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(pt) Entrevista com delegado da FARJ ao encontro I 07 de Paris

Date Sat, 19 May 2007 18:29:33 +0200 (CEST)


"Nunca vi tantas bandeiras negras na minha vida!"

Nesta entrevista, Rafael Viana, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro
(FARJ), nos conta um pouco como foi sua participação e impressão do
encontro internacional i07, que aconteceu entre 28 de abril e 1 de maio,
em Paris, na França, juntando delegações de várias partes do mundo:
Bangladesh, Camarão, Irlanda, Espanha, Nova Zelândia, Mali, Suécia,
Polônia, Colômbia, Argentina, Alemanha, Costa do Marfim, Palestina,
Marrocos, Argélia, Burkina Faso, Portugal, Grécia, Benin, Reino Unido,
Estados Unidos, México, Brasil...

Agência de Notícias Anarquistas > Podemos começar essa conversa com você
contando sua impressão sobre o encontro internacional i07 em Paris. Sua
avaliação é positiva?

Rafael Viana < O encontro foi extremamente positivo! Do ponto de vista
político, forneceu uma grande oportunidade para libertários das mais
diversas partes do mundo trocarem experiências e percepções acerca de suas
lutas. O tempo e a quantidade de grupos envolvidos talvez não permitiu
nenhum aprofundamento das discussões, mas o mais interessante neste
processo foi realmente conhecer um pouco melhor as diversas realidades
destes e das quais em vários momentos pouco conseguimos obter
informações... O estabelecimento de vínculos de solidariedade entre as
organizações e os indivíduos participantes é realmente o fator mais
motivador de todo o encontro. Sem contar o fator humano, saber que há
efetivamente lutas concretas se desenrolando em variados países, mesmo os
que não tenham uma tradição política anarquista muito forte, é
extremamente motivador do ponto de vista pessoal!

ANA > E você participou efetivamente de algum tema específico? Foste como
delegado da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)?

Rafael < Sim. Na verdade a dinâmica do evento era a de temas simultâneos,
então como delegado da Federação Anarquista do Rio de Janeiro tive que
escolher os temas que seriam de maior importância para acúmulo político do
grupo e nos quais poderíamos somar ao debate com nossas experiências. Os
temas eram debatidos horizontalmente, por meio de "mesas de trabalho", ou
seja, os participantes davam um panorama geral da situação do país, região
em que encontravam-se atuantes e por meio da discussão sobre o tema
chegava-se sempre a algumas linhas gerais das opiniões coletivas dos
delegados participantes. Participei de algumas discussões bem
interessantes. O primeiro tema foi "Precariedade", onde a discussão
central se dava no processo de desintegração dos direitos trabalhistas e a
conseqüente precarização da vida cotidiana dos trabalhadores por meio da
ofensiva neo-liberal.

O segundo tema foi "Chiapas", da qual basicamente a explanação principal
fora dos delegados mexicanos sobre a situação dos Zapatistas, de Oaxaca,
Atenco e claro, de Chiapas.

Esta mesa foi sem dúvida a mais marcante do encontro que eu participei.
Uma das companheiras que participava da discussão (não citarei o nome por
motivos óbvios...) do povoado de Atenco deu um relato muito emocionante,
que arrancou muitos aplausos e lágrimas dos presentes! É algo que
guardarei para toda minha vida.

Também participei do debate sobre "Educação", "América", que foi
basicamente o encontro dos grupos latino-americanos e da reunião
confederal, que foi a avaliação final do encontro.

ANA > Já tive a oportunidade de ouvir uma fala desta jovem companheira de
Atenco, e me impressionou a força nas suas palavras... Nessa oportunidade,
em Paris, ela falou com um facão na mão, não? Vi fotos... (risos)

Rafael < Exato... Segurava um machete! Um símbolo da resistência segundo
ela! Seu discurso foi muito bonito, poético e original como toda a luta
dos libertários mexicanos normalmente é.

ANA > Ficou articulado alguma campanha entre os grupos latinos? Li algo
sobre se criar uma Coordenação Anticapitalista Internacional...

Rafael < O tempo como disse anteriormente foi bem escasso, contudo dentro
deste limite, alguns apontamentos foram tirados. Pensou-se na criação de
uma revista feita por estes grupos da América Latina, como maneira de
estreitar laços de solidariedade e manter as lutas em conexão. A
CNT(organizadora do evento) ajudaria com recursos e apesar de não termos
discutidos maiores detalhes, os contatos foram mantidos e ainda haverá
alguma discussão neste sentido que será feita por uma lista de e-mails.
Uma síntese foi tirada desta reunião com algumas considerações em linhas
gerais sobre todos os problemas dos grupos e uma análise de conjuntura.
Dentro desta, há algumas situações mais urgentes, como o assassinato e a
violenta repressão aos sindicalistas colombianos, que demandaria uma
campanha ou uma ação mais articulada que ainda não foi discutida mais
profundamente. Para título de curiosidade, conversávamos sobre justamente
à escassa comunicação/articulação dos grupos anarquistas
latino-americanos, tivemos que esperar um congresso em Paris para nos
encontrarmos! Que contradição! (risos)

A coordenação anti-capitalista era uma das sínteses da reunião confederal
e acho que ainda haverá mais discussões antes que esta se concretize mais
efetivamente, contudo algumas ações pontuais foram tiradas. O mais
importante do encontro, não foi propriamente concordâncias muito
específicas sobre temas variados, mas sim a possibilidade de reforçar a
troca de experiências e apoio-mútuo entre todos os grupos.

