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(pt) [Espanha] Periódico "cnt", n.381: "Somos francoatiradores nas pesquisas sobre anarquismo "

Date Thu, 8 Sep 2011 11:28:04 +0200


[Doutora em História Contemporânea, Dolors Marin investiga há alguns anos as
práticas associativas dos anarquistas espanhóis e colabora com os grupos que
trabalham pela recuperação da memória do movimento libertário. Ela deu aulas e
palestras em vários locais, de universidade a associações. De sua obra escrita pode
se destacar Clandestinos: el maquis contra el franquismo. Ministros anarquistas. La
semana trágica e o recente Anarquistas: un siglo de movimiento libertario en
España.]

Antonio Orihuela > Dolors, o que é mais difícil, escrever um livro sobre o
anarquismo na Espanha ou encontrar uma editora com boa distribuição que o queira
publicar?

Dolors Marin < Bem, sem dúvida, o difícil é começar a pesquisar sobre o anarquismo
na Espanha e, em seguida, começar a escrever. O de procurar uma editora vem muito
mais tarde. O mais difícil é analisar e interpretar, e depois divulgar. O
imediatismo está em desacordo com a pesquisa histórica e mais ainda neste país, onde
ainda hoje os obstáculos são constantes, como o acesso a alguns arquivos ou fontes.

A investigação sobre os movimentos sociais anarquistas é feito atualmente e
majoritariamente pela militância. Somos francoatiradores nas pesquisas sobre
anarquismo, ou melhor, os anarquismos e, além disso, nos conhecemos todos, somos uma
família de relacionamento razoavelmente bom, em que há felizmente cada vez mais
jovens e novos grupos afins. Comecei a dar palestras em CSO [centros sociais
ocupados] e ateneus e depois publiquei dezenas de artigos em diversos meios;
trabalhei mais de dez anos como documentarista e roteirista de cinema e televisão e
ali conheci os meios editoriais.

Antonio > Por que diz que a pesquisa é feita a partir da militância?

Dolors < Porque na universidade da transição, se olharam com muito pouco carinho -
para usar uma palavra suave - os estudos sobre o anarquismo espanhol ou a trajetória
sindicalista da CNT. Não foram considerados bons projetos de pesquisa nem foram
concedidas bolsas para os estudantes que propunham teses sobre as experiências de
coletivização, o papel educacional e o universo cultural construído pelos
anarquistas. Muitos de nós nos encontramos na mesma universidade, eventos culturais
ou freqüentando os arquivos no verão - a custo das férias - e como tínhamos o mesmo
interesse, nasceu uma espécie de fraternidade dos pesquisadores anarquistas.
Pessoalmente para mim foi um presente a troca de informação e amizade com muitos
companheiros.

Infelizmente, o dinheiro do contribuinte continua a financiar a investigação
universitária sobre questões sem importância ou projetos sobre terrorismo
anarquista. Dói-me ler alguns livros publicados recentemente e que só referem-se aos
clássicos dos anos setenta e oitenta, onde já está tudo dito, ou que não citam as
fontes essenciais, as quais a maioria copia. Não citam Olaya, Peirats, Netlau,
Lorenzo, Iñiguez, Madrid, ou mesmo Paz e, por vezes é claro que eles foram
consultados. Isso dói muito! Além disso, seguem aprofundando e reproduzindo o tema:
anarquismo-terrorismo-niilismo, individualismo, propaganda-pelo-fato, etc., mas não
passam da ordenação cronológica e fontes secundárias. Mais: as mulheres seguem sem
aparecer, ou aparecem como consortes em papéis absolutamente passivos.

Antonio > Como vê a Universidade?

Dolors < Penso que algumas universidades - não todas - não avançam em absoluto. A
maioria é parte de uma estrutura feudal de vassalagem: são citadas entre os
especialistas, são impermeáveis &#8203;&#8203;à rua, menosprezam as fontes que
provêm do movimento operário, não buscam fontes alternativas, e assim por diante.

Antonio > O terrorismo de Estado contra os anarquistas do passado e do presente
continuará sendo uma incógnita a partir do qual só teremos a visão de poder?

Dolors < Bem, estamos gradualmente esculpindo em aço. Observe que se investigarmos
sobre jornais, registros de tribunais, testemunhos publicados da época (aqueles dos
burgueses, militares, ou sacerdotes) há sempre uma mesma visão dos atos da classe
trabalhadora, dos seus inimigos. Nunca possuiríamos a outra versão: a dos
explorados. Freqüentemente eram disponíveis poucos meios de comunicação e sempre na
clandestinidade. Seu silêncio era ensurdecedor!

