A - I n f o s
a multi-lingual news service by, for, and about anarchists **

News in all languages
Last 40 posts (Homepage) Last two weeks' posts

The last 100 posts, according to language
Greek_ 中文 Chinese_ Castellano_ Català_ Deutsch_ Nederlands_ English_ Français_ Italiano_ Polski_ Português_ Russkyi_ Suomi_ Svenska_ Trk�_ The.Supplement

The First Few Lines of The Last 10 posts in:
Greek_ 中文 Chinese_ Castellano_ Català_ Deutsch_ Nederlands_ English_ Français_ Italiano_ Polski_ Português_ Russkyi_ Suomi_ Svenska_ Trk�
First few lines of all posts of last 24 hours || of past 30 days | of 2002 | of 2003 | of 2004 | of 2005 | of 2006 | of 2007 | of 2008 | of 2009 | of 2010 | of 2011

Syndication Of A-Infos - including RDF | How to Syndicate A-Infos
Subscribe to the a-infos newsgroups
{Info on A-Infos}

(pt) [anarkismo.net] Pedra e Caminho. Uma aproximação aos conceitos políticos de Camillo Berne ri

Date Mon, 13 Jun 2011 13:56:42 +0200



by Evandro Couto - FAG/FAO Brasil
O pensamento político de Camillo Berneri, ilustre desconhecido dos nossos
tempos de luta, de nossa geração, especialmente para os simpatizantes da
língua portuguesa, é o que discutimos aqui com ganas de fazer justiça aos
seus aportes. Tirar da poeira o pensamento e a batalha deste inesquecível
companheiro anarquista é uma devida contribuição à produção do discurso
político atual que desafia a corrente libertária.


Junto de Malatesta, Fabbri e outros mais, foi uma figura de avançada do
anarquismo internacional. Pertencente a formação militante mais crítica e
lúcida do comunismo anarquista que se deu na Itália das primeiras décadas
do século XX, Berneri foi um pensador afiado e reivindicador de
atualização teórica para o projeto libertário. Um combatente sem tréguas
das lutas de classe e da resistência ao fascismo. Durante sua vida no
país, esteve integrado na União Anarquista Italiana e por um momento
formou seu conselho nacional. Persona non grata do fascismo, emigrou pela
Europa sem descanso e acabou nas filas da Revolução Espanhola, combatendo
com o fogo e a palavra, onde termina brutalmente assassinado a mando do
estalinismo, depois dos polêmicos sucedidos de maio de 37.

Engajado nos problemas sociais-históricos concretos de sua realidade,
Berneri enfrentou o dogmatismo, o purismo e outros vícios mais que
debilitavam o campo libertário, deu polêmica a altura com a estratégia
bolchevique que disputava o movimento operário. Foi um ativo militante da
concepção do anarquismo com protagonismo nas massas e forte politicamente.

Por grata surpresa para nossa geração, já no seu tempo, soube localizar
criticamente limites e insuficiências no pensamento libertário e formular
conceitos de política que hoje formam parte das preocupações da busca
militante por ferramentas teóricas de renovação.

"...os nossos melhores, de Malatesta a Fabbri, não conseguiram resolver as
questões que colocamos oferecendo soluções que são políticas. A política é
cálculo e criação de forças que realizem a aproximação da realidade ao
sistema ideal, mediante fórmulas de agitação, de polarização e de
sistematização que sejam agitadoras, atraentes e lógicas num dado momento
social e político. Um anarquismo atualizado, consciente das suas próprias
forças de combatividade e de construção e das forças adversas, romântico
no coração e realista no cérebro, pleno de entusiasmo e capaz de
contemporizar, generoso e hábil em condicionar o seu apoio, capaz, em
suma, de economizar as suas forças: eis o meu sonho. E espero não estar
sozinho ".

