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(pt) Anarchist League in Rio de Janeiro: Organização, tradições revolucionárias e transformação.

Date Fri, 8 Feb 2019 07:57:00 +0200


Questões do Instituto de Estudos Libertários (IEL) a René Berthier da Federação Anarquista Francófona (FAF). ---- Tradução: Igor Lôbo Siqueira Rodrigues/ Revisão: Marcos Rogério Ponciano ---- IEL: Qual a relevância dos modelos organizativos históricos para o anarquismo de hoje? ---- RB: A questão do modelo organizativo pode ser posta de duas maneiras: a) que forma deve tomar a organização da luta dos anarquistas no seio do sistema atual; b) qual é a forma da organização global da sociedade segundo a concepção anarquista (qual é o projeto de sociedade anarquista?). Na medida em que a organização da luta dos anarquistas é abordada nas questões a seguir, eu falarei inicialmente do projeto de sociedade. Para resumir, pode-se dizer que existem duas abordagens diferentes no que diz respeito à organização da sociedade sem exploração e sem alienação: a abordagem bakuninista e a abordagem kropotkiana.

? O modelo bakuninista
Do ponto de vista de Bakunin e de militantes próximos dele, a organização da sociedade de amanhã será construída sobre o modelo de organização de classe dos trabalhadores tal qual existe hoje, isto é, a Associação Internacional de Trabalhadores. A AIT é, de certo modo, a prefiguração da sociedade de amanhã. Poderíamos fazer um paralelo com o ponto de vista de Marx. Este dizia que o sistema capitalista se constituiu de maneira embrionária no seio da sociedade feudal, graças a uma classe social que ainda era dominada - a burguesia - mas que detinha os meios de produção e que, chegado o momento, foi capaz de romper os grilhões que a aprisionavam. Por analogia, no seio do sistema capitalista, o proletariado evidentemente não detém os meios de produção, mas o que ele possui (ao menos potencialmente) é sua organização e sua inserção no sistema produtivo.

Bakunin faz uma descrição precisa deste modelo organizativo. Ele observa que, no seio da AIT, existe uma dupla estruturação: uma vertical, uma horizontal. A estrutura vertical é constituída pelos sindicatos, que ele chama de "seções de ofício", implantados nas empresas. Por extensão, poderíamos dizer que é uma estrutura de tipo industrial que engloba, de baixo para cima, o conjunto de um setor de atividade (por exemplo: Metalurgia, Têxtil, etc.).

A estrutura horizontal é uma estrutura geográfica: ela é constituída pelo que Bakunin chama de "seções centrais". As "seções centrais" não são implantadas dentro das empresas, mas dentro das localidades e, por isso, elas são capazes de reunir representantes do conjunto das "seções de ofício" da localidade e de coordenar a informação e de organizar as lutas. Para Bakunin, é uma instância totalmente política, na medida em que seu campo de intervenção ultrapassa a simples reivindicação cotidiana. A "seção central", para Bakunin, é também o lugar onde se faz a reflexão política, de uma maneira geral. Uma visão que não é limitada ao quadro da empresa. Ademais, Bakunin insiste firmemente a respeito do fato de que nunca será necessário extinguir as "seções centrais", pois são elas que dão sua dimensão política à AIT.

O que Bakunin descreve não trata de uma fantasia, pois já existiu de fato na França e em outros países. As "seções de ofício" se chamam "sindicatos", simplesmente, e as "seções centrais" chamam-se "bolsas do trabalho" na França, Camere del Lavoro na Itália, etc. Nós estamos no período sindicalista revolucionário do movimento operário. As "bolsas do trabalho" faziam um papel essencial, e pode-se dizer que o sindicalismo revolucionário começou seu declínio no momento em que a independência e o papel das bolsas do trabalho foram reduzidos.

O modelo bakuninista da organização de massa, do tipo sindicalismo revolucionário, se completa de uma outra forma, a da organização política. Eu faço referência evidentemente à Aliança Internacional da Democracia Socialista, conhecida simplesmente como "Aliança", constituída de um número reduzido de militantes, mas cujo papel foi importante na difusão das ideias e das práticas da Internacional nos países do sul da Europa. Dizer que a Aliança constitui o protótipo de organização anarquista específica, tal qual conhecemos hoje seria, entretanto, um anacronismo. Em 1868, o anarquismo como corrente política propriamente dita não existia ainda. Seria também perfeitamente anacrônico dizer que o programa da Aliança foi a prefiguração da Plataforma de Archinov.

? O modelo kropotkiano
Se o campo de ação de Bakunin foi a organização de massa dos trabalhadores, se o essencial de sua atividade foi orientada em torno das questões de organização e estratégia, Kropotkin não interveio no movimento de massa como elemento decisivo do ponto de vista da definição de estratégias. O essencial da intervenção de Kropotkin se fez no movimento anarquista propriamente dito, quando o que sobreviveu de AIT deixou de ser um movimento da massa para se transformar em grupos de afinidade. Pode-se dizer que Kropotkin foi um teórico "generalista" enquanto Bakunin foi, por sua vez, um homem de ação e um organizador.

Em Memórias de um revoltado, Kropotkin propõe a antecipação do que seria uma sociedade libertada da autoridade e da exploração. Ele esboça esquematicamente o que ele pensa ser uma organização federalista.

"Essa sociedade será composta de uma multiplicidade de associações unidas entre elas por tudo o que demanda um esforço comum: federações de produtores para todo tipo de produção, agrícola, industrial, intelectual, artística, comunas para a consumação, se encarregando de suprir a tudo que diz respeito à moradia, iluminação, calefação, alimentação, a instituições sanitárias, etc.; federações de comunas entre elas e federações de comunas com os grupos de produção; enfim, grupos mais vastos ainda, englobando todo um país ou mesmo diversos países, e compostos de pessoas que trabalharão em conjunto para a satisfação dessas necessidades econômicas, intelectuais e artísticas, que não estão limitadas a um território determinado.

"Todos esses grupos combinarão livremente seus esforços por um acordo recíproco, como já o fazem atualmente as empresas ferroviárias ou correios, ainda que as primeiras não procurem mais que seu interesse egoísta e que as últimas pertençam a Estados diferentes e inimigos; ou, melhor ainda, como os meteorologistas, os clubes alpinos, os postos de salvamento da Inglaterra, os ciclistas, os professores, etc., que unem seus esforços para a realização de obras de todos os tipos, de ordem intelectual, ou por seu simples prazer. Uma liberdade completa presidirá o desenvolvimento de novas formas de produção, de invenção e de organização; a iniciativa individual será encorajada e toda tendência à uniformidade e à centralização combatida[1].

