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(pt) 50 anos da Federação Anarquista Uruguaia [ca]

Date Thu, 21 Sep 2006 17:28:14 +0200 (CEST)


A historia da FAU se vincula com outra historia: a do anarquismo no
Uruguai que arranca desde da década de 1870. É o anarquismo fundador da
maioria dos primeiros sindicatos; sua imprensa é quem difunde as novas
idéias socialistas e libertarias em nosso país; é fundador da primeira
federação operaria; suas idéias e praticas revolucionarias deixam uma
influencia do movimento popular onde alguns de seus traços permanecem até
os dias atuais.

Precede à FAU esta historia e o que há de expressão concreta libertária na
década de 50: presença em setores operários e estudantis. Fala por isso a
luta antifascista e terceirista no meio universitário, uma serie de
conflitos operários com incidência de ação direta e pouco mais adiante a
luta dos grêmios solidários de 1951-52.

A FAU é fundada em outubro de 1956 e nela confluem militantes sindicais,
de luta comunitária, assim como setores juvenis e estudantes agrupados nas
Juventudes Libertárias, também alguns militantes espanhóis refugiados
aqui.

A nova organização, com intenção de organizar politicamente os anarquistas
uruguaios deve atuar em um país e em um continente que começa a se ver
sacudido pela crise e pela inflamação da luta popular, e onde a ingerência
imperialista, especialmente dos Estados Unidos, se faz cada vez maior e
enfrenta crescentes resistências. Está recente o aparelhamento yanqui do
golpe de estado contra os planos de reforma na Guatemala. São também anos
da ?guerra fria?, de invasão da Hungria por tropas russas, de intervenção
franco-anglo-israeli como resposta a nacionalização do Canal de Suez e das
triunfantes guerras de libertação contra o colonialismo na África e na
Ásia.

A FAU se desenvolverá apoiada na tradição revolucionária bakuninista, nas
posições organicistas que tivera Malatesta uns de seus portadores mais
conhecidos, em experiências e epopéias da Revolução Espanhola, de certa
influencia classista do anarcosindicalismo e tomando a tradição dos
métodos de ação direta. Ao mesmo tempo, a Organização e seus militantes
são conscientes de que sua atividade deve se desenvolver em um continente
e em um país com as características especificas do que se começa a chamar
de terceiro mundo. Nossa militância tem presente o momento histórico, o
novo contexto em que se deve desenvolver sua ação, a necessidade que isso
implica de localizar os problemas deste tempo, com cabeça própria, para
operar conseqüentemente.

Estudando temas, desenvolvendo sua ação, encontrando dificuldades, tendo
acertos e erros nessa fluida luta social que um momento histórico revolto
coloca. Uma obsessão o empurra: colocar em cena uma proposta e uma
ideologia que considera totalmente vigente. Aparecem algumas dificuldades
internas que serão rapidamente superadas e não impedem a continuidade da
estratégia libertária projetada.

Para a burguesia um modelo de país entra em crise e se tentará a
reorganização suprimindo direitos e conquistas operárias e populares. A
repressão se intensificará e será em tal conjuntura um instrumento
principal da estrutura dominante para efetivar o modelo que lhe permita
seguir adiante com seus brutais privilégios. Desde o poder um giro faz a
direita tentar avançar a fundo. Os enfrentamentos populares contra a
regressão e a repressão se fazem freqüentes. Frente a situação que se vive
crê a organização ser necessário a adoção de formas organizativas que lhe
permitam levar adiante as diversas atividades que encara: públicas algumas
e também semi-clandestinas ou clandestinas outras. Um decreto do Governo
declara ilegal a FAU, junto com outras organizações, no fim de 1967. Isto
não toma de surpresa a Organização e pode então continuar o conjunto de
suas ações, inclusive aumentar seu crescimento.

Manteve então uma atividade regular e um aumento de sua incidência
político-social ao mesmo tempo em que se chegava a ditadura militar. Desde
1964 adiante sua coerência e eficácia se tornam bem maior. Foi criadora e
dinamizou frentes de trabalho que marcaram presença e peso em nível
nacional, fundamentalmente na capital. Participou ativamente na fundação
da CNT. Coordenou internamente e com outras forças sua participação no
importante Congresso do Povo. Fez a convocação para a criação da tendência
combativa. Integrou ?O Coordenador?, organismo com preferência de luta
armada, com organizações como MLN, MIR e outros.

