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(pt) [EUA] A Comuna de Oakland

Date Fri, 17 Feb 2012 12:36:47 +0100


Em setembro de 2011, se estendeu a ocupação de praças ou parques públicos em cidades
dos Estados Unidos, começando com o Occupy Wall Street em Nova York e chegando a
dezenas de milhares de pessoas. "Occupy" foi uma mistura bastante estranha e muitas
vezes contraproducente. Em algumas cidades foi tomada por "conspiranóicos" sem
nenhuma experiência em assembleiarismo, em muitas outras serviram mais como veículo
para as preocupações de uma classe média cada vez menor que impôs uma não-violência
extrema, pedindo permissão para os acampamentos (mesmo mudando-os para outros locais
indicados pelos conselhos locais), colaborando com a polícia e tentando proibir a
participação anarquista. Em outras cidades, no entanto, tem sido um lugar onde se
podia livremente discutir e desenvolver uma prática e uma análise radical.

O simples fato de ser um fenômeno em que pessoas desconhecidas se encontravam para
discutir política, fazer reuniões e tomar o espaço público - em um país tão alienado
e despolitizado - deu ao Occupy uma importância revolucionária difícil de negar.
Além disso, a participação crítica de indivíduos anarquistas, a propagação no espaço
Occupy de práticas como a horizontalidade, o assembleiarismo, a ação direta e a
negação de petições aos políticos contribuiu substancialmente para a visibilidade
anarquista, no aumento a nível nacional durante os últimos anos. Ainda mais quando
veio à tona que um dos principais arquitetos do Occupy Wall Street era um acadêmico
anarquista.

A cidade de Oakland (Califórnia), em particular, tem se destacado por uma natureza
combativa e abertamente anticapitalista. Uma cidade com a experiência recente de
vários distúrbios e sabotagens massivas em resposta às mortes cometidas por
policiais, o Occupy de Oakland lutou para defender seu espaço. Tanto que foi
conhecido como "A Comuna de Oakland", e em 2 de novembro de 2011 organizou a
primeira greve geral - em toda a cidade - que aconteceu nos EUA em muitas décadas.
Posteriormente, em 12 de dezembro, Oakland junto com outras cidades da Costa Oeste
organizaram bloqueios nos portos, fechando muitos com piquetes e com o apoio
informal dos estivadores (cujo sindicato não endossou nem obstruiu a greve).

Desde 15 de novembro a "Comuna de Oakland" havia sido desalojada, havia recuperado
sua praça (rebatizada de "Praça Oscar Grant" em memória a um jovem morto pela
polícia) e foi desalojada novamente.

Em 28 de janeiro, 2 mil pessoas juntaram-se para ocupar um edifício e recuperar um
espaço onde a Comuna poderia seguir se desenvolvendo. Encontrava-se um grande
dispositivo de antidistúrbios, mas foram preparados com escudos, capacetes, pedras e
tochas. Após várias horas de batalha, alguns policiais e muitos companheiros ficaram
feridos (alguns permanentemente), a cidade de Oakland havia sido tomada e destruída
por dentro, e 400 companheiros detidos. Dentro da prisão, muitos companheiros foram
agredidos ou negaram-lhes seus medicamentos (incluindo alguns casos graves, por
exemplo, vários compas com AIDS) e negaram-lhes comida e água. Enquanto isso, os
progressistas e supostos aliados no movimento Occupy, incluindo muitos que haviam
aplaudido os rebeldes no Egito ou na Grécia por terem atacado os bancos que fodiam
suas vidas, em seus blogs condenaram a violência dos anarquistas e exigiam um
pacifismo absoluto para evitar a repressão.

O que segue abaixo é uma carta escrita por algumas companheiras que participaram dos
distúrbios do dia 28.


Informe sobre os acontecimentos de 28 de janeiro em Oakland

Começamos pedindo desculpas, já que nossas palavras podem ser incoerentes, nossos
pensamentos tendenciosos e nosso tom muito emocional. Perdoe-nos, porque o zumbido
em nossos ouvidos ainda interrompe nosso pensamento, porque nossos olhos seguem
borrados e seguimos ansiosas e com o trauma de nossas feridas e a prisão das pessoas
que queremos. Como muitos de vocês já estão cientes: após um longo dia e uma longa
noite de batalhas de rua em Oakland, vimos derrotados os nossos esforços de ocupar
um edifício grande para criar um centro social. Estamos escrevendo, em parte, para
corrigir as falhas e enganos espalhados pela mídia-merda. Mas também para explicar a
intensidade e urgência da situação em Oakland aos companheiros do exterior. Até
certo ponto, esta é uma missão impossível. Os vídeos e meras palavras podem
fracassar inevitavelmente em transmitir as inefáveis experiências coletivas das
últimas 24 horas. Mas, como sempre, aqui vamos nós.

