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(pt) Mensagem ao Congresso Fundacional da Coordenação Anarquista Brasileira [en]

Date Wed, 6 Jun 2012 16:30:12 +0200


O anarquismo organizado no Brasil viverá nos dias de junho, no Rio de Janeiro, seu
maior acontecimento histórico contemporâneo. O Congresso Anarquista que reunirá
grupos de cerca de 10 estados do país em debates, acordos e resoluções para atuar em
princípios e táticas comuns sobre a realidade brasileira tem um significado muito
especial. Nossa convicção, em mais de 10 anos de processo, diz que o anarquismo
militante tem irrenunciáveis aportes para as lutas por uma mudança social
anticapitalista. A reunião das forças militantes que encarnam uma mesma concepção de
trabalho em Coordenação é passo fundamental na jornada de construção
político-organizativa que não começa agora.
Nossa ideologia se vincula historicamente com a luta dos povos e das classes
oprimidas, com suas experiências, sacrifícios e projetos de emancipação do sistema
capitalista. Contra as relações de dominação em todas as esferas da prática social
se fez crítica radical, implacável; contra as estruturas de poder que produzem e
reproduzem a sociedade de classes, se fez proposta de cambio revolucionário; contra
as violências e os controles do estado, a exploração dos patrões, as ideias
opressoras que circulam no corpo social, se fez ação militante intransigente.

Somos parte de um esforço de gerações do movimento socialista dos trabalhadores que
não começa e nem termina com nós. Continuadores daquelas ideias e valores, de suas
vigentes orientações para não cair nas capturas dos sistema, dos companheiros e
companheiras anarquistas que deram suas vidas nos dramas e nas batalhas do
antagonismo social dos inícios da classe operária. Somos parte também de um povo e
de um chão, de uma formação sócio-cultural, de uma história singular onde a
resistência dos povos nativos, dos escravos, do proletariado, os pobres e oprimidos
do poder dominante, deixaram rastros de sangue rebelde em suas gestas.

O capitalismo, o Estado e toda a estrutura ideológica articulada ao sistema sempre
foram duros algozes do anarquismo, como todos seus opositores radicais. No Brasil
não poderia ser diferente. Durante a 1° república fomos enfrentados a conjunturas de
fortes ações judiciais e repressivas que destruíram organizações, veículos de
imprensa, atividades populares. Tivemos o doloroso desterro, encarceramento e a
liquidação de vidas militantes que não tem preço em nossa causa.

O capitalismo dependente brasileiro variou seus modelos operativos para conservar o
núcleo duro dos seus elementos sistêmicos. O projeto libertário lutou com grandes
dificuldades a partir da década de 30 para atuar politicamente num contexto
histórico-social de cambio da mentalidade das massas, disputando com o oportunismo
dos bolches e o peleguismo trabalhista entre o proletariado. Estava em cena o
crescimento econômico industrial articulado a uma estrutura jurídico-política
assimiladora de certos conflitos do trabalho, que controla repressivamente os
rebeldes, castradora das liberdades de ação do vetor classista dos sindicatos. Novas
tecnologias de poder dirigidas por um modelo de dominação burguês-autoritário que
vinculava as classes dominantes e um expressivo setor operário-popular.

Nosso campo de atividades ficou reduzido, reprimido, recuado, por fatores que
sumariamente procuramos indicar, durante décadas. Para fazer justiça, é preciso
dizer que no curso desta longa noite para o anarquismo tivemos companheiros e
companheiras que, num esforço incansável, pelearam para manter vivo suas ideias em
projetos de organização, periódicos, centros de estudo e cultura social, atuação em
setores do movimento dos trabalhadores, entre estudantes, etc.. tarefa ingrata que
lavrou terreno para a posteridade. Pelas esquerdas, o "socialismo real" do leste
europeu, revoluções asiáticas, o exemplo vitorioso em nosso continente da Revolução
Cubana, davam um fantástico poder de atração para as ideias marxistas. Todo o
universo de valores, discursos e referências da guerra fria atravessavam a luta de
classes com a bipolaridade e esmagavam posições alternativas.

