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(pt) Perseguição a Anarquistas no Chile

Date Thu, 26 Oct 2006 14:08:56 +0200 (CEST)


Memória:

É possível remontar o ano de 1987 a reaparição de bandeiras negras
anarquistas nas manifestações antiditadura no Chile, não podemos dizer que
sejam centro de atenção dos aparatos de inteligência até começos da década
atual.

Até os fins da década dos anos 90 do século passado, os interesses das
agências de inteligência chilenas chocavam-se entre si. Ainda que os
governos da ?Concertación? de Partidos pela Democracia tentavam criar
aparatos de segurança e informação confiáveis através da chamada ?Oficina?
e da Polícia de Investigações, as direções da inteligência dos
Carabineiros e das Forças Armadas respondia ao mandato de Pinochet desde
seu ?governo paralelo? na Comandância Chefe do Exército.

No período aberto com a mudança de governo de 1990, a redução e o
aniquilamento dos remanescentes armados da esquerda revolucionária e
chegar a realizar certo equilíbrio vantajoso de poderes com o aparato
pinochetista em funcionamento, consumiu a quase totalidade dos esforços
dos serviços de inteligência governamentais; ao mesmo tempo o governo
tentava criar o ambiente para construir uma ?Comunidade de Inteligência?,
adscrita à democracia tutelada, taticamente reconhecida como o ?modelo?
para o Chile. Por outra parte, manter sob o controle a Concertación,
projetar e assegurar a autonomia e o poderio das Forças Armadas, que a
camuflagem política-econômica levantada pela ditadura se mantivesse em pé
e, antes de tudo, garantir a impunidade judicial para Pinochet e seu
entorno.

Uma forte tensão de poder sacudia as alturas do país, ainda que em vales e
quebradas se afirmava o modelo mediante o ?consenso binominal? e ele se
sustenta consumista dos mega-mercados e endereços, e do sonho exportador.
O anarquismo não constituía mais que um sub-problema próprio do
sociologuês dos especialistas em juventude.

Pese a todos os esforços culturais, musicais, fanzineros, anarco-punks,
políticos, afetivos (além das intenções federativas), o anarquismo no
Chile não chegava a sair do reduzido espaço da marginalidade
simbólico-estética cultural e juvenil e passar a constituir-se em uma
opção de construção social. Não era um assunto de interesse, inclusive
considerando a atividade dos barras bravas (anarco-futebolístas como diria
um sociólogo chileno residente em Oaxaca), reconhecida amplamente pelos
meios de incomunicação de massas e apresentada como uma mostra do aumento
da violência delinquente-juvenil no país.

Para a esquerda marxista extraparlamentar (PC e similares) o surgimento de
novos movimentos sociais que apostavam na autonomia, na flexibilidade
orgânica, na horizontalidade e que apontavam em enfrentar um
neoliberalismo em sua terceira fase no Chile (aonde se havia implantado na
metade dos anos 70 do século passado), resultava ser algo mais que uma
forte gripe primaveral... Era a repetição do cenário autônomo que os
obrigou a desmantelar o amplo movimento social contestatório que nos
finais dos anos 80 saiu do controle dos partidos políticos.
Incomodava-lhes o ?anárquico? das organizações sociais que se destacavam
no movimento secundarista, juvenil popular, mapuche.

Mas existirão dois fatos que colocarão em alerta máxima a estes
dinossauros políticos: a Greve de Mineiros de Lota e a luta secundarista.

Durante a luta dos mineiros por sua sobrevivência em Lota, os partidos da
esquerda tradicional (PS, PC, MIR etc.) se viram confrontados no interior
do movimento sindical e reivindicativo por uma oposição a uma direção
sindical claudicante que negociava o fim do conflito mediante o fim da
forma de vida. Esta oposição, vinculada solidariamente com a
anarcosindical chilena, chegou a propor inclusive a autogestão e o avanço
na luta pela ação direta. Finalmente, a direção sindical PC-PS fez um
acordo fechando as minas de carvão de Lota. Haviam tomado nota do perigo
para o controle político dessas idéias autonomistas e de ação direta.
Contudo o realizado, a anarcosindical chilena não sobreviveu à prova do
esforço da luta mineira de Lota.