"Ademais, essa sociedade não permanecerá petrificada em formas determinadas e imutáveis, mas ela se modificará incessantemente, pois ela será um organismo vivo, sempre em evolução. Não sentiremos a necessidade de um governo, porque o acordo e a associação livremente consentidos tomarão o lugar de toda as funções que os governos consideram atualmente como deles e que, tornando-se as causas desses conflitos mais raras, esses conflitos mesmos, no caso de ainda poderem se produzir, serão regulados pela arbitragem."

Na verdade, Kropotkin descreve menos um sistema federativo do que um tipo de união de associações sem ligação permanente entre elas, fazendo-se e desfazendo-se de acordo com as circunstâncias. Ele é, em grande medida, o inventor do "horizontalismo" que hoje tornou-se moda, e que não tem nada a ver com o federalismo. Eu confesso que, se a visão kropotkiana devesse prevalecer, eu hesitaria seriamente em pegar o avião se as torres de controle dos aeroportos devessem "combinar livremente seus esforços por um acordo recíproco".

Ele é extremamente ingênuo de imaginar que poderíamos organizar uma rede ferroviária eficaz (quero dizer nesse caso pontual), ou a produção e distribuição de eletricidade, de gás, de água, etc., sem uma certa centralização da organização. Kropotkin cai no defeito do anarquismo de seu tempo que assimila organização e autoridade. Ele está, a meu ver, muito abaixo do nível de reflexão que Proudhon e Bakunin, para quem a sociedade de amanhã será fundada sobre a descentralização política e a centralização da economia[2]. Com isso, eles queriam dizer que a tomada de decisão política concernente às orientações globais da sociedade deverá ser feita de maneira descentralizada, a partir das organizações de base federadas, mas que, uma vez essas decisões tomadas, sua implementação dependerá da responsabilidade do organismo federal que terá o encargo de colocá-las em prática.

IEL: E a síntese proposta por Volin. Você poderia listar as suas características gerais?
RB: O pós-revolução russa revelou um certo número de carências no movimento libertário. Três tentativas de solução apareceram, personificadas cronologicamente por Volin primeiramente, pelo grupo de militantes em torno de Makhno e Archinov em seguida, e enfim por Sébastien Faure. Tratava-se, portanto, da criação de princípios organizacionais destinados a responder à constatação do fracasso do movimento anarquista durante a revolução, de fazer balanço desse processo e de considerar medidas a serem tomadas para assegurar sua unificação, condição de sua eficácia.

A primeira formulação da ideia de "síntese anarquista" vem de Volin, em um texto escrito em 1924[3], ou seja, antes da redação da plataforma de Archinov[4]. Entretanto, a "síntese" de Volin não tem muito a ver com aquela de Sébastien Faure, como vamos ver.

Ao contrário da "síntese" de Sébastien Faure dois anos mais tarde, não se trata de vislumbrar uma organização na qual seriam unidas as correntes sindicalista, comunista libertária e individualista, estruturadas enquanto tais e projetadas para viver com boa inteligência e tolerância. Trata-se de definir as ideias principais do anarquismo, isto é, o princípio sindicalista como "base da revolução social", o princípio comunista como "base de organização da nova sociedade em formação" e o princípio individualista, isto é, a ideia segundo a qual "a emancipação total e a felicidade do indivíduo sendo o verdadeiro objetivo da revolução social e da nova sociedade". Volin não procura fazer coabitar três correntes diferentes na mesma organização, mas engajar uma discussão no seio do movimento anarquista sobre essas três questões, a fim de que não se tornem obstáculos para as bases programáticas e para os princípios de organização viáveis. Não se trata, portanto, do "anarquismo individualista", como corrente específica do movimento anarquista, mas de emancipação do indivíduo como objetivo da revolução social. Não é de forma alguma a mesma coisa. Ninguém pode se opor a isso. Para Volin, o comunismo é o objetivo do movimento libertário, o sindicalismo o meio para alcançar esse objetivo, sendo a emancipação do indivíduo a finalidade do movimento.

A "síntese" de Volin foi redigida antes da Plataforma dita de Archinov. Ela poderia ter constituído uma base aceitável para redefinir os princípios, as modalidades de ação e de organização do movimento anarquista. Da mesma forma, se o movimento libertário à época não tivesse rejeitado em bloco a Plataforma, ignorando as proposições feitas por seus redatores de discutir os termos, poderia ter sido possível de redefinir os princípios, as modalidades de ação e de organização do movimento. O conteúdo da "síntese" de Volin e o da Plataforma não são em si contraditórios, eles revelam as mesmas preocupações. As razões pelas quais Volin, de um lado, e os redatores da "Plataforma", do outro, não chegaram a se compreender mutuamente ficam obscuras a meus olhos. Quando, em 1928, o anarquista francês Sébastien Faure elaborou, por sua vez, uma "síntese", aquela de Volin acabou por se tornar praticamente oculta, principalmente porque Volin se aliou às posições de S. Faure. No movimento libertário, praticamente não se escuta mais falar da síntese de Volin, que não tem nada a ver com aquela de S. Faure. Volin se tornou um adversário implacável da Plataforma.

IEL: Sobre a Plataforma organizacional de Archinoff e Makhno, o que você teria a dizer?
RB: Falando do anarquismo, Archinov faz a constatação de que durante a revolução russa "nenhuma teoria político-social poderia ter se fundido tão harmoniosamente com o espírito e a orientação da revolução. As intervenções dos oradores anarquistas em 1917 eram ouvidas com uma confiança e uma atenção raras pelos trabalhadores". Mas, diz ele, "poderia parecer que a união do potencial revolucionário dos operários e dos camponeses, e a potência ideológica e tática do anarquismo, representariam uma força à qual nada poderia se opor. Infelizmente, essa fusão não aconteceu. Anarquistas isolados realizaram às vezes uma atividade revolucionária intensa no seio dos trabalhadores, mas não houve organização anarquista de grande amplitude para conduzir ações mais sucessivas e coordenadas (para além da Confederação do Nabat e da Makhnovchtchina na Ucrânia). Somente uma tal organização poderia ter ligado ideologicamente os anarquistas e os milhões de trabalhadores[5]." Infelizmente, diz ainda Archinov, os anarquistas se restringiram, em sua maioria, a atividades limitadas de pequenos grupos, eles não saíram de suas conchas grupusculares, "no lugar de se orientar no sentido das ações e das palavras de ordem políticas de massa". Eles preferiram "afogar-se no mar de suas disputas por território" e não tentaram sequer uma vez "pôr e resolver o problema de uma política e de uma tática comuns ao anarquismo". "Devido a essa carência, eles se condenaram à inação e à esterilidade durante os momentos mais importantes da Revolução social".

