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(pt) Brasil , FARJ : Movimento Sem-Teto no Rio de Janeiro

Date Thu, 5 Jul 2007 17:57:22 +0200 (CEST)


A propriedade é um roubo!

A responsabilidade e a disciplina organizacionais
não devem horrorizar: elas são companheiras
de viagem da prática do anarquismo social.
Nestor Makhno

A constante luta pelo socialismo libertário, levada a cabo pela Federação
Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), vem sendo concretizada com uma
atuação social que está baseada em dois eixos estratégicos: os trabalhos
de nossa frente comunitária e de nossa frente de ocupações.

A frente comunitária é hoje responsável pela gestão do Centro de Cultura
Social do Rio de Janeiro (CCS-RJ) e de todos os projetos comunitários que
lá estão radicados, como a gestão da Biblioteca Social Fábio Luz (e o
trabalho de produção teórica que lá se desenvolve), o projeto de
reciclagem e educação ambiental, o projeto de letramento (educação de
jovens com dificuldades no reconhecimento da palavra escrita e suas
funções de comunicação), o curso pré-vestibular comunitário, a rede de
distribuição de produtos alimentícios ecológicos (com participação de
pequenos agricultores), o projeto de serigrafia e o núcleo de saúde e
alimentação Germinal (que promove almoços vegetarianos regularmente).

A frente de ocupações articula-se em torno da Frente Internacionalista dos
Sem-Teto (FIST). O trabalho da FARJ com os sem-teto teve início há três
anos atrás e desenvolve-se hoje em oito ocupações urbanas, que mais
recentemente vêm se articulando em torno da Frente Internacionalista dos
Sem-Teto (FIST). A importância que damos ao trabalho com essas ocupações
existe, por acreditarmos que as ocupações urbanas questionam, em primeira
instância, a propriedade privada, a especulação imobiliária e a lógica do
lucro, ou seja, pilares centrais do capitalismo que, como tais, devem ser
questionados e combatidos por meio da organização dos explorados.

Da mesma forma, acreditamos que a nós não cabe simplesmente esperar as
medidas de bem-estar que podem vir de algum político, partido ou do
próprio Estado, mas sim, por meio da ação direta, fazermos de cada dia de
luta um dia de aprendizado para a solidariedade e o apoio mútuo.
DA NECESSIDADE DO TRABALHO SOCIAL
Reconhecemos que os momentos de reflexão, produção intelectual e de
sociabilidade com as pessoas que têm alguma afinidade ideológica conosco
são importantíssimos para o desenvolvimento do anarquismo. Consideramos
também que isso é fundamental para a formação política que acontece entre
os membros de nossa organização ou mesmo de fora dela, para compreendermos
o contexto em que estamos inseridos e termos clareza de onde queremos
chegar e por que meios pretendemos caminhar. Como conseqüências positivas
desses momentos, acrescentamos, além disso, o estabelecimento de laços de
fraternidade com companheiros e companheiras, que acabam por propagar os
ideais pelos quais lutamos e aproximar pessoas às lutas que estão sendo
desenvolvidas no seio de nossa organização.

No entanto, os pequenos círculos e os infindáveis debates sem
desdobramentos práticos não nos bastam, pois acreditamos ser necessário
partir para a prática real de transformação social. Acreditamos que há
mais de um século, grande parte das respostas para a problemática social
que hoje assola o mundo foi dada. Muito se discutiu em torno das
conseqüências nefastas da economia capitalista, hoje ainda agravadas por
sua concepção neoliberal: miséria, desigualdade social, níveis baixíssimos
de educação e saúde. Muito também se discutiu em torno do papel alienador
e opressor do Estado e de todas as suas instituições. Nossa posição é que
a bandeira negra do anarquismo tem muitas respostas teóricas e
experiências práticas que podem auxiliar o trabalho social e fazer com que
ele constitua-se como uma ferramenta concreta e contemporânea nas lutas
contra a exploração e a alienação.

Para isso, é necessário extrapolar as questões teóricas e concretizar as
nossas demandas de transformação social, buscando inspiração e saber nas
lutas passadas. Se a teoria não ganha corpo na luta social, a chance de
exercermos alguma influência política, econômica ou social não existe. Se
não buscamos a associação e a organização bem articuladas, acabamos por
não conseguir exercer qualquer influência nas lutas e consequentemente na
sociedade de hoje.

