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(pt) Federação Anarquista do Rio de Janeiro NOSSO TRABALHO COM AS OCUPAÇÕES E A FIST

Date Sun, 16 Dec 2007 02:02:13 +0100 (CET)



[de Anarkismo.net]
Artigo* que trata do trabalho da FARJ com as ocupações urbanas
cariocas, da nossa concepção de organização anarquista, e das relações
com a Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST).

?Não queremos ?esperar que as massas se tornem anarquistas? para fazer a
revolução; tanto mais de que estamos convencidos de que elas nunca se o
tornarão se inicialmente não derrubarmos, pela violência, as instituições
que as mantêm em escravidão. Como precisamos do concurso das massas para
constituir uma força material suficiente, e para alcançar o nosso objetivo
específico que é a mudança radical do organismo social graças à ação
direta das massas, devemos nos aproximar delas, aceitá-las como elas são
e, como parte das massas, fazê-las ir o mais longe possível. Isso se
quisermos, evidentemente, trabalhar de fato para realizar, na prática,
nossos ideais, e não nos contentar em pregar no deserto, para a simples
satisfação de nosso orgulho intelectual.?
Errico Malatesta


Para a FARJ, o anarquismo deve servir, acima de tudo, como ferramenta de
luta. Com esta premissa, temos buscado reinserir o anarquismo no campo da
luta de classes, com o objetivo de que ele retome seu vetor social,
perdido no Brasil, ainda na década de 1930.

Uma dessas tentativas encontra-se no trabalho com as ocupações urbanas
cariocas, que iniciamos ainda no ano de 2003. Pelas ocupações urbanas
constituírem um campo em que as contradições do capitalismo são mais
evidentes, passamos a acreditar que esse seria um terreno mais do que
fértil para as idéias do anarquismo. Desde então, buscamos seguir as
idéias de Neno Vasco, que recomendava depositar as sementes do trabalho
militante no terreno social mais fértil possível. E o terreno priorizado
por nós foi o das ocupações urbanas.

Os trabalhos iniciaram-se na ocupação Vila da Conquista e logo se
estenderam para as ocupações Olga Benário, Margarida Maria Alves e Poeta
Xynayba (despejada já há algum tempo). Em 2005, formamos uma frente de
trabalho social cujo objetivo era aproximar os anarquistas das ocupações
urbanas. Desta frente participaram a FARJ e dois outros grupos: o Coletivo
Libertário Ativista Voluntariado de Estudos (CLAVE) e o Grupo de Ação
Libertária (GAL). Com a dissolução do CLAVE e do GAL e a entrada de alguns
de seus membros na FARJ, a luta com as ocupações continuou. Para nós, era
importante a fundação de uma frente que pudesse agregar as ocupações,
proporcionando um laço de solidariedade entre elas. Foi assim que nos
juntamos à Liga dos Comunistas Sem Partido (LCSP) e, junto com as
ocupações com as quais trabalhávamos, fundamos a Frente Internacionalista
dos Sem-Teto (FIST), em 2005.

Naquele momento, a FIST definiu-se ?como um movimento político-social,
voltado para o apoio mútuo entre as ocupações de sem-teto do Rio de
Janeiro, denunciando a exploração imobiliária burguesa e organizando sua
resistência contra qualquer tipo de exploração e opressão, oriunda do
sistema capitalista?. Escolheu, também, basear-se na horizontalidade, ação
direta, autonomia social e política, responsabilidade coletiva, classismo,
apoio mútuo e internacionalismo, com vistas à luta revolucionária
anticapitalista e à constituição de uma nova sociedade. Estes princípios
mínimos, que na verdade norteavam um acordo tático entre as organizações
no interior da FIST, foram estabelecidos para que se pudesse constituir a
frente de luta e, a partir dela, as mobilizações, visando fundamentalmente
a solidariedade e o apoio mútuo; tudo isso com o objetivo de potencializar
os resultados organizacionais da frente. Um dos resultados práticos destas
medidas foi a publicação do Espaço das Ocupações, periódico da FIST, que
teve cinco números e para o qual contribuímos de maneira decisiva.

Dentro da FIST, sempre defendemos o ponto de vista de que sua principal
função deveria ser articular as ocupações para o fortalecimento dos laços
de solidariedade e da organização política, propagando o conceito de
liberdade social, presente em Bakunin. A liberdade do outro, afirmava ele,
longe de limitar a liberdade de alguém, estende-a e é condição necessária
para sua confirmação. Ou seja, o principal objetivo deveria ser articular
as lutas e fortalecer os seus laços federalistas; uma forma de buscar
ampliar a liberdade, de maneira coletiva. Sempre, também, acreditamos que
deveríamos estimular a associação, com vistas ao aumento de força social
para a luta, visto que, associadas por laços de fraternidade e apoio
mútuo, as ocupações possuem muito mais força para lutar contra seus
opressores.

O apoio jurídico, dado pela LCSP às ocupações, teve sempre um lugar
fundamental na FIST. Sem este apoio, é inegável que qualquer trabalho com
as ocupações seria muito mais difícil, já que a luta entre proprietários e
ocupantes passa, necessariamente, por uma burocracia jurídica que, se não
tiver apoio técnico e competente, pode colocar tudo a perder. No entanto,
nossa posição sempre foi que o apoio jurídico, assim como todos os ganhos
de curto prazo, não deveria se sobrepor ao trabalho político, voltado aos
objetivos de longo prazo. Foi por este motivo que, desde a fundação da
FIST, sempre buscamos sustentar uma discussão política, extravasando os
objetivos de curto prazo, que naturalmente são trazidos como demanda de
qualquer movimento social. Isso, para nós, significa defender a visão de
que o movimento social não se basta por si mesmo e que é imprescindível um
projeto político de longo prazo, anticapitalista, que vá além das
conquistas imediatas.

