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(pt) [Brasil; FARJ] Reflexões sobre o comprometimento, a resposabilidade e a autodisciplina

Date Thu, 5 Jul 2007 17:40:49 +0200 (CEST)


[de Anarkismo.net]
?Um sujeito que tem uma Ética Libertária
sabe por que está lutando e consegue explicar os motivos
ideológicos da luta, tem compromissos e autodisciplina
para levar a cabo as tarefas assumidas?
Ideal Peres

Uma das fortes características da organização da FARJ é o compromisso
militante de seus membros. Acreditamos que para que a nossa luta tenha
frutos promissores, é fundamental que cada um dos militantes da
organização tenha alto grau de comprometimento, responsabilidade e
autodisciplina.

Quando nosso querido Ideal Peres proferiu as palavras acima, ele
expressou, em uma só frase, uma série de opiniões de suma importância para
nossa organização. Ele enfatizava, antes de tudo, uma importância da
consciência do militante com relação aos motivos da luta. Isso significa
que o militante anarquista não deve simplesmente obedecer aquilo que
determina uma direção descolada da base ou servir de ?massa de manobra?
para uma elite com interesses pessoais pelo domínio de pessoas e/ou por
outros interesses antiéticos, de nosso ponto de vista. O militante
anarquista é um sujeito que participa ativamente de todas as discussões
que se dão no âmbito da Federação. Dele, espera-se que se envolva com as
discussões que acontecem, colocando-se, discutindo as melhores saídas para
as questões apresentadas e interferindo nos rumos táticos e estratégicos
adotados pela organização.

É por isso que todos os militantes devem ter a clareza do por que se luta,
contra o quê se luta e em favor de quê se luta. Para isso, é fundamental o
comprometimento de cada um com relação à sua autoformação, independente
das tarefas de formação política que estejam sendo feitas pela
organização. É obrigação do militante buscar informar-se e,
constantemente, formar-se politicamente, para poder ter plena consciência
dos objetivos da organização, das discussões que acontecem e das
atividades que estão sendo desenvolvidas. Assim, o militante consegue
compreender os rumos da organização (em termos práticos e teóricos),
estando pronto para conversar, discutir e debater com os outros, ou mesmo
colocar-se em uma assembléia ou falar publicamente em alguma
circunstância, retirando da mão de alguns poucos, o exercício de tais
tarefas. Também se espera que a organização dê suporte aos militantes,
auxiliando aqueles que tiverem alguma dificuldade.

O militante anarquista não é alienado. Ele não segue ordens que vêm de
cima e não é ?base? para o interesse de vanguardas (ou elites), como
acontece nos partidos políticos e em outras organizações hierárquicas.

A opinião do militante anarquista no seio da organização não é apenas
consultiva, mas sim deliberativa. Ou seja, são os militantes da
organização que decidem o seu rumo, e não há vanguardas (elites), cuja
opinião vale mais do que a dos outros. Para nós, numa discussão, a opinião
de todos os membros plenos da organização tem o mesmo peso.

Quando Ideal Peres falava de compromisso e autodisciplina, ele dizia
fundamentalmente um compromisso individual para com as decisões coletivas.
Mas como funciona isso?

É muito comum em organizações que se dizem horizontais e apartidárias, um
descompromisso muito grande dos militantes com relação às questões de
compromisso e autodisciplina. Um exemplo disso é a grande quantidade de
pessoas que freqüentam reuniões (de grupos que são relativamente abertos),
dando opiniões sobre assuntos que desconhecem ou assumindo
responsabilidades, sabendo que poderão não cumpri-las. É muito comum que
essas pessoas não mais apareçam nas próximas reuniões e nem cumpram com
aquilo que prometeram, alegando que não puderam, por um motivo ou por
outro, ou nem mesmo dando satisfação ao coletivo. O pior de tudo é que
muitas dessas pessoas, ao serem cobradas, sentem-se ainda vítimas de algum
tipo de autoritarismo.

Há um exemplo muito ilustrativo com relação à situação que colocamos
acima: em uma ?rádio livre? do sul do país (preferimos não dizer o nome)
que dizia funcionar sob autogestão, as pessoas que queriam fazer os seus
programas iam às reuniões da rádio e marcavam os seus programas na grade,
em comum acordo. Após isso, muitas das pessoas que haviam marcado seus
programas simplesmente não apareciam, deixando a rádio sem funcionar e
tirando a oportunidade de outras pessoas que poderiam utilizar aquele
horário. Ao serem cobrados pelos outros membros do coletivo da rádio, os
faltantes diziam que aquilo era um autoritarismo, pois eles estavam dentro
de seu direito, exercendo sua ?liberdade?, ao não aparecerem para fazer o
programa, mesmo tendo se comprometido com isso desde o início.

