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(pt) Periódico CNT N°377: Entrevista com Ferrán Aisa

Date Wed, 28 Sep 2011 15:45:33 +0200


[Entrevista com Ferrán Aisa, um de nossos historiadores mais importantes, poeta e
escritor de ampla obra centrada, basicamente, na cultura anarquista em Catalunha e
no pensamento obreiro.]
Antonio Orihuela > Ferrán, o que foi o movimento operário?
Ferrán Aisa < Ao final do franquismo reapareceu na Espanha um movimento operário
muito combativo que foi anulado pelo PCE com seu controle sobre as Comissões
Obreiras. Em outro aspecto foi importante o reaparecimento da CNT com um crescimento
proveniente da norma estabelecida pelos projetistas do novo sistema político. Nesta
transição do franquismo ao sistema democrático burguês se combateu com todas as
armas ao movimento trabalhista autônomo e libertário e, com a colaboração das
burocracias sindicais, se desmobilizou o movimento obreiro. Desde então, todavia,
não surgiu nada que tenha força suficiente para voltar a mobilizá-lo e como vimos na
última greve geral de 29 de setembro, a "mobilização" fica sem fundamento no dia
seguinte, uma vez que a direção toma outro rumo e contra os próprios trabalhadores
firma pactos avessos em nome dos trabalhadores. E ninguém pede responsabilidades ou
demissão, nem se rebelam...


Antonio > Ateneus, bibliotecas obreiras, educação laica, esporte não-competitivo,
teatro, poesia... Tudo foi comido entre o Estado e a sociedade de consumo?

Ferrán < A realocação das empresas, novos polígonos urbanos, a televisão, o carro, a
sociedade de consumo, etc., ajudaram a fragmentar o cidadão e deslocá-lo. A
consciência obreira desses trabalhadores que montaram as sociedades culturais tem
sido majoritariamente destruída. O embrutecimento materialista levou-nos a um mundo
onde a cultura foi seqüestrada pelo poder. No entanto, em muitos âmbitos tenta-se
fazer uma cultura que, como disse Machado, fosse marcada por uma consciência
vigilante.


Antonio > A que você acha que se deve essa relação de amor/ódio dos anarquistas com
as vanguardas?

Ferrán < O anarquismo organizado se voltou especialmente em reforçar o
anarcossindicalismo e toda a cultura relacionada com a sua luta pela emancipação.
Talvez essa luta contra o Capital e o Estado não terminou com a empatia com os
artistas que se enfrentavam também a ordem estabelecida com seus poemas, escritos,
performances e obras abstratas. Os artistas anarquistas o foram individualmente e a
maioria deles nunca se filiaram à CNT. O futurismo, dadaísmo, o cubismo,
surrealismo, etc., nasceram com espírito transgressor, mas a maioria deles acaba
sendo integrada, finalmente, pelo sistema burguês. No campo libertário teve maior
sucesso o realismo artístico e literário, pois se consideravam tendências mais
adequadas para atingir a classe trabalhadora.


Antonio > Porque você acha que "A Idéia" carece hoje das antigas adesões da
intelectualidade de outras épocas? Onde estão hoje os intelectuais e onde a cultura?

Ferrán < O pensamento único nos imposto pelo poder mundial não fez outra coisa a não
ser minar os alicerces onde se assentavam as ideologias e, portanto, "A Idéia".
Assim, qualquer outra idéia que não seja a do poder acaba por ser subversiva,
antissistema, portanto, deve ser combatida e denegrida. A única Idéia possível é a
que emana do sistema, atualmente, o capitalismo neoliberal. A liberdade e a
democracia foram seqüestradas por este ente sem corpo ou alma, mas onipresente em
nossas vidas, chamado mercado. Mas diante desta "utopia" neoliberal que pretende
vender-nos a sociedade do bem-estar, nada é impossível, pois o pensamento humano
pode e deve continuar seu processo de libertação e levantar o pensamento utópico do
sonho igualitário e, naturalmente, libertário.

Se em outros tempos se falava de intelectuais engajados em todos os campos
ideológicos (incluindo o libertário), agora é múltipla a dificuldade para que se
apresentem esses intelectuais contestadores, pois se por um lado os de signo
universitário estão "corrompidos" por seu próprio discurso universitário, por outro
os intelectuais ideológicos são reprimidos pelos mandarins do sistema e nunca ou
quase nunca aparecem na mídia. Talvez agora devamos citar Chomsky, Garcia Calvo,
Onfray, Lipovetsky... O compromisso cultural e o pensamento utópico são essenciais
para quebrar o impasse em que os tempos e o sistema nos coloca.


Antonio > Se posto a plantar uma idéia, que idéia semearia; o que gostaria de ver
brotar e se espalhar?

Ferrán < Creio nos valores básicos do anarquismo: a solidariedade, apoio mútuo,
auto-gestão... Estes valores continuam tendo por si mesmo um grande significado,
apenas com eles seria possível levantar a idéia de fraternidade e de liberdade do
ser humano através das fronteiras, bandeiras, etnias e tendências.