Entretanto e preferencialmente em Santiago, os estudantes secundários
começam a organizar-se em coletivos políticos e sociais autônomos que
atuam em espaços distintos e paralelos aos centros de alunos cooptados
pelas juventudes políticas, desafiando a condução dos conflitos por
demandas históricas: passe escolar, prova universitária gratuita e no
nível utópico nesse momento: fim da LOCE herdada de Pinochet. Ainda que as
juventudes políticas conservavam o controle da antiga FESES (Federação
Secundária de Estudantes) de Santiago, desde o ano 2000, isto não era mais
que a incapacitação seca de uma múmia política. Isso também constituiu um
alarme no PC.

Com a crise da detenção de Pinochet em Londres e de sua volta ao Chile, as
agências de inteligência do governo e as Forças Armadas terminam
trabalhando em conjunto para chegar a uma saída política ao conflito e
libertar as Forças Armadas da carga do Pinochetismo mais militante. Assim
o governo de Lagos chega por fim a articular a demanda concertacionista de
uma comunidade de Inteligência funcional numa democracia em que Pinochet
não fosse um elemento decisivo. Para isto contou com o respaldo de una
comandância em chefe do Exército que procurava manter as prerrogativas
institucionais das Forças Armadas ao mesmo tempo em que pretendia acabar
com toda vinculação com o tema Direitos Humanos. Para isto era necessário
um nexo com a inteligência do governo que sob o guarda-chuva de um
trabalho comum servia aos interesses particulares das Forças Armadas e do
Exército em especial. Isto porque havia nesse momento e hoje ainda há todo
um plano maior do Exército que esteve sob a tutela direta de Pinochet,
senão como presidente, sim como Comandante Chefe.

Planeja-se assim una dupla vinculação na área de segurança entre as Forças
Armadas e o resto do Estado: uma comunidade de Defesa de novo tipo com
ampla participação de acadêmicos civis e uma Comunidade de Inteligência
sob a forma institucional da Agência Nacional de Inteligência (ANI). No
ano de 2001 isto já era uma realidade, ainda que sua estrutura não
estivesse legalizada.

O formato ANI começa sua atividade pondo atenção nos movimentos sociais e
especialmente na luta dos povos indígenas, ante os quais se propunha o
novo formato (o melhor dito, a reciclagem de um formato antigo no Chile)
para enfrentar e resolver a favor do governo os conflitos sociais: a
judicialização dos conflitos sociais e a criminalização dos movimentos
sociais contestatórios. Assim o Povo mapuche para buscar sua recuperação
deve optar por um só caminho: recorrer ao estado para una re-compra legal
de suas terras, e aos movimentos que rechaçam este caminho são
criminalizados usando a lei antiterrorista de Pinochet e começando a
reforma penal na IX região, território mapuche. Esta reforma penal
demonstrou estar feita para um controle político mais estreito que o
antigo processo penal. Nisto a ANI teve um papel analítico e de acessoria
em políticas que executava o braço jurídico: Ministério Público e juízes
de ?garantia? e seu braço policial: Carabineiros e Investigações.

O fim da hegemonia PC sobre os estudantes em geral e sobre os secundários
em particular fica claro em abril de 2001. Morta a FESES, surge a
Assembléia Coordenadora de Estudantes Secundaristas, que de uma maneira
brilhante instala na opinião pública a crise da educação chilena, a força
do movimento secundarista e as infinitas possibilidades que oferece um
organismo assembleário que aposta na participação das bases, rotação dos
porta-vozes, controle da liderança pelas bases e aposta na ação direta,
deixando as negociações como apêndices da vitória nos liceos e nas ruas.
Ao mesmo tempo o retrocesso da representação do PC nas universidades e no
poderoso corpo de professores se traduz na perda da direção das Federações
e Grêmios nas mãos de cisões próprias e inclusive a derrota pela direita
estudantil universitária.