As causas desse estado catastrófico residem na dispersão do movimento, na desorganização, na ausência de uma tática coletiva que quase sempre "foram erigidas em princípio com os anarquistas". Essa experiência trágica "levou as massas trabalhadoras à derrota". As massas trabalhadoras são instintivamente atraídas ao anarquismo, "mas elas só trabalharão com o movimento anarquista quando forem convencidas de sua coerência teórica e organizacional". O que diz Archinov da situação do movimento anarquista na Rússia poderia textualmente ser dito sobre a França.

Em outro texto, Archinov refuta a ideia que somente a repressão do poder impediu o anarquismo de se desenvolver na Rússia. A repressão bolchevique foi apenas uma das causas, a outra sendo a "ausência de um programa prático determinado do pós-revolução"[6]. O diagnóstico que Archinov fez (e Makhno também) do movimento anarquista russo raramente pode ser contestado.

Refugiado em Berlim, Archinov e seus camaradas editam O Mensageiro anarquista, em russo, cujos sete números aparecem entre 1923 e 1924. Makhno e Archinov decidem se instalar em Paris, onde eles fundam a revista Dielo Trouda. Em 1926, eles publicam um projeto de plataforma organizacional para uma União geral dos anarquistas, conhecida sob o nome de "plataforma de Archinov", mas que é a obra de um coletivo de militantes. Toda a produção do grupo à época vai consistir em fazer a análise crítica da intervenção dos anarquistas durante a revolução e em propor soluções, viáveis, segundo eles, não somente para a Rússia, mas também para o movimento internacional. A principal razão do fracasso do movimento anarquista residiria na "ausência de princípios firmes e de uma prática organizacional consequente". Por isso, é indispensável ser elaborado um programa homogêneo e coerente.

A plataforma se subdivide em três partes:

- Uma parte geral que estabelece os princípios fundamentais do comunismo libertário;

- Uma parte construtiva concernente aos problemas da produção, do consumo, da defesa da revolução;

- Uma parte consagrada aos princípios gerais da organização anarquista, a necessidade da coerência ideológica, tática, a responsabilidade coletiva, o federalismo, etc.

Esses são essencialmente os princípios organizacionais da plataforma, ainda que muito vagamente expostos, que chocaram os porta-vozes do movimento anarquista europeu. Archinov declarou de fato que "não se pode ter direitos sem obrigação, como não se pode ter decisões sem sua execução", o que obviamente chocou uma boa parte do movimento anarquista da época que acusaram os "plataformistas" de copiar o bolchevismo.

O fato de que uma decisão deve ser aplicada, uma vez que ela foi coletivamente decidida, parece ter sido compreendido como uma violação à liberdade e à independência individuais. O princípio da responsabilidade coletiva é vivamente contestado pelo movimento anarquista da época, isto é, a ideia que cada militante da organização representa essa organização nos seus atos e é responsável diante dela, da mesma forma que a organização é a expressão coletiva de militantes individuais. É considerada como uma outra prova de autoritarismo inaceitável na Plataforma o fato de que há um comitê executivo encarregado da "execução das decisões tomadas pela União, das quais esta lhe encarregará", de "orientação teórica e organizacional da atividade das organizações isoladas, de acordo com as opiniões teóricas e à linha tática geral da União", de "evidenciar o estado geral do movimento" e da "manutenção das ligações de trabalho e organizacionais entre todas as organizações da União, assim como com outras organizações". Esse "comitê executivo" vai fazer escorrer muita tinta... negra.

Uma releitura atenta da "plataforma" não revela nada mais que o banal para qualquer um que é filiado a uma associação banal, nada que dê espaço à diabolização. Mesmo em uma associação de futebol existe um "comitê executivo" eleito, encarregado da execução das decisões tomadas. A insistência de Archinov sobre o fato de que a "plataforma" era um projeto negociável, no qual alguns aspectos podiam ser adaptados, poderia ter tranquilizado os anarquistas da época. O historiador que se interroga sobre a rejeição desta plataforma pelo movimento anarquista dos anos 20 deverá, sem dúvida, examinar de perto qual era a composição sociológica do movimento na época, a que tipo de atividade se consagrava e em quais meios. O militante que relê esse documento hoje se satisfaz em perguntar por que Archinov e Makhno se exilaram na França em vez da Espanha[7]...

No número 23-24 da revista Dielo Trouda, Archinov escreve que "os autores da plataforma partiram do fato da multiplicidade das tendências contraditórias do anarquismo, não para se dar a tarefa de os unir em um todo, o que é absolutamente impossível, mas de efetuar uma seleção ideológica e política das forças homogêneas do anarquismo e ao mesmo tempo se diferenciar dos elementos caóticos, pequeno-burgueses (liberais) e sem raízes do anarquismo". As palavras podem parecer duras, mas é necessário compreender que os militantes como Makhno e Archinov, uma vez que eles fizeram a constatação do estado do movimento anarquista da época, chegaram a uma conclusão bastante rápida sobre o caráter pequeno-burguês de uma parte do movimento.

IEL: Em linhas gerais quais as principais características do modelo de síntese proposto por Sebastien Faure?
RB: Sébastien Faure redigiu um documento no qual ele defendia a ideia de "síntese" das três correntes do movimento anarquista[8], mas se equivocando sobre a noção de síntese. "Segundo os eventos, os meios, as fontes múltiplas de onde jorram as correntes que compõem o anarquismo, a dosagem dos três elementos tende a variar. Na análise, a experimentação revela a dosagem; na síntese, o corpo composto se reforma e se, aqui, este elemento prevalece, pode ser que, lá, seja este ou aquele outro". Eis um ponto de vista que pode se revelar sedutor no papel, mas que na prática se revela inoperante. De fato, Sébastien Faure veio a se perguntar como a reunião de esses três elementos, "longe de ter fortificado o movimento libertário, pôde como resultado o enfraquecer": é, diz ele, "unicamente a posição que eles tomaram uns em relação aos outros: posição de guerra aberta, feroz, implacável"; assim, o movimento se esvaziou do melhor de seu conteúdo "no lugar de se unir na batalha contra o inimigo comum: o princípio de autoridade." Pode-se constatar que Sébastien Faure definiu o anarquismo menos pela luta contra o capitalismo do que pela luta contra a autoridade.

O primeiro comentário que poderíamos fazer é que a aproximação de Faure se assemelha muito à do ecletismo, isto é, essa abordagem que consiste em pegar em doutrinas diversas, supondo o que elas tenham de melhor, deixando o resto de fora, e fazer um "coquetel" com esses elementos. Essa abordagem, que Bakunin ataca ferozmente, é qualificada por ele de "prato metafísico" e de "vinagrete filosófico".

