(Port) Anarquismo e realidade

esperanto (lingvoj@lds.co.uk)
Thu, 11 Apr 1996 02:21:07 +0200


A BATALHA
R Marques de Ponte de Lima
37-2'-D
1100 Lisboa
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Frequentemente, nao vemos aqui-
lo que esta mesmo debaixo do nos-
so nariz. E tao frequentemen.te e is-
so que acontece com o Anarquis-
mo. E esta "cegueira" n@o atinge so-
mente o leigo, mas por vezes mes-
mo aqueles que se dizem anarquis-
tas. No primeiro, e motivo para ridi-
cularizar, rejeitando os ideais anar-
quistas como "utopicosH, Uirrealistas@,
ou mesmo "anti-naturais". Nos segun-
dos, e motivo para desilusao com
o facto da revolu@ao nao ter che-
gado no dia X, e eventualmente pa-
ra com o movimento de todo.

Mas o Anarquismo, entendido co-
mo forma de organiza@ao social,
esta presente nas "...redes de rela-
c, @es, informais, efemeras, e auto-
organizadoras que de facto tornam
a comunidade humana possivel..."l
Desde simples conven,coes sociais,
que visam evitar o caos, mas que
nao sao impostas por nenhum or-
gao centralizador, como e o entrar
em fila para o autocarro, passan-
do pela organiza@ao em pro@ectos
comunit&rios ou cooperativistas, ate
manifesta,coes organizativas decla-
rada@
a@oaia@ao voluntaria e o apoi@
mutuo sao fenomenos dinamiza-
dores do processo social, num grau
muito maior do que aquilo que e
cren@a comum.
A importancia de ver, e fazer ver
isto e tripla:

1) e de uma enorme relevancia
propagandlstica, porque acessibi-
liza o ideal anarquista ao leigo ou
ceptico, na medida em que recor-
re a experiencia comum das redes
de rela ,coes ja mencionadas;

2) e uma valiosa fonte ilustrativa
de (novas) propostas de actua-
@ao;

3)e porque permite-nos ver a re-
volu,cao esta aqui e agora, isto e,
est& ao nosso alcance; mas e ne-
cess&rio dar-lhe rumo, refor@a-la, n-
tervir e contribuir para que cres@a,
porque, e como Paul Goodman di-
zia "uma sociedade livre e a ex-
tensao das esferas da ac,c@o livre
ate que constituam a maior parte
da vida social."

Imprcito esta, ent@o, tambem uma
defini@ao de Anarquismo diferente
daquela que leva "...a rejei@ao da
sociedade existente como um to-
do, em favor de uma sociedade fu-
tura, onde uma Humanidade dife-
rente vivera em harmonia perfei-
ta."2 A defini@ao que esta aqui im-
prcita e "realista", no sentido em que
olha para a realidade existente e
encontra nela o seu fundamento di-
namico.

E neste contexto que gostaria de
abordar um fenomeno que vem
exactamente ilustrar este caracter
presente do Anarquismo: a ocupa-
@ A @>CIJ@C1@ " demon@trc@ di@-
riamente a mensagem de que pes-
soas carenciadc:ls em termos de ha-
bHa@o sao capazes de organizar
as suas proprias vidas"3, e constitui
mais do que "...simplesmente uma
ocupa@ao de escritorios, fabricas,
armazens e algumas residencias
abandonadas. (...) e uma luta pe-
los direitos a cidade em si, especial-
mente para os jovens e para os
pobres."4 E numa aHura em que, na
Africa do Sul, negros vHimados pe-
lo crescente empobrecimento das
zonas rurais ocupam em grande
numero residencias vazias na cida-
de, tambem em Portugal esta mani-
festa@ao adquire (de novo) rele-
vancia.

Ja em Novembro de 1993 chega-
va-me, atraves de um amigo, a no-
t'cia de uma ocupa@ao no Porlo,
um projecto que foi denominado
de"Casa reciclada". Dela, preten-
dia-se "...fazer um Centro Social li-
vre de drogas e contra elas, onde
se possam integrar actividades de
informa@bo, educa@ao e ac@:ao so-
cial." Isto inclula projectos como a
cria@:bo de uma cozinha econo-
mica, um curso de expressao ma-
nual para crian@as e uma loja de
reciclagem comercial e documen-
ta@ao.5 A promessa era grande, e
foi com grande pesar que recebi
a noffcia da sua desocupa@ao, 2
meses depois; ;nfel@zmente, e como
e usualmente o caso, os "interesses
instalados" tinham levado a melhor.
Mas o facto de se ter estabelecido
um precedente foi sign@ica@ivo. Des-
de entao tem surgido novas inicia-
tivas esporadicas de ocupa@:ao no
Porto, Ermesinde, Queluz, Unhos, Tor-

res @edr@s e Cc@scc@is.