Entre os agitados anos da transição da ditadura civil-militar para o regime
representativo burguês, os fins de 70 revivem o anarquismo em lutas sociais com
novos meios de propaganda e ação. Uma nova geração se mistura com a experiência dos
velhos militantes, que já não são muitos. Volta a pauta a reorganização dos centros
de cultura, as tarefas com a difusão da crítica social e as propostas libertárias.
Em distintos lugares do país existem militantes atuando no movimento estudantil,
lutas sindicais, com alguma responsabilidade em atividades populares. As concepções
do trabalho político, de prioridades e objetivos para encararem comum, de mecanismos
federativos para assegurar um funcionamento regular, neste momento, estão muito
confusas. Há um espírito geral de "síntese", circunstanciado pela esperança de unir
o pouco que se tem, recuperar forças para a identidade anarquista juntando todos que
se reconhecem nela.

O tema da organização e de mecanismos mais estruturados para a ação reaparece em uma
conjuntura histórica em que a luta pública de massas se derrama pela transição
burguesa até a nova legalidade democrática e faz emergir na cena nacional os
movimentos sociais, a classe operária, os sem terras. O novo sindicalismo que se
organiza pelas bases e oposições sindicais contra os pelegos e as velhas estruturas
corporativas é uma força social de avançada na luta política por reformas sociais
para além do modelo democrático gradual e controlado das classes dominantes. A
estratégia do sindicalismo revolucionário nos inícios do século XX e a fundação
histórica da Confederação Operária Brasileira são os maiores referentes de ação
social para o anarquismo neste momento. Os conceitos de orientação para o trabalho
nos anos 80 se apoiam, para um grupo importante de militantes, nessa experiência
sindicalista, em suas memórias, seus valores e conquistas sociais.

Vale dizer que são conceitos mesclados com o contemporâneo, com o que é vivido neste
momento, também com os exemplos que mais atraíam da luta libertária internacional e
a voz de seus organismos oficiais. A constituição em meados da década de um grupo de
apoio a AIT formou uma vertente predominante na militância da luta de classes em
torno das concepções do anarcosindicalismo. O projeto dos núcleos pela reconstrução
da COB teve seus anos de trabalho franco, suas dignas lutas, periódicos, instâncias
nacionais, esforços organizativos vários. Mas não alcançou seus objetivos e ao longo
do tempo foi se desagregando pelas debilidades de uma formulação, pensamos nós, que
estava deslocada no tempo e no lugar em que se atuava. O anarcosindicalismo, versão
pró-COB, jogava nossas poucas forças na contra-corrente e pra fora de um amplo
movimento sindical de base que unia a classe e tinha que ser participado com os
nossas táticas e princípios.

Nos anos 90, o capitalismo aplica com mão pesada o modelo neoliberal no nosso país
através dos governos de turno e as receitas dos seus organismos internacionais. O
Brasil se vende para a globalização, a ação capitalista feroz dos mercados, o
econômico como ideia dominante na estrutura social, as políticas de ajuste fiscal,
privatizações, dependência sinistra dos poderes financeiros. Vida precária,
desemprego, a pobreza, toda a estrutura da desigualdade social investem pesado em
nossa formação social. O campo popular detém seu avanço e defende a duras penas os
direitos conquistados, os bens e serviços públicos que atendem pela questão social.
Em geral se vive uma inflexão conservadora nas ideias e práticas sociais. A esquerda
reformista formada na nova república, com a liderança do PT, gradualmente se integra
nas estruturas do poder, nos controles institucionais e seu jogo de reprodução do
sistema.

Neste período o setor mais inquieto do anarquismo procura se reorganizar e ter
propostas para a realidade brasileira, o presente histórico, suas condições e
possibilidades concretas. Se abre uma etapa de renovação crítica, de gestação de uma
vontade organizada que busca de peito aberto soluções para atuar em dia com a
história, com os problemas atuais, sem repetição de esquemas. A FAU inspirou e
apoiou sua formação. É uma experiência anarquista latino-americana que teve a
capacidade política de lutar em distintas conjunturas históricas e não deixar o
projeto libertário perder um lugar entre os oprimidos e seus concretos contextos
sociais. O Processo de Construção Anarquista Brasileiro (PCAB), nascido na metade
dos 90, apontou os primeiros elementos da definição especifista que hoje nos reúne
para um congresso Anarquista. Tinha ambições que não foram correspondidas, acusou
limites e precipitou atos que não não tinham suficiente acumulação para serem
tomados. Criou a OSL, uma organização de curta duração. De todos os modos, uma parte
de nossa geração, da experiência política que viemos construindo dos anos 90 para
cá, deve seu amadurecimento a esse intento. A essa busca do anarquismo militante por
sua organização específica e a construção de força social por dentro da vida e das
pautas dos "de baixo".