Acreditamos que é dentre as maiores vítimas do capitalismo ? pessoas que
têm necessidades reais e que sofrem de maneira mais dura suas
conseqüências ? que o anarquismo tem campo para florescer e para
prosperar. Por isso afirmamos a necessidade do trabalho social,
desenvolvido pelos anarquistas de maneira organizada, criando uma
alternativa real de combate à ordem estabelecida, oferecendo
possibilidades concretas de melhoria nas condições de vida de
trabalhadores (empregados e desempregados), potencializando o ideal
revolucionário e pavimentando o caminho rumo aos nossos objetivos de longo
prazo.

Para nós, se o anarquismo pretende constituir minimamente uma força social
considerável, que possua espaço na sociedade, ele deve sair dos guetos,
ampliar seus horizontes, interagir ativamente em meio à sociedade, atuar
dentro dos movimentos sociais e das lutas mais diversas, em busca de seu
devido espaço.
É dessa maneira que, com muita humildade, temos tentado desenvolver os
nossos trabalhos.
FRENTE INTERNACIONALISTA DOS SEM-TETO (FIST)
Como mencionamos anteriormente, a frente de ocupações da FARJ está
organizada em torno da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST). Demos
início aos nossos trabalhos com as ocupações há três anos atrás, a partir
de uma demanda palpável da população carioca, por razão de toda a falta de
espaço que é ocasionada pelo livre trânsito do capital, que ?limpa o
centro? e que joga os pobres cada vez mais para a periferia. Pobres que
são então obrigados a amontoar-se nos morros, nos subúrbios ou a
quilômetros de distância de seus locais de trabalho (quando existe algum
trabalho para eles). Dessa forma, identificamos que este poderia ser um
terreno fértil para as idéias do anarquismo.

Sabemos, no entanto, que políticos aproveitadores, partidos corruptos,
aparelhistas de toda sorte, ONGs assistencialistas, instituições
religiosas e o próprio tráfico de drogas constituem obstáculos para a
radicalização do movimento social e da semeação das idéias libertárias.
Foi nadando contra toda essa lógica, que corrompe muitas vezes o movimento
social, que iniciamos nosso trabalho e acreditamos, após um significativo
período de luta, que os resultados são bastante positivos.

A constituição da FIST deu-se a partir do trabalho que já era realizado
por nós em quatro ocupações: Olga Benário, Vila da Conquista, Poeta
Xynayba e Nelson Faria Marinho. A FARJ teve importante participação na
constituição da FIST, estabelecendo juntamente com seus outros membros,
princípios éticos e morais mínimos para a convivência, articulação
política e organização das lutas do movimento de ocupações do Rio de
Janeiro. Além disso, o respaldo jurídico às ocupações também acabou
constituindo um de seus fortes pilares.

Dentro da FIST, a FARJ trabalha para organizar-se com outras pessoas de
ideologias diferentes (basicamente comunistas apartidários) e
representantes de cada uma das ocupações. Há militantes da FARJ residentes
em uma das ocupações, a Poeta Xynayba. Tanto esses militantes, quando os
outros da frente de ocupações, revezam-se entre a participação nas
assembléias de cada uma das ocupações e da FIST.

O trabalho que desenvolvemos na FIST e nas ocupações gira em torno da
formação política, da organização de atividades pedagógicas e educativas,
e também do auxílio freqüente nas questões que surgem no dia-a-dia. Além
disso, estimulamos permanentemente a participação de todas as ocupações no
fórum geral de articulação, que é a FIST. Também nesta instância se dá o
nosso trabalho de propaganda do modelo de organização libertário,
estimulando as práticas de autogestão, federalismo, apoio mútuo e ação
direta, com o objetivo de que elas aconteçam na prática o máximo possível.

Muitas vezes há um trabalho de aparar arestas de autoritarismo que surgem
nos grupos ou nos representantes que atuam na FIST, que encaram a
representação como um posto de autoridade, ou que assumem valores do
sistema vigente. Como uma prática comum do federalismo em que cremos,
estimulamos que cada uma dessas ocupações tenha representantes na FIST.
Estes representantes ?delegados de cada uma das ocupações ? discutem com
os outros delegados a articulação das lutas e assim, não é necessária a
participação neste fórum de todos os membros de todas as ocupações, o que
seria um completo descabimento. Além disso, a FARJ faz questão de
estimular a tomada de decisões coletiva, mostrando na prática como
funcionam os conceitos de horizontalidade e democracia direta. Acreditamos
ser essa uma forma de tirar o autoritarismo da cabeça e da vida das
pessoas; dando o exemplo da solidariedade de classe, trazendo conceitos
libertários para o trabalho prático do dia-a-dia, incentivando e
encorajando os outros militantes.