Ha relativamente pouco tempo
veio-me parar as m@os um escrito
particularmente prometedor, obra
de um grupo de pessoas directa-
mente envolvidas em projectos de
ocupa@ao. O documento intitulado
Okupa, Preokupa?", encerra em si
uma nova proposta, de revigoriza-
@ao atraves do dialogo, de empre-
endimento atraves da coopera@:ao.
Nele, aquele grupo de pessoas faz
um convHe para "...fazer um balan-
@o e debate sobre esse movimen-
to [de ocupa@bo, assumindo, logo
a partida, uma posic@ @o de defesa
e divulga@:ao da ideia/princlpios
de ocupa@oes..." que gostariam
que fossem objecto de discussao e
esclarecimento. Entendem as ocu-
pa ,coessegundo duas perspectivas
fundamentais:
"a) Como necessidade basica e
elementar de solucionar o proble-
ma da habita@ao, ou por faHa des-
ta ou por situa@oes de degrada-
@ao. Problema cada vez mais gra-
ve das cidades modernas, devido
a uma crescente especula@ao imo-
biliana e porlticas de planeamento
urban'lstico comandadas por inte-
resses financeiros e nao sociais. N@o
so a habita@ao e hoje um luxo co-
mo reflecte cruamente as desigual-
dades sociais.
b) Como necessidade de criar es-
pa@os alternativos para o desen-
volvimento de actividades comu-
nit&rias, culturais e sociais. A nlvel
de bairro, ou mais amplamente,
existe a falta declarada de espa-
@os que aproxlmem as pessoas e
os seus interesses, que permitam
criar e desenvolver alternativas a
cultura/modos de vida alienantes
que nos sufocam. Que apele as
pessoas o seu poder de resistencia
e reivindica@ao."
Assim nestas duas perspectivas,
l[p]romover a ideia de ocupa@o
(...) coloca-a num claro plano de
luta social." E nao e, pois, uma ideia
atribu'vel somente a um determina-
do grupo (e.g. anarquistas), porque
"...todo o principio de fundo das
ocupa@bes reside, sem duvida, nu-
ma forma de interven@ao social-
(...) em que a iniciativa autonoma
e directa e a solu@ao."

O manifesto continua, assumindo os
autores tambem uma atitude crt-
tica face ao desenvovimento e re-
sultado das iniciativas de ocupa-
@ao levadas a cabo nos ultimos
anos, nomeadamente no que se re-
fere a "...falha e ausencia de con-
tinua@ao dos projectos de 'Centros
sociais alternativos e autogestiona-
rios', 'Casas recicladas', etc (de
que se esperava tanto e demasia-
do...?)..." E por esta razao, e por-
que "...outras perspectivas de ocu-
par (para espa@os sociais autoges-
tlonados), tem de surgir; (...); por-
que o impacto que estas ultimas
ocupa@bes tiveram sobre uma lar-
ga faixa de jovens (...) [foi muito
si@nificatilvol; porque a necessida-
dede hab@a@:@o e cada vez maior
para um maior numero de pessoas;
e porque a repressao aos ocupan-
tes de casas abandonadas tem
vindo a aumentar..." que se torna
fundamental a troca de ideias a
que os autores nos convidam:

"Propomos a todos os que estive-
rem envolvidos em ocupa@5es, ho@e
desocupc@das pelc@ ac@:ao policial
ou abandono voluntario das cascls,
aos que ocupam ainda, aqueles
que no, passcldo tr@eram e@enen-
cias de ocupa@es ou aos que no
@turo se prop@em faz@las, que nos
escrevam para organizar-mos e
agendarmos esta troca de ideias.@

Os autores deste documento - Ma-
n@ FreDco. Miguel Mendon@a, Ricar-
do Tavares, Sc@muel Melro e Susc@nc:@

Ma@ins - podem ser contactados
atraves do Apartado 3, S.Joao de
Estoril, 2768 Estoril Codex

Pascal Kamphuis

NOTAS
1 - Ward, Colin, Anarchy in Action, Free-
dom Press, London 1988 p.5.
2 - Idsm.
3 - Bailsy, R. in Ward, C. @A vislt to Amster-
dam, Freedom 10/12/94.
4 - Soja, E. in Ward, C., Idem.
5- Folheto informativo Casa Reclclada,
993 .
6 - Okupa, Preokupa?, Novembro 1995.

FREEDOM PRESS
http://www.lglobal.com/TAO/Freedom