O processo que temos hoje é diferente. Aprende com as pedras que se atravessaram
pelo caminho, para não tropeçar nos mesmos limites. Toma os conceitos de orientação
que ao longo do tempo se fizeram vigentes: ação sindical-popular articulada com o
trabalho de uma organização política anarquista. Um projeto finalista libertário que
reúna as capacidades e propostas para estar inserto no presente, para pensar com um
discurso aberto ao nosso tempo social e atuar com certezas ideológicas que não
transigem com os valores do sistema.

O FAO arranca praticamente junto com o período que marca a chegada do PT ao governo
nacional, com Lula presidente. São dez anos percorridos em um tempo que tem sua
singularidade. O reformismo que dirigia as lutas sociais-políticas dos 80 se
credencia para administrar as instituições burguesas com uma política conciliada com
os grandes poderes da estrutura global de dominação. As organizações populares e
sindicais filiadas a esta estratégia se arranjam burocraticamente nos aparelhos do
Estado. O governo refresca o modelo dominante, atualiza os controles com
ambiguidades, com zonas pardas da colaboração de classes. Combina políticas de
continuidade das receitas neoliberais com um pacto social de tintas
desenvolvimentistas que leva compensações para os pobres. É um modelo de altos
ganhos para as oligarquias e os grandes capitais, de coalizão política com velhos
setores da direita, de integração relativa de setores populares. Que não faz mudança
estrutural nos controles da riqueza e do poder. Coexiste com uma etapa fragmentária
da luta de classes, de pouca acumulação combativa, de reorganização de um mundo do
trabalho e da pobreza que anda disperso e vinculado hegemonicamente as ideias
dominantes.

O desenvolvimento capitalista não é alternativa para a emancipação dos oprimidos,
nunca o foi. O sistema e seus elementos internos tem uma lógica brutal e perversa
que não favorecem projetos de mudança real. O crescimento econômico que experimenta
o Brasil é o crescimento do capital e os poderes dominantes, a exploração do
trabalho precário, os lucros da banca, as exportações do agronegócio, a espoliação
do território e do meio ambiente do povo. Toda a compensação social é marginal e
controlada dentro destas estruturas da dominação. O mundo atual está emparedado por
um escandaloso assalto dos bancos e os fundos abutres, de toda a classe da
propriedade privada, que fez a trampa financeira estourar a conta da farra
capitalista nos pobres.

Esse sistema criminal castiga milhões de trabalhadores com desemprego, produz
condições de vida precária, guerras imperialistas, opressões e misérias crescentes.
A situação geral repõe a urgente e necessária atuação de projetos que acumulem
forças antagonistas, incorporem elementos radicais de cambio no imaginário coletivo,
que façam caminho para uma alternativa socialista. Nossa corrente libertária,
historicamente tem sido um fator ideológico a favor de novas relações sociais, onde
o socialismo e a liberdade formam um horizonte irrenunciável. O Congresso que reúne
as forças do anarquismo organizadopisa nesse terreno.

A Coordenação Anarquista Brasileira deve organizar os elementos para construir uma
definição estratégico-tática que tenha inserção forte no tempo histórico que nos
toca viver e lutar. Tem que ser um âmbito militante que se faça sentir como força
coletiva, solidária e peleadora, mais capaz de atuar. Com estratégias para defender
um programa de ações que parte deste momento, dos seus conflitos específicos e
gerais, que caminhe junto com os trabalhadores e o povo. Sempre com os que lutam!

Mas acima de tudo que leve no curso de suas experiências mecanismos de
fortalecimento, de rupturas, de poder popular.

Ao Congresso!
10 anos do FAO.
Viva a Coordenação Anarquista Brasileira.
Pelo Socialismo e pela Liberdade!


Federação Anarquista Gaúcha

http://www.vermelhoenegro.co.cc

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