Participou, junto a outras forças políticas, em um diário de certa
relevância: ?Época? que expressava a esquerda de caráter combativo. Teve a
FAU parte ativa na elaboração de um documento que permitiria uma ação
conjunta, em importantes zonas estratégicas, a estas forças que integravam
o diário.

Sofreu diversos golpes, companheiros presos e torturados, a própria
organização legalmente perseguida durante quase quatro anos. A partir de
1971 a FAU realizou sua atividade desde de uma situação de
clandestinidade. Neste período algum de seus locais clandestinos caíram e
alguns de seus militantes tiveram que atuar totalmente na clandestinidade
pois apareciam publicamente como ?procurados?. Por momentos teve mais da
metade da junta federal detida em quartéis.

A FAU que já tinha conseguido desenvolver formas organizativas e de
atividade que lhe permitiram manter seu funcionamento, seja nos distintos
sindicatos onde nossos militantes atuam, nos organismos de direção da CNT,
no movimento estudantil, nas tarefas políticas, de ação direta armada, na
luta ideológica contra o reformismo e o colaboracionistas operário,
fundamentalmente expressado pelo Partido Comunista. Consegue produzir e
distribuir semanalmente durante todo o tempo de clandestinidade: ?Cartas
de FAU?. Também em condições de clandestinidade realiza eventos internos
consultivos e resolutivos, inclusive de mudança na sua junta nacional. De
menos importância é a discussão e acordos pontuais com outras forças
revolucionarias; mantendo nossa independência ideológica e política. É de
destacar que neste período, a Organização tem um importante crescimento.
Em 1968, já na clandestinidade, depois de uma decisão orgânica que
previamente realiza avaliações estratégicas, a iniciativa de nossos
militantes, distintos grupos operários e estudantis dão vida a ROE
(Resistência Obrero-Estudantil) que atuará com amplitude porém também como
frente externa e de massas da proscrita FAU. Na ROE atuam militantes da
FAU com distinto grau de responsabilidade na direção de sindicatos tais
como industria de borracha, gráficos, bancários, gás, porto, industria
metalúrgica, têxtil, industria química, refinarias de petróleo,
transporte, saúde, industria alimentícia, ferroviários, empregados de
universidades, etc. Os estudantes são fortes fundamentalmente no instituto
de Magistério, entre os estudantes de Ensenanza Secundaria, porém débeis
na universidade onde só estão presentes em poucas faculdades (Humanas e
Medicina).

O peso da organização no movimento operário e popular ganha importância.
Marca uma linha de trabalho de combativo e questionador do sistema. Foi
apoio do trabalho de tendência que nucleará aos partidários de formas de
trabalho não burocráticas, participativas e mobilizadoras. Não descuidou
da polemica com o reformismo, fundamentando permanentemente o porque, de
sua ação política distinta.

Paralelamente a atividade de massas, a determinada altura, atuará a OPR
(Organización Popular Revolucionária), braço armado da FAU que levará
adiante com bastante êxito uma serie de ações (sabotagens, expropriações
econômicas, seqüestros de dirigentes políticos e patrões particularmente
odiados pelo povo, apoio armado a greves e ocupações de fábricas, etc). A
FAU insere sua ação armada em uma ótica político e ideológica muito
distinta da maioria do movimentos de libertação nacional
latino-americanos, em grande medida influenciados pelo castrismo cubano e
os teóricos do ?foco guerrilheiro?. O acionar da FAU através da O.P.R tem
mas parentesco com o dos companheiros dos grupos armados espanhóis
vinculados a FAI (Federacion Anarquista Ibérica) da década de 20 e 30. É
claro que atuando de forma adequada com o contexto histórico que deve
enfrentar e da articulação global que devem ter suas distintas instancias
militantes.

Se estabelece para o aparato armado somente autonomia tática, todos os
operativos político-sociais são resolvidos pela instancia político global.
Se estima que seu desenvolvimento e o tipo de violência que executa devem
guardar relação com o desenvolvimento da luta global do movimento
operário-popular no país.

