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(pt) «A BATALHA» N. 218: Guerra civil e revolução socia l na Espanha (II)

Date Sat, 16 Sep 2006 09:47:06 +0200 (CEST)


Por Júlio Palma
A resposta dada ao levantamento militar de 17 de Julho de 1936 não foi
uniforme em toda a Espanha por parte das forças sociopolíticas que
recusavam o golpe. A discussão desta problemática é bem analisada no livro
Rivoluzione e Controrivoluzione in Catalogna, de Carlos Semprun Maura (Ed.
Antistato, 1976, 326 pp.)
Na «Introdução» diz-nos que «a Catalunha constituía em 1936 uma das zonas
industriais mais importantes da Península Ibérica» e nota que «o
nacionalismo como expressão política assume a forma de uma resistência da
burguesia industrial e comercial catalã contra o mau serviço centralizador
do governo de Madrid e contra a política retrógrada dos latifundiários». E
sublinha como característica: «Na Catalunha a opressão política e cultural
não acompanha a ?colonização? económica. A Catalunha industrial, sobretudo
no fim do século XIX e até 1936, receberá um afluxo maciço de
trabalhadores imigrantes originários de regiões pobres, em particular de
Aragão, de Múrcia e de Valência.»
Com todas estas forças em acção, compreende-se que a resultante fosse
sempre diferente do que cada uma defendia. Ainda por cima, como diz
Semprun Maura, «a classe operária catalã era na sua imensa maioria
defensora das ideias libertárias. A Catalunha era um ?bastião? da CNT-FAI.
E toda a gente sabe que os anarquistas e anarco-sindicalistas espanhóis,
catalães ou guatemaltecos, são ferozmente hostis ao Estado, à ideia de
nação, e no que diz respeito à Catalunha eram concretamente hostis ao
nacionalismo catalão, que consideravam burguês e reaccionário, tal como
eram hostis ao centralismo do Estado espanhol. (...) Os anarquistas
defendiam o princípio de uma federação livre de comunas e regiões que
superasse concretamente e no sentido revolucionário os problemas
nacionais».
Precisamente por isso é que, em face da forma enérgica que os golpistas
utilizam, o governo de Madrid e a Frente Popular são tíbios e hesitantes,
mas na Catalunha as coisas fiam mais fino. Apercebendo-se do perigo, o
presidente do governo catalão, a Generalitat, Luis Companys, tinha
proposto à CNT, no dia 16 de Julho, «um encontro para estudarem em comum
os meios para se oporem ao perigo fascista». A CNT e a FAI reuniram-se e
«perante a ameaça fascista defenderam a posição segundo a qual era
indispensável ou pelo menos desejável estabelecer uma colaboração estreita
com todas as forças liberais, progressistas e proletárias decididas a
enfrentar o inimigo». Assim se formou o Comité de Ligação com o governo
catalão. O comité queria armas, mas o governo não as queria dar e não deu.
De maneira que quando chegou a hora tiveram de as ir buscar onde elas
estavam. E foi esta acção exemplar que pôs em xeque o Exército golpista em
Barcelona e em toda a Catalunha até 20 de Julho. Mas os golpistas
conseguiram separar geograficamente a Espanha republicana. O Estado
espanhol ficou estilhaçado. Estão criadas as condições para que a oposição
aos golpistas comece a fracturar-se.
De facto, aqueles que sabiam com Proudhon e Bakunine que a sociedade que
se queria construir tinha de ser fundamentada «na acção espontânea das
associações livres, à margem de toda a regulamentação governamental e de
toda a protecção do Estado» tentaram aproveitar essa ausência de poder de
Estado para realizar o associativismo colectivista. E havia os outros que
tentavam erguer um poder a partir das cinzas do Estado.
Por isso se torna incompreensível a maneira como Garcia Oliver, militante
da CNT, pôs o problema. Vejamos: Companys, a 20 de Julho, depois de
terminada a batalha de Barcelona, convocou uma delegação de anarquistas à
sede do governo catalão e disse-lhe: «Vocês venceram e tudo está em vosso
poder. Se não tiverem necessidade de mim, se não me quiserem como
presidente da Catalunha, digam-mo já e eu não serei mais do que um soldado
na luta antifascista. Mas se pensarem que eu posso ser útil... contem
comigo...»
