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(pt) Paraguai e o golpe de Estado parlamentar aos olhos dos anarquistas [ca]

Date Fri, 20 Jul 2012 12:59:44 +0200


Desde a ascensão do governo Lugo, em agosto de 2008 esse "processo de cambio" se
traduziu, dentre outras coisas, em uma amenização dos conflitos sociais,
dissimulação das mobilizações, aumento nos lucros dos especuladores financeiros e
imobiliários e das multinacionais do agronegócio, e a sustentação de uma política de
criminalização dos movimentos sociais em luta, chegando ao extremo de militarizar
áreas geográficas do país, com a desculpa do surgimento de uma "guerrilha" que
sequestrou um empresário pecuarista.
No entanto, o governo Lugo implicou em uma mudança na dinâmica política do país, e
por via do executivo veio a fortalecer um novo protagonista no cenário político: o
progressismo de esquerda. Este progressismo de esquerda logrou incrementar seus
vínculos com os setores populares através da gestão de programas e projetos sociais
e culturais, o que lhe proporcionou uma visibilidade preocupante para os partidos
tradicionais (ambos de direita: o liberal e o colorado), às portas das próximas
eleições (2013). Este fenômeno se mostrou particularmente preocupante para o Partido
Liberal em função estabelecimento de alianças com a esquerda progressista por parte
de setores de sua base e direção "mediana".

A ameaça de impeachment para retirar Lugo do exercício do poder executivo se tornou
uma constante desde os primeiros dias de sua presidência, ao mesmo tempo em que o
governo, para combater essa ameaça tentou, em linhas gerais, dois caminhos:
controlar os conflitos sociais e expandir a aliança de governo para a direita,
incorporando setores do partido colorado ao governo. O controle social se viabilizou
através de mecanismos tradicionalmente utilizados pelos governos progressistas:
combinar negociação e cooptação com repressão intensiva.

A presença em cargos de gestão e decisão no executivo de militantes e dirigentes de
esquerda, assim como de dirigentes de ongs, permitiu ao governo sustentar um
dinâmico intercambio de opiniões com os movimentos e organizações sociais, torna-las
parte da gestão de projetos e dotar-las de recursos para levar a cabo iniciativas e
propostas no âmbito social, ao mesmo tempo que em âmbitos de saúde e outras áreas
sociais, se incorporou massivamente a dirigentes ou agentes sociais, estreitando o
vínculo com as organizações sociais de base. A repressão assumiu duas vias centrais:
uma indireta, foi através dos partidos políticos de esquerda ou progressistas que
convocaram sistematicamente as suas bases e seu entorno a não criticar e não
entorpecer com mobilizações "o processo" e a segunda via, direta, foi criminalizar
os movimentos sociais que se demonstravam mais "radicais", vinculando-os ao suposto
"terrorismo" denominado de EPP, uma sorte de guerrilha surgida no norte do país, com
origens e desenvolvimento não muito claros, mas muito bem utilizada para justificar
uma contundente repressão aos movimentos camponeses da região.

A combinação de ambos fatores provocou um imobilismo dos movimentos sociais que
durou toda a era Lugo.

Por outro lado, a cultura fisiologista colorada como forma de fazer política não foi
combatida com êxito por parte da esquerda e do progressismo no poder. Salvo
exceções, as práticas fisiologistas e corruptas do coloradismo, sobre as quais se
assentavam suas relações eleitorais, foram reproduzidas pela esquerda no poder,
sendo parte destas práticas filtradas pela imprensa de direita que a utilizou para
taxar a esquerda de corrupta, no afã de lavar a cara da direita, até o momento a
representante por excelência da corrupção. Tanto é que, inclusive a prática da
"boiada" (levar grandes levas de pessoas em manifestações em troca de algumas
compensações financeiras ou alimentícias) também foram utilizadas pela esquerda.

Em meio a esse cenário que ocorre a matança de Curuguaty (sexta-feira 15 de junho de
2012) na qual 11 camponeses e 6 policiais foram mortes em um tiroteio iniciado pela
polícia. As mortes policiais, de acordo com declarações de testemunhos de
camponeses, se deram em função de "fogo amigo", todas, com exceção de uma. A matança
foi aproveitada pela imprensa direitista (praticamente a única existente no país)
para culpar os camponeses, qualificando-os de assassinos, delinquentes e
terroristas, isso sem levar a cabo nenhuma investigação, minimamente séria a
respeito dos acontecimentos.