Em segundo lugar, uma síntese não é uma fusão. Fazer a síntese de diversas ideias consiste em ponderar o que elas têm em comum, de oposto e em seguida ultrapassar essas concordâncias e oposições. Uma síntese é uma outra coisa, diferente, em natureza, dos elementos que a compõem. Se uma síntese dos elementos que compõem o anarquismo fosse viável, não teríamos uma adição de seus elementos coexistindo graças à "tolerância" que eles teriam um pelo outro, mas alguma coisa essencialmente diferente.

A abordagem de Volin foi de certa forma dinâmica, que não petrificou os elementos dos quais ela era constituída: ela pode ser efetivamente considerada como uma tentativa real de síntese. Não se pode dizer o mesmo pela tentativa de Sébastien Faure. A organização que ele prevê não é mais que um lugar onde coexistem correntes do movimento libertário, mais ou menos pacificamente.

Eu não posso me pronunciar sobre o funcionamento de organizações "sintetistas" fora da França, mas no que concerne à Federação anarquista francófona, se examinarmos atentamente de um lado o próprio texto de Sébastien Faure, do outro os "princípios de base" da FA, e enfim sua prática, notamos que há um desvio real. Essa constatação é, no meu entender, expressiva do fato de que a Federação anarquista é uma estrutura viva capaz de evoluir: é uma falácia dizer que um grupo humano só pode funcionar se ele aplicar estritamente os princípios sobre os quais é fundado.

Seria a Federação anarquista francófona realmente "sintetista"? De fato, de forma alguma. Primeiro, seus "Princípios de base" - seu documento fundador, de certo modo - não menciona, em parte alguma, a "síntese". Em segundo lugar, já que a "Síntese" de S. Faure evoca a coexistência de três correntes: anarquismo comunista, sindicalista e individualista, os princípios de base da FA não fazem qualquer referência ao individualismo! Por outro lado, eles evocam "a possibilidade e a necessidade da existência de todas as tendências libertárias no seio da organização". Se a FA tivesse sido "sintetista", não há dúvida de que os "Princípios de base" teriam mencionado o individualismo. Em suma, a Federação anarquista francófona é simplesmente uma organização libertária na qual existe o direito de tendências.

IEL: Qual sua opinião sobre os debates que acontecem hoje sobre essas experiências históricas?
RB: Os debates sobre a síntese de Volin não tiveram uma amplitude importante. Já os debates sobre a Plataforma, iniciados a partir da publicação do texto, cessaram consideravelmente rápido, por serem rapidamente esquecidos durante 50 anos. Houve, na França, algumas tentativas de se criar grupos plataformistas, mas eles não tiveram um desenvolvimento importante. Nesse país, como na Espanha, a questão da Plataforma não sobressaiu, pois essa última não trazia muito a mais do que o movimento libertário já praticava. A questão do plataformismo reapareceu depois do Maio de 68, quando uma parte do movimento libertário pensou encontrar nela a solução à sua incapacidade de intervir realmente nos eventos. A Plataforma parece ter posteriormente migrado em direção à Grã-Bretanha, depois em direção à América do Norte e do Sul.

* O projeto da Plataforma
A Plataforma de Archinov tinha o projeto de reformar o movimento anarquista como um todo, mas não se pode negar que ela tenha aparecido em um contexto histórico preciso, o do movimento anarquista francês dos anos 20, que não havia mudado muito desde os anos 1890. Para compreender a rejeição da qual a Plataforma foi objeto, parece menos importante nos demorarmos no conteúdo em si da Plataforma do que no estado do movimento anarquista francês (e italiano, talvez) da época. É necessário levarmos em consideração a improvável diversidade das sensibilidades que existiam, então, no movimento libertário e o predomínio do pensamento individualista, mesmo naqueles que se reivindicavam do comunismo libertário: era a época na qual um tal Lorulot fazia conferências sobre "Nossa inimiga, a mulher", quando ele afirmava que as mulheres eram frívolas e impediam seus homens de militar[9]. Havia ainda no movimento anarquista pessoas que se opunham à redução do tempo de trabalho porque isso desviaria os operários da revolução... Jean Grave havia publicado em 1911, em Les Temps Nouveaux (Os Tempos Novos), um inventário avassalador do movimento anarquista desse período[10], que todo militante anarquista de hoje deveria ler[11]. Insisto no fato de que, para compreender a Plataforma de Archinov, é necessário compreender qual era o estado do movimento anarquista francês da época; é necessário também saber que, mesmo na Rússia, o movimento anarquista antes e durante a revolução se parecia muito com seu homônimo francês.

* O estado do debate hoje
Qual é o estado do debate hoje? Um autor que foi um militante da FA de longa data escreveu que "apesar das expectativas de seus promotores, não somente o debate plataforma/síntese não contribuiu à realização da unidade do movimento, mas ele vai aumentar mais o desnorteameto entre os libertários e então, enfim, atrapalhar o trabalho de revisão necessário das posições anarquistas tradicionais que no entanto a situação impunha".

O autor acrescenta que já que se esqueceu que o que estava em jogo não era mais que duas opções dentre as outras, o debate ficou engessado, provocando uma ruptura no movimento anarquista francês, uma "crise que nunca foi verdadeiramente superada ainda hoje e cujo desnorteamento organizacional e ideológico da Federação anarquista atual, espécie de monstro híbrido semiplataformista, semissintetista, é o exemplo mais marcante"[12].

Manfredonia engana-se sobre esse último ponto: eu penso que a Federação anarquista evidentemente não é "meio plataformista": mas eu ainda penso que ela não é mais a "síntese", nem em parte, nem completamente. Hoje, as organizações comunistas libertárias que foram constituídas originalmente na França sobre as bases do plataformismo não mais se referem a ele verdadeiramente; elas o consideram como ultrapassado, como demonstrado pelas palavras de um militante conhecido da Alternativa libertária, uma organização normalmente considerada como "plataformista".

"Na França, o debate só se apaziguou nos anos 1990. René Berthier ou Gaetano Manfredonia propuseram abordagens não apaixonadas da questão[13]. A muito sintetista Federação anarquista (FA) na verdade se afastou do catecismo de Sébastien Faure. A União dos trabalhadores comunistas libertários (UTCL), constituída em 1976, de sua parte havia evoluído rapidamente em direção a uma ultrapassagem da Plataforma da qual ela retinha mais o espírito que a letra - Alternativa libertária se situa nessa continuidade.[14]"

Na França, grupos locais "sintetistas" e "plataformistas" trabalham juntos sobre questões práticas. Ainda que uma certa distância se mantenha, não é sobre os desacordos teóricos, mas sobre as questões de comportamento. Um grupo anarquista americano exprime seu ponto de vista sobre o plataformismo com um sentido tipicamente anglo-saxão do subentendido: "Enquanto sua seriedade organizacional e seu engajamento nas lutas de massa são exemplares, a influência de certas formas e práticas (...) que lembram aquelas dos grupos trotskistas é evidente". ("Our Anarchism", First of May Anarchist Alliance). Esses militantes estadunidenses compreenderam perfeitamente que o problema não era o plataformismo em si, mas as "formas e práticas" das organizações plataformistas - algumas dentre elas, em todo caso. Na França, a maior parte dos jovens militantes da Federação anarquista não têm qualquer interesse no debate "Síntese-Plataforma".

