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(pt) Federação Anarquista do Rio de Janeiro Libera #162 - Tempo de eleições: Entrevista com a federação Anarquista uruguaia

Date Sat, 13 Sep 2014 16:16:22 +0300


Em setembro de 1999, a revista intitulada "Zurda", vinculada a um novo grupo da Frente Ampla*, fez uma reportagem com a fAu no período eleitoral. Fizeram-nos a seguinte pergunta: "Por que os anarquistas não votam?". Nossa Organizaçãod eu sua opinião sobre o tema e a Revista publicou na íntegra todas as considerações apresentadas.Segue abaixo o texto da entrevista. --------- [...] todo jogo eleitoral cumpre fins que tendem à legitimação dosistema. [...] é vital ao sistema esta legitimação e esta ficção de participação popular, que cumpre ao mesmo tempo o papel de expropriação da soberania popular. --------- Zurda - Por que os anarquistas não votam? ---- fAu - Mais uma vez nos fazem esta pergunta. Uma pergunta que, obviamente, não tem uma resposta simples. É o equivalente a perguntar: Como o anarquismo concebe o mecanismo político? O anarquismo
considera que há um nível político
específico e que se deve atuar nele?
As práticas políticas não são todas
da mesma ordem, não tem algo em
comum que as constitui e lhes dá
um perfil inconfundível? As eleições
não são parte substancial de toda
prática política?

A categoria política está constituída
sobre bases tão fluidas (muitas delas
polêmicas) que esta lista de pergun-
tas, correspondentes a uma mesma
constelação de questões, poderiam
ampliar-se muito mais.

É importante pontuarmos, antes de
tudo, que seria um atrevimento de
nossa parte querer falar em nome
do anarquismo. O anarquismo é
uma ideologia, uma doutrina, com
muitas matizes.Assim, respondemos
aqui como fAu, como uma organiza-
ção política anarquista que já tem 43
anos de existência e uma trajetória
na qual fizemos,com coerência,o que
foi possível em função de seu projeto.

O anarquismo não é um dogma,
nunca colocou-se como tendo em
suas mãos a verdade revelada. Con-
sequentemente, sempre agiu ao mes-
mo tempo no campo social, no trabalho
crítico e reflexivo. E muito desta atitude
está presente na fAu.
Pensamos, obviamente, que os con-
textos históricos estão constan-
temente apresentando diferentes
formas e através de momentos de
grande importância. O que podemos
chamar de "etapas do capitalismo"
carrega determinados elementos
específicos. E o específico é questão
de primordial importância para ana-
lisarmos tanto o tema que estamos
tratando, como uma formação social,
ou um período pertencente a uma
mesma estrutura de dominação do
sistema capitalista. Mas não acredita-
mos que o específico anule o geral. É
verdade que, no percurso do século
que está por terminar, montaram-se
teorias, estabeleceram-se paradig-
mas falando-nos, com certezas cien-
tíficas, de totalidades quase inques-
tionáveis. Hoje muitos destes funda-
mentos teóricos, destes paradigmas
e epistemes, são altamente ques-
tionados e alguns caíram por terra.
Mas houve muita coisa positiva
que as lutas e o pensamento so-
cialista produziram. E também,
por que não dizer, muitas pesqui-
sas independentes sobre temas
particulares que abriram campos
de reflexão e trouxeram novos
elementos para novos discursos.

Dentro do que foi produzido pelo
pensamento socialista, corrobora-
do em boa parte pelas experiên-
cias sociais, estão teorias sobre os
mecanismos de reprodução do sis-
tema vigente. Mecanismos básicos
que, mesmo em contextos sociais
altamente diferenciados, operam
de maneira semelhante. Como um
conjunto básico de "peças" relacio-
nadas, articuladas, que possibilitam
algumas coisas e impedem outras.
Permitindo, por exemplo, que a ri-
queza e a pobreza cresçam; que
os distintos poderes fundamentais
estejam sempre nas mãos de uma
minoria privilegiada; que os meios
de comunicação conformem "ide-
ais", "valores" e padrões "culturais",
reafirmando do sistema vigente.

Então, falar de eleições é fazer alu-
são a uma "peça" de uma estrutura
de poder que é muito mais ampla.

Sabemos que não é simples colocar
certas propostas em nossa época,
quando o aparato ideológico do
sistema, a guerra aberta à solida-
riedade e a tudo o que possa gerar
culturas de cooperação, acabam ali-
mentando a fragmentação e a atomização,
em que cada um pensa somente em si.

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Nós, anarquistas da fAu, votamos em muitas situações e
instânciascomo sindicatos, cooperativas, centros populares
e estudantis, plebis- citos populares. O problema não é o
voto nem a democracia. A ques- tão é a que mecanismo pertence
tal voto e de que democracia falamos.
----------------------------------------

Porque essa agressividade ideológica,
por parte dos mesmos que dão
por encerrada a própria ideologia, a
história e outras questões, tentam
utilizar-se de fatos históricos, tais
como as chamadas "experiências
socialistas" que tiveram um triste
final, para gerar a desmobilização
moral e combativa das populações.
Mas a verdadeira alternativa socia-
lista está aqui, diante de nós, não
é uma elaboração feita de fora das
experiências históricas. Mas, com
seus erros e acertos, é um produto
autêntico que compreende as ânsias
de justiça e liberdade dos povos. Se-
ria importante começar a se refor-
mular uma crítica mais rigorosa so-
bre tudo aquilo que fez naufragar a
alternativa de estruturar uma socie-
dade sobre bases diferentes das da
miséria que sustenta este sistema.