Durante anos a história mundial foi escrita assim, por causa das fontes a que
dispunham o historiador em sua mesa de trabalho. Este tinha que imaginar por que as
classes trabalhadoras tomavam a rua. Parecia que as classes trabalhadoras eram uma
massa descontrolada - alguns à equiparavam a uma turba - que, ocasionalmente,
atacavam os negócios das pessoas da ordem, sempre identificadas como pessoas boas.
Às vezes a explicação lógica - puro racismo e xenofobia - foi também: imigrantes,
estrangeiros, etc. Este é o caso de Sacco e Vanzetti nos EUA, dos murcianos da FAI
para alguns historiadores catalães que são pagos com cátedras por estas observações.
Em suma, as pessoas nas ruas dão medo. Mas o papel do historiador ou historiadora é
compreender as razões pelas quais a solução última de sair à rua, o porquê do ataque
pessoal, da propaganda, da cotização clandestina, ou seja, a escolha da vida
militante dos nossos antepassados.

Quando na Inglaterra e na França nos anos cinqüenta, alguns historiadores começaram
a estudar a história das classes trabalhadoras, foi aberto um novo horizonte
historiográfico e se começou a falar de preços, pobreza, subsistência, a emergência
do capitalismo, cultura obreira, etc. Mas esta historiografia moderna chegou com
atraso na Espanha da Transição, com as universidades repletas de franquistas e foi
considerada suspeita pela cúpula universitária. Esta é uma das chaves do porque
nunca se registrou, em vídeo ou fita, nossos avós que viveram a revolução de que
foram testemunhas diretas e aqueles que estavam nos sindicatos da Espanha. Somente
militantes (Vila e Conesa, Jordà, Camacho, Marin Molina) e estrangeiros
(Berguer-Manzer) o fizeram diante o valor histórico desses testemunhos. Felizmente
ainda estávamos a tempo nos anos noventa com o impressionante frescor: Viver a
Utopia. Mas imagine aquelas pessoas vinte anos antes!

Antonio > Recuperas e afirma em seu livro o papel das mulheres no movimento
libertário. Você acha que o movimento feminista é hoje muito mais restritivo, mais
míope que a aposta que fizeram "Mulheres Livres" na década de trinta?

Dolors < Não, o movimento feminista hoje goza de muito boa saúde. Hoje em dia o
movimento feminista está muito diversificado, existem "feminismos" muito diferentes
entre si. Temos que entender às Mulheres Livres como um grupo feminista muito
avançado para sua época, muito semelhante aos encontrados nos Estados Unidos na
década de sessenta, formados por mulheres de cor e trabalhadoras, que surgiram como
grupos de mulheres e para mulheres. Na Espanha, Mulheres Livres não foram nem
compreendidas por seus próprios companheiros, e isto as conteve em suas expectativas
e realizações. De qualquer forma temos de enquadrar no seu tempo, tendo sobrevivido
ao desastre de 1939 não havia para onde ter evoluído. O testemunho do exílio é muito
tangencial e testemunhal. Oferece-nos poucos dados - faltavam as fundadoras - e
mudou sua orientação. Espero que novas pesquisadoras se interessem &#8203;&#8203;por
elas e nos ofereçam mais pontos de vista.

O debate é muito interessante, mas sobrepassa esta entrevista, ainda hoje é visto
como uma ameaça dentro do anarquismo a formação de núcleos de mulheres anarquistas,
e me pergunto por quê? Levantou-se como uma ameaça a criação dos Los Solidarios (Os
Solidários) por parte das mulheres anarquistas? Sempre houve grupos formados
exclusivamente por homens, e nenhuma mulher anarquista reclamou, por que os homens o
fazem ao constituir-se um grupo de mulheres? O que é ameaçado? Tenho vivido este
eterno debate em muitos ateneus desde os anos setenta, isso me cansa!

Por sorte os jovens avançam com menos preconceitos e fazem o que querem - homens e
mulheres, juntos, mexidos e/ou mesclados. Penso que os anarquistas têm muito a dizer
sobre estas questões, fomos os primeiros a reivindicar o papel de igualdade das
mulheres, e temos de seguir com a abertura.

Antonio > Como vê o papel da mulher nos livros de história?

Dolors < Estou indignada com os livros de nossas escolas; há poucos modelos
femininos ativos nos livros de história da ESO, somos muitas vezes a ilustração, a
fotografia e um par de páginas falando sobre sufragistas inglesas com imagens de
senhoras vitorianas que em nada se aproxima as meninas hoje em dia. Você poderia se
identificar com uma imagem de Thomas Jefferson, ou Bismark? Bem, é isto! Há também
frases tão brutais quanto "No século XX, a mulher se incorpora ao mundo do
trabalho". Se incorpora? E desde o Neolítico estávamos parindo, amamentando,
cozinhando, fazendo cerâmica, plantando, colhendo, cuidando de animais, curando,
vestindo os mortos, ajudando a nascer, etc., etc., bem, dá para ver o que nossas
filhas aprendem na escola!

Há debates que não chegam nunca a lugar algum e este é um deles, porque do modelo
que elas têm, ou não, será sua vida adulta, esta é a paridade, o aparecer, é serem
protagonistas. Infelizmente os livros de história ainda são hoje tratados bélicos,
descrições de batalhas e exércitos masculinos, onde aparece - cuidando - o rosto da
enfermeira em segundo plano. Seguem predominando as imagens de homens em tanques ou
a cavalo.