Antonio > A que se deve essa relação entre anarquistas e espiritismo do final do
século XIX e início do XX?

Ferrán < Na segunda metade do século XIX apareceram muitas sociedades de tipo
livre-pensador, maçônica, teosófica, pitagóricas, espiritualistas, etc... Em quase
todas elas, se não todas, algumas pessoas se declararam anarquistas e, geralmente,
escrevem na imprensa libertária ou participam das atividades do movimento operário.
São pessoas de profissões liberais: jornalistas, professores, pequenos burgueses,
livreiros, médicos, arquitetos, engenheiros, escritores, etc. Por exemplo, em uma
das sociedades espíritas obreiras de Barcelona participava Gaudi, um personagem
genial que em sua juventude se relacionava com maçons, libertários e
livres-pensadores. Em um desses encontros com Farga Pellicer, um dos diretores da
FTRE e do Ateneu Catalão da Classe Trabalhadora, veio a idéia de construir um
monumento a Bakunin. Pois este movimento livre pensador continuou suas atividades
durante os primeiros anos do século XX, entre eles o espiritismo, moda estendida
para o campo libertário até a guerra civil. O espiritismo foi tema de debate em
publicações libertárias como La Revista Blanca; alguns o consideraram um ato
contrário à ciência e à razão, e outros o defendiam mantendo que era um ato
espiritual contra o materialismo.

O espiritismo foi condenado pela Igreja Católica, mas defendido pelos livres
pensadores como uma ação a mais contra o poder da religião. Os espíritas organizaram
congressos, publicaram revistas e editaram livros. Sua ideologia negava a existência
de Deus, mas alguns buscavam raízes no cristianismo primitivo, criando até mesmo uma
sociedade em Barcelona que tinha como lema: "Cristianismo, Anarquismo e
Espiritismo".

De nossa perspectiva atual é difícil de entender, mas devemos fazer um esforço para
compreender os homens e mulheres que estavam pensando em construir um novo mundo a
partir da própria realidade, sem esperar chegar o dia da vitória da revolução.


Antonio > Você não acha que é injusto o tratamento que recebe J. Salvat-Papasseit na
literatura espanhola?

Ferrán < Eu não sei se do esquecimento de poetas como Salvat-Papasseit também sofrem
outros autores clássicos da língua catalã, como Salvador Espriu, Joan Vinyoli,
Agustí Bartra, Pere Quart, Martí Pol ou Carles Riba, para citar alguns nomes. Mas o
caso de Salvat-Papasseit pode ser mais dramático, é conhecido seu trabalho pelos
libertários espanhóis? Salvat é um poeta jovem, que morreu aos trinta anos, mas não
só é um poeta, mas também autor de emotivas prosas revolucionárias de grande valor
atual. Seu livro Fumaça de Fábrica, publicado em 1918 sob o pseudônimo de Gorkiano é
essencial para conhecer a luta do movimento operário pela sua dignidade e
consciência.

Salvat é um escritor proletário, filho de uma família humilde, educado no Asilo
Naval, aprendiz de mil ofícios e, finalmente livreiro. Salvat é autodidata, formado
culturalmente no Ateneu Enciclopédico Popular e nas lutas da rua. Apesar de sua
morte prematura, nos deixou manifestos de vanguarda, seus caligramas, sua poesia
romântica, sua poesia pura... Sua obra poética é composta de seis livros em que ele
canta a vida, as pessoas de seu bairro, o artesanato, a beleza das meninas, o mar, o
porto, sua terra... morreu jovem como Miguel Hernández, mas este teve a capacidade
publicitária do partido comunista; Salvat, anarquista catalão e independente, não
teve ajuda de ninguém, muito menos dos mandarins literários do "noucentisme"
catalão. Ao longo dos anos, ressuscitou seu espírito de luta na voz dos trovadores
da Nova Cançó: Serrat, Llach, Ribalta... foram publicadas novamente suas obras,
foram feitos recitais poéticos, apareceram estudos... mas Salvat-Papasseit continua
sem entrar no Canon, nem catalão ou espanhol. No entanto, Salvat é o poeta mais
popular e querido pela geração de catalães da transição. Agora, o poeta do povo foi
submetido a uma grande exposição em Barcelona e sua obra poética foi traduzida ao
castelhano, portanto, é uma boa oportunidade para obter o livro e ler seus poemas.


Antonio > O que é e onde está hoje a poesia de combate na Espanha? Poderia dar nomes
ou livros onde encontrá-las?