Esse é um exemplo isolado, mas infelizmente, situações como essa são muito
corriqueiras no chamado ?meio libertário?. Para nós, o que acontece é que
há uma inversão de valores ao se julgar determinado tipo de comportamento
em que o autoritário ? ou seja, aquele que se comprometeu com algo perante
o coletivo e não cumpre ? julga-se vítima do autoritarismo.

O ?compromisso e a autodisciplina para levar a cabo as tarefas assumidas?
ressaltados por Ideal Peres fogem radicalmente do modelo apresentado
acima. Neste tipo de atitude de compromisso e autodisciplina, concordamos
com Ideal que, dentro da organização, deve haver um grande espaço para
todas as discussões e todos os pontos de vista devem ser analisados com
todo o cuidado e, como dissemos acima, ter o mesmo ?peso? nas tomadas de
decisão da organização. Nessas reuniões, são deliberadas todas as
atividades que a organização fará, o que significa dizer que seus membros
as realizarão. Afinal, a organização não faz nada por si só. Ela não tem
cérebro, braços e pernas para poder executar as atividades que são
deliberadas em seu seio. É por isso que todas as atividades que se
deliberar e que forem de responsabilidade da organização terão, de um
jeito ou de outro, de ser executadas pelos seus membros. Era sobre isso
que Bakunin se posicionava, ainda no século 19, discutindo a questão da
disciplina:
?Por inimigo que seja do que chamam, na França, de disciplina, reconheço,
contudo, que certa disciplina, não automática, mas voluntária e refletida,
estando perfeitamente em acordo com a liberdade dos indivíduos, foi e será
necessária, sempre que muitos indivíduos, livremente unidos, empreendam um
trabalho ou uma ação coletiva qualquer. Esta disciplina não é mais do que
a concordância voluntária e refletida de todos os esforços individuais
para um fim comum. No momento da ação, no meio da luta, os papéis
dividem-se naturalmente, de acordo com as aptidões de cada um, apreciadas
e julgadas por toda a coletividade: uns dirigem e ordenam, outros executam
ordens. Mas nenhuma função se petrifica, nem se fixa e não fica
irrevogavelmente ligada a qualquer pessoa. Os níveis e a promoção
hierárquica não existem, de modo que o comandante de ontem pode ser o
subalterno de hoje. Ninguém se eleva acima dos demais, ou se se eleva, é
somente para cair no instante seguinte, como as ondas do mar, voltando
sempre ao nível saudável da igualdade. Neste sistema, de fato, já não há
poder. O poder se funde na coletividade, e resulta na expressão sincera da
liberdade de cada um, na realização fiel e séria da vontade de todos
[...]" [Mikhail Bakunin. Império Knuto-Germânico. Retirado de Frank Mintz.
Bakunin: críctica y acción. Buenos Aires: Colección Utopia Libertária pp.
74-75.]
Cabe aqui abrir um parêntese para dizer que, da mesma forma que não existe
um ?espírito da organização? que resolve problemas e que desenvolve as
tarefas. É fundamental, no momento em que as decisões forem tomadas, que
se dividam as responsabilidades, ficando os membros formalmente
responsáveis por sua execução. Isso é importante, pois outro problema
comum nas organizações horizontais é a deliberação de que se deve fazer
isso ou aquilo e depois todos vão para casa, sem resolver quem ficará
responsável por qual atividade. Neste modelo, acontece uma das duas
opções: ou ninguém realiza essas atividades, ou as atividades caem nas
costas dos membros mais ativos da organização. Por isso, acreditamos na
necessidade de se dividir as atividades entre os militantes, buscando
sempre um modelo que distribua bem essas atividades e que fuja da
concentração de tarefas sobre os membros mais ativos ou capazes.