* Os "plataformistas" sobre o "sintetismo"
É interessante ver o que os "plataformistas" pensam dos "sintetistas". Em um site hoje inexistente, Anarchistblackcat, poderíamos ver a opinião de um jovem militante, sem dúvida hispanófono, C., respondendo a um velho militante anarcossindicalista após a publicação de um artigo extremamente moderado, muito argumentado, mas sem concessão, que havia sido publicado por Georges Fontenis[15]. Segundo esse jovem camarada, ainda que Fontenis lutasse para dar consistência ao movimento revolucionário, lutando contra o nazismo, o franquismo e o imperialismo francês, seus opositores (os "sintetistas", por consequência), "preferiam editar jornais culturais, fazer propaganda que somente eles liam, falando e falando coisas sem significado. Eles estão contentes: não ‘trairão' jamais. Sim, eles não vão realizar nunca qualquer mudança social. Mas isso não tem importância, claro". De uma maneira rudimentar, essa afirmação reflete suficientemente bem, ainda hoje, a opinião plataformista sobre a Federação anarquista francófona e, poderíamos supor, a opinião geral dos plataformistas sobre o "sintetismo". O "velho" militante anarcossindicalista concluiu suas palavras lembrando que "esses anarquistas vaporosos que se opõem à organização realizaram um certo número de coisas", tais como um jornal semanal, uma rádio, uma livraria em Paris e em outras grandes cidades do país, uma estrutura de edição, etc. "Eu também adoraria que C. me explicasse como pessoas tão inconsistentes puderam fazer tudo isso, sem mesmo falar de organização de um encontro internacional em 2012."!

Existe outro documento relativamente recente redigido do ponto de vista de um "plataformista" chamado Scott Napalos, no qual os méritos respectivos de duas correntes estão evocados[16]. Nappalos afirma a necessidade de um reagrupamento do movimento libertário e avalia que presenciamos uma "larga convergência das práticas e dos conceitos próximos de diferentes organizações que começaram de pontos de partida diferentes e com diferentes tradições", mas ele observa "fortes diferenças no seio das organizações, e de um ponto de vista interno, a maioria das organizações possui pessoas que se movimentam em diferentes direções". A solução seria uma "transformação substancial das orientações em forças existentes". Nappalos acrescenta: "Inevitavelmente, isso requer conflitos, cisões, e a ruptura de organizações existentes em diferentes tendências que naquele momento se combatem de maneira interna. Isso deve ser visto de forma favorável, pois esclareceria nossas orientações e aliviaria algumas de nossas paralisias internas." (sublinhado pelo entrevistado). E Nappalos acrescenta: "é um risco, mas um risco necessário." Tudo isso naturalmente está previsto do ponto de vista do proletariado: "Em um tal período, as lealdades organizacionais e ideológicas devem ser consideradas em favor dos interesses do proletariado e do movimento como um todo".

Em nome do rigor, da coesão, da unidade de pensamento, o autor fomenta então os conflitos, as cisões e as rupturas. Durante um longo tempo, era dessa maneira que o plataformismo foi considerado na França. O ponto de vista de Nappalos é a ilustração da tentação permanente dos militantes que "superintepretam" o plataformismo e o transformam em caricatura. Há algo de patético no fato de fomentar rupturas quando fazemos parte de uma organização, em última análise, microscópica.

Nappalos nos dá no seu texto uma amostra significativa da maneira na qual os "plataformistas" percebem o "sintetismo". Entretanto, sobre um ponto ele tem razão: o "sintetismo" não é uma teoria. Mas ele erra quando escreve que ninguém se refere explicitamente ao "sintetismo". As organizações aderentes à Internacional das federações anarquistas se referem ao sintetismo e as pessoas que aderem às organizações, membros do IFA, o fazem sobre essas bases.

"O sintetismo agrupa pessoas que não têm um nível básico de unidade sobre a estratégia e frequentemente sobre a teoria. O exemplo clássico são as ‘federações anarquistas' (em particular na Europa, embora na história recente dos EUA tenha havido uma Federação anarquista social revolucionária que permitia que diferentes tendências contraditórias existissem na mesma organização sem qualquer unidade fundamental). Um exemplo atual seriam as federações anarquistas francesa e italiana na Internacional das federações anarquistas, que são fortemente inspiradas na síntese, e que reúne pessoas sobre a base de um anarquismo largamente concebido, incluindo até os individualistas."

Mas qualquer que seja a verdade contida no que diz Nappalos, o erro principal que ele faz é dar crédito demais aos discursos sem observar os fatos. Na FA, existem diferenças de opinião, mas elas não são quase nunca a consequência do fato de uns serem anarco-comunistas e outros anarcossindicalistas, ou algo do tipo. Os congressos da FA não são lugares onde se pode ver conflitos permanentes entre anarquistas sem adjetivo, anarco-comunistas e anarcossindicalistas, ou até individualistas, conduzindo à paralisia; são lugares onde os militantes podem ter divergências razoavelmente polidas sobre questões práticas, às vezes também posições bastante vigorosas. Mas essas divergências de opinião não se fundem ao fato de que uns e outros se referem a correntes diferentes supostamente "contraditórias" do anarquismo: essas divergências existem porque as pessoas não estão simplesmente sempre de acordo uns com os outros.

Hoje, Nappalos vê a Federação anarquista francesa como uma organização que permite "tendências contraditórias variadas de existir todas na mesma organização sem qualquer unidade fundamental" (loc. cit.). O problema é que eu nunca constatei na FA uma corrente "individualista" (ou então ela é bem discreta); eu descobri apenas recentemente que um camarada que eu conheço há anos se diz anarquista "individualista" - o que eu ignorava totalmente. A questão nos interessava tão pouco, a ele e a mim, que não havíamos abordado a questão.

Na FA, eu tenho a impressão de que existe sobretudo anarquistas sem adjetivo, anarquistas-comunistas e anarcossindicalistas, ou militantes que não são nem um nem outro, ou os dois, isto é, anarquistas sem adjetivos. Em todo caso, desde que eu observo os fatos, constato que essas tendências existentes na FA não são contraditórias: ao contrário, elas praticam uma colaboração bastante eficaz, na qual a demonstração se encontra na constatação dos projetos que ela realiza.

