A - I n f o s
a multi-lingual news service by, for, and about anarchists **

News in all languages
Last 40 posts (Homepage) Last two weeks' posts

The last 100 posts, according to language
Castellano_ Deutsch_ Nederlands_ English_ Français_ Italiano_ Polski_ Português_ Russkyi_ Suomi_ Svenska_ Türkçe_ The.Supplement

The First Few Lines of The Last 10 posts in:
Castellano_ Deutsch_ Nederlands_ English_ Français_ Italiano_ Polski_ Português_ Russkyi_ Suomi_ Svenska_ Türkçe
First few lines of all posts of last 24 hours || of past 30 days | of 2002 | of 2003 | of 2004 | of 2005 | of 2006 | of 2007

Syndication Of A-Infos - including RDF | How to Syndicate A-Infos
Subscribe to the a-infos newsgroups
{Info on A-Infos}

[Fwd: (pt) «A Batalha» n.220: Guerra civil e revolução social na Espanha (IV)

Date Wed, 17 Jan 2007 20:02:17 +0100 (CET)


Júlio Palma

A formação do Comité Central das Milícias não teve o efeito desejado ?
diferentes organizações com tácticas várias e objectivos estratégicos
diversos. No campo da CNT-FAI tentou-se uma reapreciação do acordo que o
tinha fundamentado. Santillán opôs-se. A leitura do livro El Anarquismo y
la Revolución en España ? Escritos 1930/38, de Diego Abad de Santillán
(Ed. Ayuso, 1976, 377 pp., com prefácio de Antonio Elorza), pode
fornecer-nos alguns dados que permitam compreender como se ancorava a sua
posição.
Conceitos-chave de Santillán
De facto, Santillán defendia alguns conceitos-chave que davam consistência
ao seu anarquismo. Em relação à organização sindical dizia: «Enquanto
anarquistas aceitamos os sindicatos como meio de luta e procuramos que se
aproximem na medida do possível às nossas concepções revolucionárias. Mas
daí a subordinarmos as nossas ideias a essa causa económica vai um abismo
profundo que não devemos tentar saltar sob pena de nos negarmos como
homens de ideais superiores e de vistas que não se limitam a contemplar o
doloroso panorama que nos oferece a luta de classes. Quer dizer: nós não
queremos ser dominados mentalmente pelo sindicato, queremos dominar o
sindicato. Por outras palavras: fazer o sindicato servir para a
propaganda, para a defesa e para a afirmação das nossas ideias no seio do
proletariado.»
Em oposição «ao totalitarismo liberticida em que caíram os movimentos
socialistas da Europa e da América», Santillán defendia «a livre
experimentação social». Considera que «a revolução não é uma brincadeira
de crianças, é uma ciência. Qualquer um pode ser rebelde, mas
revolucionário é apenas aquele que sobre essa rebeldia edificou um mundo
de conhecimentos, tanto de carácter económico e social como de carácter
estratégico, de luta, de ataque. (...) É preciso aproveitar todos os
minutos para uma preparação inteligente e adequada às eventualidades que
não tardarão a apresentar-se. (...) Os trabalhadores espanhóis não
consentirão o fascismo; para que este triunfe terá de fazê-lo através de
uma guerra civil tenaz, que daria à revolução ocasião de se traduzir em
factos combativos e em manifestações económicas e sociais superiores. À
primeira ameaça de golpe de Estado fascista ocupar-se-ão as terras e as
fábricas, os meios de transporte e de comunicações, convertendo cada local
de trabalho num baluarte de defesa e de ataque, recusando todo o trabalho
para o inimigo. Temos na nossa qualidade de trabalhadores uma força
superior à força da reacção armada: as fábricas, a chave da produção.
Em vez de abandonar o trabalho, em vez de sair das fábricas e de as
paralisar, os trabalhadores permanecerão nelas, e a partir de cada uma,
coordenada com as restantes por afinidade de produção e comunidade de
interesses, empreender-se-á a grande ofensiva com todos os meios,
económicos e bélicos. Sendo nós donos da maior parte da vida produtiva do
país, a reacção será vencida; se é verdade que no terreno do armamento
estará talvez no princípio em melhores condições de ofensiva do que nós,
quando, em lugar da frente de luta prevista, opusermos uma nova orientação
produtiva e fizermos de cada local de trabalho um quartel e uma fortaleza,
a vitória não tardará a inclinar-se para o nosso lado».
Pacto de não agressão em socialismo
Tratava-se de tentar materializar «o organismo económico da revolução».
«Com este mecanismo económico já esboçado na organização operária
existente, e que se formará sem violência, pela integração racional das
actividades produtivas e de utilidade social, alcança-se o máximo de
coordenação. Nem o capitalismo nem o Estado chamado socialista podem
alcançar esse grau de coesão.» Tudo isto assentaria nesta peça-chave: «Um
pacto de não agressão em socialismo.» Santillán escrevia: «Em socialismo,
em revolução, devia-se estabelecer, para o bem de todos, entre minorias e
maiorias, um pacto de não agressão, de respeito mútuo. Por parte do
anarquismo não queremos que houvesse inconveniente algum nisso. Mas as
