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(pt) «LUTA SOCIAL» N.19 - Chile: O outro 11 de Setembro

Date Sat, 30 Sep 2006 10:56:19 +0200 (CEST)


No passado 11 de Setembro tiveram lugar no Chile as tradicionais
manifestações em memória das vítimas do regime fascista de Pinochet, tendo
sido marcadas este ano por confrontos violentos entre a polícia de choque
e jovens encapuçados hasteando a bandeira anarquista.

O dia marcou os 33 anos do golpe de estado de Pinochet, quando forças
militares cercaram e atacaram o palácio presidencial, La Moneda, matando o
presidente democraticamente eleito, Salvador Allende e iniciando um
sangrento regime fascista.

Este dia tem-se tornado cada vez mais um dia de luta e revindicação no
Chile, e este ano não foi diferente, com vários grupos saindo à rua não só
para não deixar esquecer as atrocidades do regime Pinochet, mas também
para criticar a actual situação do país.

Ocorreram confrontos nas ruas de várias cidades, sobretudo entre os jovens
encapuçados e a polícia, sendo várias sucursais de bancos e multinacionais
destruídas e chegando a ser lançado um cocktail molotov contra o palácio
presidencial, fazendo-se imediatamente ouvir as vozes da indignação por
este acto. Infelizmente, os actos de violência policial nos meses
passados, incluindo várias mortes, não levantaram a mesma indignação e
burburinho.

Os jovens queimaram também bandeiras do Chile, mostrando o seu desprezo
pelo estado e pátria, símbolo omnipresente na capital onde todos os
prédios da avenida principal são obrigados por lei a hastear a bandeira
chilena nas comemorações da independência que começam nesta altura, sob
pena de pagar uma multa de milhares de pesos.

Nas televisões e telejornais iniciou-se imediatamente uma operação de
propaganda, caracterizando os ?anarquistas? como um bando de rufias que
defendem o caos, a destruição e a desordem. Foram presas 202 pessoas,
tendo sido praticamente todas libertadas neste momento, mas o governo
promete já acções de repressão e vigia apertada contra todos os grupos
anarquistas. Na imprensa pede-se retaliação dura contra os ?vândalos?.

O Chile é sem sombra de dúvidas o país da América do Sul mais
desenvolvido, com um nível de vida que se começa a aproximar do europeu.
Não obstante, a luta social tem-se intensificado, com os estudantes do
ensino básico e secundário saindo à rua já há vários meses reivindicando
mudanças profundas na política neoliberal de educação seguida pelo governo
de Bachelet e seus precursores.

No passado dia 12 os professores e estudantes fizeram uma greve de 24
horas, exigindo melhorias salariais e regularização da situação
contratual. Mas as exigências deste movimento são mais abrangentes: o
objectivo é a revogação da actual lei que rege a educação, promulgada
durante o regime de Pinochet. Esta lei encara a educação como um serviço,
relegando o papel do estado para simples garante da concorrência, ficando
educação a cargo dos municípios, ou seja, só acede à educação de
qualidade quem tem meios para tal.
A situação do acesso ao ensino superior é igualmente injusta, com propinas
proibitivas.
A evolução da situação no Chile promete um desenvolvimento interessante
com muitos grupos e movimentos activamente empenhados na luta social.

Miguel Negrão




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