Os delegados da CNT-FAI quiseram consultar a organização e no plenário do
comité regional Garcia Oliver equaciona a questão da seguinte maneira: «É
preciso escolher entre o comunismo libertário, que significava a ditadura
anarquista, e a democracia, que significava a colaboração.» Semprun Maura
comenta: «Estranho mas significativo modo de pôr o problema:
contrariamente a todas as ideias expressas em toneladas de artigos e
discursos, o comunismo libertário torna-se, no momento da verdade, uma
ditadura ?anarquista? e a CNT e a FAI tornam-se organizações ?políticas?
que teriam nesta hipótese exercido sozinhas o ?poder?.» Garcia Oliver
concluiu: «Nada de comunismo libertário. Primeiro esmagar o inimigo onde
quer que ele se encontre.»
E foi assim que se formou o Comité Central das Milícias Antifascistas da
Catalunha, que seria durante a sua breve existência (23 de Julho a 3 de
Outubro de 1936), como diz Semprun Maura, «um apêndice importante da
Generalitat e uma espécie de comité coordenador dos estados-maiores das
organizações antifascistas». Na verdade, no comité tanto estava
representado o Partido Socialista Unificado da Catalunha, que era membro
da Internacional Comunista, como estava o Partido Operário de Unificação
Marxista, extremamente crítico dessa Internacional. Semprun Maura comenta:
«Com efeito, se os membros da CNT-FAI e do POUM pensam que defendem a
revolução colaborando com a Generalitat, os dirigentes do PSUC, por seu
lado, estão firmemente decididos a apoiar a Generalitat ?contra? a
revolução.»
A ambiguidade que existia no comité atingirá todo o seu esplendor a 26 de
Setembro com a entrada da CNT-FAI e do POUM para o governo catalão. O que
o presidente da Generalitat pretende é normalizar tudo aquilo que ele
considera serem os órgãos legítimos do poder. Daí uma série de decretos
que visam tanto a dissolução do Comité das Milícias como a suspensão de
todos os comités locais fundados na Catalunha, a restituição de algumas
armas ou a militarização das milícias. O decreto que visa desarmar os
operários e os camponeses dá oito dias para a entrega das armas e
sublinha: «Passado este prazo, todos os que conservarem tais armas serão
considerados fascistas e julgados com o rigor que a sua conduta merece.»
Claro que, como diz Semprun Maura, «a CNT-FAI e o POUM, representados no
governo catalão, aceitam e aprovam estas medidas».
O que impressiona é que até o evolucionário Engels já tinha escrito em
1891 na «Introdução» à Guerra Civil em França de Marx (de 1871): «A
dominação das classes possuidoras ? grandes proprietários fundiários e
capitalistas ? encontrar-se-ia constantemente ameaçada enquanto os
operários parisienses permanecessem em armas. O primeiro gesto de Thiers
foi desarmá-los.»
Tudo isto prenunciava afrontamentos na zona do antifascismo. Seria apenas
uma questão de tempo se se observasse os processos revolucionários de
outros países, especialmente na Rússia, na Itália e na Alemanha. A
Internacional Comunista tinha sofrido uma derrota em toda a linha na
Alemanha em 1933 com a célebre versão do social-fascismo. E por isso
viu-se obrigada a fazer uma viragem de 180 graus, defendendo as frentes
populares e as democracias burguesas. A situação em Espanha é apanhada
nesta onda. Daí que a União Soviética, com a sua «ajuda desinteressada do
grande povo irmão», defina bem o que lhe interessa e as condições
extremamente restritivas da ajuda. O foco é o Partido Comunista. E é dele
que irradia toda a força que visa aniquilar as correntes revolucionárias
que não cabem no ínfimo espaço da Internacional. Tratava-se de acabar de
«uma vez por todas com as tentativas dos sindicatos e dos comités de porem
em prática o socialismo», como disse Jesus Hernandez, em Maio de 1937,
citado por Semprun Maura, que conclui o capítulo «A URSS e a Espanha» com
as palavras de Dolores Ibarruri no discurso de 25 de Maio de 1937: «É a
revolução democrática burguesa, que noutros países, como a França, já foi
feita há mais de um século, que se realiza hoje no nosso país e nós,
comunistas, somos os combatentes de vanguarda nesta luta contra as forças
que representam o obscurantismo dos tempos passados. (...) Nestas horas
históricas, o Partido Comunista, fiel aos seus princípios revolucionários,
respeitador da vontade do povo, alinha ao lado do governo, que é a
expressão desta vontade, ao lado da república, ao lado da democracia.»