outras correntes pensam do mesmo modo? Muito tememos que não e que levadas
pelo seu afã de domínio, pela sua vontade de poder, pela sua pretensão
totalitária, perpetuem o capitalismo de Estado, porque o proletariado não
se pode entusiasmar perante uma guerra civil sem quartel depois da
revolução. (...) Que fazer então? Perante o totalitarismo do socialismo
autoritário, os anarquistas responderão com a resistência armada e
desencadear-se-ia a guerra civil. Nalgumas regiões poderíamos conservar a
hegemonia e, quer queiram quer não, teremos de replicar ao absolutismo
alheio com o absolutismo próprio e nessa altura deixaríamos de ser
anarquistas. Esta evolução não se poderia conter; mas se desde agora ambas
as partes concordam num respeito mútuo, em regras pacíficas e na
tolerância das diversas expressões socialistas, sem que nenhuma se
manifeste agressiva perante as outras, pouparíamos uma guerra civil que
poria em perigo a revolução e o socialismo. De dois males, o menor. E o
menor é o acordo sobre a livre experimentação social pós-revolucionária.»
A revolução faz o seu caminho
É interessante ver o que ele escrevia em Junho de 1936 no artigo «A
revolução faz o seu caminho»: «A revolução saiu dos carris dos partidos e
das organizações revolucionárias. Foi a isso que sempre aspirámos; agora
está no povo; comunica-se de pessoa a pessoa, a homens e a mulheres, a
crianças e a idosos. Está em boas mãos! Quando é propaganda, quando é
agitação, quando é puramente doutrina, pertence aos partidos, aos
movimentos, às organizações; quando é sentimento, quando for acção
colectiva pertence às grandes massas, a todo o povo. E para ser fecunda e
para dar os frutos ansiados deve continuar a ser do povo e não diminuir as
suas possibilidades deixando-se monopolizar por um partido. Equivaleria à
sua morte como na Rússia.
Nós anarquistas temos nesta hora um papel importantíssimo a desempenhar.
Já não necessitamos de ser os instigadores da rebelião, como nas outras
vezes. Já ninguém pára a rebelião, a não ser a traição e o engano daqueles
que se dizem revolucionários. O que faz falta é vigiar para que a
revolução social, de todos, não se converta na revolução de alguns e para
alguns. É preciso que o que é do povo fique nas mãos do povo, e que seja
ele mesmo que faça, que termine, que resolva, que os acertos e desacertos
sejam seus, que as rectificações ou ratificações sejam suas, que a
revolução seja sua.
(...) Estamos optimistas, apesar de sermos os primeiros a avaliar o que
significa a corrente fascista na Espanha. E estamos optimistas porque
desta vez a revolução não é coisa de partido, de organização, de classe
(no sentido de categoria social restrita), mas coisa do povo, das grandes
massas. A revolução na Espanha foi até aqui uma coisa nossa, dos
anarquistas. Agora é de todos, é a causa da Espanha do progresso contra a
Espanha do obscurantismo, da mentira, da miséria.»
Vê-se que Santillán sentia já quando este artigo foi publicado (5-VI-1936)
que havia algo de muito complicado no ar. No processo desencadeado pelo
golpe militar as coisas não se passaram bem como ele havia pensado. De
facto, a revolução não é uma ciência. Mas isto ainda se podia discutir
entre anarquistas como se discutia o socialismo dito «científico».
Todavia, o que veio depois é que aparece como a negação da prática
anarquista.
Anarquistas no governo ou anarquismo governativo
Vejamos: Santillán, num artigo intitulado «Anarquistas no Governo ou
anarquismo governativo?» (Tiempos Nuevos, Maio-Junho de 1937), começa por
querer «distinguir entre a participação dos anarquistas no Governo e o
anarquismo ?governamental?». Diz que não teve «vacilações em aceitar o
primeiro», mas não tolera o último.
Repare-se na justificação: «A responsabilidade da própria força, a
consciência da gravidade da hora e a impossibilidade de criar por
improvisação um órgão adequado e que fosse reconhecido pelos outros países
como responsável da guerra, fez que deixássemos de lado certos escrúpulos.
Começou-se por fazer parte do governo da Generalitad; a seguir do governo
da República.
Até então a participação de um anarquista na vida política significava o
seu fim como tal; pela primeira vez em três quartos de século os
anarquistas entraram no Governo sem se considerarem à margem do anarquismo
e sem terem abandonado os seus princípios (sin haber hecho dejación de sus
principios). (...) Inimigos da guerra, tínhamos feito nossa uma guerra de
grande formato; inimigos do Estado, tivemos de participar nele. O dilema
coloca-se agora assim: conseguiremos fazer do aparelho governativo um
instrumento para a guerra e um mecanismo neutral no processo
revolucionário, assenhoreando-nos da sua direcção, ou seremos devorados
pelo Estado, convertendo-nos em mais uma espécie de partido político e
sufocando sem querer a verdadeira revolução?»