Dentro das reflexões - que muitos
já se fazem - está o papel repre-
sentado pelas eleições num sistema
como o atual. Há participação em um
processo como as eleições? Repre-
sentam uma autêntica democracia?
Se o elaborado discurso "moderno"
serve para nos inserirmos nessa es-
trutura, para deixarmos que tudo
siga da mesma maneira; para termos
a ilusão de que estamos fazendo
grandes transformações políticas,
então não há dúvidas de que as elei-
ções, enquanto ação política clássica,
representam atualmente o espaço
privilegiado para isso. Permitidas e
altamente desejadas por aque-
les nossos conhecidos de sempre.

Mas há algumas coisas sobre o fun-
cionamento do sistema, seu caráter
classista, seus mecanismos de poder
e reprodução que o socialismo assi-
nalou, e em especial o socialismo
de matriz libertária.Esses mecanismos
tem uma dinâmica perversa e seria
puro voluntarismo e idealismo pro-
curar subvertê-los utilizando-se de
seus próprios meios. Não são oni-
potentes e podem ser enfrentados e
desestruturados, mas... não a partir
de dinâmicas que o retroalimentam.

Assim, todo jogo eleitoral cumpre
fins que tendem à legitimação do
sistema. Seguindo a vida de manei-
ra regular, alternado com alguma
ditadura quando convém, é vital
ao sistema esta legitimação e esta
ficção de participação popular, que
cumpre ao mesmo tempo o papel
de expropriação da soberania po-
pular. Mas esta fantasia, que ocul-
ta os núcleos duros de poder, não
é ingênua, é muito exigente. Para
participar dela é preciso despir-se,
somente são aceitos os que vem
com pouca roupa. Num documen-
to da fAu, de 1969, dizíamos: temos
que ir "buscando a aprovação dos
poderosos: FMI, capital internacio-
nal, militares... ter bom comporta-
mento, rebaixar programas, criticar
duramente as culturas combativas".

As regras do jogo da burguesia são
fortes e envolventes, costuram com
um invisível fio de aço. Por isso,
mesmo com tantas pessoas bem
intencionadas, é pouco ou nada
o que podem fazer e, na maioria
das vezes, o ambiente da estrutu-
ra política "faz suas cabeças". Em
tal contexto é preciso ter atenção
a cada passo que se dá; há pouco
tempo um político da Frente Am-
pla disse que sua ida às eleições
havia significado perdas de voto.

Esse mecanismo de democracia
virtual parece estar se desgastan-
do de modo geral, no Uruguai mais
lentamente. Este "carrossel" que
troca políticos, partidos, constitui-
ções; que alterna de lugar períodos
social-democratas, democratas, par-
tidos tradicionais, e que não deixa
nada de novo ou positivo. É hora
de pensar em práticas políticas di-
ferentes. Não bastam discursos com
adornos modernos e tratando de
assuntos atuais. A questão parece
ser a de avançarmos em direção a
práticas e estratégias que superem
as instâncias que não dão lugar ao
novo. Ainda mais se o novo busca
mudanças profundas e urgentes.

Ouvimos todos os dias que vivemos
uma outra época. Mas repetem-se as
mesmas velhas e fracassadas recei-
tas. Claro que vivemos uma época
assombrosa em termos de avanços
técnico-científicos, como a robótica,
a cibernética e a genética fazendo
maravilhas. Temos meios de comu-
nicação instantâneos, que parecem
mágica. Mas junto com toda essa ma-
ravilha, que muito apreciamos, tam-
bém temos mais populações mise-
ráveis, mais devastação do meio am-
biente, mais invasões brutais e geno-
cídios. E tudo isso não é casualidade.

Nós, anarquistas da fAu, votamos
em muitas situações e instâncias
como sindicatos, cooperativas, cen-
tros populares e estudantis, plebis-
citos populares. O problema não é
o voto nem a democracia. A ques-
tão é a que mecanismo pertence tal
voto e de que democracia falamos.

Nestas circunstâncias, quando a
agressão ideológica do sistema é
alta, quando os meios de comuni-
cação têm a cada dia maior poder
de fabricar opiniões, quando co-
ordenar-se e mobilizar-se se torna
uma tarefa difícil, quando a miséria
do povo cresce, quando o proje-
to neo-liberal dizima os pobres do
mundo, quando os discursos dos se-
tores de esquerda e de intelectuais
tornam-se lavados e confusos, faz-se
imperativo contar com orientações
precisas e firmes. Há uma busca - na
qual se encontra muita gente - de
ferramentas que permitam a unida-
de do povo para a luta por suas im-
periosas e urgentes necessidades. É
nessa busca que nós queremos estar.

Repetiríamos mais uma vez que a
questão não é emitir um voto a cada
cinco anos, mas sim o que fazemos
durante esses cinco anos nessa luta
que deve ser cotidiana.

Tradução e Revisão: FARJ

Nota: Frente Ampla - Coalizão eleitoral
de centro-esquerda do Uruguai, fundada
em 1971, da qual integram vários partidos
políticos e organizações da sociedade civil.

Texto original: http://federacionanarquistau-
ruguaya.com.uy/?p=951
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