A ideologia anarquista fora das práticas políticas foi lançada ao terreno
das filosofias de vida ou dos rituais contemplativos do passado, se
transformou por extravagância em testemunhos críticos viscerais de uma
realidade impura que não se encaixa na beleza dos seus ideais. E viu a
história passar pelo costado, filosofando como uma ética humanista que
flutua por cima da história e não se rebaixa, nem se arrisca, nos
conflitos mundanos. A política como mediação entre as aspirações
finalistas e as condições sociais-históricas concretas em que nos batemos
por mudanças é um conceito indispensável para quem quer atuar e fazer
mudanças na sociedade.

?Fechado na instransigência absoluta frente a vida política, o anarquismo
'puro' está fora do tempo e do espaço, uma ideologia categórica, uma
religião e uma seita. Fora da vida parlamentar, fora das administrações
municipais e provinciais, não sabe nem quer levar lutas concretas,
suscitando, de vez em quando, consensos; não sabe agitar problemas
interessando grande parte dos cidadãos. (?) De uma infinidade de batalhas
o movimento anarquista se apartou, sempre alucinado pela visão da 'Cidade
do Sol' , sempre perdido na repetição dos seus dogmas, sempre fechado em
sua propaganda estritamente ideológica.?

Chama a atenção e fica evidente sua lucidez nas definições que vai
tirando, como na polêmica sobre o sovietismo ou nas considerações do
debate sobre o partido no seio da União Anarquista Italiana. Aqui ele
reclama da imaturidade e faz claros discernimentos entre os elementos
ideológicos e o teórico-político.

?O anarquismo, se quiser atuar na história e tornar-se um grande fator
histórico, deve ter fé na anarquia, como possibilidade social que se
realiza por aproximações progressivas. A anarquia como sistema religioso
(todo o sistema ético é por natureza religioso) é uma 'verdade' de fé,
logo pela sua própria natureza, evidente somente a quem a pode ver. O
anarquismo é mais vivo, mais vasto, mais dinâmico. É um compromisso entre
a Ideia e o fato, entre o amanhã e o hoje. O anarquismo procede de modo
polimorfo, porque está na vida. E mesmo os seus desvios são buscas de uma
rota melhor ".

?(?) o anarquismo deve conservar aquele conjunto de princípios gerais que
constituem a base do seu pensamento e o alimento passional de sua ação,
mas deve saber afrontar o complicado mecanismo da sociedade atual sem
óculos doutrinais (?)?

?Eu entendo por anarquismo crítico um anarquismo que, sem ser cético, não
se contente com as verdades adquiridas, com as fórmulas simplistas; um
anarquismo idealista e ao mesmo tempo realista; um anarquismo, em
definitivo, que enxerte verdades novas no tronco de suas verdades
fundamentais, que saiba podar ramos velhos.?

O ideológico como lugar de produção e reprodução dos valores, dos
princípios que formam a subjetividade anarquista: o socialismo e a
liberdade, a solidariedade com os oprimidos, o combate as injustiças, os
privilégios, contra toda relação de dominação, etc.. O tronco das certezas
que deita raízes fortes que dão identidade. Já a política como o terreno
sinuoso da vida, da história, dos conflitos sociais, onde o anarquismo
opera a ideologia nas condições e possibilidades do quadro histórico, da
correlação de forças, auxiliado por um discurso teórico atualizado e
táticas adequadas segundo o contexto da luta. Berneri maneja elementos de
discurso que numa leitura atual distinguem o campo da ideologia e o da
teoria e marcam a articulação desses componentes para o êxito da prática
política. Daí podemos concluir sinteticamente que ideologia sem capacidade
político-teórica de intervenção vira seita e religião. E política sem
ideologia possibilismo, a arte de se adequar as circunstâncias ao preço
dos princípios. No bom português: oportunismo.

O programa está no centro de suas preocupações militantes. Deriva desses
conceitos fundamentais em política que defende para o anarquismo. Para ele
está colocado o programa que reúne os elementos finalistas, as linhas
gerais de uma revolução de caráter socialista e libertária. Mas também há,
e aí está toda distinção que merece a formação política de Berneri, a
necessidade de propostas exequíveis para um dado cenário, para trabalhar
numa correlação de forças que não deixa que se cumpram as finalidades no
máximo, termo a termo.