A esquerda foi consumida por um "estupor", o governo aceitou somente a versão
policial (funcional à estratégia midiática da direita de criminalizar os camponeses
em luta pela terra) e os movimentos camponeses tomaram a iniciativa para
solidarizar-se e atuar em solidariedade aos camponeses e camponesas sem terra que
estavam sendo perseguidos, reprimidos e encarcerados na região.
Desde este momento, houve uma tensão na esquerda entre os setores que queriam se
mobilizar em solidariedade aos camponeses mortos (incluindo os policiais, filhos de
camponeses) e também para barrar o ataque difamador da imprensa em relação aos
camponeses em luta. Esse imobilismo, com origem no calculo político e no (lógico)
medo que cria a imprensa, possibilitou que não houvesse uma resposta imediata ao
cerco midiático contra o movimento camponês, especialmente ao setor menos orgânico
dos sem-terras, a liga nacional de carperos[como são conhecidos os sem terra
paraguaios].

Em meio a esse cenário, nós, anarquistas objetivamos prioritariamente a
solidariedade efetiva através da mobilização social em resposta ao ataque da
imprensa e da direita e em romper com o medo que imperava no ambiente. Tivemos
alguns logros neste caminho, em que pese as pressões que certa parte da esquerda
exercia para que sua militância não saísse do papel de espectadores dos
acontecimentos. 4 dias depois da matança, em uma segunda-feira, pudemos realizar o
primeiro ato solidário na cidade de Assunção, com animo mobilizador e unitário.
Unitário porque correspondia, por vínculos e participação, a esquerda marxista ser
parte ativa na solidariedade, e mobilizador porque sabíamos que o custo do
imobilismo seria sempre maior para o povo, que o imobilismo não nos proporcionava
nenhuma segurança ante uma direita reacionária e com ganas repressivas.

Logo em seguida veio o golpe parlamentar, situação que foi muito complexa de ser
abordada por nós, anarquistas, por não querermos ser confundidos com um apoio ao
governo de Lugo. Nosso enfoque foi o mesmo que para a matança de Curuguaty:
solidariedade e mobilização. Víamos que a única forma de freiar o avanço da direita
(e a violência sobre os setores pobres e populares do país) era mobilizando-se e
saindo às ruas e como não há melhor chamado que o exemplo, estivemos na praça do
congresso desde o primeiro momento do julgamento político a Lugo. Durante os dois
dias de julgamento permanecemos na praça, tratando de colaborar no desenvolvimento
da criatividade, medidas de ação e cuidados, pensando em assumir a resistência
chegada a hora.

Inclusive neste momento crítico, boa parte da esquerda não esteve a altura das
circunstâncias, disseminando boatos, intranquilizando os/as manifestantes, tentando
controlar as opiniões e dando discursos vacilantes de como enfrentar a situação.
Tanto é que, chegada a hora de conclusão do julgamento, com o impeachement de Lugo,
a polícia atacou fortemente o povo mobilizado. Tão precária havia sido a preparação
e o cuidado para com o povo que as pessoas escaparam dos gases lacrimogêneos e balas
de borracha em debandada, colocando em risco a própria vida e dos demais. Não foram
tomadas medidas preventivas para a situação e a informação que circulava era
dispersa e controlada, o que contribuía para a disseminação dos boatos. Apostando
todas as suas fichas para sustentar o mito Lugo, a direção de esquerda presente na
praça do congresso, já no começo da noite do dia do julgamento político semeou a
esperança de que Lugo viria a resistir no cargo, junto ao povo paraguaio. Mas Lugo
abandonou o cargo de presidente pela televisão e na praça o povo se inteirou pela
transmissão radial. A decepção fez com que as três praças que levaram um dia e meio
para serem tomadas, se esvaziassem em menos de uma hora.
O sentimento de derrota em meio à esquerda era tal, que no dia seguinte muita gente
que chegou pela madrugada na praça, para resistir, se viu em meio de uma realidade
que as fizera chorar: um abandono absoluto.