Em 2005 tivemos uma experiência importantíssima com a ocupação Quilombo
das Guerreiras que, embora tenha sido despejada logo após sua
constituição, nos deixou um grande aprendizado sobre o trabalho social com
as ocupações. Na época, justificamos assim a ação: ?No campo tático a FARJ
e a FIST tinham como objetivo, ao participarem dessa ocupação, não apenas
estabelecer, por uma ação violenta contra a propriedade, um enclave de
justiça social, ainda que dentro da mais ampla conjuntura de desigualdade
que atravessamos. Os militantes destas organizações acreditavam tratar-se
de um passo importante na direção de uma política mais conseqüente entre
os grupos de apoio, não excetuando aí o estabelecimento de laços fraternos
e de confiança, com vistas à unidade na luta.? [FARJ. Uma Breve Leitura da
Ocupação ?Quilombo das Guerreiras?.]

Os trabalhos continuaram em 2006 e 2007, com a FIST agregando outras
ocupações: quatro casas do Instituto Benjamin Constant, Domingos Passos,
Confederação dos Tamoios, Alípio de Freitas, Lima Barreto (já despejada),
José Oiticica, Poeta Xynayba II.

Nossa ação concreta dentro das ocupações se dá, não apenas, mas
principalmente, no auxílio para a organização das assembléias e na
proposição de atividades para se construir elos de relação com as demais
ocupações; neste caso, as filiadas à FIST, ou mesmo fora dela. Muitas
vezes tomamos parte no cotidiano das ocupações, comparecemos nos dias de
trabalho, de articulação, ou mesmo nas comemorações e festas. E ainda,
desenvolvemos atividades pedagógicas e/ou lúdicas com os moradores e
projetos diferentes como o trabalho de hortas, reciclagem, passeios com as
crianças, exibição de filmes, entre outras. Há agora um novo projeto para
desenvolvermos um curso de formação política nas ocupações.

Acreditamos que os níveis de atuação político (da organização específica
anarquista) e social (o movimento social, não anarquista) são diferentes e
possuem propostas distintas. Nunca quisemos ideologizar o movimento social
? transformando-o em movimento de ocupações anarquista ? mas sim
influenciá-lo, o quanto possível, com as nossas práticas anarquistas, como
nos recomenda Malatesta.

Houve, desde sempre, uma luta fraterna dentro da FIST para que esta não se
tornasse simplesmente uma entidade de apoio jurídico e de auxílio de curto
prazo aos movimentos sociais. Para nós, foi ficando cada vez mais claro
que o papel desempenhado pela LCSP dentro da FIST, atribuindo demasiada
ênfase em seus aspectos jurídicos, estava complicando nossos objetivos de
politizar as ocupações, trazer visão de longo prazo, estimular a
solidariedade e a associação para luta. Para nós, essa ênfase no jurídico
sustentava a idéia, constantemente latente nos movimentos sociais, de
valorizar somente os ganhos de curto prazo, naturalmente em detrimento de
seus aspectos revolucionários, anticapitalistas, de ver o movimento como
meio, e não como fim. A ênfase no jurídico estava despolitizando as
ocupações, gerando líderes ?messiânicos? ? visto que o advogado não era
mais um, mas era o único capaz de levar a ocupação à ?redenção?. Ao invés
de proporcionar experiências pedagógicas, mostrando aos explorados que o
poder está no povo, e não fora dele, estas situações estimulavam o
contrário. Ao invés de conseguirmos exercer nossa influência por meio do
exemplo e da luta ombro a ombro com os explorados, essa posição de reforço
do jurídico estava sendo usada para consolidar uma relação de domínio, em
que o ?especialista?, colocava-se sobre as ocupações, gozando de seu
privilégio do saber, e estimulando a subserviência dos ocupantes.

Entretanto, é preciso frisar que também a LCSP tem uma contribuição
importante na tentativa de politização dos ocupantes. Mas, a experiência
tem demonstrado que, quer por um equívoco dos companheiros, quer pela
insegurança que demonstram ao hipertrofiar o papel do jurídico, esta
contribuição, no seu somatório, revela-se quase nula. O resultado é que os
ocupantes, principalmente na iminência de um despejo ou ordem do juiz
contrária à permanência destes na ocupação, muitas vezes entregam-se ao
desespero ou mesmo à prostração. Um fato que, se não pode ser explicado
unicamente pela valorização excessiva do jurídico, levada a efeito pelos
companheiros da LCSP, encontra nessa atitude um dos seus indícios mais
fortes de despolitização.

Recentemente, pelos motivos explicados, decidimos sair da FIST. Com esta
atitude, acreditamos poder continuar com o trabalho nas ocupações urbanas,
porém, excluindo estes problemas, que para nós estavam gerando
conseqüências funestas. Deixemos claro que esta saída da FIST não implica,
de maneira alguma, na interrupção dos nossos trabalhos com o movimento
sem-teto do Rio de Janeiro. Os trabalhos continuam e continuarão sendo
feitos da mesma forma, com a única diferença que agora, ao invés de nos
relacionarmos com as ocupações por meio da FIST, estamos fazendo isso
diretamente FARJ-ocupações. Com a nossa saída da frente e a exposição
clara, franca e ética dos nossos motivos, temos logrado ainda executar
ações pontuais e nas ocupações com a LCSP, entretanto, sem as vinculações
orgânicas táticas de antes. Para nós, o movimento sem-teto continua sendo
um terreno muito fértil para o anarquismo e continuaremos jogando nele as
nossas sementes.


* Texto feito para o editorial do Libera

http://www.farj.org
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