A influência de organizações anarquistas no âmbito populacional, juvenil,
feminista, cultural se faz evidente cada vez mais, ainda que sem
constância e permanência. Só o enfoque assembleário, insubmisso e
libertário do Movimento Antimilitarista de Objeção de Consciência é algo
que mantêm continuidade e constância no largo período que vai desde 1996
até hoje. Pelo mesmo motivo, também se prepara uma operação contra os
insubmissos. O governo e as Forças Armadas cooptam as instituições de
Direitos Humanos (Serpaj, Anistía Internacional, Codepu, Codeju, Vicarías,
Igrejas evangélicas etc.) para construir um tipo de objetor afim as
propostas governamentais. Tentam fazer um objetor patriota, cristão,
cooperante das Forças Armadas em operações de paz e que não questione o
militarismo. A idéia é acabar com a insubmissão.

A participação das bandeiras negras anarquistas e dos movimentos sociais
autônomos e assembleários nos massivos rituais populares do 8 de março, 1º
de maio, do 11 de setembro e do 12 de outubro constituem então uma nota de
destaque para a ANI e para o PC. A violência social contra as direções do
feminismo institucional (cada vez mais entrelaçado com o poder), do
sindicalismo profissional, das agrupações de familiares de vítimas de
violações de DH (Direitos Humanos), e com respeito às intenções
autonomistas do povo mapuche vão sendo atribuídas cada vez com mais força
aos anarquistas. Assim cada destroço, cada bomba molotov, cada pedrada nas
ruas, colégios ou universidades é culpa dos anarquistas.

A imprensa constantemente destaca investigações acadêmicas sobre violência
juvenil associando-as a punks, anarcopunks, ocupas etc. Por outra parte se
começa a relacionar aos anarquistas como outra fonte de terror e
terrorismo, esta vez mais citadina e urbana.

Momento:

No 8 de março de 2006 no centro de Santiago se planejava uma grande festa
de mulheres: não só se comemoraria o Dia Internacional da Mulher (cada vez
mais comercializada pelas grandes empresas de roupas), também seria a
celebração final antes da subida ao poder da primeira mulher Presidenta do
país: seu mandato começaria 3 dias depois. A grande surpresa (muito
anunciada) seria a visita à concentração delas pela mesmíssima Presidenta
eleita. Mas tudo se pôs em cheque quando um bloco anarcofeminista chegou
muito perto desse cenário gritando consignas contra o ?Show? em que se
convertia um dia de luta. A repressão sobre estas mulheres de bandeiras
negras não se fez esperar e a ação conjunta das organizações convocantes
do feminismo institucional e Carabineiros impediu que as anarcofeministas
pudessem comunicar por muito tempo suas opiniões neste lugar. Desde aí em
diante o anarquismo chileno começa a ser investigado, seguido, ameaçado,
demonizado. Na esquerda clássica e na esquerda oenegística (ongueira) que
se acercava ao poder via Michelle Bachelet.

No 1º de maio o ódio popular com a pelega e entreguista direção sindical
da Central Unitária de Trabalhadores (PC-PS) e com o sistema neoliberal se
fez patente: ataques a McDonalds, cadeias de roupas, instalações
municipais e carabineiros, agressões e enfrentamentos a direção da CUT,
interrupção do ?show? musical etc., transbordou uma comemoração do Dia do
Trabalho planejada como festa e comércio de merchandising revolucionário.
A resposta dos Carabineiros foi insuficiente, à rua ficou na mão dos
manifestantes por bastante tempo. Ainda que, distantes do lugar, em uma
praça de bairro, os anarquistas realizavam um 1º de Maio com reflexão,
denúncia e? nenhum detido. Contudo se culpou, novamente, aos anarquistas a
exclusividade da violência desse dia.