A partir do momento em que um militante assume uma ou mais tarefas para
com a organização, ele tem a obrigação de realizá-la e uma grande
responsabilidade perante o grupo com relação a essa(s) tarefa(s). É a
relação de compromisso que o militante assume com a organização. Como as
discussões no seio da organização são amplamente democráticas e ninguém
assume as tarefas porque é obrigado, cada compromisso é um compromisso
assumido por iniciativa do próprio militante, sendo de sua completa
responsabilidade. Se acontecer um imprevisto e o militante perceber que
não poderá realizar aquilo com o que se comprometeu, é sua
responsabilidade informar a organização com antecedência e transferir sua
responsabilidade a um outro membro.

Não acreditamos que a cobrança, por parte da organização, das
responsabilidades assumidas pelo militante seja algo autoritário. Ela deve
existir e, se acontecer dessa irresponsabilidade ou falta de compromisso
ser constante, deve haver uma conversa franca dos outros militantes com
ele, a fim de resolver a questão e não prejudicar os trabalhos da
organização.

A autodisciplina é o motor da organização autogestionária. Como em uma
organização desse tipo ? o que é o nosso caso na FARJ ? não há chefes que
?cobram? os funcionários ou a base para a execução das tarefas, cada um
que assume uma responsabilidade deve ter disciplina o suficiente para
executá-la. Da mesma forma, quando a organização determina uma linha a
seguir ou algo a se realizar, é a disciplina individual que fará com que
aquilo que se deliberou coletivamente se realize. Não deve haver
necessidade de cobrança, pois se espera que cada um no grupo cobre-se para
a realização das tarefas determinadas na organização, mas o indivíduo deve
satisfação à organização, devendo informá-la do andamento das atividades
sob sua responsabilidade e quando não as realizar, explicar ao coletivo o
motivo, podendo ser cobrado por isso. Quando há problemas no andamento das
atividades de um membro ou outro, a organização pode ?cobrar? os
responsáveis pelo andamento das atividades, também com o objetivo de não
prejudicar os trabalhos e a luta. Obviamente que a forma dessa cobrança
deve estar dentro dos critérios de respeito mútuo e da ética anarquista.

Errico Malatesta, ao discutir a questão da disciplina, em 1920, tratou-a
da seguinte forma:
?Disciplina: eis a grande palavra da qual se servem para paralisar a
vontade dos trabalhadores conscientes. Nós também pedimos disciplina,
porque, sem entendimento, sem coordenação dos esforços de cada um para uma
ação comum e simultânea, a vitória não é materialmente possível. Mas a
disciplina não deve ser uma disciplina servil, uma devoção cega aos
chefes, uma obediência àquele que sempre diz para não se mexer. A
disciplina revolucionária é a coerência com as idéias aceitas, a
fidelidade aos compromissos assumidos, é se sentir obrigado a partilhar o
trabalho e os riscos com os companheiros de luta.? [Errico Malatesta.
Anarquistas, Socialistas e Comunistas. São Paulo: Cortes p. 24.] (grifos
nossos)
É relevante observarmos os comentários de Malatesta, concordando que essa
disciplina e essa cobrança não devem seguir o modelo autoritário, tanto de
opressão dos membros do grupo quanto pela forma dessas cobranças, que,
conforme mencionamos, também devem considerar o respeito e a ética entre
os membros do grupo. É uma grande preocupação diferenciarmos a
autodisciplina que aqui pregamos da disciplina militar, exploratória e
opressora em sua essência e que, de nosso ponto de vista, não segue rumos
diferentes do que os outros autoritarismos que bem conhecemos.

Sobre a questão da disciplina no meio libertário, vale a pena observarmos
com atenção o debate que se deu em torno da Plataforma Organizacional dos
Comunistas Libertários, publicada pelo grupo Dielo Trouda, quando de seu
exílio na França. Após a sua publicação que se deu em 1926, surgiram
diversas respostas e um debate riquíssimo, primeiramente sobre os aspectos
organizacionais do anarquismo, e também outras importantes questões,
dentre elas a questão da disciplina, sobre a qual nos deteremos neste
momento.

