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(pt) A BATALHA , N. 218: Nasceu há 90 anos LEO FERRÉ, O POETA DO AMOR-ANARQUIA

Date Sun, 17 Sep 2006 21:45:46 +0200 (CEST)


por Fernando J. Almeida

Nascido em 1916, Leo Ferré foi um dos cultores mais singulares e
controversos da grande ?chanson? francesa. Viveu uma vida intensa de
êxitos artísticos e de recusa do conformismo e das ideias feitas.
Anarquista e milionário, solitário e solidário, iconoclasta e
violentamente terno, Leo morreria em 1993, aos 77 anos.

OS PRIMEIROS TEMPOS

Leo Ferré nasceu em 24 de Agosto de 1916, no Principado do Mónaco, filho
de Joseph e de Charlotte, respectivamente o chefe de pessoal do Casino de
Monte Carlo e uma costureira. Desde os quatro anos de idade, que inventava
músicas e dirigia orquestras imaginárias. Após ter concluído o Liceu, em
Itália, foi para Paris estudar Direito e cursar Ciências Políticas.
Durante a guerra de 1939-45 trabalhou na Rádio Monte Carlo, como locutor,
técnico de som e pianista, deixando para trás a sua formação académica,
tão incompatível com uma vida tão à margem de todas as regras..
Em 1946, regressou a Paris, onde começou a actuar em bares e cabarés e
onde conheceu Edith Piaf, que interpretaria algumas das suas produções e
incitaria Ferré a fazer carreira na Cidade-Luz, uma longa e gloriosa
carreira que se inicia no cabaré ?Le Boeuf sur le toît? e se prolonga por
todo o lado, onde se podia ouvir a boa música e poesia francesas. Ao mesmo
tempo, dá concertos na Federação Anarquista e começa a fazer furor nos
caveaux de Saint-Germain-des-Prés, onde pontificam os cantores
existencialistas Juliette Greco, George Brassens, Mouloudji, etc.
Em 1954, Leo Ferré é contratado para fazer a primeira parte de um
espectáculo de Josephine Baker, no ?Olympia? de Paris, onde a sua canção
?Paris Canaille? o torna definitivamente célebre. No mesmo ano, dirige a
sua ?Symphonie Interrompue?, na Ópera de Mote Carlo, escreve ?Poète, vos
papiers? e produz o álbum ?Les Fleurs du Mal?, onde põe em música a poesia
de Baudelaire. Seria o princípio de uma obra musical ao serviço da Poesia
francesa: Apollinaire, Verlaine, Rimbaud, Aragon e ele próprio, Ferré, um
também grande poeta da língua francesa. A fabulosa carreira de Leo Ferré
deveu-se, em parte, à influência da grande cantora Cathérine Sauvage, que
apostou na alta qualidade do cantor, poeta, músico e maestro monegasco.

A DÉCADA DE 60

Em 1962, Ferré veria censurada a sua canção ?Mon Général?, obviamente
dedicada a De Gaulle e à sua autoritária V República.
Nas jornadas do Maio de 68, actua na ?Mutualité? para os estudantes que o
aclamam euforicamente, agitando as bandeiras negras e vermelhas da
Revolução. ?Foi em Maio de 68 que realmente eu tive 20?, disse o
Poeta-Cantor do Amor e da Anarquia, o autor de ?Ni Dieu, ni Maître? e de
?Thank you, Satan?. Leo Ferré actua na Federação Anarquista e as suas
canções ?Amour Anarchie? e ?L?Été 68? tornam-se hinos da revolta
estudantil. Os mesmos estudantes que o glorificam são também os mesmos que
o criticam e atacam, devido à sua imensa fortuna, recebendo o epíteto de
?Anarquista de Rolls-Royce? (ele que preferia o Mercedes?) e de ?fascista
vermelho?, conforme o insulto telefónico do cantor Yves Montand, um
recém-dissidente do Partido Comunista Francês.
Mas Ferré estava acima desses e doutros maniqueísmos. Segundo Pierre
Bénichou, do ?Nouvel Observateur?, era antipático, anarco-mediático,
mal-humorado, apaixonado pelas feias, revoltado-oportunista, milionário,
falso humanista, ?Kitsch?, em suma, um Poeta. Um Poeta que afirmava ?não
sou violento na vida, sou violento nas palavras?. Para ele, o êxito tinha
de ser conquistado ao inimigo, a consagração tinha de ser imposta aos
sacanas, a oração era sempre acompanhada de uma ameaça. O Anarcriador,
como lhe chamou José Jorge Letria, era um ser polémico, incatalogável e
indomável, que exigia um preço baixo para os bilhetes dos seus concertos e
que declarava, provocatório: ?Tenho dinheiro, é verdade. E depois? Vou ter
de descer à rua, para o distribuir? Porque sou Anarquista??. É também
provocatoriamente que intitula uma sua canção ?O Anarquista de Luxo?.