Princípios da autogestão e da ação direta são também utilizados na solução
dos problemas particulares, que frequentemente acontecem. Neste processo
de solução dos problemas, incentivamos o gerenciamento dos conflitos sem
que ocorra a dominação de uma pessoa ou grupo por outros, o poder de voz
igualitário, as discussões em meio às assembléias e as tomadas de decisões
coletivas, comprovando-se assim que este é um método de organização e de
solução de conflitos muito mais efetivo, solidário e democrático do que
aqueles que buscam a confiança em terceiros, como em governantes,
policiais ou mesmo na Justiça.

O crescimento da FIST acontece como resultado de um processo bastante
fundamentado que busca, desde um primeiro momento, conversar diretamente
com os representantes da comissão de moradores das ocupações e,
estreitando os laços, mostrar os exemplos das conquistas e das vantagens
da articulação política em torno desta frente. O objetivo é tentar trazer
essas pessoas para as reuniões, fazendo com que as ocupações saiam da
política estritamente local e da comunidade, e passem a trabalhar
articuladas com as outras ocupações, com práticas de solidariedade e apoio
mútuo, potencializando os resultados da mobilização e da luta.

Muito importante também é o estreitamento de laços que estimulamos das
ocupações com outros militantes ou pessoas simpáticas aos projetos que
estão sendo desenvolvidos. Acreditamos que essas outras pessoas, que têm
afinidade com as idéias libertárias, quando em contato com as ocupações,
têm espaço para desenvolver atividades com as quais mantém algum tipo de
afinidade (trabalhos culturais, projetos de alfabetização e hortas
comunitárias, por exemplo) e dessa forma engajar-se de maneira mais séria
nas lutas.

Há um importante esforço de se acabar com o conceito de invasão e de se
trabalhar o conceito de ocupação, que traz em seu bojo a concepção de
posse. A posse estimula a não comercialização e a não obtenção de lucro
sobre a propriedade, estimula a propriedade coletiva que é utilizada por
quem tem necessidade. É importante que não se transforme a moradia em um
local comercial, e que se discuta de maneira clara, o que é de uso privado
(de cada um) e o que é público (de todos). Aquilo que está interno às
residências como, por exemplo, os bens e a mobília, é inicialmente
privado. O espaço externo e os centros comunitários, por exemplo, são
espaços públicos.

Similar ao que acontece no campo, quando os movimentos de sem-terra ocupam
propriedades improdutivas, realçamos na área urbana a idéia de
reapropriação dos espaços abandonados. É assim que buscamos dar uma função
social para os espaços vazios, transformando-os em moradia para os
sem-teto cariocas.
EM CADA UMA DAS OCUPAÇÕES
? Vila da Conquista / Nelson Faria Marinho
Localizada no bairro de Curicica, zona oeste do Rio de Janeiro,
inicialmente constituíam duas ocupações vizinhas, atuando independentes
uma da outra. Foram constituídas há aproximadamente três ou quatro anos em
um terreno e, depois da ocupação, aos poucos as casas começaram a ser
construídas. O local funcionava então como um lixão da região e, algumas
vezes, servia ao crime organizado para desova de corpos. A maioria das
casas é de alvenaria e algumas poucas são de madeira. Desde o início, os
moradores recusaram qualquer auxílio do poder público e constituíram, de
maneira autônoma, suas próprias redes de luz, água e esgoto. Na Vila da
Conquista moram hoje aproximadamente 80 famílias.

A ocupação Vila da Conquista teve um trabalho, em um período anterior, de
militantes de partidos políticos que valorizavam somente a competição
entre os moradores e a obtenção de ?quadros? para o partido, sendo o PC do
B um dos maiores representantes dessa estratégia no local. O partido
percebeu que os moradores não serviam de ?base? e também não se
interessavam pela participação parlamentar (apoiando lideranças locais,
etc.). Ao mesmo tempo, conforme os políticos começaram a não cumprir as
promessas de campanha, houve um processo de perda de credibilidade e de
afastamento dos ocupantes em relação ao partido. Assim, os ocupantes, de
maneira autônoma, decidiram pedir apoio da FARJ (a FIST ainda não existia
no momento) para a continuidade dos trabalhos que estavam em
desenvolvimento ou, ao menos, em projeto.

