A - I n f o s
a multi-lingual news service by, for, and about anarchists **

News in all languages
Last 40 posts (Homepage) Last two weeks' posts

The last 100 posts, according to language
Castellano_ Deutsch_ Nederlands_ English_ Français_ Italiano_ Polski_ Português_ Russkyi_ Suomi_ Svenska_ Türkçe_ The.Supplement
First few lines of all posts of last 24 hours || of past 30 days | of 2002 | of 2003 | of 2004 | of 2005 | of 2006

Syndication Of A-Infos - including RDF | How to Syndicate A-Infos
Subscribe to the a-infos newsgroups
{Info on A-Infos}

(pt) [«A Batalha» n. 219] Guerra civil e revolução soci al na Espanha (III)

Date Thu, 23 Nov 2006 15:07:52 +0100 (CET)


Por Júlio Palma

Em Barcelona os facciosos foram rapidamente postos fora de combate. Era
preciso olhar agora para outros lugares onde tal não tinha acontecido. O
livro O Povo em armas ? Buenaventura Durruti e o Anarquismo Espanhol, de
Abel Paz (ed. Assírio & Alvim, sem data, 2 vol., 249 pp. + 261 pp.; a
edição francesa é de 1972), mostra-nos como se tentou levar à prática a
ajuda que ia simultaneamente transformando o mundo circundante.
«Nesse dia, 20 de Julho, o contrapoder estava na rua, a sua realidade
estava materializada no povo em armas. O exército e a polícia tinham
desaparecido como instituições: soldados e polícias não faziam mais que um
com o povo, cm ele formando um único bloco. (...) Mas, nessa noite,
ninguém conseguia conciliar o sono. (...) Até mesmo no Palácio da
Generalitat da Catalunha, onde Luís Companys estava reunido com os raros
políticos profissionais que a maré revolucionária não tinha varrido.»
Palavras de Abel Paz que logo acrescenta como que a desvelar uma
contradição: «Luís Companys não representava mais nada para além da imagem
desfocada do antigo poder. Porque é que a insurreição não tinha ido até ao
ponto de demolir esse símbolo? A revolução pensava ter vencido Luís
Companys, ignorando-o! Mas ao ignorá-lo, ao salvá-lo, perdeu-se, já que
uma revolução que não atinge imediatamente o seu fim está perdida.»
Companys manobrou, encontrou o «interlocutor representativo» («o seu
interlocutor devia ser procurado do lado dos anarquistas, quer dizer,
dentro das fileiras da CNT e da FAI», diz Abel Paz), fez o choradinho e
Abel Paz dá-nos o resultado relatado por Mariano R. Vasquez. «A 21 de
Julho de 1936, tinha lugar em Barcelona um Plenário Regional das
Federações Locais, convocado pelo Comité Regional da Catalunha.
Procedeu-se à análise da situação e ficou decidido que não se falaria de
comunismo libertário enquanto uma parte da Espanha ainda estivesse entre
as mãos dos fascistas. O Plenário decidiu-se pela colaboração, contra a
vontade de uma única delegação: a do Bajo Llobregat.
(...) Porque é que nós aceitamos a colaboração? Porque o Levante é uma
zona incerta com as guarnições rebeldes que por lá estão nas casernas,
porque as nossas forças estão em minoria em Madrid, porque a Andaluzia
está em plena desarticulação com, nas suas montanhas, combatentes somente
armados com arcabuzes e foices. O Norte ainda permanece uma incógnita e
supõe-se que o resto da Espanha está nas mãos dos fascistas; o inimigo
encontra-se em Aragão, mesmo às portas da Catalunha, e nós ignoramos
completamente qual a composição das suas forças, tanto no plano nacional
quanto no plano internacional.
Toda e qualquer resolução conducente a posições extremadas, obedecendo ao
impulso de aventureiros e de rigoristas, teria sido um desastre, porque a
Revolução teria perdido o fôlego. Teria conduzido a uma morte certa
milhares de trabalhadores que tivessem participado na acção
revolucionária.»
Abel Paz comenta estas explicações dizendo que elas escondiam «a atmosfera
na qual foi tomada a decisão da qual acabámos de falar. Estas declarações
tiveram lugar um ano depois, quando a CNT e a FAI se encontravam já muito
afastadas das suas posições primitivas. [são de Dezembro de 1937] (...)
Diversas opiniões por lá se entrechocaram: a de Garcia Oliver, defensor
intransigente da Revolução, cujas ópticas Durruti, aliás, partilhava. Mas,
contrariamente a Garcia Oliver, que se submeteu à resolução adoptada,
Durruti persistiu na sua proposição ?de não consentir nos acordos senão
provisoriamente, quer dizer, até à libertação de Saragoça, porque esta, ao
abrir a estrada do Norte, asseguraria o triunfo da Revolução?.»
A criação do Comité Central de Milícias «enquanto organismo popular que