Há algo de insuportavelmente paternalista na atitude de Nappalos. Segundo ele, o sintetismo só concerne aos anarquistas de segunda classe, que desenvolvem o "patriotismo de organização" (é bem conhecido que as organizações plataformistas não desenvolvem jamais "patriotismo de organização"...). Nappalos recorre à expressão "lower case ‘a' anarchists". Não consegui achar uma tradução satisfatória dessa expressão, compreensível para as pessoas que conhecessem o jargão da imprensa. Falar de "anarquistas de caixa baixa" é uma forma de dizer "anarquistas de segunda classe".

Segundo Nappalos, as organizações "sintetistas" limitam sua atividade a questões não essenciais, tais como a "subcultura" (sub-culture), as "redes militantes", "a política de protesto", "a anti-globalização e os movimentos anti-guerra" onde eles têm um "papel produtivo a atuar".

Nappalos conclui suas palavras dizendo, em resumo, que o sintetismo produziu sua própria crítica: "grupos que emergiram desses meios desenvolveram suas críticas da paralisia das organizações sintetistas, da ausência de educação e de engajamento de seus membros, de sua atitude anti-estratégica e de sua incapacidade a se adaptar às condições mutáveis". Evocando o contexto norte-americano, Nappalos afirma que essa situação conduziu pessoas a se virarem para ideologias do passado para procurar o caminho para além do sintetismo, que seja sob a forma do leninismo, do maoísmo, do plataformismo, do "especifismo" ou da "cadre-orgnization"[17].

As reflexões de Nappalos são de um real interesse, ele levanta verdadeiras questões, mas infelizmente se deixa levar por uma visão do sintetismo um tanto arcaica. Ele parece convencido de que as organizações "sintetistas" de hoje não evoluíram desde 1928, que a realidade não teve efeito sobre eles, que as práticas dessas organizações se restringem estritamente a essas representações velhas dos anos 90. Eu tenho a impressão de que Nappalos tem uma visão do sintetismo que não evoluiu há 90 anos.

* Podemos ser "sintetistas" hoje?
Eu concebo que a FA não é para Nappalos a principal de suas preocupações, mas, na medida em que ela aparece, quer queiramos ou não, como uma das referências do "sintetismo", é necessário reagir a suas palavras estereotipadas. Lembremos que, em uma organização "sintetista", três correntes supostamente coabitam em uma atmosfera de tolerância mútua. Contudo, em 1928, essas três correntes se enfrentavam vigorosamente, tanto na França como na Rússia, de onde vinham os redatores da "Plataforma": é, aliás, da constatação das divisões do movimento anarquista que nasceu o projeto da "Plataforma". Os individualistas se opuseram à ideia de organização; diversos anarco-comunistas eram antissindicalistas, e diversos sindicalistas não compreendiam a necessidade de uma organização anarquista. Aliás, o próprio Sébastien Faure constatou o fracasso de seu projeto de síntese, uma vez que ele reconheceu que esse projeto não contribuía à unificação do movimento libertário e que as diferentes correntes que o compunham estavam "em posição de guerra aberta, feroz, implacável"! O próprio fundador fez a primeira crítica impiedosa do "sintetismo" no mesmo documento onde expõe sua "síntese"!

Da mesma forma que nos países industriais desenvolvidos, o "plataformismo" se dissolveu em si mesmo, de certa forma, a ideia da síntese no sentido que entendia Sébastien Faure perdeu sua razão de existir. Procurando bem, podemos encontrar sem dúvida na Federação anarquista uma ou duas pessoas que se declaram individualistas, mas seu comportamento militante não se distingue em nada daquele de seus camaradas anarquistas "sociais", e em todo caso, não há tendência ou corrente individualista na organização. Quanto às corretes anarquista-comunista e anarcossindicalista, suas práticas de certa forma se fundiram e não é fácil distinguir uns dos outros. Em suma, estamos lidando com os anarquistas sem adjetivo. Essa evolução não resulta de uma escolha deliberada, mas da força das coisas. Não se encontra no congresso da Federação anarquista correntes (anarquista-comunista, anarcossindicalista ou individualista) que se enfrentam, mas grupos que possuem visões diferentes em função de suas práticas e que discutem suas orientações a tomar e que colaboram juntos para realizar seus objetivos.

Uma certa divisão do trabalho se instaurou, não sobre as bases teóricas ou ideológicas, mas simplesmente práticas, no sentido em que os trabalhadores assalariados têm bastante tendência a participar na comissão sindicalista da FA (mas não somente) e que os outros se entregam a atividades mais específicas ou participam em combates que Nappalos qualifica com desdém de menores, mas que são essenciais, no domínio do feminismo, do antirracismo, da ecologia, da antiglobalização, da oposição às guerras, etc. Por exemplo, assumir um programa semanal na "Radio Libertaire" representa um trabalho considerável. Considerar isso como uma "subcultura" é absurdo, pois uma transmissão de rádio escutada por dezenas ou centenas de milhares de pessoas participa plenamente da luta de classes e do combate libertário.

A Federação anarquista não é uma organização na qual as correntes anarquista-comunista, anarcossindicalista e individualista acampam sobre suas posições entrincheiradas, provocando o imobilismo: é uma organização na qual a diferença entre essas três opções aparece ultrapassada, em que ninguém é indiferente à questão da liberdade e da emancipação do indivíduo porque é um elemento constituinte do anarquismo sem adjetivos, no qual diferentes abordagens da luta juntam-se e exprimem-se no momento do congresso, e isso não deve mudar. A Federação anarquista atravessou numerosas crises desde 1945 e é essa capacidade de adaptação que permitiu de as superar, o que não foi o caso de muitos outros grupos anarquistas. Ela soube realizar, graças à colaboração de todos, um conjunto de coisas que a colocam bem sobre o terreno da eficácia.

Reformular o anarquismo?
Como resolver essa aparente contradição entre "síntese" e "plataformismo"? Talvez voltando a Bakunin. A partir de sua adesão à Internacional, a atividade do revolucionário russo consistiu em encorajar o desenvolvimento da organização de massa dos trabalhadores, isto é, a organização de tipo sindical. Pode-se dizer, com Gaston Leval, que ele foi um precursor do sindicalismo revolucionário[18]. A primeira Internacional, tal como era entendida pela corrente federalista próxima de Bakunin, considerava que a atividade sindical não devia se limitar à ação reivindicativa na empresa, mas que ela devia também se estender à atividade fora de lá, de múltiplas formas, pela criação de caixas de socorro, de cooperativas, de bibliotecas, de ateneus, etc., isto é, toda estrutura de ajuda mútua ou cultural imaginável, suscetível não somente a melhorar a situação dos trabalhadores, mas também a permitir que eles tenham a vida mais agradável e cheia de cultura. A atividade revolucionária não devia se limitar à luta direta contra o capital e o Estado, ela devia também organizar a ajuda mútua sob todas suas formas, organizar o esforço de ajuda mútua, além de encorajar ou estimular o bem-estar coletivo dos trabalhadores em toda e qualquer tipo de atividade cultural. Todas as coisas que são retomadas por diversos grupos anarquistas hoje, que são ainda consideradas com desdém por certos "plataformistas" rígidos, porque elas não seriam atividades diretamente ligadas à luta de classes. Esses militantes esquecem simplesmente que a luta de classes está em todos os lugares, inclusive compreendida na vontade das classes dominantes de manter o povo na inação e na ignorância.