ANA > Também esteve na passeata do 1° de Maio? Imagino que tenhas ficado
emocionado em ver tantos libertários juntos, não? (risos)

Rafael < Muito. Na verdade por informações de outros companheiros
presentes, a passeata do ano passado não fora tão cheia quanto esta. Nunca
vi tantas bandeiras negras na minha vida! A quantidade de libertários era
realmente impressionante, não é nenhum exagero dizer que haviam 5000
anarquistas nessa manifestação.

ANA > Alguma coisa te chamou a atenção nessa passeata? Por exemplo, a
presença de negros? Gente de várias idades...

Rafael < A diversidade sem dúvida! Eram grupos da Alemanha, Mali, Suécia,
Nigéria, anarquistas da Nova Zelândia, Portugal, Espanha, Argentina,
Inglaterra que coloriram toda a passeata!

Isso estava refletido nas faixas, nos gritos de ordem, nas fisionomias e
em tudo mais que pudesse ser percebido. Haviam pessoas praticamente de
todas as idades e gerações.

Apesar de cansativa (seis horas entre concentração e caminhada) fora
realmente emocionante e as palavras de ordem ainda ecoam claramente em
minhas lembranças...

Muita coisa me chamou a atenção, pois a manifestação fora claramente além
de um simples protesto, uma viva celebração! Muita música, cores e
bandeiras. Para nós, era uma celebração pela resistência internacional que
estávamos ali a representar, o clima era de alegria, mas uma alegria
revolucionária, uma alegria que ao invés de desmobilizar ou despolitizar é
socialista e libertária!

ANA > Apesar de tudo, da apatia geral, das coisas serem tão difíceis para
nós anarquistas, e longe de querer cair num otimismo estéril, podemos
dizer que o anarquismo se expande por todos os lados? Que ele continua
carregado de sentidos?

Rafael < Com certeza. Parafraseando George Woodcock, o anarquismo é como
um fio de água que filtra-se ao solo poroso. Pode mudar constantemente e
desaparecer de vista, mas sempre surge nos momentos onde menos se espera e
as rachaduras da estrutura social permitem-lhe fluir.

Enquanto existir hierarquia, seja ela econômica, política ou social,
haverá anarquismo e anarquistas. As conjunturas dos grupos libertários em
seus países respectivos, são bem distintas, há de se pensar estratégias
diferentes e analisar a realidade não como gostaríamos que fosse, mas como
ela realmente é. O sentido do anarquismo é a liberdade, e mesmo com todas
as dificuldades e toda conjuntura adversa sempre haverá luta neste sentido
porque sempre existirão atitudes libertárias enquanto houver um ser humano
vivo no planeta.

ANA > Quer acrescentar algo para finalizar?

Rafael < Primeiro agradecer a possibilidade de compartilhar um pouco da
experiência política que eu tive neste encontro como indivíduo e como
delegado da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ). Nossa
conjuntura, como a de qualquer grupo latino-americano sobrevivente das
ditaduras militares e da hegemonia dos socialistas autoritários no
movimento social é adversa, ríspida, dura. Contudo há um esforço muito
grande em retomar o lócus social do anarquismo, fazer com que este saia
dos "guetos", dos círculos fechados e floresça onde ele sempre floresceu,
no movimento social, no povo, como é o caso da nossa atuação junto às
ocupações urbanas. O anarquismo não pode ser apenas um estilo de vida, de
comportamento, deve ser um anarquismo social, ligado à demandas concretas.

A mensagem que eu gostaria de deixar é que temos de ter paciência com o
próprio tempo, o socialismo historicamente é algo recente, a história
ainda será escrita, não há nada definido. Contudo precisamos nos
organizar, com organização podemos ser derrotados é verdade, mas sem ela
já estamos!

É nisso que acreditamos, na organização e na luta, movida com ética,
responsabilidade e vontade de transformação. A tal "voluntad" da qual
tanto falava o anarquista italiano Errico Malatesta. E como diria um mote
da organização: "A noite escura passará, e nós trabalharemos para ver o
amanhecer!

Saúde e Anarquia! Abraços libertários a todo/as!



agência de notícias anarquistas-ana


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