Procura-se evitar níveis de violência que fiquem fora do contexto e se
isolem. Ao mesmo tempo se tomam um serie de medidas de funcionamento para
prever e com intenção de evitar deformações ?militaristas?. Combater toda
cultura de obediência. O país sofre uma profunda crise econômica e
política, a ?classe política? não dá respostas aos problemas urgentes que
o mantimento do sistema coloca. Há no país já instalada uma ditadura
constitucional. O movimento operário-popular responde diante da queda de
liberdades e direitos. Organizações combativas marcam certa presença. É
todo período de forte repressão e enfrentamentos sindicais e populares. O
exercito entre em cena e domina a repressão. Em diferentes lugares, também
no parlamento, há denuncias de brutais torturas nos quartéis. As chamadas
?forças conjuntas? (Exercito e policia) somam a seu trabalho de repressão
física um trabalho de repressão de tipo ideológico, tratam de difundir
confusão e medo através de comunicados postos em distintos meios de
comunicação que utiliza. Em dois ou três meses a repressão praticamente
desmantela o MLN (Tupamaros). Em um momento inseguro e de declínio das
lutas, com eminente ameaça da ditadura, a Organização avalia a situação e
considera necessário ocultar parte da sua força. Há neste momento uns
trinta companheiros em condições de clandestinidade. Os companheiros da
O.P.R estão entre os primeiros que a organização evacua. Eles se
encarregam de imediato, na Argentina, de conseguir os meios econômicos
para uma luta contra a ditadura que se prevê longa. Se estima que a
Organização deve tomar medidas pertinentes que permitam durar no tempo.
?Durar fazendo, durar lutando? se dirá por isso. Em Junho de 1973 com a
implantação da ditadura militar, se completa o processo de tiranização do
país em um continente marcado pela presença de ditaduras militares no
Brasil, Chile, Bolívia, Paraguai, etc.Há neste momento centenas de presos
políticos nos cárceres do Uruguai, a maioria das organizações
revolucionarias foram dizimadas. A FAU concentra todos seus esforços na
greve geral que durante quinze paralisou o país. Deve redobrar seus
esforços já que a força majoritária, o PC, recua, neste momento, grande
parte de sua força militante e procura determinado dialogo com os
militares. A greve geral sobrevive na memória dos trabalhadores uruguaios
como exemplo de sua decisão de luta.

Nestas condições, a FAU ordena agora a evacuação da maioria de seus
militantes até Buenos Aires, onde se encontram os ?mais queimados?, parte
da junta federal e os companheiros da O.P.R, com a intenção de iniciar
desde ali as tarefas políticas que impõe a resistência contra a ditadura.
Em parte do ano de 73 e durante 74 e 75 a Organização desenvolve um
importante trabalho desde da Argentina. Apoiando o trabalho no Uruguai,
conseguindo os meios materiais necessários para sustentar uma longa
resistência . Militantes no Uruguai e militantes no exílio vêem a
organização como uma expectativa real. Começa nela nestes anos um processo
de abertura política que atrai muita militância que não procede do
anarquismo. Um congresso definirá uma posição que aponta tal objetivo. De
qualquer maneira se mantêm uma estratégia de intenção revolucionaria,
anti-eleitoral e de matriz libertária. Porém a situação na Argentina se
deteriora rapidamente. Em Setembro de 1976 os militares tomam o poder e
instauram ali uma brutal e genocida ditadura. Encurralados pela repressão
dos serviços especiais do exercito argentino e uruguaio, operando o Plano
Condor, uns cinqüentas militantes são assassinados e ?desaparecidos?,
suportando torturas indescritíveis, outros tantos são condenados a muitos
anos de prisão. Dentro dos assassinados se encontram companheiros antigos
de decisiva participação para o acionar do conjunto da organização, por
exemplo Gerardo Gatti, Leon Duarte, Alberto Mechoso. Companheiros de
formação intelectual e emotiva anarquista. O grande golpe sofrido gera
dispersão, confusão e sensação de derrota. Uma grande perda humana e
militante que deixará profundas marcas nessa história. A FAU, levando em
suas entranhas aquele período de luta e na melhor das recordações daqueles
companheiros caídos seguirá o caminho libertário de nossos dias.

Cai a ditadura e há anistia para os presos políticos. A FAU se reorganiza
em 1985. Com companheiros que haviam estado lutando no país nos últimos
anos da ditadura e que tiveram como referencial primordial a FAU; com
companheiros que saíram do cárcere depois de muitos anos de prisão e que
continuaram mantendo sua definição anarquista de sempre; com companheiros
que chegam do exílio com a disposição de continuar sua militância
libertaria. Em Março de 1986 se realiza o 7º Congresso, primeiro nesta
nova realidade. Ao tempo que analisa a nova conjuntura que se enfrenta são
feitas sua Carta Orgânica e Carta de Princípios. Documentos todos que se
articulam com a nova realidade, envoltos em uma concepção de ruptura e de
propósito socialista libertário. Os modelos econômicos e sociais levados
adiante pela ditadura, cujos desenhos fundamentais vem desde uma estrutura
imperial de dominação, criaram um enorme empobrecimento dos setores
populares e estenderam a marginalidade, a exclusão. E também a ação deverá
agora realizar-se em meio de uma esquerda cada vez mais
institucionalizada, com menos confiança na luta, com altos componentes
ideológicos de derrota, que centra sua ação dentro dos parâmetros e
mecanismos do sistema capitalista.