?Meio: a agitação em bases realistas, com enunciação de um programa mínimo.?


Em seu trabalho Camillo Berneri: um anarquista italiano, Francisco Madrid
indica em que contexto aparece este tema.

?(...) em fins do ano 1921 que teria lugar o terceiro Congresso da U.A.I.,
que foi recebido com vivas demonstrações de simpatias. Estiveram presentes
ao redor de 120 delegados e se debateram argumentos de grande interesse.
Entre os delegados se encontrava Camillo Berneri, quem pôs em consideração
um novo problema: o do 'programa mínimo'. O 'programa anarquista' traça as
grandes linhas teóricas, mas os problemas práticos do dia não resolve.?

Berneri com a palavra:

?O gradualismo do socialismo legalitário e estadólatra é paralelo à
antipatia, evidentíssima em Kautsky, por qualquer plano de reconstrução
econômica em sentido socialista: Que a engrenagem social seja tão
complicada que nenhum pensador possa indagar todos os males e prever todas
as possibilidades, é evidente,' mas (..) isto não impede que seja
necessário ao socialista apoiar-se num programa prático, tal como ao
cientista é necessária a luz de uma hipótese"

"Mas é preciso distinguir: há programas que parecem que querem dar a
síntese do amanhã histórico como cálculo determinístico de qual será
aquele amanhã e passam por programas ditos realistas, quando são apenas
deterministas; enquanto há programas que embora calculando grosso modo o
jogo das forças estáticas e dinâmicas não esquecem que a probabilidade de
certas resultantes é maior quanto mais a vontade de renovação forçar os
limites do progresso ".

Presume o debate programático que vimos o acionar de uma organização
política. Os problemas da prática política estão diretamente relacionados
com a organização, em como nos unimos para criar força coletiva e
desenvolver as capacidades políticas de realização de um programa.
Distintas e articuladas esferas organizativas são conjugadas na luta de
classes. Especificamente, o anarquismo organizado é tratado sem melindres
por Berneri em suas considerações sobre o nosso movimento. Estão evidentes
ideias que são continuadoras de Malatesta e Fabbri, da concepção
organizadora pelo qual se destacaram a nível internacional.

"Sobre o tapete da discussão continua a questão da constituição de nosso
movimento em partido. É necessário, para esta como para outras questões,
estabelecer o valor da palavra, dando seu significado bem definido, para
evitar a eterna e inútil discussão pró e contra...O que entendemos por
partido? Qual é o calor, o limite e a missão?

Eu não vejo o perigo da centralização, do autoritarismo que muitos veem na
organização sempre mais firme e coordenada de nosso grupo, de nossa união
provincial, de nossa federação regional. O atomismo individual e de grupo
tem mostrado ser útil? O nosso movimento não é por natureza e definição
refratário as más influências de uma disciplina de partido incompreendida?
Por qual razão um movimento libertário pode se cristalizar se tornando um
partido e degenerar em qualquer forma de autoritarismo centralizador que
alguns temem e profetizam? Eu creio na necessidade de consolidar nossa
força, se associando e coordenando, mas reconheço muitas e contrastantes
posturas em nosso movimento sobre esse assunto(...)"

Não merece que seja atirado na vala comum por suas apreciações pra lá de
desacertadas sobre o projeto dos anarquistas russos no exílio, a
Plataforma de 1926, que reforçava o rol da organização política anarquista
nos processos de cambio revolucionário da luta de classes. Lançou duras
críticas a proposta de Makhnó e Archinov beirando entre o mal entendido e
uma ressaca elitista que se abateu sobre o anarquismo durante esse período
e arrastou seus mais ativos militantes daquele momento. Sua intervenção
neste tema contrastam com toda a lucidez e a postura aberta com que tratou
dos tabus do pensamento libertário.