Estamos em plena sofismação.
No artigo seguinte de Julho-Agosto há mais um solavanco. «Nós somos
revolucionários porque amamos a justiça e nos dói a iniquidade, sejam
quais forem as suas raízes. (...) O partido revolucionário desta hora,
depois da vitória de 19 de Julho de 1936, deve ser este: o dos homens e
mulheres de boa vontade, capazes de se sobreporem aos próprios interesses
e às próprias paixões e de edificar um futuro melhor para os nossos filhos
e para os filhos dos nossos filhos.» Já não falava de sindicatos nem de
livre experimentação e uma vez que considerava que «o proletariado não é
uma maioria» tratava-se então de «captar a pequena burguesia para a nossa
obra de construção social», porque isso «é assegurar a revolução contra
todos os perigos».Que lições tirar dos trágicos acontecimentos de Maio? O
artigo termina assim: «Persiste a guerra, e para ganhar nesta contenda
sangrenta impõe-se a cooperação e a ajuda mútua de todos os amantes da
justiça; e a justiça pode ser sentida, praticada e querida pelos
indivíduos de todas as classes. Se convertermos estes numa legião, sem nos
importarmos com o preço, então teremos certo o triunfo na guerra e livre a
senda do desenvolvimento revolucionário. O pão e o tecto não devem faltar
àqueles que expropriámos porque a propriedade era anti-social nas suas
mãos.»
Saint-Imier e Congresso de Bolonha
O último artigo do livro é de Agosto de 1938 e intitula-se «À volta dos
nossos objectivos libertários». Santillán pretende colocar a FAI na linha
da Aliança para a Democracia Socialista, de 1869, na da Internacional
antiautoritária de Saint-Imier, de 1872, e no que foi aprovado pelos
anarquistas italianos no Congresso de Bolonha, em 1920. Vejamos o que foi
aprovado em Saint-Imier: «O congresso reunido em Saint-Imier declara: 1.
Que a destruição de todo o poder político é o primeiro dever do
proletariado. 2. Que toda a organização de um poder político chamado
provisório e revolucionário para alcançar tal destruição será apenas mais
um engano e seria tão perigoso para o proletariado como todos os governos
hoje existentes. 3. Que, recusando todo o compromisso para chegar à
realização da revolução social, os proletários de todos os países devem
estabelecer, à margem de toda a política burguesa, a solidariedade da
acção revolucionária.» Ora isto é citado por Santillán que, contudo, tinha
defendido «o pacto de não agressão em socialismo» e tinha sido conselheiro
de Economia da Generalitat. E Santillán também conhece, porque a cita, a
frase de Kropotkine: «Acreditam que conquistam o Estado, mas o Estado
acabará por vos conquistar.» Ou a de Isaac Puente: «A política emancipa do
trabalho, mas não emancipa o trabalho.»
Santillán deixa-nos uma interrogação, um convite e uma confirmação. «As
minorias de vanguarda, no transcurso dos dois agitados e azarados anos que
levamos de guerra ao fascismo, dão a impressão de ter tido medo da própria
audácia e retrocederam com gosto para velhas posições que grandes massas
tinham superado através das suas criações revolucionárias. Medo da
liberdade? Temor do desconhecido? Ignorância? Conformidade com os caminhos
trilhados, ainda que sejam os mais anti-revolucionários e antiproletários?
Que os historiadores futuros desentranhem esse mistério, que em todo o
caso pode ter estas explicações: 1. As minorias de vanguarda não estavam à
altura da sua missão nem levavam no seu pensamento e nas suas paixões o
que as suas palavras proclamavam. 2. As grandes massas estavam mais
preparadas do que os seus supostos mentores para a construção
revolucionária.»
Na conclusão Santillán escreve: «Não se pode servir a dois amos ao mesmo
tempo. Se estamos com o povo não podemos estar com o Estado, que é seu
inimigo. E por agora estamos com o Estado, que equivale a tanto como estar
contra o povo. Pela primeira vez na história em nome do anarquismo
apegamo-nos mais aos interesses do governamentalismo do que aos do povo. E
o povo, que tem um instinto são, que tem a intuição da verdade, começa a
ver claro, a sentir-se desalentado e sem esperança, quando nos vê a nós,
que sempre havíamos oferecido a nossa vida em defesa da sua causa,
esquecermo-nos dele por um prato de lentilhas ministeriais.
Quase todos vós, queridos camaradas, vos tereis sentido atravessados por
alguma exclamação popular espontânea, cuja veracidade não podeis pôr em
dúvida: Cuando llegan arriba todos son iguales!
Nós somos iguais aos que nos haviam precedido na ocupação de altos cargos
públicos de governo. E o povo atira-nos isso à cara. E tem razão o povo.»
Como diria Bakunine, o poder corrompe os homens, mesmo os mais
inteligentes, mesmo os mais devotados.


_______________________________________________
A-infos-pt mailing list
A-infos-pt@ainfos.ca
http://ainfos.ca/cgi-bin/mailman/listinfo/a-infos-pt
http://ainfos.ca/pt


A-Infos Information Center