Durante o outono, a primeira ocupação de uma universidade privada por
parte da Assembléia de estudantes colocou o tema da Universidade Arcis nos
títulos da imprensa. Outra vez os anarquistas, desta vez opondo-se a
operação para deixar o controle desta universidade privada (conhecida por
sua publicidade aonde se apresenta como ?diversa e alternativa?) nas mãos
do PC, para ter um lugar formal de formação acadêmica de quadros, logo com
o fracasso de seu intento em ressuscitar o Instituto de Ciências Alejandro
Lipschutz. Finalmente o PC apela à polícia para desalojar a universidade e
expulsa aos anarquistas mais destacados, e cancelar o contrato dos
acadêmicos mais solidários com o processo, de passo desarma o sindicato de
funcionários da universidade.

Ao mesmo tempo a grande greve dos secundários (?os pingüins?) reeditava as
dinâmicas assembleárias e autônomas de 2001, com mais êxito e maior
profundidade, pois desta vez o movimento abarcou todo o país e conseguiu o
passe grátis, bolsas massivas para a prova universitária e proposta de um
consenso social para o fim da LOCE.

Os anarquistas, para o governo, o presidente da câmara de deputados, a
imprensa e o PC são ?os culpados?.

A marcha ritual de 11 de setembro veio precedida por negociações entre o
PC, o governo e a direita para romper o binominalismo eleitoral. Sobre a
mesa o PC punha sua capacidade de controlar e disciplinar aos movimentos
sociais. Mas esse domingo 10 de setembro uma bomba molotov sobre uma
janela do Palácio de Governo, La Moneda, veio demonstrar a incapacidade do
PC para controlar nada. Acusou-se diretamente aos anarquistas, e lhes
apresentaram como terroristas, violentos, sem idéias nem princípios, uns
bárbaros. A imprensa se encarregou de colocar o anarquismo no mesmo nível
que Al Qaeda. O PC sacou a suas brigadas a pintar os muros com consignas
antianarquistas. Ofereceu inclusive sua colaboração a polícia para
encontrar a quem havia lançado o molotov em La Moneda.

No dia 26 de setembro com a desculpa de ?defender? o direito a
manifestar-se do sindicato de professores (controlado pelo PC e Força
Social, uma cisão do PC) a polícia invadiu uma ocupa, deteve seis
habitantes do lugar e montou um cenário para fazê-los aparecer como uma
?fábrica de molotovs?.

Nesse mesmo dia, à tarde, já varias organizações sociais, políticas e
culturais libertárias se organizam em una Coordenadoria pela liberdade dos
detidos. Também para responder a perseguição política aos anarquistas. De
fato, a razão para deter aos 6 okupas foi ?que eram anarquistas?.

Ante esta agressão a esquerda tradicional, à esquerda oenegística e de
Direitos Humanos, fez silêncio. Assumiu como verdadeira a versão que o
governo e a imprensa davam. Os anarquistas e os seis detidos na okupa de
San Ignacio deviam enfrentar solidária e solitariamente o assunto.

Mas a mobilização e a luta deram resultados, duas semanas depois estavam
em liberdade e a montagem policial havia se desnudado. Pela esquerda:
silêncio.

Hoje:

Mas na memória popular ficará, ainda que o neguem por suas rádios,
presente a atitude do PC: colaborar com a polícia para chegar a seus
objetivos e que o anarquismo é capaz de enfrentar estes ataques, só. Pelo
menos nesta escala.

A repressão não acabou, continua de uma maneira mais velada, menos
pública, não pediram desculpas nem o PC nem o governo e melhoraram sua
estratégia para aniquilar uma autonomia que rompe o consenso das ovelhas
neoliberais.

Pelao Carvallo [Outubro 2006]

Tradução: Juvei

agência de notícias anarquistas-ana

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