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(pt) [História] Piotr Arshinov: O velho e o novo no anarquism o (Resposta ao companheiro Malatesta)
Date
Thu, 31 Jul 2008 03:28:31 +0200 (CEST)
No órgão anarquista Le Reveil de Genebra, na forma de um panfleto, o
companheiro Errico Malatesta publicou um artigo crítico sobre o projecto
da plataforma organizacional editado pelo Grupo de Anarquistas Russos no
Exterior. Esse artigo provocou-nos perplexidade e pesar. Acreditávamos
muito, e continuamos acreditando, que a ideia do anarquismo organizado
encontraria uma resistência obstinada entre os partidários do caos, tão
numerosos no meio anarquista, pois essa ideia obriga todos os anarquistas
que participam do movimento a serem responsáveis e a terem uma postura com
as noções de dever e constância. Até agora, o princípio favorito no qual
se baseia a educação da maioria dos anarquistas pode ser explicado pelo
seguinte axioma: "Faço o que quero, não presto contas de nada". É muito
natural que anarquistas dessa espécie, impregnados por tais princípios,
sejam violentamente hostis a todas as ideias do anarquismo organizado e da
responsabilidade colectiva.
O companheiro Malatesta é alheio a esse princípio, e é por essa razão que
seu texto nos provoca tal reacção. Perplexidade, pois ele é um veterano do
anarquismo internacional e, se ele não compreendeu o espírito da
Plataforma, seu carácter vital e sua centralidade, que deriva das
necessidades de nossa época revolucionária. Pesar, pois, para ser fiel ao
dogma inerente no culto da individualidade, ele se pôs contra (desejamos
que apenas temporariamente) o trabalho que aparece como um estágio
indispensável na extensão e no desenvolvimento externo do movimento
anarquista.
Bem no início de seu artigo, Malatesta diz que compartilha um número de
teses da Plataforma ou mesmo as apoiadas pelas ideias que expõe. Ele
concordaria em notar que os anarquistas não influenciaram e continuam não
influenciando eventos políticos e sociais, em virtude da falta de
organização activa e séria.
Os princípios levantados pelo companheiro Malatesta correspondem às
posições principais da Plataforma. Esperávamos que ele teria igualmente
examinado, entendido e aceito vários dos outros princípios desenvolvidos
em nosso projecto, pois há um vínculo de coerência e lógica entre todas as
teses da Plataforma. Entretanto, Malatesta prossegue explicando de uma
maneira incisiva sua diferença de opinião com relação à Plataforma. Ele
pergunta se a União Geral dos Anarquistas projectada pela Plataforma pode
resolver o problema da educação das massas trabalhadoras. Ele responde que
não. Apresenta como razão o carácter autoritário fingido da União, que, de
acordo com ele, desenvolveria a ideia de submissão a directores e líderes.
Em que fundamentos tão séria acusação se baseia? É na ideia de
responsabilidade colectiva, recomendada pela Plataforma, que ele enxerga a
principal razão para formular tal acusação. Ele não pode admitir o
princípio de que toda a União seria responsável por cada membro e de que,
inversamente, cada membro seria responsável pela linha política de toda a
União. Isso significa que Malatesta não precisamente aceita o princípio de
organização que nos parece ser o mais essencial, para que o movimento
anarquista possa continuar a se desenvolver.
Em lugar algum, até aqui, o movimento anarquista atingiu o estágio de um
movimento popular organizado como tal. De modo algum essa causa reside em
condições objectivas, como, por exemplo, devido ao fato de as massas
trabalhadoras não entenderem o anarquismo ou por não estarem interessadas
nele fora de períodos revolucionários; não, a causa de fraqueza do
movimento anarquista reside essencialmente nos próprios anarquistas. Eles
ainda não tentaram conduzir de modo organizado a propaganda de suas ideias
ou mesmo sua actividade prática entre as massas trabalhadoras.
Se tal fato parece estranho ao companheiro Malatesta, afirmamos
veementemente que a actividade da maioria dos anarquistas em actividade -
onde ele se inclui, assume por necessidade, um carácter individualista,
mesmo que essa actividade seja distinguida por uma responsabilidade
altamente pessoal, ela tem a ver somente com o individual, e não com uma
organização. No passado, quando nosso movimento acabara de nascer como um
movimento nacional ou internacional, não poderia ser de outro modo; as
primeiras pedras do movimento anarquista de massa tiveram de ser
assentadas; um apelo teve de ser lançado às massas trabalhadores para
convidá-las a se engajarem no modo anarquista de luta.
Isso foi necessário, mesmo que fosse somente o trabalho de indivíduos
isolados com meios limitados. Esses militantes do anarquismo cumpriram sua
missão; atraíram os mais activos trabalhadores para as ideias anarquistas.