A ocupação Nelson Faria Marinho foi resultado de uma expansão da Vila da
Conquista para o terreno ao lado. Lá vivem hoje outras 80 famílias,
totalizando nas duas ocupações aproximadamente 160 famílias. Há quatro
meses as duas ocupações decidiram se unificar, constituindo uma só
organização. O que unifica as duas ocupações são as assembléias em
conjunto ? somente uma assembléia para os dois espaços ? e os benefícios
que se consegue com as arrecadações públicas e os sindicatos, que acabam
servindo às duas.

Há algum tempo, quando o subprefeito da região de Jacarepaguá decidiu pelo
despejo, e na ocasião destruiu duas casas e o centro comunitário das
ocupações, a FIST apoiou os ocupantes numa ação de indenização contra a
prefeitura. As ocupações, nos fins de 2005, ganharam a ação contra a
prefeitura para a manutenção de posse, além da indenização por danos
materiais e morais.
? Poeta Xynayba
Localizada na Tijuca, zona norte do Rio, a Xynayba é uma vila de casas que
já tinham sido edificadas na época em que os moradores entraram. A
estrutura das casas remete a um histórico de quase 80 anos, pois, na
realidade, a vila foi construída para abrigar os moradores do antigo Morro
do Castelo, que tinha a mais antiga igreja carioca, morro esse que foi
derrubado para facilitar o acesso da região central à zona sul, e cuja
terra foi utilizada para o aterro do Flamengo. Essas casas chegaram a
funcionar como uma vila operária no período Vargas e há algumas décadas
foram tombadas pelo patrimônio histórico. No governo de César Maia, esse
patrimônio foi ?destombado? e os imóveis, abandonados, acabaram ocupados
pelos atuais moradores. Alguns dos moradores que habitam o local são
descendentes de ex-moradores, que outrora residiam no local. A ocupação
hoje conta com 38 famílias residentes.

O morador mais antigo está lá há 14 anos, porém a maioria das pessoas vive
no local há aproximadamente três anos. Antigamente, os moradores pagavam
aluguel a um outro ocupante, que se impunha pela força. No início da
organização com a FARJ e outros grupos, essa pessoa foi expulsa e o
sistema de coletivização das discussões, as assembléias permanentes e a
posse, em oposição à propriedade privada, foram implementados. O processo
jurídico teve início há dois anos, quando se deu à ocupação o nome do
poeta, que era um militante do movimento social e ecologista do interior
do estado do Rio de Janeiro, chamado Antonio Vieira, e popularmente
conhecido como Poeta Xynayba (uma mistura de chinês com paraíba). O poeta
morreu recentemente, no ano de 2005.
? Domingos Passos
Localizada em Sampaio, zona norte do Rio de Janeiro, é a mais recente
ocupação a integrar a FIST. Fica em um terreno com um casarão de
aproximadamente 100 anos de idade. A maioria das famílias mora dentro
desse casarão, mas no terreno em volta dele, há outras seis pequenas casas
construídas. O local já é ocupado há oito anos, mas só há cinco meses a
ocupação, como organização, integrou-se à FIST e passou a chamar-se
ocupação, dando assim um sentido mais politizado às suas atividades. O
espaço era alugado e, num determinado momento, descobriu-se que o
proprietário simplesmente não existia. Com o desaparecimento da pessoa que
intermediava a relação de locação do espaço, o local ficou ?sem dono?, e
como os moradores acharam que poderiam ser expulsos a qualquer momento,
decidiram dar um reforço político ao projeto, procurando o trabalho da
FIST para auxiliar na organização da ocupação. Isso aconteceu pelo
reconhecimento da FIST em meio às ocupações ? neste caso, mais
especificamente a Poeta Xynayba. Há algum tempo, o segundo andar do
casarão desabou (local onde morava uma família), deixando todas as outras
famílias (que viviam na parte de baixo) desalojadas. No momento, as
famílias providenciaram, com a solidariedade de sindicatos e outras
ocupações, lonas e material para lá ficar e estão arrecadando material de
construção para refazer o casarão; um belo exemplo de solidariedade. Vivem
lá 24 famílias.