São importantes fontes para este debate, tanto a própria Plataforma,
quanto as respostas e discussões que aconteceram posteriormente como a
Síntese e a ?Resposta? de 1927 à Plataforma escritas por Volin e outros
membros da NABAT (Confederação Anarquista da Ucrânia), a crítica mais
detalhada à Plataforma feita por G. P. Maximov chamada de Constructive
Anarchism [Anarquismo Construtivo], o debate entre Nestor Makhno e Errico
Malatesta ? uma riquíssima troca de cartas que vão de 1927 a 1929 ?, a
resposta de Piotr Arshinov a Malatesta, chamada de O Velho e o Novo no
Anarquismo, além de vários artigos deste período. Podemos citar
importantes textos como La Response aux Confusionistes de l?Anarchisme [A
Resposta aos Confusionistas do Anarquismo] de Piotr Arshinov, a série de
artigos publicados em Solidariedad Obrera por Alexandre Schapiro em 1932,
outros artigos de Volin, assim como de pensadores como Sebastien Faure,
Luigi Fabbri e Camilo Berneri. Há artigos centrais de Makhno (Sobre a
Defesa da Revolução e Sobre a Disciplina Revolucionária) e de Malatesta (A
Propósito da Responsabilidade Coletiva), que também trazem argumentos
relevantes na discussão da Plataforma.

Para o tema que aqui estamos discutindo, acreditamos que a fonte mais rica
seja o debate entre Nestor Makhno e Errico Malatesta. Não é o caso aqui de
tomarmos a defesa de um ou de outro lado, mas sim de observarmos as
colocações pertinentes tanto de um lado quanto de outro, já que temos
grande apreço pelos dois militantes em questão e acreditamos haver
argumentos corretos em ambos os lados.

Concordemos com o que colocam os exilados russos na Plataforma quando
afirmam que ?a situação miserável na qual o movimento libertário vegeta,
tem sua explicação em um número de causas, das quais a mais importante, a
principal é a falta de princípios e práticas organizacionais no movimento
anarquista?. Os russos enfatizavam que há ?uma falsa interpretação do
princípio de individualidade no anarquismo: sendo esta teoria
freqüentemente confundida com a total falta de responsabilidade?. Sabemos
que um dos grandes problemas do universo libertário é que o princípio da
liberdade e do antiautoritarismo é entendido várias vezes como a falta de
comprometimento, a tal ?falta de responsabilidade? apontada pelos
companheiros russos. Devemos concordar também que, conforme mencionam, ?os
elementos individualistas e caóticos entendem pelo título ?princípios
anarquistas? indiferença política, negligência e total falta de
responsabilidade?.

Sabemos que a crítica do princípio individualista no anarquismo tem
sentido e é por isso que concordamos também que ?o principio federalista
tem sido deformado nos postos anarquistas: ele tem sido interpretado como
o direito, acima de tudo, de manifestar o ?ego? de alguém, sem a obrigação
de arcar com os deveres para com a organização?. Julgamos corretos os
russos quando reivindicam que ?todos os participantes do acordo e a União
cumpram completamente os deveres assumidos, e conforme as decisões
compartilhadas? e que ?o tipo federalista de organização anarquista, ao
mesmo tempo em que reconhece os direitos de independência, opinião livre,
liberdade individual e iniciativa de cada membro, requer deles que assumam
deveres organizacionais fixos, e exige a execução de decisões
compartilhadas?.

Devemos atentar também para as colocações de Malatesta em sua resposta,
intitulada Um Projeto de Organização Anarquista, em que ressalta:
?Ao invés de estimular nos anarquistas um maior desejo por organização, [a
Plataforma] parece deliberadamente reforçar o preconceito de muitos
companheiros que acreditam que organizar-se significa submeter-se a
chefes, aderir a um organismo autoritário e centralizador, que sufoca toda
livre iniciativa?.
Cabe então uma reflexão sobre esses assuntos que não são tão claramente
expostos na Plataforma. Malatesta exagerou, mas vale observar seus
comentários e tomar cuidado para que a necessidade de responsabilidade que
defendemos, não signifique a hierarquia e autoritarismo. Os comentários de
Malatesta implicam exatamente os meios em que utilizamos para chegar aos
nossos objetivos; por isso, ele ressalta ainda que ?é inconcebível que os
mesmos que professam idéias anarquistas e querem realizar a anarquia, ou
no mínimo antecipar sua realização ? hoje, em vez de amanhã ? reneguem os
princípios básicos do anarquismo na organização com a qual se propõem a
lutar pela sua vitória?. Ainda sobre o tema, ele enfatiza que seu projeto
de organização anarquista deve contar com ?total autonomia, total
independência e, portanto, total responsabilidade de indivíduos e grupos;
livre acordo entre os que acreditam ser útil unirem-se para cooperar na
obra comum; dever moral de manter os compromissos assumidos e de nada
fazer em contradição com o programa aceito?. Finalizando, e voltando à
discussão dos meios, ele afirma que ?para viver e vencer, não precisamos
abandonar as razões de nossa vida e deformar o caráter da vitória
eventual. Nós queremos lutar e vencer, mas como anarquistas e para a
anarquia? (grifos nossos). Aqui também cabe concordarmos com Malatesta,
pois se desejamos atingir os nossos objetivos com a máxima urgência, não
teremos como deixar de lado os princípios que acabam implicados no como
faremos isso.