Ontem foi um dos dias mais intensos de nossas vidas. Dizemos isto sem hipérbole ou
sobressaltos. O terror nas ruas de Miami ou de St Paul, o poder nas ruas de
Pittsburgh ou no outono de Oakland; o afeto de ontem atingiu ou superou a qualquer
uma dessas experiências. Os acontecimentos de ontem nos confrontou com uma série de
momentos intensamente belos e igualmente terríveis.

Uma curta seqüência:

Belas palavras são transmitidas na praça Oscar Grant, incitando-nos a cultivar nosso
ódio ao capitalismo. Centenas de pessoas abandonam a praça e logo somos milhares. A
polícia tenta tomar o caminhão com o equipamento de som, mas é resgatado por uma
onda de pessoas. Vamos então até o nosso destino e nos bloqueiam. Viramos para outro
caminho e outra vez nos bloqueiam. Damos o seguinte passo lógico e de alguma forma a
polícia não o havia antecipado. Estamos mais perto do edifício, agora rodeado por
cercas e porcos armados. Derrubamos as cercas, criando alguns buracos. A polícia
começa a sua primeira incursão de gás e fumaça. O medo inicial passa. Com calma, nos
aproximamos de outro ângulo.

Os porcos criam suas linhas em Oakland. À nossa esquerda, o museu; à nossa direita,
um complexo de apartamentos. Escudos e barricadas reforçadas à frente; empurramos.
Lançam disparos de foguete e faíscas e bombas de gás. Respondemos com pedras e
foguetes e garrafas. Os escudos avançam. Outro ataque dos porcos. Os escudos rebatem
quase todos os projéteis. Nos agachamos, esperamos, avançamos todos de uma vez. Eles
vêm até nós uma e outra vez. Lançamos sua própria merda, a nossa, e o que podemos
jogar. Alguns de nós são atingidos por balas de borracha, outros se queimam com
granadas de fumaça. Vemos alguns policiais caírem sob o peso das pedras
perfeitamente lançadas. No que parece uma eternidade, nós mudamos o lançamento e os
escudos. Nunca antes havíamos sentido isso. Almas adoráveis dos apartamentos nos
jogavam jarras de água pela janela para limparmos os olhos. Encontramos um momento
para agradecer a coragem sem precedentes e a delicadeza com que os estrangeiros que
tinham os escudos realizaram sua tarefa. Recuamos para a praça, carregando e sendo
carregados por outros.

Nos reagrupamos, fizemos esquemas, e mais mil coisas, nos preparamos uma hora
depois. Falhando a nossa segunda opção, marchamos adiante com a terceira. A polícia
implementa sua armadilha: tentam nos caçar no parque entre a rua 19 e o local da
Broadway que havíamos ocupado. Instala-se o pânico; reforçaram todas as suas linhas.
Eles começam a jogar gás novamente. Mais balas, nosso ataque é repelido. A
inteligência da multidão avança rapidamente. Grupos de pessoas vão para as
barreiras. Em uma inversão do momento em que ocupamos este terreno pela primeira
vez, as cercas se voltam para ter uma rota de fuga. Não tentaremos explicar a
alegria de mil selvagens correndo a toda velocidade pelo terreno, tirando uma
segunda linha de barreiras e escapando para a liberdade da rua. Mais jogos de gato e
rato. Em frente ao YMCA, outra armadilha. Desta vez é mais profunda e não há cercas
ao redor para jogar. Suas linhas são profundas. Algumas dezenas agem rapidamente
escalando uma porta próxima, saltando perigosamente perto do pavimento rígido
abaixo. Passando a porta, o grupo encontra uma fila de furgões da polícia: podem
imaginar o que acontece em seguida. Um trabalhador do YMCA abre uma porta. Inúmeras
pessoas escapam para dentro do prédio e saem por outra porta. A polícia descobre
ambas as rotas de fuga e começa a atacar e pegar aqueles que tentam passar, mas não
conseguem. Aqueles que caem na armadilha são brutalizados e se resignam à sua
prisão.

Algumas centenas continuam. Hora da vingança. As pessoas invadem a câmara municipal.
Tudo o que encontram é destruído. Os arquivos jogados por todos os lugares, os
computadores também, janelas estilhaçadas. A bandeira americana é puxada para fora e
é cerimonialmente incendiada. Uma manifestação à prisão, muitas pichações, um furgão
de notícias destruído, portas da prisão quebradas... Os porcos respondem com fúria.
Impiedosamente batendo, empurrando, atirando em qualquer um que cruze seu caminho.
Muitos dos que escaparam antes são presos por esquadrões de detenção. O centro da
cidade parece uma zona de guerra. Os que sobram voltam às casas vazias e aos braços
queridos.

