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(pt) Ação Direta- Luta e Resistência do Movimento Sem-Tet o no Rio de Janeiro

Date Wed, 10 Jan 2007 18:29:18 +0100 (CET)


Felipe Corrêa - FARJ

?Internacional é o livre acordo estabelecido
por cima das fronteiras ou divisão política dos povos?
Domingos Passos

A constante luta pelo socialismo libertário, levada a cabo por nossa
organização, vem sendo concretizada com uma atuação social que está
baseada em dois eixos estratégicos: os trabalhos de nossa frente
comunitária e de nossa frente de ocupações.
A frente comunitária é hoje responsável pela gestão do Centro de Cultura
Social do Rio de Janeiro (CCS-RJ) e de todos os projetos comunitários que
lá estão radicados como a gestão da Biblioteca Social Fábio Luz (e o
trabalho de produção teórica que lá se desenvolve), o projeto de
reciclagem e educação ambiental, o projeto de letramento (educação de
jovens com dificuldades no reconhecimento da palavra escrita e suas
funções de comunicação), o curso pré-vestibular comunitário, a rede de
distribuição de produtos alimentícios ecológicos (com participação de
pequenos agricultores), o projeto de serigrafia e o núcleo de saúde e
alimentação Germinal (que promove almoços vegetarianos regularmente).
A frente de ocupações articula-se em torno da Frente Internacionalista dos
Sem-Teto (FIST). O trabalho da FARJ com os sem-teto teve início há três
anos atrás e desenvolve-se hoje em oito ocupações urbanas: Vila da
Conquista, Nelson Faria Marinho, Poeta Xynayba, Domingos Passos, Olga
Benário, Confederação dos Tamoios, Margarida Maria Alves e Quatro Casas do
Instituto Benjamin Constant. Este trabalho surgiu a partir de uma demanda
palpável da população carioca, por razão de toda a falta de espaço que é
ocasionada pelo livre trânsito do capital, que ?limpa o centro? e que joga
os pobres cada vez mais para a periferia. Pobres que são então obrigados a
amontoar-se nos morros, nos subúrbios ou a quilômetros de distância de
seus locais de trabalho (quando existe algum). Identificamos então, que
este poderia ser um terreno fértil para as idéias do anarquismo, já que as
ocupações urbanas questionam, em primeira instância, a propriedade
privada, a especulação imobiliária e a lógica do lucro, ou seja, pilares
centrais do capitalismo que, como tais, devem ser questionados e
combatidos por meio da organização dos explorados.

RELEVÂNCIA DA MILITÂNCIA SOCIAL
A bandeira negra do anarquismo traz em sua tradição muitas respostas para
os problemas da exploração capitalista e estatista. Essas respostas,
muitas vezes dentro do âmbito teórico, devem auxiliar o trabalho social e
fazer com que ele constitua-se como uma ferramenta concreta de luta contra
essa exploração. Para isso, é necessário extrapolar as questões teóricas e
concretizar as nossas demandas de transformação social; é dessa forma que
buscamos ampliar os horizontes dos ideais libertários e partir para a
prática real de transformação social. Acreditamos que é dentre as maiores
vítimas do capitalismo ? pessoas que têm necessidades reais e que sofrem
de maneira mais dura as conseqüências do capitalismo ? que o anarquismo
tem campo para florescer e para prosperar.
Por isso afirmamos a necessidade do trabalho social: uma alternativa real
de combate à ordem estabelecida que oferece possibilidades concretas de
melhoria nas condições de vida de trabalhadores (empregados e
desempregados) para, assim, potencializar o ideal revolucionário. Se a
discussão não ganha corpo na luta social, a chance de exercermos alguma
influência política, econômica ou social é nula. Se o anarquismo pretende
ser minimamente considerado em termos de uma força política que busca
espaço na sociedade, ele deve sair dos guetos, atuar socialmente em meio
aos movimentos sociais e buscar seu espaço.