Em sua ?Resposta?, Makhno afirma, com razão: ?Você mesmo, querido
Malatesta, admite a responsabilidade individual do revolucionário
anarquista. E mais, você a apoiou em toda sua vida como militante?. Algo
que se comprova se observarmos a citação sobre disciplina de Malatesta
colocada mais acima, que data de 1920 e sustenta os mesmos argumentos de
Makhno. Com muita razão, e concordando com as afirmações de Malatesta,
Makhno diz que ?nenhum de nós tem o direito de escamotear tal
responsabilidade. Pelo contrário, se foi até agora ignorada, nas fileiras
anarquistas, precisa se tornar já, para nós, anarquistas comunistas, um
artigo de nosso programa teórico e prático?; além disso, ?apenas o
espírito coletivo e a responsabilidade coletiva de seus militantes
permitirão ao anarquismo moderno eliminar de seus círculos a idéia,
historicamente falsa, de que o anarquismo não pode ser um guia ? seja
ideologicamente, seja na prática ? para a massa trabalhadora num período
revolucionário, e, portanto não poderia exigir a responsabilidade total?.

Malatesta respondeu novamente, já aproximando certo acordo com Makhno,
quando escreveu: ?certamente, eu aceito e apóio a visão de que qualquer um
que se associa e coopera com outros por uma causa comum deve coordenar
suas ações com a de seus companheiros e não fazer nada que prejudique a
ação dos outros e, portanto, a causa comum; respeitar os acordos feitos ?
exceto quando pretendem deixar a associação por diferenças de opinião,
mudança de circunstâncias ou conflito sobre métodos escolhidos tornam a
cooperação impossível ou imprópria. Assim, eu sustento que aqueles que não
sentem nem praticam tais deveres têm de ser expulsos da associação.
Talvez, falando de responsabilidade coletiva, você se refira precisamente
ao acordo e à solidariedade que devem existir entre os membros de uma
associação. Se é assim, sua expressão significa, na minha visão, um uso
incorreto de linguagem, mas isso seria apenas uma questão irrelevante de
fraseologia e logo alcançaríamos a concordância?.

Acreditamos ainda ser importante citar trechos de um artigo de 1926 de
Makhno, chamado Sobre a Disciplina Revolucionária, quando ele afirma:
?compreendo a disciplina revolucionária como uma autodisciplina do
indivíduo, estabelecida num coletivo atuante, de modo igual para todos, e
rigorosamente elaborada. Ela deve ser a linha de conduta responsável dos
membros desse coletivo, induzindo a um acordo estrito entre sua prática e
sua teoria.?. Makhno fecha o artigo, com uma frase muito importante: ?a
responsabilidade e a disciplina organizacionais não devem horrorizar: elas
são companheiras de viagem da prática do anarquismo social.?

Malatesta, um ano após o debate com Makhno, publica um artigo chamado A
Propósito da Responsabilidade Coletiva em que afirma: ?a responsabilidade
moral (pois no nosso caso não pode senão tratar-se de responsabilidade
moral) é individual pela sua própria natureza?. Afirma ele, em seguida,
que ?Se entre homens que se puseram de acordo para fazer alguma coisa,
algum destes, faltando ao seu compromisso, faz fracassar a iniciativa,
todos dirão que é ele o culpado e, portanto, o responsável, e não aqueles
que fizeram até ao fim tudo o que deviam fazer.?

Acreditamos que todos os trechos citados trazem ensinamentos aos
libertários com relação às questões discutidas. O objetivo de nossa
organização é exatamente estar concebida de forma a exaltar os elementos
compromisso, responsabilidade e autodisciplina, sem que isso levante
posturas autoritárias, que fujam dos limites aceitáveis pela ética, como
já falamos. A ética é definida por nós como um dos eixos centrais de nossa
organização.

Esses elementos, hoje e sempre, são fundamentais para a realização das
atividades de qualquer organização que se diga séria e que tenha objetivos
de transformação social.

