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(pt) Núcleo Anarquista Resistência Cabana NARC - Puxirum #1 - MARIA LACERDA DE MOURA Uma anarquista brasileira (en)

Date Mon, 12 May 2014 17:36:41 +0300


Um dos temas da história do movimento operário e, particularmente, do anarquismo, que até hoje tem sido pouco pesquisado é o da presença feminina. Na história do anarquismo, e do socialismo no seu conjunto, a atuação das mulheres, mesmo não sendo rara, é significativamente menor do que a masculina. Existem razões de sobra que explicam esse fato. Em primeiro lugar, na composição do operariado que viria a gerar esses movimentos, a percentagem de mulheres foi, ao longo de muitas décadas, muito inferior à dos homens. Por outro lado, a cultura familiar reacionária, ou revestida de valores conservadores, estava bem presente no mundo operário do século XIX e primeira metade do século XX, fazendo com que as mulheres acabassem, mesmo nos movimentos sociais, sendo empurradas para uma posição subalterna, ligada a velhos preconceitos associados a ideias como "fragilidade feminina", papel "maternal" das mulheres, ou da sua "passividade".

É certo que em muitos casos era
tão-só a histórica divisão de papéis
sociais que relegava as mulheres para
uma função doméstica que
contrariava, ou dificultava, a sua
militância social. Talvez por isso, entre
as mulheres que mais se destacaram
no movimento anarquista, exista um
número importante de personagens
femininas que optaram por uma vida
pessoal independente, onde o
casamento e uma relação familiar mais
tradicional, ou até a maternidade,
foram recusadas em nome da
liberdade e da autonomia.

Evidente que o papel das
companheiras e cúmplices -
sentimentais e de ideias - dos
anarquistas, e dos militantes operários
em geral, foi de tal forma relevante que
constituiu, por si mesmo, uma
destacada presença feminina no
movimento. Ainda que um feminismo
pseudo-radical, incapaz de situar
histórica e culturalmente as relações
de gênero, veja nessa relação ou em
aspectos tradicionais das relações
dentro das famílias dos militantes
operários e anarquistas a prova
irrefutável da manutenção de valores
machistas e de sujeição das mulheres
nos movimentos antiburgueses.
A cultura operária anticapitalista
sempre procurou valorizar os direitos

intrínsecos e específicos das
mulheres. Era também comum, na
imprensa e literatura libertárias, a
crítica das instituições familiares, do
casamento burguês e a defesa do
amor livre, tematização que alguns
pensadores individualistas chegaram a
dar um relevo especial. Foi o caso de
Emile Armand e Han Ryner. Mulheres
libertárias, como Emma Goldman,
também deram uma particular atenção
ao tema.

Apesar de tudo isso, nomes como
Mary Wollstonecraft, companheira de
William Godwin e precursora do
feminismo, Flora Tristán, Louise
Michel, Voltarine de Cleyre, Lucy
Parsons, Tereza Mané, Federica
Monteseny, May Picqueray, Giovanna
Caleffi e Luce Fabri, deixaram
profundas marcas nos movimentos
sociais e no pensamento libertário de
seus respectivos países. No Brasil,
Edgar Rodrigues, na sua obra "Os
Companheiros", que reúne em cinco
volumes uma ampla pesquisa
biográfica de militantes anarquistas,
lista o nome de 52 mulheres que
tiveram especial relevância no
movimento social no período que vai
do final do século XIX à metade do
século XX.
Entre estas mulheres, Maria
Lacerda de Moura merece um lugar à
parte, não só pela sua personalidade
combativa, pela sua múltipla atividade
de escritora e conferencista, como pelo
destaque que chegou a ter, não só no
Brasil, como em outros países da
América do Sul, tendo os seus textos
divulgados em Portugal, na França e,
principalmente, na Espanha. Nascida
em Minas Gerais a 16 de maio de 1887,
desde jovem se interessou pelo
pensamento social e pelas ideias
anticlericais. Formou-se na Escola
Normal de Barbacena, em 1904,
começando logo a lecionar nessa
mesma escola. Inicia então um
trabalho junto às mulheres da região,
incentivando um mutirão de
construção de casas populares para a
população carente da cidade.
Participou da fundação da Liga Contra
o Analfabetismo. Como educadora,
adotou a pedagogia libertária de
Francisco Ferrer y Guardia. Após se
mudar para São Paulo, começou a dar
aulas particulares e a colaborar na
imprensa operária e anarquista
brasileira e internacional. No jornal "A
Plebe" (SP) escreveu principalmente
sobre pedagogia e educação. Seus
artigos foram também publicados por
jornais independentes e progressistas,
como "O Combate", de São Paulo, e
"O Ceará" (1928), de Fortaleza, de
onde se extraiu o texto "Feminismo?
Caridade?", bem como em diferentes
jornais operários e anarquistas de todo
o Brasil.

Ativa conferencista, tratava de
temas como educação, direitos da
mulher, amor livre, combate ao
fascismo e antimilitarismo, tornando-se
conhecida não só no Brasil, mas
também no Uruguai e na Argentina,
onde esteve como convidada de
grupos anarquistas e sindicatos locais.
Entre 1928 e 1937, a ativista libertária
viveu numa comunidade em
Guararema (SP), no período mais
intenso da sua atividade intelectual,
tendo descrito esse período como uma
época em que esteve "livre de escolas,
livre de igrejas, livre de dogmas, livre
de academias, livre de muletas, livre de
prejuízos governamentais, religiosos e
sociais".

Maria Lacerda de Moura pode ser
considerada uma das pioneiras do
feminismo no Brasil e uma das poucas
ativistas que se envolveu diretamente
com o movimento operário e sindical.
Entre os seus numerosos livros
destacam-se: "Em torno da educação"
(1918); "A mulher moderna e o seu
papel na sociedade atual" (1923);
"Amai e não vos multipliqueis" (1932);
"Han Ryner e o amor plural" (1928) e
"Fascismo: filho dileto da Igreja e do
Capital" (s/d).

Maria Lacerda de Moura é
praticamente desconhecida no Brasil,
onde um certo feminismo parece
querer ocultar aquela que seria uma
das primeiras e mais importantes
ativistas das causas das mulheres,
mas que nunca reconheceu no Estado,
no Direito e no acesso profissional
burguês à sua causa. Na verdade, isso
acontece porque, antes de tudo, via
generosamente a luta feminista como
parte integrante do combate social
compartilhado igualmente por homens
mulheres engajados na luta pela
eliminação de toda exploração,
injustiça e preconceito. Talvez por isso
mesmo, ela seja ainda um símbolo
incômodo para toda a sociedade
conservadora, até para o atual
conservadorismo feminista, mero
arrivismo social de classe média em
busca do seu lugar ao sol no Estado e
no capitalismo, tal como foi para as
sufragistas da classe média e das
elites do seu tempo. A militante
anarquista morreu em 1945, no Rio de
Janeiro.

"Sou "indesejável", estou com os
individualistas livres, os que sonham mais
alto, uma sociedade onde haja pão para
todas as bocas, onde se aproveitem todas as
energias humanas, onde se possa cantar um
hino à alegria de viver na expansão de todas
as forças interiores, num sentido mais alto -
para uma limitação cada vez mais ampla da
sociedade sobre o indivíduo".
Maria Lacerda de Moura
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