No sábado, primeiro dia do governo golpista converteu-se em uma luta autogestionada
contra o cerco das comunicações. Empreendida por trabalhadores da comunicação, tanto
da tv como da rádio públicas, a resistência tornou-se realidade na tv pública,
localizada no centro da cidade de Asunção. Cerca de vinte pessoas deram início a
essa resistência e a convocatória a apoiar e tomar parte da luta se efetuou através
de mensagens de texto e chamadas por celulares. Em uma hora já era possível contar
em torno de 300 pessoas, até o momento em que se iniciou o programa microfone
aberto, ameaçado de censura desde a noite anterior. Esse primeiro instante de luta,
com o microfone amplificando as palavras de resistência de quem o tomasse, foi
francamente uma obra perfeita de resistência e autogestão. Fomos modesta parte deste
esforço e dentro desta mesma modéstia nos sentimos orgulhosos. Posteriormente, vista
a magnitude que foi tomando a resistência na tv pública, os partidos políticos
buscaram dirigir e aparelhar essa mobilização. Foi criado um "grupo de segurança"
que atuou agressivamente como polícia interna. Buscou-se controlar também a
expressão e manifestações das pessoas, proibindo as assembleias nesse local (que
havia começado por ser uma assembleia aberta e autoconvocada) e também os cartazes
ou escritos que fugissem do controle das consignas estipuladas como prudentes. Ao
mesmo tempo se fortaleceu as consignas luguistas e consequentemente a figura de
Lugo.

Houve um esforço por parte da esquerda para dirigir a resistência, dando um giro à
direita na frente guasu (ampla), vinculando dissidentes dos golpistas partidos
colorado e liberal, ao mesmo tempo que buscava conquistar uma base social mais
ampla, convocando também as organizações sociais para este intento, denominado agora
Frente de Defesa da Democracia[FDD]. Desde a constituição desta frente, houve um
grande esforço em controlar a manifestação popular no entorno da TV pública. Somente
com o decorrer da semana seguinte é que a luta foi capaz de romper os limites do
entorno da TV, dando início a mobilizações no campo e na cidade. Mobilizações em
geral com convocatórias massivas.

Um aspecto interessante é que a resistência proposta pela FDD e pelo ex-governo
luguista se denomina "pacífica" ou de desobediência civil. Na prática, essa
resistência se limita a uma mobilização contida onde a todo momento se procura não
incomodar ninguém para assim não ser estigmatizada de "violenta", com o que as ações
(ou melhor, as inações) da FDD e do ex gabinete de Lugo se tornaram adequadas à
normalização e tranquilização que pretende impor o governo golpista, justo no
momento de se acordar leis e decisões econômicas que favoreçam, ainda mais, as
transnacionais e o capitalismo especulativo. O discurso não violento e de
desobediência civil aparece, por sua vez, vazio de conteúdo e equivocado em seus
propósitos: não promove uma verdadeira resistência ao passo que não assume o
conflito social embutido no golpe de estado parlamentar e não utiliza o conflito
para desnudar o pano de fundo repressor e anti-popular do governo golpista.
Prevalece hoje, o calculo eleitoral.

Defendemos a resistência como uma resposta adequada ao momento, de forma que esta
permita autogestionar as lutas, autonomizar a resposta ao conflito, tornar públicas
as análises e a tomada de decisões a respeito da resistência e, por essa via, romper
com a cultura política do coloradismo, ou seja, romper com as práticas políticas do
clientelismo, dependência e venda de cargos. Uma resistência séria permitirá a
realização de mudanças de fundo na cultura política e social paraguaia, quebrando
assim com costumes funcionais à dominação oligárquica que hoje nos afeta.

Quem assume a resistência a sério se vê limitado pelo setor tímido e refém dos
cálculos eleitorais da esquerda, que verbalmente assume a resistência mas na prática
imobiliza ou mobiliza somente em função de promover figuras e candidaturas
discretamente, em que pese o descrédito que estão se submetendo.


Grupo de Afinidad "La Calle"
Asunção 03/07/2012

Tradução: D.

http://www.anarkismo.net/article/23410
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