Entretanto, isso foi apenas parte do trabalho. No momento em que o número
de anarquistas vindos das massas trabalhadoras cresceu consideravelmente,
tornou-se impossível restringir alguém de conduzir uma propaganda e
práticas isoladas, individualmente ou em grupos dispersos. Continuar isso
seria como marcar passo. Temos de ir além para não sermos deixados para
trás. A decadência geral do movimento anarquista é explicada exactamente
assim: damos o primeiro passo sem ir mais além.
O segundo passo consistia e ainda consiste no agrupamento de anarquistas,
oriundos das massas trabalhadoras, em um colectivo activo e capaz de
conduzir a luta organizada dos trabalhadores com o objectivo de realizar
ideias anarquistas.
A pergunta para os anarquistas de todos os países é a seguinte: nosso
movimento pode contentar-se em subsistir na base de velhas formas de
organização, de grupos locais que não têm vínculo orgânico entre eles,
cada um agindo de seu lado de acordo com sua ideologia particular e com
sua prática particular? Ou, apenas suponha, nosso movimento deve ter
recursos para novas formas de organização que irão ajudá-lo a se
desenvolver e a arraigá-lo entre uma vasta massa de trabalhadores?
A experiência dos últimos 20 anos, e mais particularmente a de duas
revoluções russas - 1905 e 1917-19 ? sugere-nos a resposta para essa
pergunta melhor que todas as "considerações teóricas".
Durante a Revolução Russa, as massas trabalhadoras estavam próximas das
ideias anarquistas; apesar disso o anarquismo, como um movimento
organizado sofreu um completo retrocesso desde o início da revolução,
estávamos nas mais avançadas posições da luta, desde o início da fase
construtiva nos achávamos irremediavelmente distantes da chamada fase
construtiva, e consequentemente fora das massas. Não era puro acaso: tal
atitude inevitavelmente provinha de nossa própria impotência, tanto de um
ponto de vista organizacional quanto de nossa confusão ideológica.
Esse retrocesso foi causado pelo fato de que, ao longo da revolução, os
anarquistas não sabiam como transmitir a importância de seu programa
político e social e abordavam as massas somente com uma propaganda
fragmentada e contraditória; não tínhamos uma organização estável. Nosso
movimento era representado pelas organizações casuais, surgindo aqui e
ali, não buscando o que queriam de maneira firme e que mais frequentemente
esvaecia ao fim de um curto período de tempo sem deixar traços. Seria
desesperadamente ingénuo e tolo acreditar que os trabalhadores poderiam
apoiar essas organizações e delas participar a partir do momento da luta
social e da construção comunista.
Adquirimos o hábito de atribuir a derrota do movimento anarquista de
1917-19 na Rússia à repressão estatal do Partido Bolchevique, o que é um
grande engano. A repressão bolchevique impediu que o movimento anarquista
se expandisse durante a revolução, mas ela não foi o único obstáculo. A
impotência interna do movimento em si foi uma das principais causas dessa
derrota, uma impotência procedente da lentidão e da indecisão que
caracterizavam diferentes afirmações políticas relacionadas a organização
e tácticas.
O anarquismo não tinha opinião firme e concreta sobre os problemas
essenciais da revolução social; uma opinião indispensável para satisfazer
a procura das massas que criaram a revolução. Os anarquistas exaltam o
princípio comunista que diz "a cada um segundo suas habilidades, a cada um
segundo suas necessidades", mas nunca se preocuparam em aplicar esse
princípio à realidade, embora possuíssem certos elementos duvidosos para
transformar esse grande princípio em uma caricatura do anarquismo -
lembre-se de quantos vigaristas se beneficiaram apoderando-se dos bens da
colectividade e juntando-os aos seus lucros pessoais.
Os anarquistas falavam muito sobre a actividade revolucionária dos
trabalhadores, mas eles não podiam ajudá-los, mesmo que indicassem
aproximadamente as formas que essa actividade devesse ter; eles não sabiam
como separar as relações recíprocas entre as massas e seu centro de
inspiração ideológica. Eles empurravam os trabalhadores para livrar-se do
jugo da Autoridade, mas eles não indicavam os meios de consolidar e
defender as conquistas da Revolução. Não tinham concepções claras e
precisas de um programa de acção em muitos outros problemas. Era isso que
os distanciava da actividade das massas e os e condenava por impotência
histórica e social. É nesse fato que devemos buscar a causa primordial de
sua derrota na Revolução Russa.
E não duvidamos de que, se a revolução tivesse ocorrido em vários países
europeus, os anarquistas sofreriam a mesma derrota, pois eles são estão
não menos - se não ainda mais - divididos no plano das ideias e da
organização.