APOGEU DA CARREIRA E AUTO-EXÍLIO

Os anos 70 (do séc.XX) revelam-se uma era de intensa e variada actividade
artística de Leo Ferré. Em 1972, adapta a poesia de Guillaum Apllinaire à
sua música, produzindo ?La Chanson du Mal-Aimé?, em que dirige uma
orquestra sinfónica e respectivos coros. Adopta, igualmente, a linguagem
do Rock progressivo, com a colaboração do grupo ?Zoo?, no álbum ?La
Solitude?. Ao mesmo tempo, como maestro, dirige ?Le Concerto pour la Main
Gauche?, de Ravel, no Palácio dos Congressos de Paris.
Nos anos 80, desaparece dos olhares públicos, auto-exila-se na Toscania
(Itália), com a mulher e os filhos, na sua luxuosa propriedade de
Castellina, na companhia de um piano e de um sintetizador.
Daqui em diante, todas as suas canções são mensagens de desespero, e
escreve, naquele isolamento, belos e pungentes poemas. Aos 60 anos, Ferré
é um homem doente e inconsolável, de luto por si próprio, pela sua
violência, pela sua grande Revolução que nunca acontecerá. Os seus últimos
álbuns são publicados entre 1985 e 1990.
Leo Ferré actuou várias vezes em Portugal, após o 25 de Abril. As suas
derradeiras actuações esgotaram lotações nos lisboetas Coliseu (1982) e
Aula Magna (1988). Em 14 de Julho de 1993, morria, vitimado por um cancro
nos intestinos, o homem que cantava ?A mon Enterrement?, onde dizia que no
seu enterro ?não queria ver mais ninguém senão mortos?. Uma vez, em palco,
contou que havia recebido uma chamada telefónica, em que uma voz lhe
disse: ?Alô, sou a Morte, gosto bastante do que você faz?, ao que o Cantor
respondeu ?Eu também??.
O Poeta não tinha medo da Morte, antes se sentia fascinado por ela: ?Deve
ser uma mulher extraordinária, a Morte. Pega-nos na não e seguimos com ela
para qualquer lado. É-se obrigado. E é precisamente esse ?qualquer lado?
que me fascina e me faz com que não tenha medo da morte (?) Quero assistir
à minha morte, o centésimo de segundo em que tudo oscila. Mas, de toda
maneira, não compro bilhete?.

A OBRA POÉTICA

A poesia de Leo Ferré foi publicada, em cinco volumes, pela Editora
francesa Grécivaudan, de André Philippe, numa obra profusamente ilustrada
por litografias e desenhos do pintor Jacques Prenard. Ferré colaborou,
activamente, na produção da Antologia, na edição, paginação e impressão.
Em Portugal, a Editora Ulmeiro publicou ?Leo Ferré? (1984), com uma 1ª
tiragem de 5.200 exemplares. A selecção e tradução dos poemas foram de
Luiza Neto Jorge, enquanto a coordenação e tradução de outros textos
pertenceram a Manuel João Gomes.
Leo Ferré escolheu cantar as palavras que minavam o senso-comum, o sono, a
mediocridade e a subserviência. Foram canções que abriram as portas e as
janelas da loucura e do ?amor louco? (lema de André Breton) dos poetas
surrealistas (Aragon, Apollinaire, Éluard, Valéry) e simbolistas (Rimbaud,
Verlaine, Baudelaire).
Ferré, libertário do sonho, tinha a visão pura de uma criança e a
inquietude de um adolescente. A morte do Artista foi, para François
Miterrand, ?a perda de um dos criadores que levaram a canção ao mais alto
nível de exigência e qualidade?. Para Jack Lang, antigo ministro da
Cultura francês, simbolizou ?a memória das revoltas? e foi ?o Poeta das
Esperanças?.
Leo Ferré foi o poeta incómodo, que se revia em Bakunin e dizia: ?temos de
nos libertar da ideia de Deus, da falsa ideia de Deus de que os outros se
servem para oprimir o próximo! Não há polícia melhor do que as religiões!?
(Canção ?Ni Dieu, ni Maître?).

José Jorge Letria, poeta e jornalista, ex-cantator português, escrevia,
quando da morte de Leo Ferré:?(?) foi um dos maiores poetas da língua
francesa da segunda metade do século XX, um guerrilheiro da palavra
desafiador, um visionário, um sonhador, um criador libertário. Quando
surgia de negro no palco, trazia consigo a luz intensa dos santos, dos
alquimistas, dos adivinhos, dos peregrinos do assombro?. E Leo Ferré dizia
dele próprio: ?Eu não gosto de partir nem de chegar, gosto de estar?.


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