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(pt) quebrando muros: VITÓRIA DA REVOLUÇÃO CURDA CONTRA O ESTADO ISLÂMICO!

Date Mon, 4 May 2020 08:28:22 +0300


As Forças Democráticas da Síria declararam no dia 23 de Março de 2019 a derrota do califado do ISIS e a perda territorial de 100% das forças fundamentalistas de extrema-direita. ---- Na sexta-feira, dia 22/03, onde tremulavam as bandeiras negras do Estado Islâmico, no sábado, amanheceram as amarelas e verdes das Forças Democráticas Sírias (SDF). Neste dia, o povo curdo homenageou as e os milhares de mártires cujos esforços tornaram possível a vitória contra a extrema-direita fundamentalista. Desde o início desta década, curdos, sírios e voluntários internacionais têm lutado bravamente e incessantemente em defesa da população de Rojava, no norte da Síria. Juntos, eles derrotaram o califado do ISIS e libertaram milhões de seu terror.
Tal conquista somente foi possível graças a quem esteve na linha de frente contra a extrema-direita fundamentalista religiosa. Assim, é vitória da luta dos curdos, das YPG (Unidades de Autodefesa Popular) e YPJ (Unidades de Autodefesa Feminina), bem como das forças de apoio, como o IFB (Batalhão Internacional da Liberdade), o IRPGF (Forças Populares Guerrilheiras Revolucionárias Internacionais), a T.A. (Luta Anarquista), entre outras tantas. Foram cerca de 9.490 mulheres e homens, principalmente curdos, que deram suas vidas pela causa. Mais de 2.000 árabes e 45 internacionais também caíram. Suas lutas jamais serão esquecidas

Bandeira do Estado Islâmico é retirada por lutadoras do YPJ em Baghouz. Fonte: Página oficial de Facebook do YPG
A conquista não significa, no entanto, o fim da luta das guerreiras e dos guerreiros de Rojava. A influência política que o grupo fundamentalista possui na região, apesar de ter sido derrotado, é grande, e o ISIS, que ainda possui muitos militantes, tem capacidade de atrair simpatizantes para realizar ações para desestabilizar seus inimigos. Ainda há muita luta para travar, principalmente contra a invasão Turca, desencadeada pelo presidente Erdogan, que conta com a cumplicidade dos EUA. Assim, o processo revolucionário segue sendo construído!

Mártires nunca morrem!
Sehid Namrin!

A Revolução Curda
A vitória contra o Estado Islâmico, concretizada no povoado de Baghouz (fronteira com o Iraque), é mais uma das conquistas de um processo revolucionário que se desencadeia no Oriente Médio há mais de quatro décadas. Os curdos, originários da Mesopotâmia, são conhecidos por constituir a maior minoria étnica sem Estado-nação no mundo. Estão, atualmente, localizados numa região entre Turquia, Irã, Iraque, Síria e Armênia, cujas fronteiras foram definidas artificialmente pelas potências imperialistas (principalmente Inglaterra e França), mediante inúmeros tratados firmados sem envolver qualquer participação e consulta dos que ali viviam.

Tal cenário propiciou que os curdos desencadeassem uma série de levantes e lutas, culminando, nos fins dos anos 1970, na criação do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) - tendo, inicialmente, orientação marxista-leninista. Nas décadas seguintes, a ideologia do partido começa a ser revista e, a partir de 1990, ele se populariza e passa a contar com ampla participação de mulheres, que criam suas próprias organizações, pautadas na autonomia, visando implementar suas decisões. Ao ingressar no PKK, as mulheres desenvolvem uma crítica muito forte ao Estado, devido a relação com a colonização e que assume frente a mulher.