O presente período, quando, aos milhões, trabalhadores se engajavam no
campo de batalha da luta social, exigia respostas directas e precisas dos
anarquistas em relação a essa luta e a construção comunista que deve
segui-la; isso exigia, do mesmo modo, a responsabilidade colectiva dos
anarquistas em relação a essas respostas e propaganda anarquista em geral.
Se eles não assumiram essa responsabilidade, os anarquistas, como qualquer
outra pessoa nesse caso, não têm direito de fazer propaganda de uma
maneira inconsequente entre as massas trabalhadoras, que relutavam em
concordar com pesados sacrifícios e perder inúmeras vítimas.
Nesse nível, não é uma pergunta de um jogo ou um objecto de
experimentação. É como, se não temos uma União Geral dos Anarquistas, não
podemos fornecer respostas comuns a todas aquelas perguntas vitais.
No início deste artigo, o companheiro Malatesta surge para saudar a ideia
da criação de uma vasta organização anarquista, entretanto, ao repudiar
categoricamente a responsabilidade colectiva, ele interpreta como
impossível a realização de tal organização. Ela não será possível se não
existir um acordo teórico e organizacional, constituindo uma plataforma
comum em que milhares de militantes possam reunir-se. À medida que
aceitarem essa plataforma, ela deve ser obrigatória para todos. Aqueles
que não reconhecem esses princípios básicos não podem se tornar, e ademais
eles mesmos não iriam querer, tornar-se membros da organização.
Dessa forma, essa organização será a união daqueles que terão uma
concepção comum de uma linha teórica, táctica e política a ser realizada.
Consequentemente, a actividade prática de um membro da organização estará
naturalmente em plena harmonia com a actividade geral e, inversamente, a
actividade de toda a organização não saberá como estar em contradição com
a consciência e a actividade de cada um de seus membros, se eles aceitarem
o programa no qual a organização está fundada.
É isso o que caracteriza a responsabilidade colectiva: toda a União é
responsável pela actividade de cada membro, sabendo que eles realizarão
seu trabalho político e revolucionário no espírito político da União. Ao
mesmo tempo, cada membro é inteiramente responsável por toda a união,
enxergando que sua actividade não será contrária àquela elaborada por
todos os seus membros. Isso não significa por pouco que seja qualquer
autoritarismo, como o companheiro Malatesta afirma com firmeza, é a
expressão de um entendimento consciente e responsável do trabalho
militante.
É óbvio que, ao solicitar-se que os anarquistas organizem a base de um
programa definitivo, não estamos querendo retirar o direito de anarquistas
de outras tendências se organizarem como bem entenderem. No entanto, somos
persuadidos de que, a partir do momento em que os anarquistas criarem uma
organização importante, o vazio e a vaidade das organizações tradicionais
serão reveladas.
O princípio da responsabilidade é entendido pelo companheiro Malatesta no
sentido de que um responsabilidade moral dos indivíduos e dos grupos. É
por isso que ele só confere a assembleias e suas resoluções o papel de uma
espécie de conversa entre amigos, na qual se pronunciam somente desejos
platónicos.
Essa maneira tradicional de representar o papel das assembleias não faz
frente ao teste da vida. Na verdade, qual seria o valor de uma assembleia
se ela tivesse somente "opiniões", e não trouxesse fatos que pudessem ser
realizados na vida real? Nenhum. Em um movimento vasto, uma
responsabilidade unicamente moral e não organizacional perde todo o seu
valor. Vamos à pergunta com relação a maiorias e minorias. Achamos que
toda discussão sobre esse assunto é supérflua. Na prática, isso foi
resolvido há um bom tempo. Sempre e onde quer que estejamos, problemas
práticos foram resolvidos por uma maioria de votos. É completamente
compreensível, pois não há um outro modo de resolver esses problemas
dentro de uma organização que deseja agir.
Em todas as objecções levantadas contra a Plataforma, há uma falta de
recursos até o momento em que a compreensão da mais importante tese que
ela contém; a compreensão de nossa abordagem do problema organizacional e
do método de sua resolução. Na verdade, uma compreensão desses factores é
extremamente importante e possui um significado decisivo com a ideia de
uma apreciação precisa da Plataforma e toda a actividade organizacional do
grupo de Dielo Trouda.
O único modo de sair do caos e reviver o movimento anarquista é um
clarificação teórica e organizacional de seu meio, levando a uma
diferenciação e à selecção de um centro activo de militantes, na base de
um programa prático e homogeneamente teórico. É nisso que reside um dos
princípios objectivos de nosso texto.