devia assumir as direcções económica, militar e política da vida catalã»
já foi o resultado da «colaboração» e teve logo na primeira reunião a
oposição de Durruti «que julgava o decreto do Comité inaplicável à
população». Abel Paz acrescenta: «Desde então, uma luta surda
estabeleceu-se entre Durruti e o Comité Central das Milícias.»
É com esta «luta surda» por trás que o Comité decide «constituir uma
coluna de milicianos que partiria para Aragão». À sua frente estaria
Durruti, contaria com 12 mil homens e teria por «objectivo supremo atacar
e conquistar Saragoça».
Abel Paz escreve: «Saragoça era um objectivo duplamente importante para a
revolução. Por causa da situação estratégica, por um lado, e, por outro
lado, por razões de solidariedade. Com efeito, Saragoça era a segunda
capital do anarquismo e milhares de camaradas aí se encontravam,
prisioneiros dos fascistas.»
A mobilização foi feita com grande entusiasmo e «os voluntários discutiam
entre si sobre os aspectos que a organização devia revestir, porque
evidentemente não se tratava de ressuscitar o espírito militarista ou o
comando hierárquico». Quando o técnico militar discordou, Durruti
replicou: «Já o disse e torno a dizê-lo: durante toda a minha vida,
conduzi-me como um anarquista; o facto de ser nomeado responsável, digamos
político, de uma colectividade humana não pode alterar as minhas
convicções. (...) Eu pensava ? e o que está a produzir-se confirma as
minhas convicções ? que uma milícia operária não pode ser dirigida segundo
as mesmas regras que um exército. Considero que a disciplina, a
coordenação e a realização de um plano são coisas indispensáveis. Mas tal
não deve mais entender-se segundo os critérios em voga no mundo que
acabámos de destruir. (...) A necessidade impõe-nos uma guerra, uma luta
que difere em muito daquela que acabámos de travar, mas a finalidade do
nosso combate continua sempre a ser o triunfo da revolução. Isto significa
não apenas a vitória sobre o inimigo mas também a mudança radical do
homem. (...) O operário na fábrica, ao manejar os seus utensílios e ao
dirigir a produção, não faz mais que modificar-se a si próprio. O
combatente não é mais que um operário que se serve de uma espingarda como
de um instrumento e os seus actos devem tender para os mesmos fins que os
do operário. Na luta, ele não pode comportar-se como um soldado a quem se
dê ordens, mas como um homem que está consciente daquilo que faz. Eu bem
sei que não é fácil obter um resultado semelhante, mas aquilo que não se
obtiver pela razão, também não pode obter-se pela força. Se o nosso
aparelho militar da revolução deve sustentar-se pelo medo, o que vai
acontecer é que não mudámos nada, a não ser a cor desse medo. É somente
libertando-se do medo que a sociedade poderá edificar-se em liberdade.»
Tal era o objectivo: ganhar a guerra fazendo a revolução. Antes da partida
da coluna, Durruti ainda deu uma entrevista ao Toronto Star, onde
afirmava: «A luta vai prolongar-se, no mínimo, durante todo o mês de
Agosto.» Acreditava-se que a guerra teria um desfecho rápido. Sobre o
auxílio disse: «Nenhum governo do mundo pode acorrer em auxílio de uma
revolução proletária (...), no final de contas, não estou à espera de
ajuda, nem mesmo da parte do nosso governo.»
O jornalista ainda perguntou: «Vocês crêem que podem vencer sós?» E Abel
Paz diz que Durruti não respondeu.
Com a coluna em movimento, na passagem pelas diferentes aldeias, Durruti
falava com os camponeses: «Já organizaram a vossa colectividade? Então não
estejam à espera. Ocupem as terras! Organizem-se sem chefes, sem senhores,
sem parasitas.»
A grande vantagem da coluna era o seu entusiasmo, a sua motivação, o seu
moral. A desvantagem residia no armamento. Abel Paz: «No dia 27, da parte
da manhã, à saída de Bujaraloz, a alguns quilómetros de Pina de Ebro, três
trimotores dos fascistas apareceram no céu. O bombardeamento fez 20 mortos
e provocou a paragem da coluna. Uma parte dos milicianos pôs-se a correr,
tomada de pânico. Um grupo de outros milicianos, tendo-se interposto,
impediu a generalização do pânico e a debandada.»
Durruti falou: «O que aconteceu hoje é uma simples advertência. Agora a
luta vai verdadeiramente começar. Os outros vão alvejar-nos a tiro de
canhão. Vão mandar-nos para cima toneladas de metralha. (...) Acontece que
o inimigo ainda não está encurralado e que combate para não ficar reduzido