A FRENTE INTERNACIONALISTA DOS SEM-TETO (FIST)
A constituição da FIST deu-se a partir deste trabalho que já era realizado
por nossa organização em quatro ocupações: Olga Benário, Vila da
Conquista, Poeta Xynayba e Nelson Faria Marinho. A FARJ teve importante
participação na constituição da FIST, estabelecendo juntamente com seus
outros membros, princípios éticos e morais mínimos para a convivência,
articulação política e organização das lutas do movimento de ocupações do
Rio de Janeiro. Além disso, o respaldo jurídico às ocupações também acabou
constituindo um de seus fortes pilares.
Dentro da FIST, a FARJ trabalha para organizar-se com outras pessoas de
ideologias diferentes (basicamente comunistas apartidários) e
representantes de cada uma das ocupações. Os militantes da FARJ dividem-se
na participação nas assembléias das ocupações, algumas possuindo
militantes da organização que lá residem, como no caso da ocupação Poeta
Xynayba, e na participação de outras assembléias de ocupações que não
possuem militantes residentes. O trabalho desenvolvido gira em torno da
formação política, da organização de atividades pedagógicas e educativas,
além do auxílio freqüente nas questões que surgem no dia-a-dia. Além
disso, estimulamos permanentemente a participação de todas as ocupações no
fórum geral de articulação, que é a FIST. Também nesta instância se dá o
nosso trabalho de propaganda do modelo de organização libertário,
estimulando as práticas libertárias como autogestão, federalismo, apoio
mútuo e ação direta, com o objetivo de que elas aconteçam na prática o
máximo possível.
O crescimento da FIST acontece como resultado de um processo bastante
fundamentado que busca, desde um primeiro momento, conversar diretamente
com os representantes da comissão de moradores de outras ocupações e,
estreitando os laços, mostrar os exemplos das conquistas e das vantagens
da articulação política em torno da Frente. O objetivo é tentar trazer
essas pessoas para as reuniões da FIST, fazendo com que as ocupações saiam
da política estritamente local, que diz respeito só à comunidade, e passem
a trabalhar articuladas com as outras ocupações, com práticas de
solidariedade e apoio mútuo.
Há um importante esforço de se acabar com o conceito de invasão e de se
trabalhar o conceito de ocupação, que traz em seu bojo a concepção de
posse. A posse estimula a não comercialização e a não obtenção de lucro
sobre a propriedade, a propriedade coletiva que é utilizada por quem tem
necessidade. É importante, de nosso ponto de vista, não transformar a
moradia em um local comercial, e se discutir de maneira clara, o que é de
uso privado (de cada um) e o que é de uso público (de todos). Geralmente
aquilo que está interno às residências como, por exemplo, os bens e a
mobília, é privado. O espaço externo e os centros comunitários, por
exemplo, são os espaços públicos.
É assim que realçamos a idéia de reapropriação de um espaço abandonado, e
que buscamos dar uma função social para os espaços vazios,
transformando-os em moradia para os sem-teto cariocas.

ASPECTOS PEDAGÓGICOS DA LUTA
Julgamos, com muita humildade e dedicação para a luta, estar no início de
um processo de inserção do anarquismo dentro do cenário político e dos
processos de luta contemporâneos. É por meio deste trabalho que temos
utilizado o anarquismo como uma ferramenta fundamental de suporte às lutas
cotidianas.
Por sinal, é na luta que vemos muitas das diferenças desaparecerem. É na
luta que aprendemos, junto com outros explorados, as lições da
solidariedade e da autogestão. É exatamente quando as pessoas são
estimuladas a desenvolver completamente seu potencial e sentem-se
envolvidas na luta, e não são meramente utilizadas como uma massa de
manobra, que vemos os princípios libertários aflorar.
A horizontalidade é um norte que direciona nossas ações e que se
estabelece como nosso objetivo último, mas, como todos que estão na luta
sabem, essa busca da autogestão é incessante e, quanto maior é o trabalho
desenvolvido, maior a necessidade de trabalho. É uma busca interminável
que só se consegue superar com grande comprometimento e dedicação,
elementos que, com muita humildade, temos tentado trazer à militância
anarquista do Rio de Janeiro. ?Porque a noite escura passará, e nós
trabalharemos para ver o amanhecer.?


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