O que nossa clarificação representa e a que ela deve levar? A falta de um
programa geral homogéneo sempre foi uma falha muito notável no movimento
anarquista e contribuiu para torná-lo frequentemente muito vulnerável, sua
propaganda nem sempre sendo coerente e consistente em relação às ideias
professadas e aos princípios práticos defendidos. Muito pelo contrário,
sempre o é propagado por um grupo é em qualquer outro lugar denegrido por
outro grupo. E não somente em aplicações tácticas, mas também em teses
fundamentais.
Certas pessoas defendem tal estado de acção dizendo que desse modo é
explicada a variedade das ideias anarquistas. Bem, admitamos tal fato, mas
qual interesse pode essa variedade representar para os trabalhadores?
A luta e o sofrimento hoje em dia, agora e imediatamente, precisam de uma
concepção precisa da revolução, que pode levá-los para a sua emancipação
em seguida; eles não precisam de uma concepção abstracta, mas um concepção
viva, real, elaborada e que responda às suas necessidades. Enquanto os
anarquistas sempre propuseram, na prática, inúmeras ideias contraditórias,
sistemas e programas, em que o mais importante era estar próximo do
insignificante ou apenas contradizer uns aos outros. Em tais condições, é
facilmente compreensível que o anarquismo não possa e nunca poderá, no
futuro, impregnar as massas e ser alguém com elas, a fim de inspirar seu
movimento de emancipação.
Porque as massas sentem a futilidade de noções contraditórias e as evita
instintivamente; em vez disso, em um período revolucionário, elas agem e
vivem em um modismo libertário.
Concluindo, o companheiro Malatesta acha que o sucesso dos bolcheviques em
seu país tira o sono dos anarquistas russos que editaram a Plataforma. O
erro de Malatesta é que ele não se dá conta de que as circunstâncias
extremamente importantes de que a Plataforma Organizacional são o produto
não somente da revolução russa, mas também do movimento anarquista nessa
revolução. Agora é impossível não se dar conta dessa circunstância para
que alguém possa resolver o problema da organização anarquista, sua forma
e sua base teórica. É indispensável olhar para o lugar ocupado pelo
anarquismo no grande revolução social de 1917. Qual foi a atitude das
massas insurgentes em relação ao anarquismo e aos anarquistas? O que
apreciavam neles? Por que, em vem vez disso, o anarquismo teve um
retrocesso na revolução? Que lições podem ser aprendidas? Todas essa
perguntas, e muitas outras, devem inevitavelmente ser feitas àqueles que
atacam as questões levantadas pela Plataforma. O companheiro Malatesta não
fez isso. Ele tratou do problema actual da organização na abstracção
dogmática. Isso é muito incompreensível para nós, que nos acostumamos a
ver nele não um ideólogo, mas alguém que pratica o real e activo
anarquismo. Ele está disposto a examinar em que medida essa ou aquela tese
da Plataforma está ou não de acordo com os pontos de vista tradicionais do
anarquismo, então ele as refute, ao ver que são opostas àquelas antigas
concepções. Ele não pode levar a si mesmo a pensar que poderia ser o
contrário, que é precisamente isso o que seria erróneo e que necessitou da
presença da Plataforma. É assim que pode ser explicada toda a série de
erros e contradições levantados acima.
Notemos nele uma grave negligência; ele não lida de modo algum com a base
teórica, nem com a secção construtiva da Plataforma, mas unicamente com o
projecto da organização. Nosso texto não somente refutou a ideia de
síntese, bem como a do anarco-sindicalismo como inaplicável e falido,
também avançou o projecto de um agrupamento de militantes activos do
anarquismo na base de um programa mais ou menos homogéneo. O companheiro
Malatesta deveria ter se atido com precisão sobre esse método; no entanto,
ele passou por esse ponto em silêncio, bem como pela secção construtiva,
embora suas conclusões aparentemente se apliquem à totalidade da
Plataforma. Esse fato dá ao seu artigo um carácter instável e
contraditório.
O comunismo libertário não pode se prolongar no impasse do passado; ele
deve ir além, combatendo e superar suas faltas. O aspecto original da
Plataforma e do grupo de Dielo Trouda consiste precisamente em que eles
são estranhos a dogmas ultrapassadas, a ideias prontas e, muito pelo
contrário, se empenham em conduzir sua actividade começando pelos fatos
reais e presentes. Essa abordagem constitui a primeira tentativa de fundir
o anarquismo à vida real e criar uma actividade anarquista nesses termos.
É somente assim que o comunismo libertário pode superar a si mesmo livre
de um dogma ultrapassado e fomentar o movimento vivo das massas.
Piotr Arshinov
Dielo Trouda, n.º 30, maio de 1928, páginas 4-11.
retirado de : http://www.anarkismo.net
http://www.nestormakhno.info
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