Nem o Partido Comunista de Espanha nem o Partido Socialista Unificado da
Catalunha estavam interessados nas colectivizações ou nas milícias. E
disseram-no abertamente na primeira semana de Maio de 1937. Semprun Maura
cita o Pravda de 17 de Dezembro de 1936: «Na Catalunha a eliminação dos
trotskistas e dos anarco-sindicalistas já começou e será conduzida com a
mesma energia com que foi na Rússia.» O aviso estava dado. Bastava uma
fagulha para fazer explodir o barril de pólvora. E ela apareceu.
A Central Telefónica de Barcelona encontrava-se sob a administração dos
dois sindicatos da CNT e da UGT e um representante do Conselho da
Generalitat. No dia 3 de Maio, camiões de guardas de assalto, sob o
comando de Rodríguez Sala, comissário da Ordem Pública de Barcelona e
membro do PSUC, chegam à Central, precipitam-se para o seu interior,
desarmam os milicianos de guarda e começam o assalto aos vários andares.
Só que os empregados e os milicianos presentes, alarmados pela insólita
confusão, agarram nas armas e opõem aos polícias uma violenta resistência.
Os assaltantes acabam por se retirar. O plano de assalto foi um fiasco.
Mas a notícia correu célere. Era um momento decisivo para a revolução ?
dum lado estavam as forças públicas (da ordem, PSUC), doutro as forças
populares (CNT-FAI, POUM).
A 4 de Maio a batalha assanha-se e inflama-se. O número de mortes e de
feridos sobe em catadupa. A luta foge ao controlo das organizações. A CNT
e a UGT lançam apelos para o cessar-fogo. Federica Montseny e Garcia
Oliver apoiam este apelo. Rafael Vidiella, membro do PSUC e do governo
catalão, pede aos trabalhadores que deponham as armas e que se estabeleça
um cessar-fogo. Estava tudo contra as massas enraivecidas. A 5 de Maio o
governo catalão demite-se em bloco. A CNT volta a propor uma trégua. Os
Amigos de Durruti ainda tentam a formação duma junta revolucionária, que
integraria o POUM, mas, de acordo com Semprun Maura, tanto a sua
actividade como este apelo «foram denunciados pelo Comité Regional da CNT
como provocações e acabariam por ser expulsos da CNT mais tarde».
O dia 5 de Maio foi para Semprun Maura «sem dúvida o ponto culminante da
batalha». O secretário-geral da UGT, Antonio Sesé, que fazia parte do
elenco do novo governo, foi assassinado. O PSUC acusou os anarquistas.
Neste mesmo dia os corpos dos anarquistas Berneri e Barbieri foram
encontrados crivados de balas.
Nos dias 6 e 7 de Maio, os Amigos de Durruti desobedecem ao apelo do
Comité Regional da CNT. A luta continuava, mas os objectivos já estavam
desfocados. Quinhentos mortos e milhares de feridos depois, «a rádio
anunciava que o governo de Valência [governo central], vista a gravidade
da situação, tinha decidido ocupar-se do restabelecimento da ordem pública
na Catalunha».
A coluna da guarda de assalto vai prendendo os militantes da CNT-FAI e
pondo as suas sedes a saque. Os militantes anarquistas são enviados para
«destino desconhecido» com os pés e as mãos atados. Os seus cadáveres
serão encontrados nos arredores de Tarragona, nas bermas das estradas.
No dia 8 de Maio, o Comité Regional da CNT diz que «o incidente que lançou
Barcelona no luto terminou» e acrescenta: «Desejamos por isso oferecer
novamente a nossa colaboração ao governo da Generalitat e ao novo delegado
da Ordem Pública enviado pelo governo central.»
No dia 12 de Maio, aparece uma nota na imprensa onde se diz: «O governo
catalão dominou a revolta com os seus próprios meios.» Segundo Semprun
Maura, deste governo fazia parte um elemento da CNT, Valerio Mas.
Victor Serge, em La Révolution Prolétarienne, de 25 de Junho de 1937, fala
da prisão de quarenta dos principais militantes do POUM e da ilegalização
do partido e pergunta: «O que é que resta da democracia espanhola para os
operários?»
A entrada da CNT-FAI e do POUM para o governo ajudou a restaurar o poder
do Estado enquanto a guerra ia devorando a revolução. No fim de contas
comprovou-se mais uma vez: o poder corrompe os homens.
Como Semprun Maura titula o último capítulo ? a contra-revolução triunfa.

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