Da experiência de duas estadas de um mês eu tive no Brasil, eu constato que são sobretudo os grupos libertários não "plataformistas" (quer se declarem ou não "sintetistas"), que estão na origem de iniciativas (às quais os grupos "plataformistas", aliás, participam de bom grado) tais como feiras anarquistas, etc. Sem dúvida, essas iniciativas são consideradas como relevantes do "life-style anarchism", tanto criticado pelos plataformistas. Parece, porém, evidente que a ofensiva do capitalismo contra o povo trabalhador ultrapassa também largamente do quadro da empresa para se estender a todos os aspectos da vida. O movimento anarquista qualificado de "sintetista" é muito ativo nessas diferentes esferas de atividade, porque são lugares onde se desenrola um combate contra o sistema dominante.

Seja a "síntese" uma referência concreta correspondente a uma prática efetiva, ou simplesmente uma referência histórica ultrapassada, as organizações "sintetistas" praticam um tipo de "diversificação do trabalho" totalmente conforme às recomendações da AIT anti-autoritária, no sentido de que seus membros investem em esferas de atividade diferentes em função de suas escolhas ou de suas condições efetivas de existência. Pode-se supor que um militante que trabalhe em uma usina ou em um hospital não tenha a mesma atividade, enquanto anarquista, quanto um estudante, o que não impedirá uma certa forma de interpenetração, aliás.

As organizações "plataformistas" de seu lado deveriam se lembrar que os militantes da AIT anti-autoritária recomendaram a diversificação da atividade como garantia da eficácia revolucionária. Elas deveriam também se lembrar que os autores da Plataforma convidavam o movimento libertário a discutir sobre seu próprio conteúdo. O movimento anarquista da época cometeu um grande erro ao rejeitar essa abertura, mas isso não justifica que hoje os plataformistas se fechem em uma rejeição arrogante ao diálogo.

Aí talvez se encontre a base de uma real reformulação do movimento anarquista, que não deverá jamais esquecer que só foi potente pela existência de uma organização de massa.

Conclusão
Os aspectos negativos do movimento anarquista do anos 20 devem ter chocado Archinov e Makhno, quando eles chegaram na França, mas é necessário insistir no fato de que o movimento anarquista francês não podia de jeito algum ser reduzido a isso... De fato, havia uma corrente revolucionária formada pela CGT-SR, animada por anarcossindicalistas: essa organização se formou no mesmo ano da publicação da Plataforma de Archinov, 1926, e reuniu milhares de membros. Infelizmente, Makhno e Archinov parecem ter ignorado essa organização.

Com retrospectiva - e depois de 90 anos, podemos dar um passo para trás, o que, antes de mais nada, motivou Makhno e Archinov foi a constatação da incapacidade do movimento libertário francês em tomar decisões. Destaco que não era, de maneira alguma, o caso da Espanha. Não se trata, portanto, de um caso congênito ao anarquismo. A CNT espanhola tinha um milhão de membros em 1930 e, por ter chegado lá, era necessário que existisse na organização instâncias nas quais as orientações fossem discutidas e votadas. Essas instâncias não existiam no movimento anarquista francês (e italiano, eu acho: Malatesta dizia que um congresso era apenas uma reunião sem poder decisório em que estavam expostos diferentes pontos de vista)[19].

Mas essas instâncias existiam na Itália, na União sindical italiana, uma organização anarcossindicalista ativa que foi esmagada por Mussolini: esses militantes eram perfeitamente capazes de tomar decisões, como por exemplo sua recusa de aderir à Internacional sindical vermelha.

Então, se a plataforma de Archinov traz alguma coisa de novo em relação ao movimento anarquista francês (e italiano), ela não traz absolutamente nada de novo em respeito ao movimento anarcossindicalista espanhol - e ao movimento anarcossindicalista em geral, incluindo o francês. Pois, se lemos o estatuto da CGT-SR, uma organização anarcossindicalista francesa formada em 1926, o mesmo ano da plataforma de Archinov, achamos exposto um conjunto de estruturas federalistas nas quais os membros discutem orientações e votam decisões. Os estatutos da CGT-SR são no mínimo tão "autoritários", senão mais, que o conteúdo da plataforma de Archinov. É significativo que a plataforma de Archinov tenha criado no movimento anarquista francês uma tal agitação, ao passo que os estatutos da CGT-SR, mais "autoritários", na minha opinião, não tenha suscitado tais reações.

Podemos dizer, em resumo, que o diagnóstico feito por Makhno e Archinov foi correto. Mas a plataforma de Archinov não trazia nada de novo em respeito ao que já existia na época. Se ninguém sonhasse em condenar o "autoritarismo" dos estatutos da CGT-SR, mas o fizesse com a plataforma de Archinov, é, na minha opinião, simplesmente porque a plataforma de Archinov se dirigia (ingenuamente, eu diria) aos anarquistas, enquanto os estatutos da CGT-SR tratava do movimento operário revolucionário, dos anarcossindicalistas.

Na França dos anos 20, o movimento anarquista operário e revolucionário encontrou-se mais no movimento sindical, no movimento anarcossindicalista, do que no movimento anarquista "específico".

Makhno e Archinov infelizmente não o compreenderam: na Plataforma, eles interpretaram o sindicalismo revolucionário como um simples movimento profissional sem teoria política e social: eles passam assim ao lado da própria essência do sindicalismo revolucionário, do qual se pode dizer o que for, mas não que não havia teoria social e política[20].

É claro que, na França, o debate a favor ou contra a plataforma é apenas um debate histórico. É necessário, eu acho, lembrar que a plataforma de Archinov data de 1926 e que a teoria do anarquismo sintetista data de 1928, em reação à plataforma. Eu penso que nem de um lado, nem de outro podemos nos referir a ideias, a formas de organização datadas de 90 anos, sem considerar sérias adaptações.