Tratemos a questão com exemplos práticos de nossa organização. A FARJ,
como bem se sabe, trabalha em duas frentes fundamentais: a frente
comunitária e a frente de ocupações. Tanto em uma como em outra,
comprometimento, responsabilidade e autodisciplina são imprescindíveis.

Por exemplo, para as atividades da frente comunitária. A gestão do Centro
de Cultura Social do Rio de Janeiro (CCS-RJ) implica em haver um rodízio
para que haja pessoas da organização no CCS nos dias combinados, com o
objetivo de que aconteçam as atividades programadas e que o espaço não
fique ?morto?. Essa gestão trata de desenvolver atividades que apontem
para rumos preconizados pela organização, cuidar para que as contas de
água, luz, etc. sejam pagas em dia (vale outro parêntese aqui para
parafrasear um companheiro de nossa organização que nos lembrava, dizendo
que não adianta chegar no fim do mês para pagar a conta do supermercado e
dizer para a caixa ?mas eu sou anarquista, sou contra o capitalismo?; isso
não resolve problemas de quem ainda vive dentro do capitalismo). Enfim,
existe toda uma exigência de tarefas que a organização se dispõe a fazer e
que, se não faz, está prejudicando o caminho rumo àquilo que se pretende
atingir quando na programação destas tarefas. Da mesma forma funciona o
compromisso de um militante com a frente: se a frente conferiu a um dos
militantes a tarefa de abrir o CCS, por exemplo, espera-se deste militante
que vá até o local na data e horário previstos e que realize a sua tarefa.
O mesmo vale para todos os outros projetos que são levados a cabo pela
frente comunitária: para que a Biblioteca Fábio Luz abra nos dias e
horários previstos, para que os livros sejam cadastrados, para que se
produza teoria no Núcleo de Pesquisa Marques da Costa, etc.

Na frente de ocupações, as coisas funcionam da mesma forma. Há uma imensa
necessidade de que os militantes freqüentem as assembléias das ocupações e
que para isso, estejam informados dos horários, dos dias e dos temas a
serem tratados nessas assembléias. Depois disso, é importante que os
militantes participem das assembléias da forma como foi combinado com a
frente, respeitando os devidos rodízios e os objetivos que se pretende
atingir. Os militantes devem trabalhar também, para que as ocupações se
articulem com as outras, no fórum que hoje chamamos Frente
Internacionalista dos Sem-Teto (FIST). O comprometimento neste caso das
ocupações é ainda mais crítico que na frente comunitária, visto que na
frente comunitária, em grande parte das vezes, atua-se entre companheiros
que têm valores éticos semelhantes aos nossos, o que faz com que o grau de
organização e comprometimento possam ser um pouco mais flexíveis. No
ambiente das ocupações urbanas, como no de outros movimentos sociais, se
dão muitas disputas e que, diversas vezes, temos que lidar com inimigos
como instituições do crime, da igreja, partidos políticos, organizações
aparelhistas da esquerda, dentre outros. Neste contexto, devemos ressaltar
a importância da organização, do comprometimento e da disciplina, pois há
uma forte disputa por espaço político (poder), o que significa que se os
anarquistas abrem espaço, ou têm problemas de comprometimento, etc., geram
espaço para que as outras organizações que estão no movimento social
ganhem hegemonia. Não há vácuo de espaço político (ou poder), por isso,
uma falta de comprometimento e responsabilidade na realização das
atividades significa que estamos gerando espaço para que os outros tomem.
Se queremos que os libertários tenham uma posição preponderante e que
possam influenciar o movimento social mais do que as outras forças em
questão, é fundamental saber que devemos trabalhar com o máximo de
responsabilidade.

Concluímos ressaltando que o nosso trabalho não pode ser algo que se dê
pontualmente e que podemos fazer às vezes, quando nos der vontade. O
compromisso que estabelecemos, como organização, exige que tenhamos
responsabilidade pela constância de nossas ações. Isso muitas vezes é
duro, pois as batalhas são, muitas vezes, perdidas. É a vontade e o
compromisso militante que farão com que caminhemos dia após dia, para o
desenvolvimento das atividades da organização e para que possamos superar
os obstáculos e preparar terreno para nossos objetivos de longo prazo. É
desta maneira que entendemos poder caminhar rumo à liberdade.

http://www.farj.org

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