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(pt)(ca) Jaime Cubero

From "Nelson" <mendezn@camelot.rect.ucv.ve>
Date Mon, 14 Dec 1998 21:28:36 -0400
Cc <a-infos@tao.ca>


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               ( a d e u s   a   J a i m e   C u b e r o )

                   [LIBERA...,Ano 8 -Jun/98, Rio de Janeiro, Brasil]

   No ultimo dia 20 de maio, as 6h, depois de longa e insidiosa doenca,
falecia na UTI do Hospital Voluntarios de Sao Paulo o companheiro Jaime
Cubero. Contava com 71 anos completados em 5 de abril ultimo; nao deixou
filhos nem posses, mas uma farta heranca politica, intelectual e etica para
seus muitos herdeiros espalhados pelo Brasil.

   Nascido em Jundiai de uma familia de pobres imigrantes operarios, e ele
mismo sapateiro por muitos anos, ate ser conduzido ao jornalismo por Edgard
Leuenroth, teve desde cedo uma aguda, concreta e por vezes dolorosa
experiencia da questao social. Assumidamente anarquista desde os 13 anos de
idade, dotado de uma inteligencia rara e de bons dotes oratorios,
persuasivo, solidario e possuidor de uma rara e fina ironia que era o seu
_granun salis_. Jaime, juntamente com seu irmao Francisco, foi um dos
grandes responsaveis pela mantencao e ampliacao das atividades libertarias
em Sao Paulo, por quase cinco decadas.

   E muito dificil para mim - que o conheci recem-saido da adolescencia em
1972 - Tracar um quadro objetivo de suas atividades e de seus pensamentos,
meu envolvemento pessoal com ele foi muito grande para tanto. Jaime, como
tantos anarquistas desde Bakunin, cativava mais pelo gesto, pelo ato e pelo
exemplo, do que convencia pela argumentacao. Para ser totalmente honesto,
um quadro de sua personalidade deveria estar recheado de detalhes concretos
de episodios biograficos, e nao de encomios descritivos, pois para ele -
como para os antigos gregos os Misterios de Eleusis - o Anarquismo tinha
que ser primordialmente vivido e nao explicado. Como nos misterios, o
discurso era importante, mas sem a pratica poderia degenerar-se em um
galimatias, ou em mero protocolo de boas intencoes servindo mais a uma
conspiracao de belas-almas, que a uma Revolucao Social efetiva.

   Nao quero com isso dizer que seu discurso fosse tropego ou mal
costurado, ao contrario, era um dos melhores oradores que ja conheci, habil
tanto nas conferencias que preparava formalmente e com esmero, quanto nas
situacoes mais polemicas em entrevistas (que sao muitissimas), debates e
mesas redondas ou na veemencia militante dos discursos em manifestacoes,
intervencoes em assembleias e congressos, discussoes com autoridades ou
antagonistas, etc.. Embora o discurso fosse forte, o que cativava era a sua
atitude, era o detalhe de seu cotidiano, aparentemente banal, mas
conscientemente construido sobre os axiomas libertarios, que para ele eram
os solidos fundamentos de seus imperativos eticos.

   Lembro-me que, de inicio, nao compreendi corretamente esta vinculacao de
etica, cotidiano e politica. Em meio a ditadura de Medici, circundado pela
patriotada oportunista e de mau-carater dos militares e seus aulicos de um
lado, e pelos delirios da esquerda autoritaria com seu jargao falido, por
outro, nao estava habituado a pensar a conexao do agir politico com a
etica, confundindo muitas vezes tal conceito com as moralidades de ocasiao
com que nos brindam aos borbotoes as ideologias de todos os matizes. Foi
duro aprender a licao mas esta foi uma das coisas mais importantes que
aprendi na vida: que o socialismo e indissociavel de uma etica social, que
a propria etica, ao inves de um codigo arbitrario, um devaneio de poeta ou
uma simples mascara ideologica e, ao contrario, como queriam bem antes de
Lukaks um Proudhon e um Kropotkin, uma ontologia do ser social. Aprendi
que, portanto, nao existem fatalismos ou determinismos na Historia, que a
luta pelo socialismo pouco tem que ver com uma obra de engenharia social
capitaneada por tecnocratas revolucionarios de qualquer matiz.

