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(pt) [Portugal] Comunicado sobre os acontecimentos do dia da Greve Geral de 24 de Novembro de 2011

Date Sun, 4 Dec 2011 10:23:54 +0100


Considerando a manifestação de 24 de Novembro em Lisboa, dia de greve geral, os
momentos de brutalidade policial que aí ocorreram, a difusão midiática destes
acontecimentos e a natureza das acusações formuladas contra os manifestantes,
sentimo-nos obrigados a reclamar o "direito de resposta" para impedir a calúnia
gratuita e a perseguição política.
Acreditamos, por aquilo que vemos, ouvimos e lemos todos os dias, que a televisão e
os jornais são poderosos meios de intoxicação, de controle social e de propagação da
ideologia e do imaginário capitalista. A maioria das vezes recusamo-nos a participar
no jogo midiático. Desta vez a natureza e gravidade das acusações impele alguns de
nós a escrever este comunicado. A leitura que fazemos da realidade e daquilo que é
dito sobre os acontecimentos do dia da greve geral tornam evidente que:

I. Está em curso acelerado a mais violenta banalização de um estado policial com
recurso a agentes infiltrados, detenções arbitrárias, espancamentos, perseguições,
bem como a justificação política de detenções e a construção de processos judiciais
delirantes sustentados em mentiras.

II. Sobe de escala a montagem jornalístico-policial que visa incriminar, perseguir e
reprimir violentamente - veremos mesmo se não aprisionar - pessoas que partilham um
determinado ideário político, pelo simples fato de partilharem esse ideário. A
colaboração entre jornalistas e polícias na construção de um contexto criminalizante
tem o seu expoente máximo nas narrativas delirantes da admirável Valentina Marcelino
do Diário de Notícias e das suas fontes, como José Manuel Anes do Observatório de
Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo.

III. A participação na construção deste discurso por parte de inúmeras instâncias de
poder, desde sindicatos e partidos até ao mais irrelevante comentador de serviço,
cria o clima ideal para que o anátema lançado sobre os "anarquistas" ou os
"extremistas de esquerda" ajude a legitimar a montagem de processos judiciais, a
invasão de casas, as detenções sumárias. Ao contrário do que a maioria pensa, são
realidades com as quais convivemos há já algum tempo.

Por isso mesmo, vimos deste modo dar a nossa versão do que aconteceu no dia 24 de
Novembro. Sendo que acreditamos que estamos especialmente bem colocados para falar
do que aconteceu porque criamos um "Grupo de Apoio Legal", que acompanhou a
manifestação e está a procurar defender judicial e publicamente os detidos nesse dia
por forças da ordem pública.

Fazemo-lo não por se tratar de companheiros "anarquistas". Aliás, não só nenhum
deles se conhecia entre si antes de ser detido, como nenhum de nós conhecia
previamente nenhum dos detidos - a própria polícia será testemunha de que nem
sabíamos os seus nomes.

Fazemo-lo porque - ao contrário dos sindicatos - consideramos que é nossa
responsabilidade, enquanto indivíduos lúcidos, ativos e organizados, apoiar e
mostrar solidariedade com todas as pessoas que se juntam a uma greve que nós também
convocamos. Sobretudo para com aqueles que foram vítimas de repressão e perseguição
na seqüência desse dia.

Temos por isso acesso aos processos e estamos neste momento a reunir provas e
testemunhos que possam repor a "verdade legal" que, sabemos já, chegará tarde de
mais para ser atendida pelos ritmos e critérios jornalísticos. Sobre o que aconteceu
no dia 24 Novembro em São Bento temos testemunhos, vídeos e fotos que documentam o
seguinte:

- Não sabemos exatamente o que aconteceu nos segundos de agitação em que as grades
de contenção foram derrubadas. Infelizmente não estávamos no local e não pudemos
participar. Sabemos apenas que, na seqüência dessa confusão, um grupo de três
polícias infiltrados apontou um alvo, num canto oposto a onde se deu o derrube (na
rampa junto à Calçada da Estrela). Esse alvo era um rapaz de 17 anos, estudante no
Liceu Camões. Poucos minutos depois, já fora da manifestação e em plena Calçada da
Estrela, os três homens não identificados abordaram o rapaz e enfiaram-no num carro
sem anúncio prévio de detenção. Várias pessoas, entre elas alguns colegas e
professores, manifestaram-se contra essa detenção, aparentemente injustificada. Mais
tarde, outro homem com cerca de 30 anos é detido de forma idêntica.