Em que pese a desastrada posição feita na oportunidade do contexto formado
pela pauta dos plataformistas Berneri deu luta por igual contra os abusos
e os disparates no campo libertário. Coincidiu em certos fundamentos por
um anarquismo com profundo rechaço ao ?esnobismo, o cerebralismo onanista,
o individualismo egoísta, o niilismo exacerbado e desesperado?.

?Sem dúvida, sabemos o que os elementos individualistas e caóticos
entendem pelo nome de 'princípios anarquistas': incoerência e
irresponsabilidade, que provocaram em nosso movimento feridas quase
incuráveis. Contra eles estamos lutando com toda energia e paixão.?

?(...) tenho que reconhecer que existe um cretinismo anarquista. (?) Esses
cretinos do anarquismo tem a fobia do voto ainda que se trate de aprovar
ou desaprovar uma decisão estritamente ligada ao nosso movimento, tem a
fobia do presidente de assembleia ainda que tenha se feito necessário pelo
mal funcionamento dos freios inibitórios dos indivíduos livres que dessa
assembleia constituem a vociferante maioria, e tem outras fobias que
mereceriam um longo discurso, se este tema não fosse demasiado candente de
humilhação.?

Como demonstra em sua defesa do anarcosindicalismo, quando essa concepção
vivia o seu auge na Espanha dos anos 30, era adepto de um anarquismo
inserto nas massas, militando os problemas sociais de seu tempo e
aportando soluções desde seus princípios e com as táticas adequadas as
condições históricas concretas.

?Ali onde o movimento anarquista tem raízes no movimento sindical, uma
participação ampla e séria na luta de classes, apresenta um todo
organizado, uma vitalidade, uma maturidade, em suma, que compensa as
deformações e as insuficiências doutrinárias e táticas.
Ali onde o movimento anarquista vive fora da órbita sindical, aparecem os
mesmos sinais de desorientação, os mesmos fenômenos de bizantismo e de
diletantismo, os mesmos sintomas de um verdadeiro e próprio marasmo ou de
uma muito lenta convalecência.?

Para além do mérito de discutir o anarcosindicalismo como estratégia de
trabalho hoje, o que não é objetivo desse artigo, interessa destacar e
fazer uma leitura da política em Camillo Berneri para pôr em relevo as
ideias que apesar do tempo ainda tem vigência de orientação. Nesse caso a
ideia simples mas poderosa de que são as lutas, que é entre os oprimidos
que o anarquismo é fecundo e a partir dos seus movimentos, das suas
experiências que se produziu como ideologia libertária.

No texto ?anarcosindicalismo: fracasso ou crise? uma pergunta instigante
reflete na atualidade.

?O âmbito sindical tem se convertido no único campo que permite uma
atividade concreta. De quem é a culpa dos exageros, das unilateralidades,
das deformações do anarcosindicalismo, senão de quem nunca quis dar ao
movimento anarquista um espaço mais amplo, um dinamismo mais complexo, uma
multiplicidade de frentes e de batalhas?

O periódico de Paris poderia ser feito em Nova Iorque, e quase nada
mudaria. Neste fenômeno se vê um dos maiores indicadores da crise do
anarquismo 'puro'.?

É perfeitamente cabível e deve ser feita para o bem de uma saudável
autocrítica abstração do termo ?movimento sindical? para pôr qualquer
outro mov. Social contemporâneo no seu lugar. O sindicalismo é uma parte
do conjunto maior de antagonismo social onde se formam distintas
organizações populares de resistência e onde a luta de classes desdobra em
distintas esferas, no econômico, no político, no ideológico-cultural.
Desse modo, um lugar na luta das classes oprimidas é indispensável para
atuar, para fazer perspectivas libertárias em conjunturas específicas e
concretas.

http://www.anarkismo.net
_________________________________________
A - I n f o s Uma Agencia De Noticias
De, Por e Para Anarquistas
Send news reports to A-infos-pt mailing list
A-infos-pt@ainfos.ca
Subscribe/Unsubscribe http://ainfos.ca/cgi-bin/mailman/listinfo/a-infos-pt
Archive http://ainfos.ca/pt


A-Infos Information Center