[1]A promoção da iniciativa individual aparece frequentemente nos textos dos militantes anarquistas comunistas da época. É uma preocupação legítima, mas é difícil imaginar a implementação da iniciativa individual quando a questão será produzir e distribuir a eletricidade a dezenas, talvez a centenas de milhões de pessoas. Ou de regular os transportes ferroviários (é verdade existem muito pouco no Brasil) ou aéreos. Eu penso que uma tal insistência na iniciativa individual é compreensível quando a perspectiva permanece local. Esses militantes sem dúvida tinham dificuldade de se projetar em uma perspectiva nacional, quiçá continental.

[2]"A centralização econômica, condição essencial da civilização, cria a liberdade; mas a centralização política a mata, destruindo em benefício dos governantes e das classes dominantes a vida própria e a ação espontânea das populações. (Bakunin, "Au sujet de la poursuite de Necaev", Oeuvres, Champ libre, V, 61.) Esse é um aspecto pouco conhecido do pensamento político de Bakunin. Por centralização econômica, entende-se a tendência da moderna sociedade industrial de organizar atividades produtivas em escala maior e mais complexa. O anarquista está, assim, nos antípodas de uma concepção baseada na pequena produção artesanal e descentralizada, "pequeno-burguesa" como dizem os marxistas.

[3]"Da Síntese", La Revue Anarchiste, Março-Maio 1924

[4]Eu aconselho vivamente aos camaradas a ler o artigo de Gaetano Manfredonia, presente no Itinerário nº 13, "O debate Plataforma ou síntese".

[5]"Os 2 Outubros", op. cit., p. 193.

[6]"Os problemas construtivos da revolução social", 1923, in Os Anarquistas russos e os soviets, Spartacus, p. 198.

[7]Os anarquistas espanhóis contataram Makhno em 1931 para que ele pegasse a direção de uma guerrilha na Espanha do Norte. Ele escreveu, em 1932, em um jornal anarquista russo dos Estados Unidos: "Na minha opinião, a FAI e a CNT devem dispor (...) de grupos de iniciativa em cada vila e cada cidade, e eles não devem temer pegar em mãos a direção revolucionária estratégica, organizacional e teórica do movimento dos trabalhadores. É evidente que eles deverão evitar nessa ocasião de se unir com os partidos políticos em geral, e com os bolcheviques-comunistas em particular, pois eu suponho que seus comensais espanhóis serão os dignos repetidores de seus mestres." (Citado por Alexandre Skirda, Os cossacos da liberdade, p. 330, ed. JC Lattès.)

[8]"A síntese anarquista de Sébastien Faure", in Volonté anarchiste, nº 12, edição do grupo Fresnes-Antony.

[9]"Nossa inimiga, a mulher". - A respeito de uma conferência de André Lorulot (1921). http://monde-nouveau.net/spip.php?article140.

[10]http://monde-nouveau.net/spip.php?article521

[11]Amédée Dunois fez também uma análise dos espaços impiedosos do movimento anarquista francês em 1908, no dia seguinte ao congresso anarquista internacional de Amstedã. Ele expõe assim as diferentes tendências do movimento:

"1) Anarquistas que acreditam em grupos, mas aos quais falta influência, cultura e - também muito frequentemente - seriedade;

"2) Anarquistas influentes, instruídos, honrados, que não querem ouvir falar em organização;

"3) Anarquistas sindicalistas para os quais o agrupamento ideológico se tornou uma redundância vã;

"4) Anarquistas afiliados ao Partido socialista e que, não obstante, permanecem fiéis ao espírito, ou às fórmulas, do anarquismo.

"Com tais elementos, não se faz uma organização anarquista."

[12]Gaetano Manfredonia, "O debate plataforma ou síntese", Itinéraire n° 13, Volin, 1995.

[13]René Berhier, "Acerca dos 80 anos da Revolução russa", Le Monde Libertaire, 18 de dezembro de 1997. David Berry, A History of the French Anarchist Movement 1917-1945.[Nota de G. Davranche]

[14]Guillaume Davranche: "1927: Com a Plataforma, o anarquismo tenta a renovação." http://www.alternativelibertaire.org/spip.php?article1596.

[15]"Caminho de um aventureiro do movimento libertário", Le Monde Libertaire, nº 1604, 16-22 setembro, 2010. (http://www.monde-libertaire.fr/portraits/13723-georges-fontenis-parcours-dunaventuriste-du-mouvement-libertaire-1/2) English version: "Journey of an adventurist of the Libertarian movement", http://monde-nouveau.net/spip.php?article371

[16]"Towards Theory of Political Organization for Our Time", Part I. https://libcom.org/library/towards-theory-political-organization-our-time-part-i-trajectories-struggle-intermediate

[17]"Cadre organization" pode significar "organização de quadros". Sem erro de minha parte, isso deveria significar organizações dominadas por elites políticas de militantes. Uma "cadre organization" não é necessariamente, como disse Joel Olson, "uma organização de vanguarda, como pensam de maneira errônea certos anarquistas. É simplesmente um grupo de intelectuais engajados, ativos, revolucionários, que dividem uma política comum e que se reúnem para desenvolver um pensamento e uma prática revolucionários e que os verificam na luta. Por ‘ativo', eu quero dizer alguém que está implicado na luta política, não somente um leitor de livros. Por ‘intelectual', eu não quero dizer alguém com um diploma, mas alguém que faz um esforço sério, contínuo, para compreender o mundo a fim de melhor o combater". (Joel Olson, "Movement, Cadre, and Dual Power". http://www.anarchist-studies.org/node/544). A descrição que faz J. Olson, que continua em algumas linhas, concilia de maneira surpreendente a "cadre organization" do que deveria ser a Aliança bakuninista.

[18]Gasto Leval Bakunin, fundador do sindicalismo revolucionário, ed. L'Humanisme Libertaire, s.l., 1970-1971, n.p. 15][aBNF, CDA]. Cf. http://monde-nouveau.net/ecrire/?exec=article_edit&id_article=3

[19]Errico Malatesta, "Um Projeto de Organização Anarquista" (1927). http://www.nestormakhno.info/portuguese/mala_reply_pt.htm#malatesta2

[20]Ver o texto da "Plataforma": "Considerando o sindicalismo revolucionário unicamente como um movimento profissional de trabalhadores que não possui uma teoria social e política determinada e, por consequência, que é impotente em resolver por si só a questão social, avaliamos que a tarefa dos anarquistas nas categorias desse movimento consiste em desenvolver ideias libertárias, se dirigir em um sentido libertário, afim de a transformar em um exército ativo da revolução social". "Plataforma de Archinov." (Círculo de estudos libertários.)

Originalmente publicado: https://ielibertarios.wordpress.com/2019/01/12/organizacao-tradicoes-revolucionarias-e-transformacao/

https://ligarj.wordpress.com/2019/02/03/organizacao-tradicoes-revolucionarias-e-transformacao/
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