Ferrán < Creio que esta pergunta poderia respondê-la você mesmo, já que você é um
dos poetas de combate na Espanha. Há alguns meses que publiquei o livro Poetas em
tempo de revolta, onde falo sobre movimento cultural, literário e poético durante a
Guerra Civil em Barcelona. É importante saber que a poesia foi arma cultural de
primeira mão, tanto para expressar sentimentos quanto para defender a idéia ou
causa. O ensaio se estende por todo o movimento poético que houve na Barcelona
revolucionária: a homenagem a Garcia Lorca, os comícios poéticos, a conferência
poética de León Felipe, os recitais de poesia de guerra, os combates poéticos na
imprensa, os grupos de rapsódias e de poetas visitando trincheiras e hospitais, as
poetas mulheres livres, e assim por diante. A poesia foi uma parte fundamental
daquela guerra-revolução. Os teatros ficavam lotados, durante os dias finais da
República para ouvir a Lorca recitar aos trabalhadores catalães ou já em plena
guerra os recitais de Alberti no Gran Price ou León Felipe no teatro Coliseum,
transbordando de apaixonados trabalhadores antifascistas. A poesia de combate atual
existe, mas muito escondida nas margens da sociedade.


Antonio > Dalí libertário, o que acha?

Ferrán < Os artistas em geral têm um grande senso de rebeldia e, em muitos casos,
uma grande dose de anarquismo em sua obra e em sua própria vida. Dalí é um
personagem peculiar que viveu momentos de rebeldia e anarquismo, que o levaram a se
tornar um grande artista. Em sua juventude, se aliou a grupos revolucionários e
participou de atividades antimonárquicas. Por esta razão ele foi detido, julgado e
preso. Em seguida, com seu Manifesto Amarelo, pôs de cabeça para baixo o "seny"
catalão e foi "excomungado" da Catalunha e teve que vencer em Paris. Nos anos trinta
fez conferências provocativas nos ateneus (Ateneu Barcelonés e Ateneu Enciclopédico
Popular) e ingressou no partido comunista heterodoxo "Bloc Obrer i Camperol", o
antecedente do POUM. Dalí desenhou para sua imprensa e participou de comícios. Logo
se tornou surrealista e mais tarde, depois da guerra, sabemos como terminou.


Antonio > Existe hoje uma arte anarquista?

Ferrán < A arte, se busca o compromisso, mantém sua ética e permanece livre, pode
chegar a ser anarquista; no entanto se cai na demagogia ou no mercantilismo não será
nada além de um objeto a serviço da cultura de massa. Atualmente existe o Koletivo
Consciência Libertária, que acredita que os artistas são Revolucionários por
natureza e que a arte é um bom meio de propagar a anarquia. Eles são herdeiros da
filosofia artística do anarquista britânico Herbert Read.


Antonio > Você participou da reconstrução da CNT. Como vê a situação hoje na Catalunha?

Ferrán < No geral muito sonolenta, cada um envolvido em seu gueto lutando contra os
gigantes sem armas ou quase bagagem. Ultimamente tem havido contatos entre os
diversos coletivos anarcossindicalistas (as duas CNT e a CGT) e outros movimentos
alternativos da cidade. Uma das provas desta nova sensibilidade foi a greve do mês
de fevereiro passado.


Antonio > Você acredita que hoje se oferece à CNT uma segunda oportunidade para
voltar a adquirir o destaque que tinha nos anos trinta?

Ferrán < Repito o que disse no início da entrevista; ao longo da história tem havido
muito poucos momentos de grande mobilização, a última foi em 1977, a CNT, que
decolou bem, não pôde ou não conseguiu terminar de rematar a faena e custou-lhe para
ficar a reboque dos acontecimentos por muitos anos. A situação mundial, a crise
econômica e a falta de uma organização independente dos partidos e do Estado fazem
da CNT uma boa opção para começar a reconstruir pontes caídas do movimento
trabalhista para avançar para uma sociedade mais justa e mais livre e, acima de
tudo, auto-gestionada.


Antonio > O que te ocorre para revitalizar uma nova sociabilidade?

Ferrán < Primeiro de tudo acabar com todo dogmatismo, pois considero que o dogma é o
pior inimigo do anarquismo. Segundo, refazer o pensamento utópico para enfrentar o
pensamento único. Terceiro, abrir um debate sobre a sociedade que queremos sem
esperar que soem as trombetas do apocalipse ou as da glória. E, finalmente, convidar
para participar do projeto todos aqueles que acreditam que outro mundo é possível.


Antonio > Nos brinda com um poema seu?

Ferrán < Bem, pois te regalo um poema inédito escrito no ano passado, que leva por
título "El muro" como a canção de Pink Floyd:

No queráis ser
una piedra en el muro,
no queráis ser
esclavos del Capital,
no queráis ser
lacayos del Estado,
no queráis ser
nada más
que vosotros mismos,
libres y solidarios.
Empezad el camino,
abandonar la formación
de los conformistas,
poneros delante de la marcha,
marcad vosotros el paso,
ir siempre a la vanguardia,
seréis los nuevos héroes
dejaréis de ser esclavos.


Fonte: Periódico CNT 377 - abril de 2011
http://www.cnt.es/periodico

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