão sabe-se que outro aspecto difícil é a agenda das FARC. Quanto a isso,
está claro que, em princípio, a pretensão da guerrilha é meter a sociedade civil na
questão. Quer dizer, que os movimentos sociais, a academia ou as minorias políticas
tenham o mesmo direito de voz que as associações econômicas; Por isso o chamado
movimento da Marcha Patriótica pode aspirar ao protagonismo. Trata-se de criar
espaços políticos nos quais a discussão não fique limitada à quebra de braço entre o
Governo e a guerrilha. (...) Sobre a questão do Cauca, as FARC têm pensamento claro:
se se chegar a um processo de paz com o Governo, os indígenas desse Departamento têm
de ter voz especial na mesa de diálogo."[14]

É necessário que o povo reclame e exija seu direito de participar desse processo e o
converta em diálogo nacional, no qual se discutam os projetos de país que estão em
confronto e num conflito que não só é armado: é, sobretudo, social. Sobre a solução
política, lê-se na mesma resposta do comandante Timoleón Jiménez que:

"não se pode entender qualquer solução política se não como reposicionamento da
ordem existente. Não se trata de guerrilheiros arrependidos e completamente
desacreditados previamente que entreguem armas, submetam-se ao escárnio jornalístico
e jurídico, para em seguida, com a espada pendente por um fio sobre suas cabeças,
tentarem entrar no mercado da política de partidos, para fazer coro às mentiras
oficiais.

Trata-se, isso sim, de reconstruir as regras da democracia, para que se debatam
ideias e programas em igualdade de oportunidades. Sem o risco de ser assassinado ao
chegar em casa. Ou desaparecidos e torturados por uma misteriosa mão negra que já se
noticia que existe, como as forças ocultas que exterminaram a União Patriótica sob o
olhar impassível da classe política colombiana. É justo que se abra um debate
público e livre sobre estes assuntos, que se possa falar desses temas, sem sermos
arrolhados imediatamente pelos monopólios jornalísticos mancomunados."

É preciso meter povo nessas negociações, embora moleste a oligarquia ver tantos pés
sujos tomando parte no debate político, terreno reservado por dois longos séculos de
vida republicana a uma elite dourada, a estirpes moribundas e decadentes cujos
sobrenomes repetem-se sempre nos cargos de poder. Trata-se de ocupar esse espaço, de
levar o debate político sobre a paz e a guerra, sobre o modelo político e econômico
a todas as praças públicas da Colômbia , a todas as faculdades e escolas, a todos os
locais de trabalho, às minas e as veredas rurais. Trata-se de utilizar este debate
para impulsionar um projeto de país que recolha e harmonize as demandas mais
sentidas de todos os setores populares que hoje lutam contra o modelo econômico de
morte e saque imposto pelos de cima.

O anúncio do início desse novo caminho de busca de solução política, não deve
significar que se tenha de desmobilizar o povo. Ao contrário, indica que é hora de
que o povo comece a lutar ainda com mais determinação, que se aprofunde a
mobilização social e que se fortaleçam os espaços de unidade do povo em luta. Hoje
mais que nunca devemos evitar expressões como Marcha Patriótica, para evitar novo
genocídio e proteger os espaços a partir dos quais o povo mobilizado faz ouvir sua
voz e sua aposta por uma nova sociedade. Devemos apoiar as lutas dos camponeses, dos
trabalhadores, dos presos políticos, que estão em ações de desobediência e greves em
todo o país. Devemos exigir que cessem a estigmatização, a perseguição e o
encarceramento dos lutadores sociais. É preciso exigir o fim do rótulo de
"organizações terroristas" aplicado a guerrilheiros - só assim se garantirão
condições ótimas para o diálogo franco e livre. Devemos exigir que desse acordo
inicial se avance para um cessar-fogo bilateral e para o desmonte do
paramilitarismo, como modo de proteger a vida e a integridade desse povo que, agora,
se deve converter em ator protagonista do processo.

Só a mobilização popular garantirá que este processo de paz que se vislumbra no
horizonte leve às transformações estruturais que amplos setores reclamam na
Colômbia. E, à luz dos enormes desafios que se veem postos à frente do poder, a luta
pela paz será luta abertamente revolucionária.

É hora de falar claramente sobre a natureza revolucionária dessa luta, que implica o
confronto entre um modelo baseado na exploração, saqueio, morte e exclusão, e um
modelo que cresce no coração do povo, baseado na inclusão, no respeito às
comunidades e ao meio ambiente, de caráter sustentável, para que proteja a vida, a
dignidade e a autodeterminação das pessoas. O que está em jogo é, nada mais nada
menos, o tipo de Colômbia que se quer construir.

José Antonio Gutiérrez D.
27/08/2012

Tradutores: Coletivo de tradutores Vila Vudu


Notas do autor:

[1]
http://www.elespectador.com/noticias/politica/articulo-368724-uribe-dice-santos-esta-negociando-farc-cuba

[2]
http://www.telesurtv.net/articulos/2012/08/27/santos-y-las-farc-firman-acuerdo-de-paz-en-la-habana-5250.html
. Ver também
http://www.caracol.com.co/noticias/escuche-aqui-la-entrevista-de-caracol-radio-al-director-de-telesur-confirmando-un-inicio-en-un-acuerdo-de-paz/20120827/oir/1750915.aspx
y
http://www.semana.com/nacion/telesur-dice-gobierno-farc-suscriben-acuerdo-para-iniciar-dialogos-paz/183501-3.aspx

[3] http://www.semana.com/nacion/eln-dispuesto-proceso-conjunto-farc/183507-3.aspx

[4] Para um artigo que mostra as atitudes predominantes no Estado sobre os objetivos
limitados que esperam obter de uma eventual negociação, ver
http://www.elespectador.com/impreso/politica/articulo-370302-paz-de-santos

[5]
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=155098&titular=la-pax-santista-sin-reformas-y-sin-pueblo-

[6] Ver, por exemplo, a última coluna de Humberto da Calle
http://www.elespectador.com/opinion/columna-370093-paz ou o seguinte artigo
http://www.elespectador.com/impreso/politica/articulo-370302-paz-de-santos . Ver, em
resposta a essa tese, nosso artigo anterior, http://www.anarkismo.net/article/21961

[7]
http://www.elespectador.com/impreso/politica/articulo-370074-hora-de-decisiones-de-paz

[8]
http://verdadabierta.com/component/content/article/52-farc/4179-empresarios-apoyan-una-negociacion-con-las-farc/

[9]
http://verdadabierta.com/component/content/article/52-farc/4179-empresarios-apoyan-una-negociacion-con-las-farc/

[10]
http://www.eltiempo.com/Multimedia/especiales/caguan-proceso-paz/gobierno_11154861-7

[11] http://www.elespectador.com/opinion/columna-353508-gran-partida

[12]
http://www.elespectador.com/impreso/judicial/articulo-370071-santoyo-hablaria-de-politicos

[13] http://prensarural.org/spip/spip.php?article7176

[14]
http://www.elespectador.com/impreso/politica/articulo-370074-hora-de-decisiones-de-paz


http://www.anarkismo.net

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