   Este aspecto da etica permeava toda a atividade do Jaime, e neste ponto
refletia a influencia de um de seus grandes mestres, o pensador libertario
Mario Ferreira dos Santos. O Anarquismo como a luta concreta pela justica
social, a inseparabilidade dos ideais e das atitudes na vida, esta vivencia
do Anarquismo, sao a segunda licao importante que ele nos deixou. Nao era
um asceta, mas totalmente desapegado dos bens materiais, pois a acumulacao
nao se coaduna bem com a abolicao da propriedade; deste modo, salvo as
cuantias que reservava para a sua modesta manutencao e da sua companheira,
seus "luxos" de livros e alguns jantares com amigos, e um pequeno peculio
para a velhice, ele investiu tudo o que possuia nas atividades do
movimento, como um dia uma sua biografia ira demonstrar.

   Durante os tempos duros da decada de 70, a sua sapataria servia de ponto
de encontro para os militantes paulistas, brasileiros e, ate mesmo,
internacionais. Grande parte do ressurgir do interesse pelas ideias
libertarias, a partir de 1975, deveu-se a este seu desprendimento, que era
tambem o de sua familia proxima (sua companheira, seu irmao Francisco e sua
cunhada). Nao conheco muitos exemplos entre os "herois da resistencia"
tupiniquins de tal coragem simples, modesta, mas tremendamente efetiva. Nao
conheco muitas pessoas que naqueles tempos soturnos arriscassem com tanta
simplicidade seu ganha-pao e bem-estar de seus familiares em prol de um
ideal politico. Tal coragem manifestava-se sem os ouropeis da empafia, sem
buscar fama ou reconhecimento -- fazia-se o que deveria ser feito e ponto
final: simples, modesta, monolitica e tal grandeza anonima de anarquistas,
que jamais se tornarao nomes de ruas ou terao estatuas em praca publica,
que me fez persistir no movimento, que me fez acreditar que a anarquia e
possivel e viavel, desde que as pessoas realmente se empenhem para
construi-la.

   Que me seja permitido citar um pequeno episodio ocurrido durante a
"Revolucao dos Cravos", em 1974; os companheiros portugueses necessitavam
desesperadamente de literatura anarquista, dado o seu vertiginoso
crescimento. Nos, por outro lado, possuiamos muito material remanescente do
Centro de Cultura Social (CCS) que lhes poderia ser util (brochuras em
portugues de Faure, Malatesta, etc.), mas o problema era a ferrea censura
dos Correios. Jaime conseguiu a informacao de que algumas agencias possuiam
autonomia para "fechar" pacotes, isto e, poderiam elas mismas verificar e
selar a correspondencia que desta forma nao seria aberta pela Censura no
Correio Central, a entao desenvolveu o seguinte estratagema: ele tinha
muita amizidade com a chefe de uma destas agencias: enchia caixas de sapato
vazias com os panfletos, recobria-os com material comum (revistas,
panfletos religiosos, etc) e despachava-os como sendo "intercambio
cultural" para um endereco relativamente discreto no Porto. As caixas de
sapato, seladas na agencia nunca despertaram suspeitas e todo o material
chegou seguramente as maos dos companheiros portugueses...

   Um ultimo aspecto que gostaria de ressaltar de sua personalidade e mais
dificil de definir; alguns denominavam tolerancia, outros, como o
companheiro Evaldo em seu velorio, humanidade, eu prefiro simplesmente
chamar de amplitude, elasticidade mental.