Portanto, é constituída uma crítica ao Estado e à perpetuação e intensificação da exploração das mulheres realizadas por ele. Tais ideias crescem e modificam o paradigma marxista-leninista do PKK. Em consequência, é desenvolvido um novo paradigma a partir das críticas ao Estado-nação e suas dominações de gênero, étnicas e de classe - que não trazem libertação para o povo. Trata-se do confederalismo democrático, paradigma anticapitalista, pautado na democracia direta e organizado de baixo para cima. Neste modelo, as decisões são tomadas por todos e todas, uma vez que são discutidas e definidas localmente, sem hierarquias e prezando pela participação feminina.

Combatentes das Unidades de Defesa Feminina comemoraram a vitória histórica sobre o ISIS com uma cerimônia militar
Deste modo, a revolução constrói uma luta com caráter de autogestão, em que os revolucionários não se dividem entre governados/governantes ou massa/vanguarda revolucionária. Além disso, a revolução é construída majoritariamente por mulheres, que, apesar da mídia ocidental retratar, nos últimos anos, de forma fetichizada, como combatentes armadas ferozes que enfrentam o Estado Islâmico, elas na verdade se articulam através de uma prática política radical e um pensamento profundo há décadas.

A luta das mulheres curdas e a Jinealogia
Localizando a raiz histórica da opressão e injustiça social, econômica e cultural no surgimento de hierarquias de gênero no período neolítico, as mulheres curdas constituem um movimento que luta contra as estruturas sociais patriarcais, o que implica lutar contra as estruturas opressivas do Estado-nação capitalista. A libertação das mulheres assume um papel central para mudar radicalmente a realidade, que não pode ser compreendida sem vincular as opressões capitalistas, estatistas e de gênero. É a partir de concepções anticolonialistas, anticapitalistas e antipatriarcais que as mulheres curdas vêm desenvolvendo a jinealogia (jin = mulher), que consiste na ciência ou no estudo das mulheres.

Dessa forma, a Jinealogia compreende que as transformações de gênero precisam ocorrer dentro da sociedade e que isso deve acontecer desde já, e não no futuro. Nesta concepção, a luta contra o capitalismo, o Estado-nação e o patriarcado, senão travada em conjunto, é falha. A jinealogia entende as conexões entre o patriarcado, o capitalismo e Estado-nação, partindo da ideia de que se deve lutar partindo da correlação entre os três. Assim, se lutamos contra o capitalismo e o Estado-nação, mas não identificamos o patriarcado como parte do problema, e, por consequência, o secundarizamos, então não entendemos nada.

Nesse sentido, é importante elucidar que a jinealogia não é uma forma de feminismo - apesar de alguns já a terem denominado feminismo curdo -, embora o respeite e entenda sua importância. Falta ao movimento feminista, segundo a jinealogia, uma perspectiva holística, de todo o conjunto de problemas de uma sociedade, especialmente no Oriente Médio. Contudo, de longe a jinealogia quer se colocar enquanto alternativa ao feminismo, visando substituí-lo. Aliás, as mulheres curdas consideram as discussões feministas muito importantes.

Assim, como podemos ver, temos muito a aprender com as mulheres curdas, reconhecendo que o feminismo ocidental ainda possui muitas limitações. A jinealogia deve ser fortalecida e compreendida em sua complexidade, e ela demonstra a importância das mulheres e de uma luta que não se limita a combater o capitalismo e o Estado-nação sem também lutar contra o patriarcado.

Por fim, ela é mais uma construção de um processo revolucionário que muito tem a nos ensinar e muito tem avançado no Oriente Médio. A revolução é mais uma prova de que há meios de se lutar contra o capitalismo e criar formas auto organizadas, autônomas e verdadeiramente democráticas de se organizar socialmente.

A derrota o califado do ISIS é uma vitória do povo curdo, das mulheres e dos socialistas sobre o fundamentalismo de extrema direita no Oriente Médio.

Vida longa à Revolução Curda!
Morte ao fascismo, morte ao imperialismo!

https://quebrandomuros.wordpress.com/2019/03/29/vitoria-da-revolucao-curda-contra-o-estado-islamico-%e2%9c%8c/
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