No início do processo de politização da ocupação, as reuniões aconteciam
semanalmente, mas conforme as coisas começaram a ?entrar nos eixos? e a
rotina a se estabelecer, as reuniões passaram a acontecer a cada 15 dias.
O nome da ocupação é fruto da influência libertária no local e uma
homenagem a um anarquista que esteve ligado à construção civil,
responsável pela organização dos trabalhadores cariocas, no início do
século XX.
? Olga Benário
Localizada em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. Fica em um
terreno ocupado, onde antigamente os moradores viviam em barracões de lona
e sofreram mais de quatro incursões da polícia, resistindo em todas elas.
A partir da terceira vez, a resistência foi determinante, com um papel
preponderante das mulheres na luta contra a polícia. Desde então a polícia
parou as suas investidas e os moradores começaram a fazer as construções
de alvenaria, que constituem hoje o maior número de casas. Hoje, moram
nesta ocupação, aproximadamente 100 famílias.

A ocupação tem mais de três anos e a FARJ desenvolve trabalho por lá há
dois. Uma recente discussão é o método de entrada na ocupação e um
problema que lá existe é a repressão aos moradores feita pelos grupos de
extermínio ligados à polícia e aos políticos. Estes grupos, além da
?propaganda política? forçada, muitas vezes se apropriam de terrenos e os
vendem, um grave problema para os objetivos políticos da ocupação. As
assembléias acontecem a cada 15 dias e quando algum problema ou assunto de
urgência aparece, há assembléias extraordinárias.
? Confederação dos Tamoios
Localizada no Cosme Velho, zona sul da cidade, é talvez uma das ocupações
mais peculiares dentre aquelas com as quais trabalhamos: foi feita em uma
mansão, abandonada há mais de 30 anos, em um bairro de classe muito alta
(próximo ao Cristo Redentor) e tem deixado a high society carioca em
pânico. Os ocupantes entraram previamente com um processo de manutenção de
posse para garantir que estão no legítimo direito de morar no local. O
antigo proprietário era dono do jornal Correio da Manhã e hoje, a filha
dele, apoiada pela associação de moradores do bairro (sic), pela
prefeitura e por membros da Justiça, está movendo um processo para
retirada dos moradores do local (com inúmeras arbitrariedades jurídicas).
A propriedade é sustentada por esses setores da burguesia como sendo um
patrimônio histórico, com claro objetivo de retirar os ocupantes, que
estariam ?destruindo o imóvel? (o que, inclusive, não foi comprovado pelo
Instituto Estadual do Patrimônio Cultural ? INEPAC). Atualmente 22
famílias habitam o local.

A ocupação foi organizada por militantes do Movimento Terra, Trabalho e
Liberdade (MTL) e com apoio essencial da FIST, sendo batizada inicialmente
de ?Com Jeito Vai?. Parte dos militantes que constituíram a ocupação
pertence a um grupo que partilhava conosco opiniões favoráveis à autonomia
e que participou de manifestações pelo voto nulo nas últimas eleições.
Vale dizer que o MTL é um setor de movimento social do PSOL, que havia
desautorizado formalmente a direção do MTL a constituir essa ocupação.
Desobedecendo aos mandos da hierarquia, este grupo do movimento deu vida à
ocupação em seu momento inicial. Porém, problemas relacionados às próprias
polêmicas internas do movimento ao qual este grupo estava inserido
prejudicaram a sua permanência na organização da ocupação. O grupo se
retirou e a ocupação pediu entrada na FIST. Esta questão foi amplamente
discutida e se concluiu pela aceitação da ocupação, que passou a se chamar
Confederação dos Tamoios (em referência à luta antiga dos índios cariocas
contra a invasão portuguesa).
? Margarida Maria Alves
Localizada na cidade de São Gonçalo, no bairro de Trindade, a ocupação tem
mais de 30 anos de história, tendo sido realizada ainda na década de 1970.
Na época em que foi ocupada, era um imenso brejo, porém hoje as condições
são muito diferentes: o local foi aterrado pelos ocupantes, que também
participaram ativamente na constituição da rede de luz, água e esgoto,
juntamente com os vizinhos da época. A maioria dos moradores é constituída
por migrantes da cidade de Carpina, Pernambuco, que por sua origem
nordestina, optaram por ressaltar o nome de Margarida, uma militante
sindical dos trabalhadores de usinas na Paraíba, que morreu assassinada à
mando de um usineiro em 1983. As casas são de alvenaria e há 10 famílias
vivendo no local.