   De fato, ele tinha uma capacidade imensa de conviver e dialogar com a
diversidade que o fazia um arauto e um embaixador natos. Seu aspecto
franzino, seus olhinhos castanhos e miopes transmitiam a quase todos que o
conheceram uma sensacao de compreensao e camaradagem, sua voz atenorada
raramente se exaltava. Sabia discutir maieuticamente, compreendendo o
outro, mas jamais abrindo mao de suas posicoes fundamentais, estes dons
pessoais o tornavam naturalmente persuasivo e empatico -- um Kropotkin sem
barbas... Deste modo era benquisto e conseguia dialogar com todos: punks e
religiosos; operarios e intelectuais. Considerava a amplidao da mente como
essencial ao anarquista, que nao concebia como um ser dogmatico; uma de
suas definicoes preferidas de Anarquismo era a de "um conjunto de
postulados gerais e convergentes, derivados de algumas ideias-forca
fundamentais como a liberdade, a responsabilidade e o anti-autoritarismo".
Consequentemente, sujeitava as deducoes destes axiomas basicos a uma
continua e constante revisao. Ja em 1969, por exemplo, era um leitor atento
de Georges Friedmann, que previa em seus livros o esfacelamento do trabalho
humano devido a automacao e, consequentemente, inquietava-se com o futuro
do anarco-sindicalismo, que, ao seu ver, necessitava levar em conta as
transformacoes concretas do mundo do trabalho.

   Esta sua amplidao de espirito reflete-se, talvez melhor que em qualquer
outra parte, em sua biblioteca pessoal, rica em quase 3.000 volumes
distribuidos por quase todas as areas de conhecimento; em seus ultimos
dias, por exemplo, dedicava-se a reler Herodoto, alternado-o com Joyce...
Quando fui admitido pela primeira vez em sua casa, espantei-me ao ver
organizados, em lugar de destaque, obras de Nietzche e vinte volumes de uma
colecao sobre o liberalismo americano, com textos de Jefferson, Franklin,
Stuart Mill, entre outros, recebendo dele a explicacao, chocante para mim
na epoca, de que era preciso conhecer bem uma corrente de pensamento que
tinha influenciado uma Revolucao que tinha formado a mentalidade de uma
parcela ponderavel da populacao do planeta, e imediatamente argumentou que
Rudolf Rocker tambem tinha dedicado um livro importante ao pensamento
liberal nos EUA. O papel reacionario do estado americano deveria ser
contestado, mas as ideias politicas nao poderiam ser censuradas, mas sim
debatidas...

   Outro exemplo interessante e o volume de obras sobre religiao que ela
abriga (120 volumes); ateu convicto e anticlerical militante, nem por isso
desdenhava a importancia da religiao na historia da humanidade;
preocupava-se principalmente com a fuga para o misticismo caracteristica
das epocas de crise e, ao estudar o fenomeno religioso, pretendia elucidar
tais mecanismos e, deste modo, vemos ao lado de Bakunin e Fourier, biblias,
tratados islamicos e livros espiritas. Ao lado de classicos do Anarquismo,
vemos Lenin, Stalin, Plinio Salgado, alem de obras de Historia, Sociologia,
Antropologia e Psicanalise, isto sem mencionar as centenas de volumes de
literatura desde classicos como Dostoievski, Hugo, Balzac ou Tolstoi ate os
autores mais modernos.

   O conhecimento para ele tinha uma funcao revolucionaria, nao se tratava
de esgrimir argumentos em justas academicas, mas sim de utilizar as
informacoes disponiveis para resolver problemas concretos, para avancar a
luta social.

   Mesmo sem o saber, o mundo fica mais pobre sem o Jaime, com tanto
desgracado para morrer e a natureza nos prega essa peca... Mas vai
companheiro, vai para longe pois assim talvez talvez te transformes na
estrela incorruptivel no ceu de nossos coracoes, vai que te dedicaremos uma
arvore para que a semente de teu trabalho nao demore a dar os ansiados
frutos. Adeus Jaime Cubero.

         PELA ANARQUIA ATE A ALFORRIA FINAL!

                                        _Jose Carlos Orsi Morel_


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