Uma máquina de guerra também deve ser intrinsecamente uma máquina de amor. Quando
escrevemos isto, centenas de compas estão atrás das grades. Inúmeros outros feridos
e traumatizados. Passamos a noite passada literalmente "papeando" e assegurando que
todos os que conhecemos estão bem. Ainda não pudemos encontrar muitas pessoas no
sistema, se ouve rumores, alguns foram libertados, a outros foram atribuídas graves
acusações e colocados sob fiança. Esta máquina de afeto é muito do que temos chamado
de Comuna de Oakland, tanto no acampamento como nas lutas de rua.

Passamos uma manhã ensolarada e a ilusão da paz social que se abateu sobre Oakland
novamente. E em todos os lugares há provas do que aconteceu. Funcionários lutam para
reerguer suas cercas patéticas. Mesas são colocadas nas janelas da prefeitura e
bancos próximos (alguns para esconder o estrago, outros simplesmente para se
esconder atrás). As mangueiras tentam limpar o resto do que sobra da estúpida
bandeira. Não se pode literalmente olhar em qualquer lugar da Broadway sem ver
pichações difamando a polícia ou elogiando nossa gente (anarquia, nortes, a comuna,
incluindo Juggalos). Um olho entendido pode ainda encontrar os restos de latas de
gás e resíduos dos foguetes. No refeitório, amigos se reúnem e compartilham notícias
sobre quem foi ferido e quem tinha estado nos fatos. Nossas feridas estão começando
a curar e serão finalmente cicatrizes ou desfigurações ridículas. Esperamos que
nossos admiradores perdoem esta feiúra, ou podem vê-la como pequenos sinais de uma
beleza única. Em ambos nossa adrenalina desaparece e encontramos momentos de
solidão, nos vemos impressionados com a gravidade da situação.

Tendo fracassado na tomada de um edifício, nossa busca continua. Continuamos
encontrando a combinação perfeita de confiança, planejamento, intensidade e ação que
pode tornar a nossa luta uma presença permanente. A comuna tem e continuará ao longo
do tempo, interrompendo a mortalidade e o horror do funcionamento cotidiano da
sociedade. Os segmentos da comuna continuam de forma ininterrupta, assim como as
afinidades e as relações construídas nos últimos meses. Um processo insurrecional é
aquele que destaca essas relações e aumenta a freqüência com a qual a comuna emerge
para interromper o vácuo da história capitalista. Para continuar esse processo,
nossa missão é continuar incessantemente com a experimentação e a imaginação com que
poderíamos iluminar as diferentes estratégias e caminhos para além dos limites
atuais da luta. Às vezes, para esquecer, e outras para lembrar.

Concluímos com um apelo aos nossos amigos em todo o país e além fronteiras. Não deve
olhar para todos os eventos aqui como uma seqüência separada de suas vidas. Entre a
beleza e o espetáculo dos momentos na Baía, você vai descobrir a mesma alienação e
exploração que caracteriza a sua própria situação. Por favor, não consuma as imagens
da Baía como faria com as imagens de distúrbios estrangeiros ou de uma subscrição ao
netflix. Nosso inferno é o seu, e o mesmo vale para a nossa luta.

E por favor... se nos queres como cremos que fazes, prová-lo. Queríamos tão
desesperadamente que estivessem conosco presencialmente, mas sabemos que muitos de
vocês não puderam. Estendam a comuna para os seus próprios lugares. Dez cidades já
anunciaram as suas intenções para a realização de manifestações de solidariedade
hoje à noite. Junte-se a eles, convoque a sua. Se você não estiver conectado o
suficiente para ser uma força social para fazê-la, encontre então seus próprios
caminhos para manifestá-la. Com seus colegas ou sozinho: destrua, ataque, exproprie,
bloqueie, ocupe. Faça o que puder para aumentar a prevalência e a perversidade da
nossa interrupção.

Por um conflito prolongado; por uma presença permanente; pela comuna:

Algumas amigas de Oakland


Fotos:
http://www.indybay.org/newsitems/2012/01/29/18705915.php
http://www.indybay.org/newsitems/2012/01/30/18706120.php

Vídeo da repressão policial:
http://www.youtube.com/watch?v=sFaviIoy4rg&feature=player_embedded

E como dito no manifesto, nos Estados Unidos ocorreram durante os últimos dias
várias ações e manifestações em várias cidades, especialmente na Costa Oeste.

* Santa Barbara: http://anarchistnews.org/node/21578
* Portland: http://anarchistnews.org/node/21580
* Modesto: http://anarchistnews.org/node/21576

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