a essa posição. Apoia-se no auxílio da Itália e da Alemanha. Se deixarmos
essas potências entrarem plenamente na nossa guerra, será difícil
vencermos os fascistas, já que eles disporão de um material superior ao
nosso. A nossa vitória depende da rapidez dos nossos actos. Quanto mais
depressa atacarmos, mais possibilidades teremos de vencer.»
Só que, quando a coluna se preparava para retomar a marcha, «o general
Villalba e o comandante Perez Farras tentaram convencer Durruti que atacar
Saragoça, sem os flancos cobertos, era uma pura loucura». Atacar sem essa
cobertura «seria sacrificar homens inutilmente». Perante isto, «Durruti
concordou e as operações foram suspensas». Qualquer bom fotógrafo teria
registado este instante decisivo, porque a partir deste momento a coluna
ficou bloqueada.
Abel Paz escreve: «Em duas semanas de guerra tinham sido esgotadas as
munições na frente de Aragão. (...) Na zona ocupada pela Coluna Durruti a
inactividade era geral. (...) Os combatentes, contudo, que se encontravam
nas imediações de Saragoça, sem poderem dar o assalto à cidade, viviam um
verdadeiro suplício. Aproveitando-se da acalmia, Durruti dirigiu-se a
Barcelona.»
Aí chegado, Durruti põe a Garcia Oliver a questão capital da conquista de
Saragoça e a necessidade de material de guerra. «Soube nessa altura, da
boca de Garcia Oliver, que o ataque a Saragoça estava adiado», diz Abel
Paz.
A explicação de Garcia Oliver era simples: estava-se a preparar a
conquista de Maiorca, privilegiava-se o ponto de vista militar e
fundamentava-se na decisão de 20 de Julho, pela qual a CNT tinha aceitado
a colaboração com diversos partidos políticos, subordinando a revolução à
guerra. («A tragédia do militante anarquista começava a esboçar-se», diz
Abel Paz.) Esta explicação não convence Durruti. Garcia Oliver parecia
enleado em legalismos. Durruti terá mesmo dito: «Isto significará que, de
facto, a CNT não só reforçará o poder do Estado, como terá entre as suas
mãos o controlo da economia, caminhando para uma espécie de socialismo
económico de Estado.»
Mesmo assim, ainda tentam no plenário da CNT-FAI de Agosto de 1936 mudar
as premissas que levaram à «colaboração».
Abel Paz comenta: «Santillan manteve, não obstante, a sua posição. A
despeito dos resultados da sua teoria ?colaboracionista?, continuava a
pensar que essa via era a única que permitiria que se evitasse a guerra
civil entre os próprios antifascistas. O tom dramático que empregou
impediu que se procedesse à revisão dos acordos de 20 de Julho.»
A retaguarda, talvez por isso mesmo, não acompanhava a dinâmica da linha
da frente. E, sobretudo, puxava para outro lado. Compreende-se que a corda
fosse esticando.
É neste clima tenso «que, a 15 de Setembro de 1936, Pierre Besnard,
secretário-geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, à qual a
CNT tinha aderido, visita a Espanha revolucionária pela primeira vez». O
encontro que teve com Largo Caballero, presidente ao mesmo tempo da União
Geral de Trabalhadores e do Conselho de Ministros, fez faísca. O que
Besnard escreveu é revelador: «A Revolução está a recuar e a culpa não é
do povo, que se bate com um entusiasmo que não tem paralelo histórico, mas
sim dos dirigentes que vão na esteira dos acontecimentos, dando provas que
perderam a iniciativa revolucionária e que aceitam situações humilhantes,
como aquela em que me encontrei face a Caballero. Se o anarquismo caísse
na estupidez de colaborar com Caballero, ou até mesmo simplesmente de o
apoiar, a Revolução estaria irremediavelmente perdida. A única maneira de
sairmos deste ciclo infernal é a prova de força. Mas eu pergunto a mim
próprio se os homens que estão à cabeça da CNT são os mesmos que aí
estavam no 19 de Julho. O único que me parece escapar à regra é Durruti,
encarnando um tipo de revolucionário original, que, em muitos aspectos,
lembra o guerrilheiro Nestor Makhno.»
Os revolucionários tinham entrado num beco sem saída. A transferência, em
14 de Novembro de 1936, de Durruti de Saragoça (uma cidade que ele tinha
debaixo de olho) para Madrid (uma cidade armadilhada) é uma prova disso.
Dias depois de ter chegado a Madrid Durruti estava morto.


_______________________________________________
A-infos-pt mailing list
A-infos-pt@ainfos.ca
http://ainfos.ca/cgi-bin/mailman/listinfo/a-infos-pt
http://ainfos.ca/pt


A-Infos Information Center