Antonio > O espírito destes tempos está muito longe de ser como as jornadas
libertárias, em Barcelona? Seria possível reviver algo parecido?

Dolors < Bom, durante as Jornadas Libertárias de Barcelona, &#8203;&#8203;ainda
havia muitos anarquistas na prisão, alguns boicotaram desde a crítica aquelas
jornadas. Nem tudo foi festa no Parque Güell, embora agora uma ocupação assim do
espaço cívico seria impensável, teríamos todo o tipo de burocracia... (A não ser que
fossemos membros das seitas oficiais, religiosas, políticas ou desportivas!).

Com o tempo temos de refletir sobre as Jornadas porque aqueles atos lúdicos estavam
mais baseados na liberdade sexual, teatral, ou na provocação, que atualmente pode
ser armado em qualquer concerto. A este respeito, penso que temos mudado bastante e
que devemos refletir ao ambiente da festa e da diversão, e que entendemos por ele
como libertários. Também importantes atos culturais foram organizados no Salão
Diana, onde assisti com Juanel Molina que não conseguia acreditar em seus olhos ao
ver tantos jovens falando de cúpulas geodésicas e ecologia, ou de antimilitarismo.
Foi lindo mesmo!

Mas, depois das Jornadas também se organizaram atos e encontros anarquistas, talvez
não tão massificados, ou tão visíveis na mídia, mas talvez mais intensos: muitas
comunas foram criadas na Espanha, nasceram novos projetos e se avançou e muito na
luta antinuclear ou na objeção de consciência. Alguns foram para suas casas, depois
de um intenso verão de 77. Mas a semente foi lançada; emocionou-me ver muitos
antigos colegas nos indignados de muitas praças do país. E voltarão, estão esperando
sair outra vez enquanto se partem algumas nuvens...

Antonio > Onde está hoje a cultura anarquista na Espanha? Como rastreá-la?

Dolors < A cultura anarquista atual está em toda parte onde há compromisso e livre
pensamento. Em casas ocupadas, nos ateneus, nas livrarias, editoras e distribuidoras
libertárias que expandem idéias e trabalhos de muita qualidade; naturalmente nos
sindicatos anarquistas e na rua. Está na tentativa de criar uma nova escola, como
Paideia e todos os seus arredores, nas marchas em homenagem a nossos combatentes,
nas viagens ao campo, na luta contra os transgênicos ou na defesa dos animais. Creio
que gozamos de boa saúde, os fóruns andam cheios na rede, e também muitos
sindicatos. A família cresce e a decepção política faz com que cada vez mais pessoas
busquem respostas, e o anarquismo oferece muitas.

A recuperação e visibilidade de nossa história estão se tornando hoje parte da mesma
luta: as cooperativas, vegetarianismo, línguas não imperialistas, antimilitarismo,
comunitarismo, espaços comuns onde viver, sustentabilidade, etc. Uma série de lutas
sociais que já empreenderam nossos avós e que encontraram no bairro e no local a
referência essencial: ateneus, cooperativas, sindicatos locais, escolas livres, etc.
Pouco que pesquisamos encontramos as pegadas de outros antiautoritários que viveram
em nossos bairros, isso é o importante, saber que sempre houve oposição ao sistema,
desde o trabalho sindical, desde a ética obreira, o orgulho das mulheres, ou a
construção de uma contra-sociedade que poderia opor-se à criada pelo capitalismo.

A recuperação da nossa história tem de ser feita, e cada vez a tenho mais clara, em
equipe, assumindo cada qual sua parte, mas em equipe. Forma parte da metodologia
necessária em nosso trabalho. Afortunadamente os estudos sobre anarquismo gozam cada
vez mais de melhor saúde na Espanha, com o surgimento de coletivos que investigam e
que editam seus trabalhos, com a difusão de cooperativas-livrarias que nascem em
nossos bairros e que por sua vez aumentam a discussão e a troca - são como ateneus
dos anos trinta.

Impressionou-me a energia dos Indignados que tomaram as praças: dos estudantes, dos
que pareciam apáticos, aposentados, mulheres e dos ninis [adolescentes] que por fim
expressaram seu desconforto. Nem todos são anarquistas, mas creio que alguma coisa
vai ser deixada de tudo aquilo, daquela assembléia permanente que pela primeira vez
deu-lhes voz. É a força do anonimato, a soma de um mais um, até formar a corrente de
que já falou Reclús em seus escritos.

Como sempre, alguns aprenderão e tornarão sua vida um instrumento de desobediência e
liberdade, outros serão como o noivo da menina yeyé da canção de Evaristo, que ao
final vê a vida passar como um espectador. Tudo o que mal sei do 15 M é que Abel Paz
não viveu uns meses mais para vê-lo, depois de anos de tédio. Pois certamente os
teria provocado e os teria deslocado, como sempre fazia em suas conversas com humor.
E com seu cigarro nos lábios!

Fonte: Periódico "cnt" - 381 Agosto-Setembro 2011

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