Neste marco de uma miséria que tem crescido no meio operário-popular há
novas expressões de descontentamento e urgentes reivindicações: lutas com
os desocupados, por terra para morar, por trabalho, para manter fontes de
trabalho, por melhoramento da atenção na saúde, por melhores condições na
educação. Os clássicos bairros operários se transformaram basicamente em
ex-bairros operários e a desocupação ou o trabalho precário é o dominante.
Os bairros, neste novo contexto habitam um importante trabalho regional A
FAU encara imediatamente a sua reorganização um trabalho no meio sindical,
comunitário e estudantil. Tudo isto sem descuidar de sua tarefa interna de
reconstrução e estruturação de sua infra-estrutura que foi dizimada no
período ditatorial.

Apenas iniciada a sua reorganização teve que enfrentar a repressão, três
de seus militantes foram encarcerados e processados. Uma campanha intensa
e persistente foi a resposta imediata, campanha que contou com a
solidariedade de organizações libertarias internacionais. Esta luta foi
fator de primeira ordem para conseguir a liberdade dos companheiros. Daí
em diante a Organização tem tratado de estar participando e apoiando as
diversas lutas populares: operarias, por moradia, por saúde, por trabalho,
por educação, em defesa de DD.HH, conta a desocupação de fabricas, contra
as diversas repressões. Junto à população nas importantes mobilizações
contra as privatizações que enfrentava ao modelo neoliberal.

No orgânico a estrutura federal funcionou adequadamente para potenciar as
distintas instancias de ação. Os congressos foram avaliando o trabalho
militante e ajustando a estratégia aos tempos atuais. O Federal e o
Secretariado foram os encarregados de aplicar as resoluções gerais do
terreno concreto, fluido, das conjunturas que iam se apresentando. A
propaganda esteve e a cargo de distintas expressões: revista, periódico,
murais, carro falante, manifestos e volantes. Quase tudo editado na
gráfica de FAU. Os atos públicos, primeiro em teatros e depois na rua tem
contado até o momento com boa participação. A militância da FAU nos
ateneos comunitários, com atividade regular, intensifica seu acionar em
oportunidade dos 1º de Maio, convocando nos últimos tempos a uma
coordenação que aglutina a milhares de pessoas em uma manifestação
operaria histórica que percorre vários quilômetros.

Tem resolvido, e há feito esforço em tal sentido, de trabalhar em busca de
uma coordenação regional libertaria. A CALA foi uma expressão deste
inquietude. Os resultados não foram de todo efetivos até o momento, porem
as coordenações realizadas tem lançado alguns resultados favoráveis e
ainda hoje está viva esta idéia em quem participou da CALA. Desde 10 anos
que se mantêm uma coordenação regular e em nos últimos anos orgânica com a
Federação Anarquista Gaúcha.

As relações internacionais com o campo libertário são fraternas, ao tempo
que se tem priorizado aquelas que os anos e feitos vem marcando como mais
afins política e socialmente.

Em distintas instancias orgânicas e especialmente em congressos tem se
analisado categorias conceituais e fenômenos relacionados com a etapa e a
conjuntura. Procurando munirmos daquelas ferramentas teóricas que dêem
maior possibilidades de acerto em nossa ação. Com a certeza em nosso
propósito socialista libertário, com acertos e erros, temos atravessado
todo um tempo. Um tempo de luta com um ideal a vista. Muitos queridos
companheiros foram torturados, presos, assassinados e ?desaparecidos? e
são eles uma referencia permanente na memória e animo da Organização.
Temos perdido faz pouco outros velhos e queridos companheiros que
estiveram toda sua vida política na FAU, tais, por exemplo, os casos de
?Perro?Perez, ?Santa?Romero, Roberto Larrasq, Carlos Molina, Andrés
Medina, também eles são um exemplo e referencia permanente. Uma Militância
jovem tem chegado a velha organização e levantado sua bandeira vermelha e
negra e seu espírito de luta, ela vai assegurando sua continuidade
histórica. Distinta gente, distintos tempos, os mesmos sonhos.


ARRIBA LOS QUE LUCHAN!



Traduzido para o português pela Secretaria Nacional do Fórum do Anarquismo
Organizado - Brasil
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