- Pode-se ainda observar claramente em vários vídeos que as três detenções que
tiveram lugar no local onde as barreiras policiais foram derrubadas foram levadas a
cabo por agentes não identificados que entraram no corpo da manifestação para deter,
arrastar e algemar sem qualquer aviso os manifestantes. Segundo as leis que os
próprios dizem defender, qualquer detenção com estas características tem um nome:
seqüestro.

- Já no fundo da Calçada da Estrela, três jovens dirigiam-se ao Minipreço da Rua de
S. Bento quando um grupo de quatro homens que não se identificaram como agentes
policiais, agarrou um deles e o encostou à parede. Enquanto um dos agentes à paisana
afastava os outros dois, um rapaz com 21 anos de origem alemã era agredido
brutalmente, como foi testemunhado por várias pessoas e registrado em vídeo. Tudo
indica que o agente que a polícia diz ter sido ferido se magoou na seqüência desta
detenção ilegal no momento em que o rapaz alemão procurava resistir a uma agressão
sem sequer perceber ainda o que lhe estava a acontecer. A polícia veio mais tarde
justificar a sua ação pelo fato de o rapaz ser perigoso e procurado pela Interpol.

Parece-nos da ordem do fantástico que todos os jornalistas e comentadores que se
pronunciaram sobre o sucedido pareçam acreditar que um juiz de instrução possa
libertar imediatamente alguém procurado pela INTERPOL.

O que para nós fica claro, após os acontecimentos descritos, é que se preparam novos
métodos de contenção social e se assiste a uma escalada na repressão de qualquer
gesto de contestação.

Neste contexto, o anúncio de que o ataque às vitrines de repartições de finanças foi
obra de "anarquistas extremistas" é o corolário de uma operação que visa
marginalizar e criminalizar toda a dissidência e toda a oposição ativa ao regime que
se procura impor. Não é apresentada nenhuma prova, nenhum indício que sustente
sequer uma suspeita, quanto mais uma acusação.

Tornou-se uma evidência nestes anos de crise que os Estados e os seus gabinetes de
finanças, têm em curso um roubo organizado das populações, através de impostos que
servem em grande medida para cobrir os grandes roubos nas altas esferas do poder e
da economia. Neste sentido, a criminalização dos anarquistas, e a sua identificação
como o inimigo interno, serve sobretudo para isolar esses acontecimentos do
crescente sentimento de revolta e da tomada de consciência social que atravessa a
sociedade no seu todo.

Dito isto, é preciso salientar que um "anarquista" é, antes de tudo, um defensor da
liberdade individual, da autonomia e da organização horizontal e igualitária; Que,
não existindo nenhum partido ou organização central que emita uma posição
correspondente àquilo que "todos os anarquistas" pensam, este comunicado é apenas
uma visão parcial de alguns indivíduos que partilham um patrimônio filosófico e
social que são as idéias anarquistas. Uma versão naturalmente sujeita a críticas e
discussão por parte dos nossos amigos e companheiros.

Por fim, gostávamos apenas de recordar a todas as pessoas que lutam para manter a
sua lucidez, que o regime implantado no dia 28 de Maio de 1926 começou precisamente
por se justificar com a necessidade de combater a anarquia e de reprimir os
anarquistas, que nessa altura se organizavam em torno da Confederação Geral do
Trabalho. Hoje é fácil perceber a natureza desse regime, nessa altura não o era.

Ontem como hoje, cada um de nós tem que decidir individualmente se toma posição
ativa contra o que está a acontecer ou se, com a sua passividade, colabora com o
estado de coisas.


Grupo de Apoio Legal para o 24N

Lisboa, 28 de Novembro de 2011


Vídeo "A Morte da Democracia":
http://www.youtube.com/watch?v=XDXW7qjXKv4&feature=player_embedded

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