Como os moradores não possuíam a documentação do terreno, a prefeitura
reivindicou sua propriedade, justificando que ela seria pública e exigindo
a desocupação por parte dos moradores. Há um ano e meio eles se integraram
à FIST e passaram a dar passos mais largos rumo à organização e à
combatividade, aumentando o ritmo das assembléias e articulando-se com as
outras ocupações. Como muitos de seus moradores são ligados à construção
civil, essa ocupação ajuda muito as outras, com o auxílio na compra de
material de construção e mão-de-obra qualificada.
? Quatro Casas do Instituto Benjamin Constant
As casas, localizadas no bairro da Urca, zona sul do Rio, têm uma história
interessante: foram doadas na época do segundo Império pela corte de Dom
Pedro II para funcionários e pacientes cegos do antigo instituto. Ao longo
do tempo, as gerações de funcionários foram herdando as casas que vagavam,
ficando responsáveis pela manutenção do espaço. Lá, há casas que foram
ocupadas por militantes do movimento social, e casas em que vivem
aposentados e membros da classe média, estando em cada casa, uma família.
Por estarem em uma área nobre da cidade, próxima do Iate Clube, têm uma
visibilidade significativa.

Houve anteriormente uma articulação política que já não acontece hoje em
dia. Apesar disso, quatro dessas casas se reuniram com o objetivo de
entrarem juntas, com um processo contra o governo, que há tempos passou a
cobrar uma ?taxa de ocupação? dos moradores. No governo Lula essa taxa
aumentou muito, havendo casas cuja taxa mensal chega a quase R$ 2000,00.
Quatro delas comprometeram-se a trabalhar com a FIST, apesar de não
constituírem formalmente uma ocupação, com articulação política.
É LUTANDO QUE SE APRENDE A LUTAR
A legitimidade que tem sido conquistada pela atuação da FARJ e pela FIST,
mais o comprometimento e a ética adotados na prática, têm constituído
elementos facilitadores para o trabalho dos militantes nas ocupações. Por
isso, militam juntos sem maiores problemas as pessoas que vivem nas
ocupações e os militantes que não vivem. Mesmo estes, não são vistos como
estranhos que vêm de fora, mas sim como companheiros de luta que estão no
mesmo barco, em busca de um trabalho coletivo na luta contra a exploração
e o privilégio.

É assim que julgamos estar começando um processo de inserir o anarquismo
dentro do cenário político e dos processos de luta contemporâneos. É assim
que buscamos sair dos pequenos círculos e ampliar o escopo do anarquismo
social, utilizando-o com uma ferramenta fundamental de suporte às lutas
cotidianas. Por sinal, é na luta que vemos muitas das diferenças
desaparecerem. É na luta que aprendemos, junto com outros explorados, as
lições de solidariedade e da autogestão. É exatamente quando as pessoas
são estimuladas a desenvolver completamente seu potencial e sentem-se
envolvidas na luta ? e não são meramente utilizadas como uma massa de
manobra ? que vemos aflorarem os princípios libertários.

Neste processo de lutas existe uma série de contratempos que a própria
organização busca superar para, com isso, prosseguir caminhando. Como
qualquer trabalho com os movimentos sociais, as dificuldades são muitas:
no caso específico das ocupações, com o tráfico de drogas, a violência, as
instituições religiosas, a polícia, a ideologia capitalista que está
dentro do imaginário popular, dentre outras. Temos convicção de que a
militância que pretende obter ganhos sociais terá de lidar com esses e
outros problemas. Por isso, buscamos entender esses problemas como
momentos de aprendizado e de acúmulo para a organização, estando certos
que isso só se resolverá com muita persistência e acúmulo desse
aprendizado.

A horizontalidade é um norte que direciona nossas ações e que se
estabelece como nosso objetivo último, mas, como todos que estão na luta
sabem, essa busca da autogestão é incessante e quanto maior o trabalho
desenvolvido, maior a necessidade de trabalho. É uma busca interminável
que só se consegue superar com grande comprometimento e dedicação,
elementos que com muita humildade, temos tentado trazer à militância
anarquista. ?Porque a noite escura passará, e nós trabalharemos para ver o
amanhecer.?


SE MORAR É UM DIREITO, OCUPAR É UM DEVER!

PELA CONQUISTA DA MORADIA E A COLETIVIZAÇÃO DO SOLO URBANO! PELA
AUTOGESTÃO SOCIAL! PELO SOCIALISMO ANTIAUTORITARIO E INTERNACIONALISTA!

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